Morro Dois Irmãos
Petrus Verdié (França – Brasil,1875 -1951)
óleo sobre tela, 92 x 64 cm
Pedra da Gávea ao fundo com a subida da Avenida Niemeyer à direita, 1944
Araújo Lima ( Brasil, 1863-1958)
óleo sobre tela, 42 x 31 cm
Interior com raios de sol, c. 1910
Paul Gehrmann (Alemanha, 1861-1923)
óleo sobre tela, colada em madeira, 44 x 37 cm
Sapucaeiras em flor no Antigo Jardim Zoológico, 1951
Gérson [de Azeredo] Coutinho (Brasil, 1900-1967)
óleo sobre madeira, 25 x 33 cm
À luz de lampião, 1890
Harriet Backler (Noruega 1845-1932)
óleo sobre tela, 55 x 66 cm
Maria Braga Horta
Não levarei comigo nada meu
nem de ninguém.
Devolvo a todos o quinhão da vida
que viveram comigo e por mim
e os liberto
do ritual das flores no jazigo
que nada mais (depois) contém
que os vestígios de um corpo
que em verdade jamais me pertenceu.
Simples sombra (invisível) chegarei
diante do espelho
em que foi o meu tempo refletido
e inserido em gradações de forma e cores.
Do que era teu em mim –
separados os lados –
sepultarás o morto.
O vivo ficará perdido
nos teus olhos
procurando o infinito.
Em: Caminho de Estrelas, Maria Braga Horta, São Paulo, Massao Ohno Editor: 1996, p. 122
Carnaval
Nelson Jungbluth (Brasil, 1921 – 2008)
acrílica sobre tela
“1914. A grande ambição carnavalesca era usar lança-perfume. Havia tubos para crianças, finos como dedos. Bisnagava-se até cachorro!
Na terça-feira gorda, o chão da Avenida tinha um palmo de confetes, os préstitos eram o delírio do ouropel — clarins, marchas triunfais, fogos-de-bengala, caracolantes ginetes abrindo os cortejos — gato, baeta, carapicu! — bamboleantes sóis, planetas, constelações, Vulcano, Júpiter, Netuno, mitológicos deuses paralisados em gestos de sarrafo e papelão, giratórias esferas rutilantes que se abriam em gomos para desvendar, por instantes deslumbrados, deidades semi-nuas, atirando beijos, para a multidão comprimida, com a ponta dos dedos inatingíveis.
Saímos de tardinha, providos de farnel — sanduíches, pastéis, coxinhas de galinha — levávamos horas no bonde se arrastando aos arrancos, íamos postar-nos numa esquina propícia, sobre caixotes, para esperar o desfile de proverbial atraso.
Mas se a chama foliona se extinguia na cidade, entre missas, sinos e beatas, na manhã de quarta-feira, prolongava-se em nossa casa por muitos dias além com restos de serpentinas pendentes dos gradis, saldos de confetes tapizando sala de jantar, trono, capitel, concha ou nenúfar, donde Madalena reclinada, soberana, envolta em rotos filós de antigos cortinados, com as faces tingidas por carmim, os cabelos coroados por um desperdício de fitas, atirava em gestos longos cachoeiras de beijos para uma suposta multitude de súditos e adoradores. E a mim, dormido ou acordado, me perseguia incessante, priapística, a luxuriosa visão daquelas deidades apoteóticas, floração de um horto inacessível, habitantes olímpicas, deusas! deusas! pois como poder entrosá-las na fauna feminil que eu conhecia, mesmo a esterlina mulher de doutor Vítor, que era estrangeira e fumava?”
Em: O trapicheiro, Marques Rebelo, 1º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1959, 1ª edição, numerada, pp. 217-218