Praia de São Conrado com a Pedra da Gávea ao fundo, 1938
Armando Vianna (Brasil, 1897-1992)
óleo sobre madeira, 27 x 35 cm
Praia de São Conrado com a Pedra da Gávea ao fundo, 1938
Armando Vianna (Brasil, 1897-1992)
óleo sobre madeira, 27 x 35 cm
Quando estou em meu terraço,
olhando os astros risonhos,
a Lua atravessa o espaço,
puxando o carro dos sonhos!
(João Lucas de Barros)
Arlete Marques (Angola, contemporânea)
“Luanda. Ou Lua, como é conhecida na intimidade. Também Loanda. Literariamente: Luuanda (veja-se Luandino Vieira). De seu nome completo, São Paulo da Assunção de Luanda, foi fundada em 1575 por Paulo Dias de Novais. Vinte anos mais tarde chegaram à nova urbe as 12 primeiras mulheres brancas, que logo arranjaram noivos e casaram e tiveram filhos. Em 1641 a cidade foi ocupada pelos holandeses, os quais saíram a toque de caixa, apenas sete anos depois. A 15 de agosto de 1648 uma tropa carnavalesca de brancos, negros e índios, trazida até África nos galeões do imensamente próspero latifundiário e escravocrata carioca, não obstante natural de Cádiz, em Espanha, Salvador Correia de Sá e Benevides, desembarcou em Luanda. Iludidos por uma série de manobras audaciosas de Correia de Sá, mais de mil soldados holandeses renderam-se, abandonando duas fortalezas praticamente intactas a um exército exausto de menos de seiscentos homens.
Começou dessa forma uma esplêndida confusão de raças, línguas, sotaques, apitos, buzinas e atabaques, que, com o passar dos séculos, mais não fez do que aprimorar-se. O caos engendrando um caos maior.
Hoje, misturam-se pelas ruas de Luanda o umbundo oblongo dos ovimbundos. O lingala (língua que nasceu para ser cantada) e o francês arranhado do regrês. O português afinado dos burgueses. O surdo português dos portugueses. O raro quimbundo das derradeiras bessanganas. A isto junte-se, com os novos tempos, uma pitada do mandarim elíptico dos chineses, um cheiro a especiarias do árabe solar dos libaneses; e ainda alguns vocábulos em hebreu ressuscitado, colhidos sem pressa nas manhãs de domingo, em alguns dos mais sofisticados bares da ilha. Mais o inglês, em tons sortidos, de ingleses, americanos e sul-africanos. O português feliz dos brasileiros. O espanhol encantado de um ou outro cubano que ficou para trás.”
Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.43-44
Dançarina, século III a. E. C.
[conhecida como The Baker Dancer]*
Bronze, 20 cm de altura
Metropolitan Museum, N.Y.
* Pelo nome do colecionador que doou a escultura ao museu: Walter C. Baker
Henry Lee Battle (EUA, contemporâneo)
“Esta deveria ser a questão central: por que não há mais negros nas plateias? A verdade é que continua a existir uma linha de cor separando aqueles que no Brasil têm acesso ao livro e a vasta maioria da população. Para formar escritores é preciso primeiro formar grandes leitores. Se queremos formar bons escritores negros teremos primeiro de formar muitos milhões de leitores negros.”
Em: “O arraial da branca atitude”, José Eduardo Agualusa, O Globo, 04/07/2016, 2º caderno, página 2.
Cena de praia no Mar Negro, com a filha do pintor como modelo sentada
Alexander Averin (Rússia, 1952)
óleo sobre tela, 60 x 90 cm
Carol Kossak (Polônia/Brasil, 1895-1968)
óleo sobre tela, 90 x 120 cm
Raramente gosto de romances de formação. Cansei deles. Há enorme inflação do estilo e poucas obras seduzem um leitor mais experiente. Portanto, já é grande cumprimento não só eu ter gostado dessa obra como ter-lhe dado a pontuação máxima. A forte voz narrativa de Per Petterson é em grande parte responsável pelo encantamento. Senti-la mesmo através da tradução de Kristin Lie Garrubo, que me pareceu impecável ainda que eu não conheça nada, absolutamente nada de norueguês, mostra a força de suas imagens.
Cavalos Roubados tem magia própria. Às vezes percebida no relacionamento do autor com a natureza. Não se trata de descrições hiperbólicas sobre a beleza do céu, a grandeza das árvores ou a mão de Deus que nos afaga nas árvores ou pássaros. Não. Tampouco me refiro ao sentimento de veneração e temor evocados pelo movimento romântico do início do século XIX. Esse é um livro de quem passou muito tempo junto às árvores, aos cheiros e perfumes, que os ama e os respeita, sem exagero, ainda que profundamente. A narrativa contida traz consigo a força dos sentimentos guardados e profundos. São observações singelas que comovem.
“…Em vez disso, levamos os cavalos ao longo de outra trilha que logo virava para o leste, estreitando-se gradualmente em pouco mais de uma sinuosa vereda entre as bétulas antigas e altas, cujas enormes copas sussurravam se você inclinasse a cabeça para trás e olhasse por entre a folhagem, e fiz isso até ficar com torcicolo e lágrimas nos olhos, e cruzamos um riacho fundo onde a água parecia gelada. E estava gelada quando respingou entre as patas do cavalo e atingiu minhas pernas, encharcando as calças de imediato, e algumas gotas até atingiram meu rosto quando seguimos a trote, e os cavalos gostavam daquilo, das variações do terreno a caminho de Furufjell. Nas encostas íngremes, a floresta de abetos era densa e intocada por lenhadores, e seguimos a vereda até o cume da colina e paramos por um momento no ponto mais alto, onde viramos os cavalos para olhar para trás, e entre os campos recém-ceifados o rio desenhava seus meandros em prata fosca sob a copa das árvores, e os bancos de nuvens pairavam sob a colina do outro lado do vale.“ [221]
O livro, narrado em dois tempos é situado durante a década de 1940 na Noruega e no final do século XX, com o personagem central, aos sessenta e sete anos, imprevisivelmente levado a relembrar acontecimentos passados na infância.
Uma característica do texto que me intriga e fascina é a omissão do óbvio. Per Petterson não nos ajuda; ele não nos dá descrições de sentimentos. Apesar dos sentimentos fortes, entre eles mais de uma forma de traição, estes não são denominados. São as ações que nos contam o que acontece e o que aconteceu. E assim de maneira oblíqua, nas entrelinhas. Talvez seja exatamente por isso que seu texto tem tanto poder sobre o leitor, que vai descobrindo assim como o jovem Trond, os caminhos tortuosos do mundo dos adultos.
Per Petterson
A traição é um dos temas mais comuns na literatura. No entanto aqui ela é tratada de diversas maneiras e sem drama. Há a traição entre amigos, companheiros de trabalho, fraternal, conjugal, paternal, política, além daquela de si mesmo, todas essas formas tratadas unicamente pelo relato de eventos, de maneira contida, ponderada, realista. Com maestria.
Não há como não recomendar esse livro. Pena que tenha sido lançado no Brasil em 2010 e, portanto, não tão fácil de encontrar nas livrarias. Valerá o esforço de adquiri-lo.