Uma boa lembrança da crítica de Robert Hughes

12 08 2012

Leda e o cisne, 1963

Cy Twombly (EUA, 1928– 2011)

No início dessa semana morreu um dos mais prolíficos críticos de arte e da sociedade moderna, Robert Hughes.  Conhecido por sua língua afiada e maneira bastante irreverente de se expressar, sempre alerta, sem guardar para si as opiniões mais controversas, esse maverick da palavra mordaz deixou muitas citações na memória de seus amigos e inimigos.  O jornal The New York Times publicou uma lista de citações maquiavélicas de Robert Hughes.  Dentre elas selecionei e traduzi livremente a que posto aqui abaixo que para mim retrata bem não só o trabalho de muitos artistas visuais contemporâneos como a particular celebração de seus seguidores, apreciadores e colecionadores.  Esta é uma homenagem a quem entendia do pedaço…

A visão de todas essas migalhas e fragmentos nos quadros de Twombly parece convencer seus mais ardentes admiradores que ele é um classicista, embebido nos antigos mitos e literatura do Mediterrâneo, transpirando-os por todos os poros.  Tudo que ele precisa fazer é desenhar uma garatuja oscilante “ Triunfo de Gateia” ou “Et in Arcadia Ego” numa tela, e de repente, lá está ele elevado ao nível de Roberto Calasso, se não for ao de Edward Gibbon.  Quando a audiência,  que já perdeu todo a formação clássica, considerada anteriormente indispensável na educação, vê Virgílio escrito na tela, aceita isso como um logo, como o jacaré na camisa Lacoste.  A mera menção do nome, ou a citação de uma etiqueta, sugere que o passado clássico ainda vive, solido e intacto, sob a superfície.  Mas uma raspa de unha dó pé não faz um corpo“.

Sobre Cy Twombly, em Time magazine, 1994





Palavras para lembrar — Denis Parsons Burkitt

12 08 2012

O poeta Alfred Munnings lendo

Alfred Knight (Inglaterra 1874- 1961)

óleo sobre tela, 100 x 75 cm

Coleção Particular

“É melhor ler pouco e ponderar muito do que ler muito e ponderar pouco”.

Denis Parsons Burkitt

 





O feitiço de Dulce Maria Cardoso em O Retorno

11 08 2012

Paisagem de cidade portuguesa

Lewis Schnellmann (EUA, contemp.)

Acrílica sobre tela, 60 x 90 cm

www.schnellmanfredi.net

Acabo de ler O Retorno, da escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso.  Estou encantada.  Bati o livro como se fosse manjar dos céus.  É poético.  Tem uma linguagem singular que se saboreia como poucas e canta melodias sonoras aos nossos ouvidos.  O mundo descrito pelos olhos adolescentes de Rui também tem deslumbramento, lições de vida, sabedoria, solidão e surpresa. Além, é claro, de um retrato peculiar de diversos subprodutos da colonização, sobretudo os preconceitos.  Estes vemos de maneira generalizada: de toda parte, dos brancos, dos pretos, dos portugueses da Europa e dos que procuraram dias melhores para suas famílias nas terras das colônias.  O preconceito, qualquer que seja é fartamente ilustrado nessa obra.  Filhos do medo, do futuro, do desconhecido, medo do presente e do passado, preconceitos afligem a todos os personagens brancos, pretos, portugueses de colônia e da metrópole, sãos e doentes, comunistas e revolucionários.  Todos, sem exceção sofrem do mal. Que lição a escritora nos dá!

E tudo é retratado com palavra precisa e sutil. Delicada, quase inocente, pelos olhos de quem está aprendendo sobre a vida e a mostra com o frescor do descobrimento, da habilidade de superação, da destemida inocência dos adolescentes.

São poucos os livros de amadurecimento, livros de “passagem” como se diz em inglês,  significando passagem da vida de adolescente à adulta,  que conseguem seduzir tanto.  Dulce Maria Cardoso domina a narrativa como poucos escritores o fazem.  Envolve, segura, puxa, carrega e administra o leitor com mestria através dos sentimentos antagônicos de emigrantes e de retornados, de colonizadores e colonizados.  Esse é um tema riquíssimo que dominou  grande produção da literatura do século XX  e que certamente ainda estará no seio da literatura contemporânea pois trata de identidade, da plenitude da existência, das questões do ser.  Encontrei nesse romance uma das mais vívidas descrições das dezenas de facetas do deslocamento emocional entre imigrantes e colonizados. Entre emigrantes e aqueles que permanecem em suas terras natais.  Narrado com uma linguagem excepcionalmente bela, cantante, sonora que traz a beleza de trinos de passarinhos, O Retorno é um concerto especial aos nossos ouvidos, trazendo um português casto, entremeado de expressões angolanas — algumas delas velhas conhecidas dos romances de Agualusa e de Ondjaki —  que reverberam nessa narrativa como uma lembrança constante da riqueza dessa nossa, sim de nós todos, língua portuguesa.

Dulce Maria Cardoso

Uma leitura saborosa que descortina o complexo feixe de sentimentos daqueles que emigram para a sobrevivência, adotam uma terra desconhecida, uma cultura diferente para enraizar a família e se descobrem à beira do abismo quando, o que consideravam seu, por direito de trabalho suado e honesto, são obrigados a deixar para trás e  ao retornarem à terra natal ainda não são considerados bem-vindos.  Uma situação complexa, moderna e gritantemente injusta.  O dilema dos “retornados” em Portugal foi dilacerante aos corações dos que voltaram.  Seria interessante, do ponto de vista antropológico, ver como a independência de antigas colônias europeias foi encarada em outros países colonizadores como Inglaterra, França, Bélgica, Holanda, na segunda metade do século XX.

Ainda teremos muito que ler sobre o assunto e outros escritores europeus, tenho certeza, se dedicarão ao tema.  Isso não tira, no entanto, a importância da indicação de O Retorno para a introdução dessa problemática aos leitores brasileiros.  No Brasil, o livro sai numa edição primorosa da Tinta da China, em capa dura, com fitinha de cetim para marcar a leitura e a preços compatíveis com o mercado, competindo de igual para igual com livros produzidos com muito menos cuidado.  Foi um prazer total, desde o volume em si à leitura desde texto impecável. Recomendo a todos os leitores, universalmente, jovens e adultos.  É um romance delicioso e significativo.  Um tesouro!

VEJA ENTREVISTA COM A AUTORA






Bichos, poesia de Domingos Pellegrini

7 08 2012

A jaula do leão, 1883

Daniel Hernández Morillo (Peru, 1856-1932)

óleo sobre tela

Bichos

Domingos Pellegrini

No zoológico o mais esquisito

não é o bicho encolhido de medo

nem é o condor encarcerado em tédio

em vez de viajar ao infinito

Não é tigre triste e sem remédio

não é macaco com olhar aflito

não é o leão vizinho do cabrito

ou a girafa longe de arvoredo

Não é o rinoceronte sem campina

nem a onça sem caça a nos olhar

com a selvageria já mofina

Bicho mais esquisito é o que aprisiona

a bicharada para se apreciar

arrotando pipoca e Coca-Cola

Em: Gaiola aberta: 1964-2004, Domingos Pellegrini, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2005





Palavras para lembrar — Oscar Wilde

1 08 2012

Manhã de verão, 1886

Paul-Albert Besnard (França, 1849-1934)

Óleo sobre madeira, 46 x 17 cm

Museu de Belas Artes de Reims, França

“Não existe isso de livro moral ou imoral. Livros são bem ou mal escritos”.

Oscar Wilde





Imagem de leitura — Johann Zoffany

28 07 2012

Charles Towneley and friends in the Park Street Gallery, Westminster, 1782-3

Johann Zoffany (Alemanha, 1733-1810)

Óleo sobre tela,  127 x 102 cm

Towneley Hall Art Gallery and Museum

Burnley, Reino Unido

Johann Zoffany nasceu em Frankfurt na Alemanha em 1733.  Começou estudando escultura para depois se dedicar à pintura.  Em 1750 viajou pela Itália.  Em Roma aprimorou sua técnica de pintura com Agostino Masucci. Em 1760 foi para Inglaterra onde acabou se estabelecendo como pintor para o resto de sua vida.  Viajou muito, inclusive para o Oriente [Índia] retornando sempre para sua residência no Reino Unido onde faleceu em 1810.





Imagem de leitura — Chobunsai Eishi

20 07 2012

Bela lendo uma carta

Chobunsai Eishi ( Japão, 1756-1829)

Pintura em rolo para pendurar:

Tinta, cor, folhas de prata e ouro, sobre seda

92 x 31cm

Leilão Christie’s, Nova York, 2010

Chobunsai Eishi nasceu em 1756 filho mais velho de um samurai oficial Edo da família Hosoda. Estudou com Kanô Michinobu e serviu como pintor da corte shogun por alguns anos.  Como muitos artistas japoneses seu nome é um pseudônimo artístico.  Eishi lhe foi dado pelo shogun Tokugawa leharu, enquanto que seu nome artístico Chobunsai, também usa o símbolo sai (斎) com o significado de estúdio, como fizeram muitos outros artistas japoneses: Hokusai, Kôryusai, Keisai Eisen and Ichiryusai Hiroshige.  Em 1780, aos 24 anos, sua arte teve uma reviravolta: ele deixou de pintar para a elite, passando a se dedicar ao ukiyo-e. Seu estilo tem elementos distintos refinados e cheios de graça, com belezas graciosas, altas e esbeltas.  A partir de 1798 ele desiste da gravura e passa praticamente só a pintar.  Morreu em 1829.

 





Palavras para lembrar — Bell Hooks

19 07 2012

O livro de bolso azul,  2009

Oksana Grineva (Rússia, radicada nos EUA)

óleo sobre tela, 60 x 75 cm

Oksana Grineva

“Ideias que transformam a vida, sempre chegam a mim através de livros”.

Bell Hooks





Imagem de leitura — Camille Léopold Cabaillot Lassalle

17 07 2012

O Salão de Paris, 1879

Camille Léopold Cabaillot Lassalle (França, 1839- 1881 ou 1888 [data de morte incerta]

óleo sobre tela, 67 x 90 cm

Camille Léopold Cabaillot Lassalle nasceu na França em 1839.  Pintura de gênero.  Data de falecimento incerta, 1881 ou 1888. [Nenhuma outra informação biográfica foi encontrada].

 





Imagem de leitura — Juan Ardohain

13 07 2012

Moça de blusa listrada, s/d

Juan Ardohain (Argentina, 1963)

Juan Ardohain

Juan Ardohain nasceu em 1963 em Buenos Aires na Argentina.  Por volta de 1982, começou seus estudos de veterinária da Universidade Nacional de La Plata.  Em, 1990 mudou-se para São Vicente, onde  passou a exercer sua profissão, na qual se mantém até hoje. Em 1992, começou a pintar,  autodidata., desde 1994 expõe seus trabalhos nas galerias locais e do resto do país. Trabalha em sua pintura todos os dias em um pequeno estúdio localizado na parte de trás do seu consultório de veterinária em São Vicente.