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Sonhando acordada, 1871
Adrien de Boucherville (França, 1829-1912)
óleo sobre tela, 46 x 39 cm
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Menino segurando pipa, 2005
David Ricci (Brasil, contemporâneo)
óleo sobre tela, 60 x 40 cm
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Carlos Chiacchio
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Certa vez, era noite de luar,
Havia vento
A valer.
Bom para empinar
Meu papagaio oblongo de espavento.
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Se havia vento, que importava a noite.
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Era só dependurar
Longo,a lanterna acesa a todo o açoite
Do vento, e soltar
Meu papagaio oblongo, num momento.
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Dito e feito.
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Mas, ao peso da lanterna, não subia
O invento,
Senão a curtos vôos, de jeito
Que toda gente via
Com certo espanto aquela luz ao vento:
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“Vai destelhar as casa com tamanho arrojo…
“Vai pegar fogo em tudo, e o sobressalto
“E o incêndio semear daquele bojo….”
Era, esse, o tom geral da gritaria.
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Mas de repente,
Meu lindo papagaio
Brilha, de súbito, como um raio,
A bailar ziguezagueando pela altura,
Muito acima do clamor de toda a gente,
Meu alado sonho de papel luzente,
Alto, a voar, muito alto…
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Até perder de rumo…
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Até a chama apagar…
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Até tornar-se em fumo…
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Em: Encantos literários: antologia, Deomira Stefani, São Paulo, Ática:s/d
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Carlos Chiacchio ( Januária, MG 1884 – Salvador, BA, 1947) jornalista, orador, poeta, cronista, crítico literário, membro do IGH-BA, Academia de Letras da Bahia, foi o chefe e animador do grupo modernista na Bahia, em 1928, em torno da revista Arco & Flecha (1928-1929). Estudou no colégio Spencer em Salvador, cidade onde mais tarde também se formou em medicina.
Obras:
A Dor, 1910
A Margem de uma polêmica, 1914
Biocrítica, 1941
Canto de marcha, 1942
Cronologia de Rui, 1949
Euclides da Cunha, 1940
Infância, poesia, 1938
Modernistas e Ultramodernistas, 1951
Os grifos, 1923
Paginário de Roberto Correia, 1945
Presciliano Silva, 1927
Primavera, 1910, 1941
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À luz de vela, 2005
Marek Langowiski (Polônia, contemporâneo)
óleo sobre tela
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Christian Bobin
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O espião que sabia demais [Tinker Taylor Soldier Spy]
Nop Briex (Holanda, 1965)
óleo sobre tela
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Há muito eu tinha curiosidade sobre o duplo espião britânico, Anthony Blunt. Conheci-o como historiador da arte especializado na pintura européia do século XVIII; diretor de um dos mais sérios centros de pesquisa da arte, Courtauld Institute of Art. Mas antes mesmo de eu me formar em história da arte, o escândalo no qual ele foi figura central — agente duplo do serviço secreto britânico MI5 para a Inglaterra e agente para a União Soviética dos anos 30 ao início dos anos 50, membro do chamado Cinco de Cambridge [Cambridge Five] ainda era debatido e questionado. Nada poderia ter surpreendido mais o mundo dos museus e da pesquisa acadêmica do que a descoberta de que o pacato mundo das bibliotecas e dos porões de museus poderiam ter servido de disfarce para tal profissão. A partir de 1979 Anthony Blunt passou a ter uma nuvem de mistério a sua volta. Como? Porque? Não que a vida particular de qualquer historiador de arte seja de interesse público mas espionagem era algo completamente fora da norma. E vez por outra, na atividade comum de perda de tempo à volta de uma mesa de bar, nós, estudantes de pós-graduação tentávamos imaginar como uma pessoa de tamanho porte acadêmico, tão chegada à Rainha da Inglaterra, poderia ter se imiscuído na espionagem e contra-espionagem?
John Banville responde a todas essas questões e a muitas outras nesse romance biográfico baseado na vida de Anthony Blunt, retratado sob o pseudônimo de Victor Maskell. Fazem parte do enredo também Guy Burgess e Donald Maclean, (todos com pseudônimos) do grupo ‘Espiões de Cambridge’. Banville preenche lacunas e satisfaz nossas dúvidas. Este é o estudo profundo de uma personalidade. Talvez um dos personagens mais tridimensionais da literatura atual. É vívido. Parece real. A história é sedutora e Banville nunca deixa de entreter e acima de tudo de mostrar a pessoa complexa e coerente do homem e do espião, dentro dos parâmetros sociais e de época.
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Mas, parafraseando Tom Jobim, “A Inglaterra não é para principiantes”. Para uma compreensão mais apurada do texto, um bom conhecimento das nuances da sociedade inglesa certamente ajudará na leitura; uma boa dose da história do enlace das classes altas inglesas com a política nazista, também. Por fim, um conhecimento superficial, mas coerente do estoicismo e da posição ética de Sêneca podem ajudar a entender a percepção que Banville tem de Blunt. Será interessante lembrar também os preconceitos da sociedade, numa época anterior à Segunda Guerra Mundial – homossexualismo, conflito de classes, a questão irlandesa — tudo isso adicionará uma pitada de interesse. E o mundo da década de 30 estava enamorado do socialismo, ato que justificou ditaduras de direita e de esquerda do período: Itália (Mussolini), Espanha (Franco),Portugal ( Salazar), Nicarágua (Somoza), Brasil (Vargas), Grécia (Metaxas), Cuba (Batista), Rússia (Stalin), sem mencionar a Alemanha de Hitler. Fica evidente através do texto que Anthony Blunt não se sentia parte nem da sociedade inglesa, nem de nenhuma outra. Era um verdadeiro estranho no ninho: irlandês, pobre mas com nome de família – primo distante da rainha — , homossexual, com acesso ilimitado à corte – não é de surpreender, portanto, seu solipsismo, sua visão única do mundo como uma projeção de suas próprias fantasias. A tendência seria desgostar dessa personalidade dúbia, inconseqüente, com uma atitude tão blasé em relação à vida, como Anthony Blunt é retratado. Mas, pelo contrário, talvez porque a narrativa seja na primeira pessoa, talvez porque estamos rodeados dos detalhes que fazem o personagem crível, ficamos com a justa dimensão de um homem de grande conhecimento. John Banville não o retrata menor do que era.
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No entanto, há sempre, e aí está parte do charme deste romance de suspense, a dúvida: será que Victor Maskell está nos dizendo tudo o que sabe? Há algum motivo para acreditarmos na realidade que ele nos descreve? Espião, agente duplamente inconfiável, Victor Maskell [será que o nome vem de Mask, máscara?] é o anti-herói por excelência, figura trágica, cuja vida é passada em pequenos compartimentos e se equilibra, desde os primeiros dias da juventude entre mostrar e viver o que não é: da vida de espionagem à vida sexual.
Como um mestre John Banville também brinca com o leitor ao desenvolver como tema o amor que Maskell tem por um quadro de Poussin: A Morte de Sêneca [fictício]. E dúvidas quanto à sua autenticação só intensificam o eco das perguntas que fazemos sobre a narrativa, é verdadeira ou falsa? O pintor francês do século XVII Nicolas Poussin foi de fato objeto de estudo de Anthony Blunt como historiador da arte. Mas, a presença de um quadro inexistente, cuja autenticação depende de Maskell é um paralelo magistral ao jogo de espelhos que a vida do espião reflete. Victor Maskell assim como Anthony Blunt, têm o fim que merecem: são traídos. Um pouco de justiça poética arrematando uma vida de fantasias.
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Livro bom é como o trigo:
hóstia branca, pão dourado
Na solidão, é o amigo
que vem dormir ao teu lado…
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(Eloy Maria de Oliveira Fardo)
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A tradição dizia que o retrato a óleo [acima] em uma das salas particulares do Palácio de Lambeth mostrava a sexta esposa de Henrique VIII, Catarina Parr (1512-1548). Mas especialistas da National Portrait Gallery de Londres, que foram ao palácio, residência oficial do Bispo de Canterbury, com a intenção de estudar o retrato de William Warham (1450-1532), arcebispo de Canterbury no século XVI, parte de um projeto titulado: Fazendo Arte na Inglaterra Tudor, ficaram interessados no retrato da dama, parte da decoração da sala íntima da residência, desde o século XIX. Examinaram o Retrato de Catherine Parr e notaram algumas discrepâncias, colocando em dúvida a atribuição. Alguns detalhes não se encaixavam: a moldura do quadro era obviamente de data anterior ao casamento de Catarina Parr. As roupas da rainha consorte também pareciam ser antiquadas, para o período supostamente retratado e por fim, a pessoa retratada tinha uma semelhança enorme com a primeira esposa de Henrique VIII, Catarina de Aragão (1485-1536). Os especialistas pediram, então, ao atual arcebispo de Canterbury e aos Comissários da Igreja, o empréstimo do quadro para submetê-lo a uma análise técnica mais aprofundada. O bispo permitiu, começando assim o projeto da nova atribuição de um antigo quadro.
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Os testes logo mostraram que os especialistas tinham razão em querer examinar o quadro com cuidado. Submetido a raios-X e luz infra-vermelha o painel – é um óleo sobre painel de madeira – mostrou surpresas. A equipe descobriu que, se removida, a pintura de fundo mostraria o fundo original, uma pintura de um painel [um pano de fundo] de seda adamascada verde, semelhante ao de um retrato de Henrique VIII, pintado em 1520, e parte da coleção da National Portrait Gallery em Londres. O exame de raio-X do adorno de cabeça de Catarina Parr mostrou que ele fora alterado, que originalmente havia um véu, ítem semelhante aos usados na época de Catarina de Aragão. Além disso suas feições haviam sido modificadas. As evidências ajudaram à conclusão de que era de fato um retrato de Catarina de Aragão, que se tornou a primeira esposa de Henrique VIII, depois que seu irmão mais velho Artur, que ela havia esposado em 1501, morreu.
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Além das análises feitas na pintura em si, Charlotte Bolland, curadora da National Portrait Gallery de Londres, lembrou que até mesmo a moldura do quadro ajudou a refazer a identificação da pessoa retratada. “Ficou imediatamente aparente que se tratava de uma moldura bem mais antiga, produzida de uma maneira relativamente rara, típica do início do século XVI, um tipo de moldura que havia ficado fora de moda”. Alguns detalhes do acabamento decorativo da moldura sobreviveram, entre a pintura posterior e a folha de ouro. Isso foi de grande valia para a equipe de especialistas do museu porque molduras com acabamentos da época Tudor são extremamente raras. A moldura combina detalhes pintados em ouro com faixas coloridas em azul e vermelho, que eram pintadas com pigmentos de azurite e vermillion. Como uma grande parte do acabamento original foi recuperado, a equipe de reatauração da National Portrait Gallery conseguiu reconstruir as áreas perdidas ou prejudicadas. A restauração do contraste de cores usados na moldura dessa obra ajuda na compreensão dos valores estéticos da época. Outro aspecto considerado foi o vestuário: o que aparece, já não era usado na época de Catarina Parr, que nasceu em 1512, três anos depois do casamento de Catarina de Aragão com Henrique VIII. Além disso havia as características faciais em maior harmonia com Catarina de Aragão do que com Catarina Parr.
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Numa ironia do destino, hoje os retratos de Henrique VIII e Catarina de Aragão estão expostos lado a lado na National Portrait Gallery em Londres. Para quem se lembra, esse casamento acabou em divórcio, servindo de marco para a separação da família real inglesa da igreja católica. “Henrique VIII e Catarina de Aragão foram casados por 24 anos e durante esse período seus retratos teriam sido mostrados em conjunto, como rei e rainha da Inglaterra”, observou Charlotte Boland.
A princesa espanhola Catarina de Aragão foi a primeira esposa de Henrique VIII. Ela havia sido anteriormente casada, aos 15 anos de idade, com Artur o irmão mais novo de Henrique VIII. Mas Artur morreu seis meses depois do casamento. Ela ficou viúva aos 16 anos. Henrique VIII, então herdeiro do trono, casou-se com Catarina de Aragão, que foi coroada rainha da Inglaterra em uma cerimônia de coroação conjunta com seu marido.
Pouco depois de seu casamento Catarina ficou grávida, mas deu à luz uma filha natimorta em janeiro de 1510. A gravidez subseqüente resultou no nascimento do Infante D. Henrique em 1511 e houve grande festa, mas ele morreu depois de 52 dias de nascimento. Catarina de Aragão depois teve um aborto espontâneo, seguido por um outro filho de vida curta, mas em fevereiro de 1516, deu à luz uma filha saudável, Maria. E a criança sobreviveu.
Henrique VIII ainda amava a sua esposa, mas ficou frustrado com a falta de um herdeiro masculino e tomou várias amantes, entre eles Maria Bolena, irmã de Ana Bolena. Ana se recusou a se tornar amante de Henrique VIII, mas ele foi insistente e ela sucumbiu. A preocupação de Henrique VIII com um filho só aumentou.
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Maria I de Inglaterra, por Mestre John, óleo sobre painel de carvalho, 1544, National Portrait Gallery, Londres.–
Esta preocupação tornou-se ainda maior quando ele leu em Levítico que se um homem se casasse com a mulher de seu irmão, o casal permaneceria sem filhos. Apesar de ter uma filha, Henry ainda se sentia “sem filhos” por não ter um filho homem. Henrique VIII então pediu ao papa para que anulasse seu casamento. Quando Catarina – uma católica devota – soube disso, ela mesma também apelou para o Papa, defendendo sua posição, contra o divórcio. Ela argumentou que, como ela e Artur nunca haviam consumado o casamento, eles não eram marido e mulher de fato.
Essa briga continuou por seis anos e as coisas chegaram a um ponto em 1533, quando Ana Bolena engravidou e Henry decidiu que a única maneira de se casar com ela seria rejeitar o poder do Papa na Inglaterra. E conseguiu que Thomas Cranmer, arcebispo de Canterbury, anulasse o casamento.
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Catarina de Aragão implora a Henrique VIII contra o divórcio, s/d
[pintura do século XIX]
Henry Nelson O’Neil (Rússia, 1817- Inglaterra, 1880)
óleo sobre tela, 42 x 65 cm
Museu e Galeria de Arte de Birmingham, Inglaterra
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Catarina teve que renunciar seu título de Rainha e ser conhecida como a Viúva Princesa de Gales, o que rejeitou para o resto de sua vida.
Catarina e sua filha Mary foram separadas e ela foi forçada a deixar a corte real, vivendo em casas senhoriais úmidas e castelos com apenas uma meia dúzia de servos. Dizia-se que sofreu problemas de saúde por esse motivo, mas nunca se queixou, e passou grande parte de seu tempo rezando. A filha de Catarina e Henry tornou-se rainha Maria I de Inglaterra em 1553 e era conhecida por sua brutal perseguição aos protestantes – ganhando o apelido de “Bloody Mary” [Maria Sangrenta].
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Lembrando as esposas de Henrique VIII:
Catarina de Aragão (Espanha, 1485-1536)
Ana Bolena ( Inglaterra, 1501-1536)
Jane Seymour ( Inglaterra, 1508-1537)
Ana de Cleves ( Alemanha, 1515-1557)
Catarina Howard (Inglaterra, c. 1518–1524 – 1542)
Catarina Parr ( Inglaterra, 1512-1548)
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Esta postagem é em comemoração à exposição dos quadros de Henrique VIII e Catarina de Aragão, juntos, a partir do dia 23 de janeiro de 2013, na National Portrait Gallery em Londres.
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Fontes: National Portrait Gallery. The Daily Mail
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Ana Maria Machado
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Siri
não ri
em serviço.
Se troca a casca
vira ouriço
procura concha,
busca uma toca e,
sumiço.
Não dá mole por aí.
Pra não virar sopa
faz boca
de siri.
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Em: Sinais do Mar, Ana Maria Machado, São Paulo, Cosac Naify: 2009 , 1ª edição.