Vaso de flores
Marysia Portinari (Brasil, 1937)
óleo sobre tela, 50 x 70 cm
Vaso de flores
Marysia Portinari (Brasil, 1937)
óleo sobre tela, 50 x 70 cm
Melhores amigas, 2017
Svetlana Kurmaz (República Checa, contemporânea)
Óleo sobre tela, 100 x 80 cm
Confúcio (China, 551 a.E.C. — 479 a.E.C.)
Praia Vermelha, década 1950
Yvonne Visconti Cavalleiro (França/Brasil, 1901 – 1965)
óleo sobre tela, 65 x 80 cm
Mulher com vestido listrado
Alan Post (EUA, contemporâneo)
óleo sobre tela
Elefantinho, ilustração de Anne Demeter.
A Inesperada Herança do Inspetor Chopra de Vaseem Khan é um agradável livro de entretenimento, perfeito para o fim de semana de férias. Ele se insere entre livros de mistério passados em terras exóticas e longínquas. Este nicho literário ganhou, nas últimas duas décadas, leitores fieis e novos escritores. Essas obras abrem caminho para o entendimento de diferentes culturas através de detetives e crimes por resolver. Neste segmento meus preferidos são as aventuras de Mma Precious Ramatswe, em Botsuana, personagem criado pelo escritor britânico Alexander McCall-Smith cuja aparição no mundo dos detetives foi no livro Agência Nº 1 de Mulheres Detetives (original de 1998, 2003 no Brasil) (a série inteira é deliciosa) e também os problemas enfrentados ao combater crimes pelo Detetive Chen Cao, do escritor Qiu Xialong (imperdíveis para quem lê em inglês, mas até o momento sem tradução no Brasil), cujo território de ação é sua terra natal, Xangai. Sua primeira aventura apareceu em Death of a Red Heroine (2000). Ambos autores presenteiam seus leitores com impressões da vida cotidiana e da cultura local. Agora podemos adicionar a esta lista as obras de Vaseem Khan, localizadas na Índia, em Bombaim (Mumbai). A Inesperada Herança do Inspetor Chopra é o primeiro volume da série Baby Ganesh Agency, e o único título publicado no Brasil. Nele o policial indiano, que está se aposentando, e que dedicou toda vida profissional no combate ao crime, na mais populosa cidade da Índia, recebe, no mesmo dia de sua aposentadoria, um elefante bebê de herança.

Este é um livro aconchegante. Cheio de charme e bom humor. Ele nos lembra como é importante seguir os instintos ganhos depois de mais de trinta anos de profissão. Como era previsível, o inspetor Chopra não tem tempo de se sentir nostálgico pelos anos a serviço da cidade. Apesar de se aposentar por motivos médicos, no mesmo dia em que deveria usufruir do tempo livre, sem horários, típico do benefício que lhe coube, descobre que a polícia não está fazendo qualquer esforço para resolver um crime e isso lhe parece estranho. O instinto o alerta. Há algo que não cai bem nessa história. No entanto, este não é o único empecilho proibindo-o de gozar do descanso projetado. Há outro problema inesperado: cuidar do filhote de elefante herdado de um tio e que lhe foi entregue em casa na primeira manhã do planejado descanso. Contrastando com os agitados primeiros dias de reforma, há a figura calma da fiel esposa, Poppy, que raciocina de maneira deliciosa sobre soluções de problemas corriqueiros e que solidamente o mantém em cheque, mesmo depois de Chopra levar para dentro de casa, para nada menos do que a sala de estar do casal, a inusitada herança. Como numa boa e justa história tudo se explica no final e por causa do sucesso de seu desempenho, tanto no crime quanto na guarda do elefante, Inspetor Chopra abre a Agência de Detetives Baby Ganesh.
Vaseem Khan
Estamos em julho. Época de férias de inverno. Nada melhor do que uma leitura leve, com chocolate quente nas mãos, manta no colo e uma boa poltrona. Indicada para todas as idades. Interessante e informativo. Alarga horizontes. Em dois tempos Inspetor Chopra nos conquista. E não precisamos de mais do que duas tardes, acompanhamos a vida deste detetive que ao transitar em sua cidade natal nos mostra os bairros e o complexo perfil de Bombaim. Ao final, ficamos felizes de ver que provavelmente a Agência de Detetives Baby Ganesh será um sucesso e trará para nós leitores mais aventuras com gosto indiano. É só esperar pelos próximos volumes.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Mulher penteando os cabelos em frente a espelho, 1877
Edgar Degas (França, 1834 -1917)
óleo sobre tela, 46 x 32 cm
Norton Simon Art Foundation
Lachambeaudie (França, 1806-18720
Um estudante
Rajá Ravi Varma (Índia, 1848 – 1906)
óleo sobre tela
Monsaraz VI, 2013
Inês Dourado (Portugal, 1958)
Técnica mista (grafite, acrílico, canetas de acetado e crayons) s/papel, 17 x 23 cm
Jesus Cristo bebia cerveja é um título que chama atenção. Parece profano, desrespeitoso. E, no entanto, esta provocação de Afonso Cruz, não se materializa. Trata-se de obra moralizante, cujo desfecho me pareceu surpreendentemente antiquado, bastante incompatível com o mundo contemporâneo.
A trama se desenvolve em torno de Rosa, uma jovem de beleza rústica e sensual. Imaginei-a semelhante a Frida Kahlo, por causa do bigodinho, sobrancelhas espessas e vasta cabeleira. Rosa foi criada pela avó. Os pais, cada qual à sua maneira, decidem tocar a vida separadamente e em estilo não condizente com a vida doméstica. Ele morre, ela sai de cena. A criança fica com a avó. Agora, Rosa é responsável pela anciã que já não consegue sobreviver sozinha. Muito pobres, vivem do que plantam e do auxílio dos outros. Um dia, Rosa descobre que a avó gostaria de visitar Jerusalém antes de morrer. Este desejo parece impossível de ser concretizado, a não ser que mudassem Jerusalém para o centro do Alentejo. Como? Esta é apenas uma das inúmeras intrigas que seguimos e não é, nem mesmo, a mais importante. Porque a vida de Rosa, filha de uma mulher que sai do interior de Portugal e se prostitui em Lisboa, parece já estar, desde o início da leitura, condicionada.

Esta obra se parece com uma igreja barroca-rococó, como as encontradas no século XVIII no Brasil. A localização da história no Alentejo, árido, ensolarado, de casas caiadas e ruas vazias nos dá a impressão externa de simplicidade como acontece com qualquer templo barroco tardio e engana quem se detém em sua observação, pois esconde a rica complexidade de seu interior. E é esse interior, a narrativa de uma história simples entremeada por numerosos personagens esdrúxulos — como a inglesa que mantém intelectuais de duvidoso saber a seu redor; assim como as intermináveis discussões entre eles sobre assuntos esotéricos — que ocupam o espaço, e por excesso borram a linha narrativa, confundindo o leitor com mais informação do que necessário, entulhando seu percurso até o final. Prestar atenção a esses personagens é seguir arabescos narrativos e chegar a becos sem saída que intrigam, não pela imaginação do autor em descrevê-los, mas porque conspiram para que a leitura de um texto de 240 páginas na versão brasileira, consiga ser cheia de caminhos tortos e curvas perigosas, continuamente desnecessários.
Este foi o primeiro livro que li de Afonso Cruz, que ocupa, pelo aplauso e louvor recebidos por suas obras anteriores, lugar de importância na literatura lusitana da atualidade. Foi uma leitura que me surpreendeu pelo estilo rebuscado. No início, suas figuras de linguagem, antíteses, metáforas, paradoxos, hipérboles parecem charmosas. Encantam. O virar da frase, a torção inesperada de um significado, a troca do significado pelo significante chamam a atenção. Configuram maneira diferente, poética, de registrar acontecimentos. Mas terminado o primeiro terço da obra, elas se tornam um maneirismo, um impulsivo exagero cansativo e irritante. Pareceu-me um caderno de exercícios em estilo, em que os adornos ao texto tornam a narrativa rebuscada, barroca e indisciplinada. “A inglesa tem uma grande ruga a riscar-lhe a testa, olhos desaparecidos pela vida, lábios cheios de palavras por dizer.” [57]. [Quantas figuras de linguagem cabem numa frase de vinte palavras? ] “A noite começa seu trabalho de escuridão, vai iluminando o dia com suas trevas.” [113] Ocasionalmente este tipo de linguagem é muito bem vindo. Sim, o autor está trabalhando a nossa língua, está exercitando sua potencialidade. Mas precisa mostrar toda destreza que possui ao navegar o idioma, continuamente? Em uma única obra?
Afonso CruzNão conheço o trabalho anterior de Afonso Cruz. Amigos recomendaram a leitura por serem fervorosos adeptos da obra do autor. A seu favor: houve interesse suficiente para que eu levasse a leitura até o fim. Por Jesus Cristo bebia cerveja, e exclusivamente por esta livro, Afonso Cruz me parece ansioso por compartilhar com leitores as incríveis ideias que lhe vêm à cabeça, tanto na linguagem quanto na volumosa população de personagens extravagantes, sem edição. A exuberância narrativa, a imaginação prolixa contrastam com a trama simples e previsível. Sem dúvida uma obra que trabalha a discordância entre a singeleza da trama e a ostentosa linguagem.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

Arranjo com tangerinas, bule e caçarola
Florêncio [José Carlos dos Santos] (Brasil, 1947)
óleo sobre tela
Igreja em Caxambu, MG, 1976
José Maria de Almeida (Portugal/Brasil, 1906-1995)
óleo sobre tela, 50 x 65 cm