Brasil Holandês: mulheres com direitos quase iguais!

23 01 2014

azulejo holandês no RecifeAzulejo holandês no Recife. Fonte: Archief

As mulheres brasileiras não eram bobas.  Escolhiam, quando podiam, maridos nórdicos que as tratavam com maior respeito e independência. Quem mostra isso é Gilberto Freyre no artigo Arte de cavalgar no tempo dos flamengos, originalmente publicado no Diário de Pernambuco em 4/7/1948, sob o título de Mulheres, cavalos e civilizações.  Reproduzo aqui na integra ainda que a minha fonte seja o livro Pessoas, coisas e animais, de Gilberto Freyre, — ensaios e artigos reunidos e apresentados por Edson Nery da Fonseca,  São Paulo, edição especial MPM Casablanca-Propaganda: 1979.

Arte de cavalgar no tempo dos flamengos

Gilberto Freire

Em seu Valeroso Lucideno e o triumpho da Liberdade (Lisboa, 1648) frei Manuel  do Salvador, ou Manuel Calado descreve as festas que o Conde Maurício de Nassau promoveu em Pernambuco para celebrar a Restauração de Portugal em 1640. Houve banquete. Música. O rio encheu-se de batéis e barcas. Armaram-se palanques. Senhoras exibiram jóias finas.

Mas a parte mais interessante das comemorações foi a que hoje chamaríamos esportiva, com duas quadrilhas de cavaleiros a darem demonstrações de perícia na arte então mais nobre e viril que havia: a de cavalgar. Uma quadrilha era de nórdicos: holandeses, ingleses, alemães e franceses. A outra era de portugueses e brasileiros. A primeira tinha por chefe o próprio Nassau. A outra o fidalgo pernambucano Pedro Marinho.

Primeiro os cavaleiros, com suas lanças, desfilaram de dois em dois pelas ruas do Recife: um português (ou brasileiro) e um nórdico. E pela simples maneira de cavalgarem, parece que se tornaram  de início evidentes os contrastes entre as duas civilizações – a nórdica e a lusitana – que a astúcia política de Nassau, aproveitando-se da notícia da Restauração de Portugal, conseguiu fazer que ostentassem, numa festa quase fraternal, os seus característicos diferentes. Os de uma civilização já burguesa e os de uma civilização ainda feudal. Donde o reparo do padre ainda cronista – o bom frei Manuel dos Óculos – de que animais cavalgados à bastarda pelos homens do Norte não sabiam senão dar saltos. Os cavaleiros se descompunham ao picar os cavalos. Faltava-lhes a arte dos portugueses de irem sobre os animais “à gineta” e “fechados nas selas”.

azu1Azulejo holandês em residência no Recife. Fonte: Ceci

Segundo o cronista, foram os cavaleiros portugueses de Pernambuco que atraíram o melhor entusiasmo das damas, embora ortodoxo inflexível, não se esqueça de observar que “nenhumas se poderiam gabar que português algum de Pernambuco se afeiçoasse à mulher das partes do Norte; não digo para casar com ela, mas nem ainda epara tratar amores, ou para alguma desenvoltura; como por contrário o fizeram quase vinte mulheres portuguesas que se casaram com os homens holandeses ou, para melhor dizer, amancebaram, pois se casaram com hereges e por os predicantes hereges porquanto os holandeses as enganaram, dizendo-lhes que eram católicos romanos; e também porque, como eles eram senhores da terra, faziam as coisas como lhes parecia, e era mais honroso e proveitoso; e se os pais das mulheres se queixavam, não eram ouvidos, antes os ameaçavam com falsos testemunhos e castigos”. Observação que lança alguma luz sobre os casamentos entre católicos e acatólicos que então se realizaram no Brasil, a despeito do clamor dos padres e da Igreja contra eles.

Ao desfile dos cavaleiros, seguiram-se as carreiras em torno das argolinhas e depois o jogo de “aptos à mão”. E a ser exata a notícia que dá dos festejos o padre-cronista, as vitórias foram quase todas dos portugueses de Pernambuco, sempre muito “compostos e airosos” nos seus cavalos e capazes das façanhas mais espantosas como a de, no meio da carreira, passar-se um cavaleiro ao cavalo do outro, nas ancas. O que padre não estranha, pois, que, em Pernambuco, havia então, segundo ele, muitos e mui bons homens de cavalos.

As damas estrangeiras é que ficaram maravilhadas com tais façanhas dos homens de Pernambuco. Frei Manuel informa que houve “inglesas e francesas” que tiraram os anéis dos dedos e os mandaram oferecer aos cavaleiros de Pedro Marinho, “só por os ver correr”. No dia seguinte houve banquete aos cavaleiros, e ceias até de madrugada, com a presença de tais damas “Holandesas, Francesas, Inglesas” e muita abundância de bebidas. Banquetes em que as mulheres bebiam “melhor que os homens”, arrimando-se a bordões, como era costume em suas terras.

54. recife 2 263.jpgAzulejos holandeses no Recife, século XVII. Fonte: Archief

Os festejos promovidos pelo conde de Nassau em Recife, em abril de 1641, parecem ter tornado claros dois contrastes: o contraste entre os cavalos adestrados e cavalgados por homens de uma civilização ainda feudal e os adestrados e cavalgados por homens de civilizações já burguesas e o contraste entre as mulheres daquela civilização não só feudal como católica e não só católica como ainda um tanto mourisca, e as mulheres das civilizações protestantes ou neo-católicas do norte da Europa. Dentro destas civilizações protestantes já havia, no século XVII, damas de tal modo desembaraçadas dos pudores católicos e dos recatos mouriscos, que bebiam melhor que os homens nos banquetes, participavam de suas festas e enviavam ostensivamente presentes a cavaleiros cujas façanhas na arte de cavalgar mais admiravam. Estes é que esquivavam-se ao casamento com mulheres dos países reformados do norte, menos, talvez, por preconceito de ordem rigorosamente doutrinária ou teológica do que moral ou social.

Homens habituados a mulheres doces e passivas, parece que os modos desembaraçados das inglesas, das holandesas, das francesas e das alemãs não os atraíam as mesmas mulheres senão para namoros efêmeros: nunca para o casamento ou o amor conjugal.

O mesmo não sucedeu com as mulheres da terra com os hereges. Foram várias as que aceitaram hereges para esposos. É que das mulheres da terra, algumas parecem ter descoberto ou adivinhado nos mesmos hereges cavalheiros menos airosos que os portugueses ou brasileiros – senhores quase feudais –porém homens menos tirânicos no seu trato com o belo sexo no qual a civilização burguesa-protestante fazia-os ver pessoas quase iguais as deles homens. Daí casos como da bela viúva D. Ana Pais, que se casou ou uniu com mais de um holandês, escandalizando a sociedade patriarcal, católica e quase feudal que era o Pernambuco de sua época.

Em: Pessoas, coisas e animais de Gilberto Freyre, — ensaios e artigos reunidos e apresentados por Edson Nery da Fonseca,  São Paulo, edição especial MPM Casablanca-Propaganda: 1979, pp.233-34.





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos

22 01 2014

Fernando Palma,Cajus,ostsm,1997,87 x 58cmCajus, 1997

Fernando Palma (Brasil, 1948)

óleo sobre tela sobre madeira, 87 x 58 cm

www.fernandopalma.com





Retrato na praia, poema de Carlos Pena Filho

21 01 2014

Julia lendo e descansando na praia, s/d

Nancy Salamouny (Líbano, contemporânea)

http://nancysalamouny.blogspot.com

Retrato na praia

Carlos Pena Filho

Ei-la ao sol, como um claro desafio

ao tenuíssimo azul predominante.

Debruçada na areia e assim, diante

do mar, é um animal rude e bravio.

Bem perto, há um comentário sobre estio,

mormaço e sonolência. Lá, distante,

muito vagos indícios de um navio

que ela talvez contemple nesse instante.

Mas o importante mesmo é o sol, que esse desliza

por seu corpo salgado, enxuto e belo,

como se nuvem fosse, ou quase brisa.

E desce pelos seus braços, e rodeia

seu brevíssimo e branco tornozelo,

onde se aquece e cresce, e se incendeia.

Em: Melhores poemas, Carlos Pena Filho, Sel. Edilberto Coutinho, Editora Global:2000, 4ª edição.

Carlos Pena Filho  nasceu no Recife, em 1929.  Formado em Direito, pela Faculdade de Direito do Recife, foi poeta, letrista, jornalista, ensaísta para o Jornal do Comércio. Morreu num acidente automobilístico em 1960.

Obras:

O tempo da busca, 1952

Memórias do boi Serapião, 1955

A vertigem lúcida, 1958

Livro geral (obra reunida), 1959

Melhores poemas (póstuma) seleção de Edilberto Coutinho, 1983





Nossas cidades — São Paulo

20 01 2014

ÉLON BRASIL - Av. Paulista - ost, 100x130cmAvenida Paulista, São Paulo, s/d

Élon Brasil (Brasil, 1957)

óleo sobre tela, 100 x 130cm





20 de janeiro, feriado na cidade: Dia de São Sebastião

20 01 2014

1301525289_sao_sebastiao__serigrafia_35_x_50_cm_1997.São Sebastião do Rio de Janeiro, 1997

Glauco Rodrigues (Brasil, 1929-2004)

Serigrafia, 35 x 50cm

Hoje é feriado no Rio de Janeiro, pois é o dia do santo padroeiro da cidade: Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.  Nada melhor do que esta gravura de Glauco Rodrigues em que o santo aparece no primeiro plano com a baía de Guanabara e o Pão de Açúcar ao fundo, para lembrar a data.





Imagem de leitura — Wincenty Wodzinowski

20 01 2014

Wincenty Wodzinowski (1866 – 1940, Polonia )Filha do artistaFilha do artista, s/d

Wincenty Wodzinowski (Polônia, 1866-1940)

óleo sobre tela





Domingo, um passeio no campo!

19 01 2014

ALÍPIO DUTRA - Touceiras de bambu - Óleo sobre tela - Pinacoteca do Estado de São PauloTouceiras de bambu, s/d

Alípio Dutra (Brasil, 1892-1964)

óleo sobre tela

PESP — Pinacoteca do Estado de São Paulo





Flores para um sábado perfeito!

18 01 2014

Vicente do Rêgo Monteiro,Flores, 1920,- aquarela, 41x37 cmFlores, 1920

Vicente do Rego Monteiro (Brasil, 1899-1970)

Aquarela, 41 x 37 cm





Felipe IV de Espanha um verdadeiro Don Juan

18 01 2014

434px-Juan_Jose_de_AustriaJoão José da Áustria, 1655-1660

[Filho de Felipe IV de Espanha e La Calderona]

Anônimo

óleo sobre tela

Museu do Prado, Madri

Durante seu reinado, Felipe IV, rei da Espanha, (e de Portugal e consequentemente do Brasil, de 1621 a 1640) conhecido como “O Formoso” porque era considerado muito atraente, tinha o hábito das infidelidades conjugais. Conta-se que ao morrer havia tido mais de 37 filhos bastardos, e um único reconhecido por ele:  Don Juan José de Austria, cuja mãe era uma famosa atriz da época, Maria Calderón (La Calderona).  Aos dezesseis anos de idade, ela atraiu a atenção do monarca em sua estreia no Teatro Corral de la Cruz em Madri em 1627.  Nessa época estava envolvida romanticamente como Duque de Medina de las Torres.  Mas rei é rei… E Felipe IV exigiu que ela deixasse de lado o amante e o teatro e lhe deu um palácio em Madri para morar. Quando seu filho nasceu em 1629 Felipe IV o reconheceu como filho mas não deixou que ela o educasse, o menino foi mandado para uma família de confiança no interior, onde foi educado.  Perdendo a custódia do filho o relacionamento  de La Calderona  com o rei acabou no mesmo ano. Ela continuou vivendo em Madri até 1642, quando ingressou no convento beneditino  San Juan Bautista en Valfermoso de las Monjas, Guadalajara, onde acabou sendo abadessa no ano seguinte.  Maria Calderón morreu três anos depois em 1646, aos 35 anos de idade. Boatos davam ao Duque de Medina de las Torres, Ramiro Pérez de Guzmán, paternidade ao filho do rei.

LaCalderona

Retrato de Maria Inês Calderón, Anônimo.





Palavras para lembrar — Edmund Wilson

17 01 2014

Girl in Green by Sara HaydenJovem de verde, 1899

Sarah Sewell Hayden (EUA, 1862-1939)

óleo sobre tela

Sheldon Museum of Art, Lincoln, NE

“Duas pessoas nunca leem o mesmo livro”.

Edmund Wilson (1895-1972)