Nota cor-de-rosa: a pequena novela, 1883
James Abbott McNeill Whistler (EUA, 1834 – 1903)
aquarela sobre papel
Freer Gallery, Smithsonian Institution, Washington DC
Nota cor-de-rosa: a pequena novela, 1883
James Abbott McNeill Whistler (EUA, 1834 – 1903)
aquarela sobre papel
Freer Gallery, Smithsonian Institution, Washington DC
Retrato, 1936
Adelaide Giannini (Itália, 1898 – ?)
pastel
Carnaval na rua das Laranjeiras, 1938
Haydéa Santiago (Brasil, 1896 – 1980)
óleo sobre tela, 80 x 64 cm
“A primeira vez que o vi foi numa batalha de confetes. O dia tinha sido chuvoso. De vez em quando uma bátega d’água caía, prenunciando uma tarde com aguaceiro. A todo instante chegava {a janela para olhar o tempo. Logo naquela tarde em que pretendia estrear meu vestido novo, a chuva queria estragar os meus planos.
De cada vez que sondava o céu com os olhos, mamãe, que no meio de seus afazeres me observava, dizia:
— Não adianta olhar para o céu, hoje não tem batalha alguma. À tarde vamos ter temporal.
Nos entreolhávamos, eu e minha prima e respondia, mal-humorada:
— A senhora tá agourando pra gente não brincar. Bem que no seu tempo gostava de aproveitar.
Lá pela tardinha o tempo melhorou, o céu tingiu-se de uns laivos rosa.
“Graças a Deus”, pensei.
Ao escurecer, saímos. Vestia o famoso vestido novo. DE seda bois-de-rose, saia plissada, gola de pelerina, uma gravata de laço, estampada. A praia se achava repleta. Os passeios cheios de gente que ia e vinha, blocos de toda espécie, que passavam cantando, interrompendo o trânsito. Os carros circulavam vagarosamente, conduzindo foliões de outros bairros, famílias, moças e rapazes que lançavam serpentinas e confetes sobre a multidão que estacionava no passeio. Em frente ao posto 4 se achava o palanque para os membros do concurso de samba. Parou um carro e dele desceram os juízes que iriam julgar qual o melhor do carnaval daquele ano. O povo se comprimia mais ainda naquele ponto, paralisando completamente a circulação. Junto a um banco, eu olhava a multidão que se divertia. A orquestra começou a tocar o Olha, escuta meu bem …, que foi acompanhado pelo vozerio da multidão alegre. As luzes se acenderam, o burburinho era cada vez maior. Milhares de rolos de serpentinas coloridas eram atiradas dos carros, entrelaçando-se por sobre os fios, caindo na calçada em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Bandos de mulatas fantasiadas, se requebrando, em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Um frio nas pernas e, instintivamente, levei a mão às meias. Olhei em torno e não vi ninguém que me pudesse ter atirado lança-perfume. “Provavelmente, algum esguicho extraviado”, pensei, continuando a olhar os carros que passavam. A banda do palanque atacava agora uma marchinha do meu agrado, muito em voga na época.
Foi quando senti de novo o frio nas pernas. Evidentemente, desta vez era comigo. Procurei com os olhos entre a multidão que se encontrava próximo de mim e não vi ninguém conhecido. Um vozerio acompanhado de palmas fez-se ouvir por minutos. Acabava de subir ao palanque, sendo reconhecida pela multidão, que a aplaudia freneticamente, uma conhecida cantora popular. Às palmas e ao vozerio vieram juntar-se as buzinas dos vários carros parados ao longo da praia. Tentava abrir caminho entre o povo, sufocada pelo aperto que se fizera ao redor, quando o mesmo esguicho frio nas pernas me fez lançar um olhar rápido à minha frente: à distância de um metro mais ou menos, o vi pela primeira vez, que sorria para mim. Siegfried ou outro herói de Wagner, pois só podia ser um herói de lenda alemã. Correspondi-lhe ao sorriso e a partir de então começou o tempo do amor, o tempo do sofrimento, o tempo pelo qual esperava, o mais belo momento da minha vida.”
Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70, pp: 120-1
Uma viagem fantástica com vovô
Alfredo Rodríguez (México, 1954)
óleo sobre tela, 70 x 66 cm

A Passagem Norte-Oeste, 1874
Sir John Everett Millais, (GB, 1829-1896)
óleo sobre tela
Tate Gallery, Londres

Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus, nasceu em Roma, em 23 de setembro do ano 63 aEC. Faleceu em Nuvlana (Região de Nápoles) a 19 de agosto do ano 14 EC. Fundador do Império Romano e seu primeiro imperador. Período de governo: 27 aEC até 14 EC, ou seja 31 anos.

Melancias e Janela, 1966
Djanira da Motta e Silva (Brasil, 1914-1979)
serigrafia a cores sobre papel, 50 x 33 cm
O casal Zaitsev no interior de sua casa, 1955
Igor Radomano (Rússia, 1921-1992)
óleo sobre tela, 139 x 111 cm
Quando recebi de presente de Natal em 2019 este livro, não sabia que havia um filme baseado na obra, estrelado por Judy Dench. Pode ter sido muito bom se fez jus a obra de Jeannie Rooney, lançada no Brasil pela Record com tradução do inglês por Cláudia Mello Belhassof. Pensei no início tratar-se de história de espionagem nos termos tradicionais, próxima às obras de Ian Fleming que fizeram do agente 007 do MI5, um dos mais populares e sedutores personagens no mundo inteiro. Foi surpreendente realizar que esta espiã, personagem principal, não era figmento da imaginação de um escritor, mas obra de ficção baseada na biografia de verdadeira espiã que passou segredos importantes do governo britânico para as mãos dos russos. Tão importante foram eles que ela foi considerada a agente da maior importância para a KGB. A espiã vermelha, portanto é uma biografia ficcionalizada de Melita Norwood, a mulher que passou segredos de estado para as mãos do inimigo.
Ainda que a maioria dos leitores considere este livro uma “trama envolvente sobre o amor e o significado da lealdade” como informa a orelha do livro, acredito que seja principalmente um longo ensaio, uma obra de apreciação sobre traição. Ou melhor, a constatação das infinitas maneiras em que uma pessoa pode ser traída ou trair.
A primeira consideração que me ocorreu foi a diferença entre inglês e português ao tratarmos de traição. Em inglês para traição, há duas palavras distintas. “Treason” que limita a traição a um ato de quebra de confiança nos interesses de estado e “Betrayal” cujo significado também é traição, mas abraça um maior número de situações de quebra de confiança, incluindo a traição amorosa. A espiã vermelha trata de ambos os significados. Não só Joan Stanley (o nome de Melita Norwood no livro) trai seu país, mas trai e é traída por amigos, familiares e parceiros amorosos.
Depois voltei ao significado de traição do ponto de vista histórico. É atribuído, sem qualquer documentação, a Winston Churchill a máxima “é o vencedor quem escreve a história”, ou “cabe ao vencedor escrever a história”. Questionar a traição de estado é não aceitar o rumo da história. Joan Stanley é traidora porque a Grã Bretanha estava no grupo que venceu a Segunda Guerra Mundial. O mesmo aconteceu aqui no Brasil, com Domingos Fernandes Calabar, traidor por apoiar a colonização holandesa, quando Portugal vencia os invasores no nordeste brasileiro. Nos anos 70, Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra lançaram a peça, musicada: Calabar: o elogio da traição (1973) que pretende questionar esta traição. Mas não se consegue contar a história pelo lado dos que perderam, pois qualquer situação mencionada de como seria a realidade caso outros tivessem vencido, não passa de fantasia, paisagens imaginárias, idealizadas de uma história que nunca aconteceu. E por mais que na biografia ficcional essa espiã inglesa pareça pretender o equilíbrio entre potências mundiais, suas ações são imperdoáveis por submeter o mundo inteiro à perigosa corrida nuclear. Só por essas considerações suscitadas pela leitura de A espiã vermelha este livro já teria me satisfeito pelo saudável exercício filosófico que evoca.
Bom notar que a narrativa em capítulos intercalados entre o presente e o passado é muito eficiente e mantém o interesse do leitor do início ao fim. Descobrimos também ao longo do texto outras maneiras em que uma pessoa pode trair e ser traída. É um livro rico de observações, passagens que requerem do leitor atento, uma pausa para avaliar, desde “a nacionalidade é uma falsa distinção” [108] a “que coisa horrível envelhecer. Não tem certeza se recomendaria isso a alguém;” [182]. Este é um livro que questiona aquilo que tomamos como certo. Levanta questões. Tem sucesso fazendo isso, obliquamente.
Joan Stanley é uma personagem muito rica. Repleta de dúvidas sobre si mesma acaba se revelando mais complexa do que se imaginaria no início. É uma cientista, uma raridade na época, mulher moderna até pelos dias de hoje. Mas enquanto é intrépida para algumas coisas, também precisa da aprovação dos outros. Recomendo a leitura. Mesmo que não se saiba onde a ficção se desvia dos fatos desta recente história. Recomendo.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.