A morte de Roland, ou a Canção de Roland

10 06 2025

Batalha de Roncesvales, em 778: morte de Roland. c. 1455-1460

Jean Fouquet (França, ? – 1481)

Iluminura das Grandes Crônicas da França

Biblioteca Nacional da França, Paris

 

 

A Canção de Roland é um poema do século XI, talvez a mais antiga canção épica, que dá início à literatura francesa, mesmo tendo sido, na sua forma original, escrita em uma língua românica.  A obra inspirou muitas outras criações sobre a França e circulou por toda a Europa.  Ela narra a morte heroica de Roland, no campo de batalha de Roncesvales.  A batalha aconteceu no dia 15 de agosto de 778, e Roland, que era sobrinho de Carlos Magno, comandava o exército da retaguarda, formado pelos Doze Pares de França, um grupo lendário de cavaleiros associados a Carlos Magno.  Na tropa liderada por Roland os cavaleiros são: Roland, Olivier, Gérin, Gérier, Bérenger, Otto, Samson, Engelier, Ivon, Ivory, Anséïs e Girart de Roussillon.  Mas em outros poemas e lendas da época, esses cavaleiros poderiam ser outros.  Como há muitas versões da Canção de Roland, todas em manuscritos que deram por sua vez origem a outras tantas lendas, é difícil de precisar exatamente quem fazia parte desse exército ou aqueles cuja existência são pura lenda. 

Roland morreu numa batalha na região basca da França.  A tropa vinha da Península Ibérica onde lutava contra os sarracenos.  Dependendo da versão os autores do massacre de Roncesvales, podem ser tanto bascos quanto muçulmanos.  Sabe-se que essa batalha realmente ocorreu, está historicamente comprovada e em espírito pertence ao contexto das Cruzadas e da Reconquista cristã da Península Ibérica. 

 

A morte de Roland, 1462

Iluminura em de manuscrito

Autor desconhecido

Bruges, Flandres [Bélgica]

 

 

Uma coisa interessante é que a Canção de Roland teve grande popularidade no Brasil no século XIX. Isso graças a um livro de um médico português, Jerónimo de Moreira Carvalho, que escreveu em 1737, portanto no século XVIII, uma continuação da Canção de Roland: Segunda parte da História do Imperador Carlos Magno e dos doze pares de França. Esse romance de cavalaria se tornou leitura de grande sucesso no Brasil do século XIX.  Aliás, esse é um de dois portugueses que escreveram uma continuação de história de Carlos Magno.  O outro,  História nova do Imperador Carlos Magno, e dos doze pares de França de José Alberto Rodrigues, impressa em Lisboa em 1742.  Essa no entanto, não foi popular no Brasil. 

 

 





Nossas cidades: Itanhaém

10 06 2025

Vista de Itanhaém, 1911

Emídio de Souza (Brasil, 1868-1949)

óleo sobre tela colado em eucatex, 29 x 49 cm





Julian Barnes lista seis livros favoritos

9 06 2025
ilustração Laurence Fellows

 

 

O escritor inglês e vencedor do Man Booker Prize em 2011, com o livro O sentido de um fim, deu à revista The Week, uma pequena lista de seus livros favoritos.  Foi uma lista diferente da que eu imaginaria, mas são obras muito boas.

1 – A viúva Couderc, George Simenon.  Infelizmente não encontrei a tradução para o português.  Foi publicado em 1942.  “Todos os anos, Simenon se irritava com aqueles “idiotas” de Estocolmo que  ainda não lhe haviam dado o Nobel de literatura.  Na época eu achava aquilo muito louco; agora acho bastante apropriado.  Seus romances duros são poucos e rigorosos, demonstrando profundo conhecimento da natureza humana.  Este é um dos melhores.”

2 – Rapazes de zinco de Svetlana Alexievich, publicado em 1989. “Alexievich ganhou o Nobel, como deveris, em 2015, por suas histórias polifônicas retratando o final do Comunismo Soviético.  Rapazes de zinco retrata as experiências terríveis dos soldados sovi[eticos no Afganistão.”

3 – O início da primavera [The beginning of Spring], Penelope Fitzgerald, publicado em 1988.  Não encontrei tradução para o português, mas achei em espanhol, inglês e italiano. “A história se passa na Rússia pré-revolucionária. Esse é o melhor das quatro grandes obras de Fitzgerald.  Irônico, inadequado, sábio, e terno ao mostrar os incompetentes. A obra de Fitzgerald tem uma graça moral que permanecerá e sobreviverá às obras mais espalhafatosas da nossa época.

4 – Persuasão, Jane Austen, publicado em 1817. Os meus três romances favoritos do século dezenove foram escritos por mulheres. Middlemarch Jane Eyre  são os outros dois.  Persuasão é o último romance de Austen, sombrio, irônico e intenso.  Imagine que mais ela poderia ter escrito se não tivesse morrido aos 41 anos. 

5 – Amours de voyage, de Arthur Hugh Clough, publicado em 1849.  “Um longo poema e também um pequeno romance — sobre amor, dúvida e viagem; sobre perder a chances oferecidas, sobre não entender o momento, analisar demais e covardia moral. Clough é contemplativo, argumentativo,  inteligente e extremamente moderno.

6 – Ethan Fromme, Edith Whaton, publicado em 1911.  “Wharton disse que “para escrever esse livro eu trouxe grande alegria e total conforto”.  Com a maioria das edições tendo próximo de 100 páginas, o livro combina a densidade de uma novelaem carater e tema com a simplicidade e força de um conto. Como muitos de seus livros, uma tragédia, para uma época não trágica. E ela escreveu o original em francês!

NOTA:  Você encontrará minha resenha sobre O sentido de um fim de Julian Barnes aqui neste blog.  Julian Barnes é um dos meus escritores favoritos.  Preparo nesse momento a lista do livros de mais gostei nesses primeiros 25 anos do século XXI e tenho dois livros de Barnes na minha lista. 





Dia a dia…

8 06 2025

FIM DE SEMANA CHEÍSSIMO!


– Reunião de família aqui em casa
– presente da sobrinha livro “Na voz dela” de Alba de Céspedes
– presente de uma amiga picles de beterraba feito em casa
– comes e bebes sem fim
– Reunião para discussão do livro “Oração para desaparecer” de Socorro Acioli

 

Finalmente livre para descansar!





Em casa: Anônimo, escola italiana

8 06 2025

Jovem dormindo

Anônimo, Escola italiana

óleo sobre madeira, 55 x 45 cm 





“Nada nos satisfaz”, Michel de Montaigne

7 06 2025
DETALHE  (veja tela inteira abaixo)

Emina, lembranças do Oriente

Louis-Emile Pinel de Grandchamp (França, 1831-1894)

óleo sobre tela 

 

 

Nada nos satisfaz

 

Michel de Montaigne

 

Se ocasionalmente nos ocupássemos em nos exa­minar, e o tempo que gastamos para controlar os outros e para saber das coisas que estão fora de nós o empregás­semos em nos sondar a nós mesmos, facilmente sentiríamos o quanto todo esse nosso composto é feito de peças frágeis e falhas. Acaso não é uma prova singular de imperfeição não conseguirmos assentar o nosso contentamento em coi­sa alguma, e que, mesmo por desejo e imaginação, esteja fora do nosso poder escolher o que nos é necessário? Dis­so dá bom testemunho a grande discussão que sempre houve entre os filósofos para descobrir qual é o soberano bem do homem, a qual ainda perdura e perdurará eterna­mente, sem solução e sem acordo: Enquanto nos escapa, o objecto do nosso desejo sempre nos parece preferível a qualquer outra coisa; vindo a desfrutá-lo, um outro desejo nasce em nós, e a nossa sede é sempre a mesma. (Lucrécio).
Não importa o que venhamos a conhecer e des­frutar, sentimos que não nos satisfaz, e perseguimos cobi­çosos as coisas por vir e desconhecidas, pois as presentes não nos saciam; em minha opinião, não que elas não te­nham o bastante com que nos saciar, mas é que nos apo­deramos delas com mão doentia e desregrada: Pois ele viu que os mortais têm à sua disposição praticamente tudo o que é necessário para a vida; viu homens cumulados de riqueza, honra e glória, orgulhosos da boa reputação de seus ftlhos; e entretanto não havia um único que, em seu foro íntimo, não se remoesse de angústia e cujo cora­ção não se oprimisse com queixas dolorosas; compreendeu então que o defeito estava no próprio recipiente, e que esse defeito corrompia tudo de bom que fosse colocado de fora em seu interior (Lucrécio).
O nosso apetite é indeciso e incerto: não sabe con­servar coisa alguma, nem desfrutar nada da maneira certa. O homem, julgando que isso seja um defeito dessas coi­sas, acumula e alimenta-se de outras coisas que ele não sabe e não conhece, em que aplica os seus desejos e espe­ranças, honrando-as e reverenciando-as; como diz César: Por um vício comum da natureza, acontece termos mais con­fiança e também mais temor em relação às coisas que não vimos e que es­tão ocultas e desconhecidas.

 

Michel de Montaigne, Ensaios

 





Minutos de sabedoria: Shopenhauer

6 06 2025

Menino lendo

Francesc Domingo Segura (Espanha-Brasil,1893-1974)

óleo sobre tela, 74 x 60 cm 

 

 

“Devemos abster-nos, na conversação, de observações críticas, mesmo que sejam as mais bem intencionadas, pois magoar as pessoas é fácil; difícil, se não impossível, é melhorá-las.”

 

Arthur Shopenhauer

Arthur Shopenhauer
(1788-1860)





Todo mundo lê!

6 06 2025
A mãe Guji lê para os filhos (gansos e um jacaré) de Chih-Yuan-Chen.




Vento do mar e o sol no meu rosto a queimar…

6 06 2025

Feira de São Cristovão, 1939 *

Sylvio Pinto (Brasil, 1918-1997)

óleo sobre madeira, 22 x 27 cm

   

   * esta é a obra mais antiga que tenho arquivada de Sylvio Pinto, que tinha meros 21 anos quando a pintou. 





Ladyce, poesia de Gessner Pompêo de Barros

5 06 2025
Ilustração de Maud Tousey Fangel.
 
 
Ladyce *

 

Gessner Pompêo de Barros

 

Pediu-me sua Mãe que, em versos, dedicasse 

este Álbum a você, minha querida,

onde o seu progredir se registrasse,

ou se fotografasse,

mês a mês, ano a ano, toda vida.

.. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. 

Pediu-me versos ternos a um bebê…

Mas dois bebês eu vejo: ela e você!

Isto porque, 

entre a filha e a netinha há pouca diferença 

— não há distância imensa…

Bem pouca distinção entre ambas faz

o coração dos seus avós e pais.

.. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. 

Ela é também bebê, que já cresceu,

que já sofreu, 

Que agora é Mãe e assim, vai realizando

o sublime destino da Mulher!

Você, novo bebê, que está iniciando, 

os passos para idêntico mister…

                   * * *

Você há de ter na vida o doce encanto

que ela oferece às nobres criaturas:

— o riso alegre, que afugenta o pranto,

— a graça com que Deus, lá das alturas,

— bênção divina —

o caminho dos bons sempre ilumina…

 

 

Em: Revista O Malho, volume XI, página 7

  • Poema escrito por meu avô materno, Gessner Pompêo de Barros. Vovô era advogado, mas também exerceu a profissão de escritor. Teve por algum tempo, não sei quanto tempo, uma coluna semanal no antigo jornal Última Hora, coluna sindicalizada que aparecia em muitos jornais do interior do país. Sendo mato-grossense, da época em que aquele era um só estado, suas colunas certamente ficaram conhecidas por lá. Minha sobrinha, que recentemente descobriu que seu bisavô era, como ela, advogado, hoje me mandou a foto da página da revista em que esse poema aparece. O poema eu tenho no meu álbum de bebê. Na primeira página.

Também neste álbum aparece um poema que meu pai, um cientista, químico industrial e professor de física, escreveu na mesma ocasião. Conta a lenda que enciumado pela poesia de vovô, ele também resolveu meter as mãos na poesia, para não ficar para trás. Papai não era um mau escritor. Tenho alguns de seus escritos publicados nos jornais das escolas que frequentou. Ele cresceu na época em que se decorava Os Lusíadas na escola (que ele frequentemente, chegada a hora apropriada, declamava — para embaraço total dessa filha, rs…) Um dia acho nas caixas que deixarei para os sobrinhos destrincharem, o álbum em questão e passo para o blog, e para o julgamento de vocês, meus leitores, a resposta do genro enciumado. Rs…rs…

Uma nota sobre meu nome: Ladyce (pronunciado Lêidice) é um nome americano, parece até que mamãe havia vislumbrado meu destino para assim me chamar, já que passei a maior parte de minha vida adulta nos Estados Unidos, eventualmente casando com um americano. Nunca foi um nome comum. É um nome antigo, e mais comum no final do século XIX e início do século XX. Mamãe tirou-o de um romance. E bateu o pé para que eu assim me chamasse, porque papai insistia que eu levasse o nome de sua avó materna, um nome de que minha mãe não gostava: Leopoldina.