Izrael Szajnbrum (Polônia/Brasil, 1924)
óleo sobre tela, 61 x 50 cm
Angiolo Tomasi (Itália, 1858-1923)
óleo sobre tela
Galeria de Arte Moderna, Roma
“Expatriação é um ato de quando alguém faz uma autoremoção sustentável, da sua própria cultura nativa; uma remoção contrabalançada pela resistência, determinada, a ser incluído totalmente à nova sociedade anfitriã. Os motivos de expatriação são tão numerosos quanto os expatriados: afinidade estética e intelectual; um emprego melhor ou uma vida mais interessante e menos complicada; maior liberdade ou simples melhoria de impostos, assim como os motivos para a não integração podem ir de princípios pessoais, à nostalgia, preguiça ou medo. A lista de expatriados conhecidos só no campo da literatura é imensa, rica em honrarias e respeitável: Henry James, T.S. Eliot, Joseph Conrad, V. S. Naipaul (antes de serem aceitos como cidadãos ingleses), Vladimir Nabokov, James Joyce, Samuel Beckett, Paul Bowles, Mavis Gallant, Gabriel Garcia Marquez, Witold Gombrowicz, Anthony Burgess, Graham Greene, Derek Walcott, Malcolm Lowry, Wilson Harris — nomes que, mesmo com algumas omissões óbvias qualquer audiência educada poderia preencher as lacunas, mas que, todos concordamos, chega ao ápice de qualquer lista das mais notáveis produções do século XX.
Eles são, na verdade, nossas maiores vozes do modernismo e do pós-modernismo; suas produções são enciclopédicas, suas visões irônicas e incisivas, suas análises imparciais e escrupulosas, seus estilos experimentais e cristalinos. Se o objetivo final da literatura é chegar à universalidade e uma espécie de onisciência divina, expatriação — a fuga da mesquinhez, das frustrantes irritações — pode ser o fator que mais contribui para isso.
O expatriado é o artista que constrói a si mesmo, até na escolha da língua em que vai se expressar, como Conrad, Beckett, Kundera e Nabokov mostram. … É possível na expatriação, sair das limitações em que se nasce e exercitar uma visão de estrangeiro desapegado. O expatriado húngaro, checo ou polonês de outra época, ou o iugoslavo, o bengalês, o argelino ou o palestino expatriado de hoje, pede só para que a cultura anfitriã o deixe manter o âmago estrangeiro sem comprometimento nem capitulação. Assim, o acordo é feito: eu serei um residente modelo em troca da sua tolerância e indiferença. Não atacarei os defeitos fundamentais da sua sociedade, com o mesmo zelo com que analisarei meu próprio povo. Imaginarei uma nova pátria construída em terra recuperada.”
Em: “Imagining Homelands”, Bharati Mukherjee, Letters of Transit: Reflexions on Exile, Identity, Language and Loss, ed. André Aciman, New York, The New Press: 1990, p. 71-72.
Tradução e edição Ladyce West.
Ilustração de Jenny Keith Hughes. [www.jennykeithhughes.com]
Hafiz (Pérsia, 1320-1389)
Uma vez
Depois de um dia trabalhoso a procura de alimentos
Dois ursos se sentaram em silêncio
Em uma bela paisagem
Observando o sol se por
E se sentindo profundamente gratos
Pela vida.
Mas, depois de algum tempo
Uma conversa interessante começou
Versando o tópico da
Fama.
Um dos ursos disse,
“Você ouvir falar do Rustam?
Ele ficou famoso
E viaja de cidade em cidade
Numa jaula dourada;
Ele faz exibições para centenas de pessoas
Que riem e aplaudem
Suas piruetas
No circo.”
O outro urso pensou
Por alguns segundos
Então começou
A chorar.
Tradução Ladyce West, do inglês
Em: The Gift, poems by Hafiz, the great Sufi master, translations by Daniel Ladinsky, Nova York, Compass [Penguin Group]:1999, p.123.
Autorretrato com pincéis, 1909
Marc Chagall (Rússia/França, 1887-1985)
óleo sobre tela , 57 x 48 cm
Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, Düsseldorf, Alemanha
Nakamura Daizaburo (Japão, 1898-1947)
Haruki Murakami