Retrato de Dolores Otaño, 1892
Dario Regoyos (Espanha, 1857-1913)
óleo sobre tela, 55 x 35 cm
Museu da Rainha Sofia, Madri
Retrato de Dolores Otaño, 1892
Dario Regoyos (Espanha, 1857-1913)
óleo sobre tela, 55 x 35 cm
Museu da Rainha Sofia, Madri
Auto-retrato como soldado dormindo
DETALHE
Ressurreição, 1465
Piero della Francesca (Sansepolcro, 1416-1492)
Afresco e têmpera, 225 x 200 cm
Pinacoteca Comunale, Sansepolcro
A obra:
Guilherme Matter (Brasil, 1904-1978)
óleo sobre tela
Machado de Assis *
Vi os pinheiros no alto da montanha
Ouriçados e velhos;
E ao sopé da montanha, abrindo as flores
Os cálices vermelhos.
Contemplando os pinheiros da montanha,
As flores tresloucadas
Zombam deles enchendo o espaço em torno
De alegres gargalhadas.
Quando o outono voltou, vi na montanha
Os meus pinheiros vivos,
Brancos de neve, e meneando ao vento
Os galhos pensativos.
Volvi o olhar ao sítio onde escutara
Os risos mofadores;
Procurei-as em vão; tinham morrido
As zombeteiras flores.
*Este poema é a tradução de Machado de Assis do poema publicado em francês do poeta chinês Tin-Tun-Sing.
Em: Antologia Poética para a Infância e a Juventude, selecionado por Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro:1961,p. 173.
Será possivel?
[Peter Pan em Kensington Gardens]
Camille Engel (EUA, contemporânea)
óleo sobre painel de madeira, 50 x 45 cm
Tintin observa o resultado dos pneus furados, ilustração de Hergé.
Todo “barbeiro” sustenta
que a batida foi assim:
– Veio um poste a mais de oitenta,
na contra-mão, contra mim!…
(Izo Goldman)
Retrato de leitora de jornal, c. 1900
Stanislaw Debicki (Polônia, 1866-1924)
Lwowska Galeria Obrazów , Varsóvia
José Eduardo Agualusa
Em: “O embrulho da alma”, José Eduardo Agualusa, O Globo, 22/06/2015, 2º caderno, página 2.
Rodolfo Weigel (Brasil, 1907-1987)
óleo sobre tela, colada em madeira, 24 x 19 cm
William Hogarth (Inglaterra, 1697-1764)
Gravura
Pouco se fala nas perdas emocionais do divórcio, fora o casal e seus filhos, se esses existirem. O vazio, a perda vai muito além do parceiro ou parceira. Com o divórcio perde-se também a família maior: os sogros, cunhados, sobrinhos, tios, todos que, um dia, foram considerados membros de uma unidade, de um universo familiar. Esses podem desaparecer de um momento para o outro como se engolidos por um buraco negro. Lá se afunda, no meio do nada, uma constelação de contatos, de alianças, de pontos de amizade e camaradagem.
Ontem soube que a mãe de meu primeiro marido, minha sogra, faleceu. Ela desocupou a posição oficial de minha sogra há muito anos, mas o coração é grande e em uma parte dele ela sempre reinou. Diferente do estereótipo cultural, eu gostava dela. Tomei-a como exemplo não só durante os nove anos do casamento, mas também nos anos que se seguiram, muito tempo depois, quando eu já fazia parte de outro círculo familiar, resultado de um casamento mais feliz.
Conheci minha primeira sogra, quando eu tinha dezesseis anos e namorava seu filho mais velho. Quatro anos depois, quando nos casamos, ela soube participar dos preparativos e ao mesmo tempo se distanciar quando necessário.
Depois de casada encontrei nela fonte de muitos conselhos práticos, de orientação da cozinha às costuras. Aprendi também o valor dos pequenos rituais; de viver sem dar extrema importância ao que os outros pensam; assim como o dar-se permissão por se ter um gosto diferente, um ponto de vista único. Minha sogra tinha um excelente senso de humor; era independente, determinada e ocupava-se nas ações filantrópicas com a mesma energia que dedicava à família. Era justa. Nos quase quatorze anos de convivência, tive momentos de grande aproximação, principalmente nos meses em que morei com ela, enquanto meu marido, fora do país, começava seu curso de doutoramento e eu, aqui, terminava o ano de estudos no Rio de Janeiro. Ela sempre me tratou bem com carinho, atenção, respeito, camaradagem e cumplicidade. Por uma questão de afinidade, ela se tornou, de fato, membro do meu cosmos familiar.
O divórcio, fora do Brasil, de um casal sem filhos, trouxe um abismo sem fundo nesse relacionamento. Os filhos trazem com eles a obrigação de sempre se estar em contato com a família que era. No meu caso isso não foi necessário. Novos casamentos dos dois lados solidificaram a ausência. Ela, meu sogro, meus cunhados desapareceram. Levaram com eles parte das memórias da minha adolescência e todos os meus vinte anos. Minhas reflexões sobre aqueles quatorze anos estão indubitavelmente marcadas por essa família, em parte porque desde cedo me adaptei, por gosto e inclinação, a uma variedade de atividades que nada tinham a ver com a minha família natural, mas que fizeram parte do meu dia a dia como membro desse clã. Perdi, assim como muitas outras pessoas em um divórcio, um bocado das referências pessoais. No meu caso da adolescência até ao adulto maduro.
O vácuo permaneceu como um ponto fraco e dolorido, até a minha volta ao Rio de Janeiro. Um dia, por coincidência, em uma livraria de Copacabana (minha sogra gostava de ler), ouvi a mocinha da caixa tomar o nome da senhora que estava à minha frente na fila. Era ela, minha primeira sogra. Chamei-a, nos reconhecemos e nos abraçamos. Lágrimas e sorrisos se misturaram, as duas se emocionaram. Muitos anos haviam se passado. Mas tanto foi dito naquele abraço! O meu foi repleto de saudades e de carinho. O encontro não durou muito tempo, o bastante para sabermos que ambas haviam sentido falta uma da outra e que ocasionalmente ponderávamos sobre a outra. Honramos nosso passado em comum. Trocamos pequenas informações e alguns telefonemas depois desse dia, nada mais do que meia dúzia, para desejar um Feliz Ano Novo ou Feliz Aniversário. Mas daquela tarde em Copacabana cheguei em casa feliz. Era disso que eu precisava: nosso encontro finalmente fechou aquele ciclo da vida do qual participamos juntas. Tivemos a oportunidade do adeus. Não foi uma vida, nem tampouco uma semana. Quatorze anos contam, principalmente para uma adolescente à procura de modelos de vida e de comportamento que melhor expressassem seu íntimo. Minha primeira sogra foi importante nessa busca. Por isso mesmo sei que fui privilegiada em conhecê-la. Que a paz esteja com a senhora, D. Léa.