O livro das horas de Nélida Piñon

17 01 2013

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Iluminura da Cidade das Mulheres, de Catarina de Pisano, século XV

Mestre da Cidade das Mulheres (Ativo em Paris entre 1400-1415)

Pintura sobre pergaminho, 12 x 18 cm

Biblioteca Nacional da França, Paris

Tradicionalmente o Livro de Horas era um pequeno livro, manuscrito, contendo salmos e orações, para a pessoa comum usar como guia dos rituais religiosos. Foram populares na Idade Média, a maioria aparecendo entre os séculos XIV e XVI.  Tinham, por vezes,  divisões das horas canônicas,  para que seus portadores mantivessem as orações necessárias na hora certa. Podiam conter também os meses ou as estações do ano com lembranças das festividades do ano cristão. O Livro de Horas  era composto de pequenos textos pois era  um guia para  reflexão,  para a meditação religiosa.  Era carregado facilmente em bolsas ou bolsos;  poderia ou não ser ilustrado com pinturas à mão, chamadas iluminuras, mais ou menos ricas dependendo da fortuna de seus portadores.  Porque eram  objetos próprios, especificamente feitos para um só dono, diferenciavam-se, cada qual  adaptado  ao gosto de quem o encomendara.

A descrição acima não se aplica ao livro de Nélida Piñon a não ser na forma e no espírito:  ponderações oportunas, ritmadas.  Meditações variadas.  Seu livro tampouco se mostra afiliado aos poemas de amor divino enunciados no volume poético de Rainer Maria Rilke, titulado Livro das Horas, publicado em 1905.   O que todos têm em comum é o convite à reflexão, a voz introspectiva, o tom meditativo.  Este é um livro pessoal, íntimo, mesmo que essa intimidade seja filtrada e dosada.  Dona de uma das mais fortes vozes narrativas da literatura brasileira, Nélida Piñon pode ser considerada acima de tudo a escritora da palavra certa, mestra  do uso do “mot juste”.

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Engana-se quem imagina perceber nessas reflexões sobre o cotidiano, sobre viagens e leituras,  memórias reveladoras dos pensamentos mais íntimos, das alegrias e tristezas de sua autora.  Muito pelo contrário, vislumbramos sim, uma pessoa carinhosa para com seu cachorrinho de estimação, Gravetinho; uma pessoa  cuja mente associa no perscrutar diário, segmentos de leituras do passado temperadas ao gosto da gastronomia galega.  Mas são passos cuidadosos de revelação, passos que avançam o conhecimento que temos da escritora, mas que simultaneamente nos aguçam a curiosidade sobre suas opiniões, sobre suas ‘verdadeiras’ opiniões.  A aparente facilidade com que Nélida Piñon pode deslizar da leitura da manchete de jornal a considerações  sobre o teatro clássico grego; quando consegue se imaginar dialogando com a boneca Emília do Sítio do Picapau Amarelo,  passear pelo velho centro do Rio de Janeiro e acabar com os olhos pousados nas águas da lagoa Rodrigo de Freitas, só demonstra sua extraordinária habilidade de cinzelar o texto, de abreviar as pausas e mostrar só, unicamente aquilo que se permite revelar.  Mas os véus encobrindo a pessoa continuam a ser tão eficazes quanto a roupa de Salomé antes do espetáculo diante de São João Batista. O que descobrimos  não é a autora, mas sua persona.

Memórias, todos sabemos, são tão grande ficção quanto um bom romance detetivesco.  Lembramo-nos do mundo como o desejaríamos que tivesse sido, às vezes para justificar certas ações, outras para nos apresentarmos pelo melhor ângulo. Recontamos só aquilo a que nos permitimos.  O mesmo se dá nessa publicação, nesse livro de reflexões.   O presente que Nélida Piñon nos entrega, no entanto, nessa coletânea encantadora  de meditações enfileiradas como contas de um rosário, é a habilidade de imaginarmo-nos em sua companhia, em  conversa sem hora para terminar; saltando de um canto ao outro do mundo; peregrinando pela Ibéria com a escritora a nos servir de guia.  O tom é íntimo.  Suave.  Meia-voz.  E com ela escorregamos de um assunto ao outro, às vezes surpresos pelo convívio que revela ter com amigos, por um leve misticismo quase gitano, talvez herdado dos ancestrais espanhóis e alimentado nas raízes brasileiras. O que descobrimos é uma mulher com um interior rico, lúdico e letrado. Só. Imensamente só.

Nélida Piñon, close

Nélida Piñon

A leitura de Livro das Horas é um presente. Deixou-me com curiosidade ainda maior pela autora, que já participava do meu panteão de sacerdotes da nossa literatura.  Percorri a rede à cata de entrevistas, queria ouvir sua voz para finalmente casá-la com os textos que perscrutava. É impossível ler-se essa publicação de uma ou duas sentadas.  Ela exige reflexão e os cinco ou seis parágrafos de cada etapa são suficientes para levar-nos, cheios de ponderações, ao dia seguinte, à noite seguinte.  Sherazade, é quem me vem à memória.  Tal é o encantamento do texto que me fez alongar a leitura por quase um mês, tomando-a a conta gotas, prolongando sua vida ao meu lado, como fez  o rei Sheriar.  Foi um prazer!





Sempre bom lembrar: os direitos do leitor

16 01 2013

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Hora do silêncio, s/d

Heidi E. Press (Alemanha/EUA, contemporânea)

óleo sobre tela,  60 x 50 cm

www.heidepress.com

DIREITOS DO LEITOR

1. O direito de não ler.
2. O direito de pular páginas.
3. O direito de não acabar um livro.
4. O direito de reler.
5. O direito de ler não importa o quê.
6. O direito de confundir um livro com a vida real.
7. O direito de ler em qualquer lugar.
8. O direito de ler trechos do meio do livro.
9. O direito de ler em voz alta.
10. O direito de não falar sobre o que se leu.

Daniel Pennac

Em, Como um romance, publicado em 1992





Palavras para lembrar — Christian Bobin

15 01 2013

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Estúdio de Pieter Coecke van Aelst (Flandres, 1502-1550)

Óleo sobre painel de madeira, 66 x 53 cm

“Poucos livros mudam uma vida. Quando o fazem é para sempre”.

Christian Bobin





Imagem de leitura — Margaret Sarah Carpenter

15 01 2013

(c) Mrs Margaret Harrold-Carnon; Supplied by The Public Catalogue Foundation

As irmãs, 1839

Margaret Sarah Carpenter (Inglaterra, 1793-1872)

óleo sobre madeira, 30 x 36 cm

Victoria & Albert Museum, Londres

Margaret Sarah Carpenter nasceu em Salisbury em 1793. Começou a aprender a pintar com um mesttre local que primeiro lhe ensinou a arte do desenho.  Seus primeiros estudos em pintura foram cópias dos quadros no Castelo de  Longford, de Lord Radnor. Depois de receber um premio por u ma de suas cópias, sua carreira começou a se movimentar.  Foi para Londres em 1814 e logo se estabeleceu como uma retratista de fama. Morreu em Londres, em 1872, no dia do seu aniversário.





Palavras para lembrar — Massimo Vignelli

14 01 2013

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George Monanuli (Georgia, contemporâneo)

70 x 90 cm

George Monanuli

“Boas coisas se tornam permanentes.  Bons livros provavelmente continuarão na sua forma impressa”.

Massimo Vignelli





Imagem de leitura — Albert-Jan Cool

13 01 2013

Albert-Jan Cool leitora na praiaLeitora na praia

Albert-Jan Cool (Holanda, 1947)

aquarela

www.coolart.nl

Albert-Jan Cool nasceu em Oegstgeest  na Holanda em 1947.  Pintor figurativo.  Prefere cenas alegres , coloridas e brilhantes.  Pinta tanto com tintas acrílicas quanto com aquarelas. Começou seus estudos  na sua cidade natal, fazendo depois  o curso de Belas Artes em Haia à noite enquanto trabalhava durante o dia como ilustrador arqueológico, o que o permitiu de viajar pelo Oriente Médio além da Holanda através de sítios arqueológicos.  Trabalhou também como autônomo nas ilustrações de livros e revistas. Já publicou diversos livros de instrução sobre pintura entre eles  o livro A Costa, que explora os segredos da pintura em aquarela com motivos de praia, que já foi reeditado e traduzido para outras línguas.





A flor, poema de Afonso Louzada

12 01 2013

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Vaso com oleandro e livros, 1888

Vincent van Gogh (Holanda,1853-1890)

óleo sobre tela 60 x 73 cm

Metropolitan Museum, Nova York

A flor

Afonso Louzada

Talvez marcando o poema, em livro antigo,

encontrei uma flor já ressequida.

Velha história de amor… penso comigo,

pondo-me a ler a página esquecida.

Quem à flor nesse livro deu abrigo,

quem sabe? procurou tê-la escondida –

do amor sentindo o grande abraço amigo,

para a própria saudade comovida.

E o que ficou daquele amor profundo?

Talvez agora, já não resta nada

De tudo que era sonho e que era vida.

Sob o silêncio lúgubre do mundo,

Apenas essa flor abandonada –

marcando a velha página esquecida.

Em: Sonetos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, 1956, 2ª edição aumentada.





Palavras para lembrar — Daniel Pennac

12 01 2013

Ernesto Scheffel, Hamburgo Velho [fornodepao], 1956, ost, 290x138,5cm, Hamburgo Velho

Forno de pão  [Hamburgo Velho], 1956

Ernesto Scheffel (Brasil, 1927)

óleo sobre tela, 297 x 138 cm

“A virtude paradoxal da leitura é que ela nos abstrai do mundo para encontrar nele algum sentido.”

Daniel Pennac





A sensualidade tátil de W. Radwan

11 01 2013

Expansão II - WRadwan 2012, Óleo sobre madeira 100 x100cm

Expansão II, 2012

W. Radwan (Brasil, 1953)

óleo sobre madeira e carvão, 100 x 100 cm

http://wradwan.blogspot.com.br/

Dando continuidade às postagens com artistas brasileiros, hoje quero mostrar  o trabalho de Wadgy Radwan, que exerce sua arte numa esfera única, entre a pintura e a escultura.  Sua última exposição na Galeria Maurício Pontual no Rio de Janeiro, que vi no final do ano passado,  explora contrastes.

Magma III, 110 cm x 110 cm - óleo sobre madeira e carvãoDeflexoes - WRadwan - Magma III - 2011Magma III, 2011

W. Radwan (Brasil, 1953)

óleo sobre madeira e carvão vegetal, 110 x 110 cm

http://wradwan.blogspot.com.br/

Suas obras são imponentes, mas não exageradamente.  Têm presença visual marcante.  Além disso, mexem com os sentidos. Minhas preferidas pertencem à série Magma.  À mim, pediram que fossem tocadas, que suas superfícies fossem apreciadas com a ponta dos meus dedos, para sentir as inúmeras facetas dos carvões.  Claro que não fiz isso.  Mas o apelo ao tato é exarcebado pelo contraste com a outra parte das esculturas-pinturas: a parte lisa.

wradwan(Brasil, 1953), Magma II, 2011, osmec, 110x110

Magma II, 2011

W. Radwan (Brasil, 1953)

óleo sobre madeira e carvão vegetal, 110 x 110cm

http://wradwan.blogspot.com.br/

Radwan trabalha com contrastes.  A série Magma mostra dois planos com pesos semelhantes: o ‘natural’ e o ‘industrial’ — essas denominações são minhas.  Além da superfície encrespada de carvão, existe o plano que funciona como ‘sombra’, em geral deslocada.  Enquanto as superfícies cobertas por carvão vegetal pintado são orgânicas, grossas e ásperas,  suas ‘sombras’ são suaves, polidas, e em cores contrastantes.   A ‘sombra’ — o reverso, o anti-natural, o industrial — contrasta em cor e acabamento com o que se apresenta como o natural, orgânico, intrigante.  Enquanto um plano é rico em tonalidades, o outro tem uma única cor,  lisa.

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Magma I, 2011

W. Radwan (Brasil, 1953)

óleo sobre madeira, 110 x 110 cm

http://wradwan.blogspot.com.br/

As obras pertencentes ao grupo Expansão continuam a explorar contrastes, mas de outra maneira.  Nelas, a maior parte da superfície é dedicada ao plano com textura, nesse caso, o carvão vegetal.  E a obra se abre, deixa espaço para mostar, revelar numa abertura, num entrever, o ponto de contraste. Esse pode ser trazido pela cor, ou pela introdução de outros elementos em relevo, manufaturados, com formas industrializadas dispersos sobre uma área  lisa, como acontece com  Expansão II  aqui abaixo.

Expansão iii, 2012

Expansão III, 2012

W. Radwan (Brasil, 1953)

óleo sobre carvão vegetal, PVC e madeira, 100 x 100 cm

http://wradwan.blogspot.com.br/

O trabalho exposto no fim de 2012 é o desenvolvimento de ideias  que já vinham sendo exploradas: contrastes entre formas naturais e  industriais, o jogo entre esses planos e a abordagem às questões ambientais.  Já anterior a esta exposição  o trabalho Esperança, delineava o caminho a ser traçado.

Obras WRadwan-- Esperança, (60 x 100 cm - Acrílica, carvão e madeira)

Esperança, 2012

W. Radwan (Brasil, 1953)

Acrílica, carvão vegetal e madeira, 60 x 100 cm

[Selecionada para o 9º Salão de Artes Plásticas da Academia Brasileira do Meio Ambiente]

http://wradwan.blogspot.com.br/

Aqui dois planos de dimensões próximas, um deles deslocado, oferecem contraste semelhante aos dos trabalhos vistos na Galeria Maurício Pontual.  Não consigo olhar para Esperança sem ter a sensação de uma metáfora análoga a do monolito negro do filme 2001 Odisséia no Espaço.  Há o elemento natural e o feito pela mão do homem, da mesma forma em que o monolito do filme é contrastado com a vida dos macacos no planeta.  O uso da geometria, da expansão de superfícies precisamente calculada, o espelhar de formas entre as obras, a abstração da cor — todos os trabalhos recentes se limitam a uma palheta de três cores: branco, negro e vermelho — tudo isso apela para a introspecção, a reflexão, chegando até mesmo a uma espiritualização provocada pela forma. Apelos familiares feitos por obras de artistas que têm um relacionamento estético com Radwan, mesmo que de gerações anteriores: Rothko e Louise Nevelson, são alguns dos que vêm à mente.

W. Radwan (Brasil, 1953)Encontros e desencontros,acrílica sPVC emadeira, 80 x 100 cm

Encontros e desencontros, 2011

W. Radwan (Brasil, 1953)

acrílica sobre PVC emadeira, 80 x 100 cm

http://wradwan.blogspot.com.br/

Em 2011, W. Radwan mostrou seus trabalhos na galeria TNT.  Lá também o formato, o abstracionismo trazem para discussão os icônes da industrialização.  É nessa fase imediatamente anterior que vejo maior familiaridade entre Radwan e o artista plástico Sérgio Camargo.  Mas acredito que o jogo de sombras e o uso abundante de produtos orgânicos na obra de Radwan tragam, pelo  menos nessa fase, maior riqueza, maior significação para quem as observa.  E ainda que seja herdeiro de Krajberg no uso das formas naturais, Radwan toma um caminho próprio, desligando-se a cada nova obra dessas influências, para realizar uma viagem própria,  singular e de extrema beleza.  É um grande prazer observar a sua obra.

©Ladyce West, Rio de Janeiro:2013





Imagem de leitura — Manuel Vacas

9 01 2013

Manuel vacas(Argentina) Feira de livros

Feira de livros

Manuel Vacas ( Espanha, contemporâneo )

óleo sobre tela

www.mvacas.com