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Natal, Cartão Postal.
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“O Natal não é uma época. É um sentimento”.
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Edna Ferber
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Pato Donald e urso tornam-se amigos, ilustração de Walt Disney.–
Planta a semente do afeto
em tua estrada e verás
brotar um mundo repleto
de compreensão e de paz.
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(Lila Ricciardi Fontes)
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Ó, árvore de Natal!
Hans Stubenrauch (Alemanha, 1875-1941)
óleo sobre tela, 28 x 19 cm
Leilão Christie’s South Kensington, 2012
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Machado de Assis
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Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
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Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
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Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
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E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”
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Trigal, 1989
Armando Romanelli (Brasil, 1945)
óleo sobre tela, 40 x 50 cm
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Coelho Neto
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Por todo o vasto Éden espalhou-se, maravilhado e risonho, o olhar do primeiro homem.
Viu as florestas frondosas, em cujas franças rendilhadas esgarçava-se o nevoeiro da manhã; viu as campinas alegres pelas quais numerosos rebanhos se apraziam; viu os montes de encostas de veludo; viu os rios claros, largos, retorcidos em meandros, discorrendo por entre as margens de ervaçais floridos e acenoso arvoredo; viu as fontes borbulhando em bosques aceitosos.
Animais de várias espécies cruzavam-se pelos caminhos – leões de juba altiva, elefantes monstruosos, antílopes e corsas, leopardos e gazelas e aves de plumagem branca ou de penas variegadas junto a ribeiras tranqüilas, vogando em ínsula de flores, pousadas em ramos ou atravessando os ares, alegrando com o seu concerto o silêncio grandioso.
Os frutos ofertavam-se nos galhos, as flores desfaziam-se das pétalas recamando a alfombra e esparzindo o aroma dos ares.
O home, ainda incerto, ia e vinha, ora parando à beira das águas que o refletiam, ora chegando à ourela dos bosques, saindo às várzeas, mudo, em êxtase contemplativo.
Deus, que de longe o assistia com o seu olhar, achava-o perfeito, airoso e forte, digno de ser o senhor do mundo e de todas as criaturas.
O sol ardia estivo e, de toda terra exuberante, exalava-se um hausto cálido, uma respiração abrasada que amolecia e adormentava.
As folhagens encolhiam-se, murchando; as flores pendiam lânguidas nos caules; os animais refugiavam-se nos bosques ou penetravam as furnas tenebrosas; as próprias águas desciam lentas, com preguiça, sob a irradiação cáustica da luz que refulgia tremulamente no azul diáfano.
Deus errou em passos lentos pelas silenciosas veredas e toda pedra que seus pés tocavam fazia-se luminosa, com rebrilhos faiscantes e cores admiráveis. Era aqui um seixo que se ensangüentava em rubi, ali um calhão esverdeando-se em esmeralda, outro tomava um colorido flavo ou roxo e, mirificamente, iam-se todos transformando e adquirindo cor, desde o tom lácteo da opala até o esplendor cerúleo da ametista, desde o límpido fulgir do diamante ao lampejo solar dos prazios amarelos. As areias faziam-se de ouro, rutilando, como haviam ficado mo leito do córrego em que o Senhor, depois de haver plasmado o homem com o barro sanguíneo, lavou e refrescou as mãos benéficas.
Foi-se o Criador encaminhando a um campo que ondulava e sussurrava às aragens e que era um trigal.
Nele entrando, sem que as pombas e as calhandras se assustassem, a frescura convidou-o ao repouso.
Deitou-se e os trigos fecharam-se suavemente formando um ninho aromal e sombrio onde o sono foi agradável.
Já as roxas nuvens anunciavam o crepúsculo quando, ao suave prelúdio dos rouxinóis, abriram-se os olhos divinos. Deus, que gozara a delícia do sono, ergueu-se. Então, mansamente, uma voz meiga elevou-se no campo louro.
— Senhor, que vos não pareça de vaidoso a minha requesta, não é por orgulho que vos falo, senão porque me sinto por demais miserando na grandeza de vossa criação. Fizestes a árvore sobranceira dando-lhe o tronco, dando-lhe os ramos, vestindo-as de folhas, cobrindo-a de flores e ainda a carregais de frutos; as suas frondes altas topetam com as nuvens. Aos que não destes grandeza e força, ornaste com a raça mimosa da flor; só eu, pobre de mim! Fui esquecido por vós. Quando vos vi chegar para mim tive vexame de receber-vos, tão pobre sou! Trigo mísero.
Era o trigo que assim falava.
Parou o Senhor a escutá-lo e, compadecido das suas palavras, estendeu a mão abençoando-o:
Agasalhaste o meu sono com a pobreza, trigo tenro e frágil, deste-me generoso abrigo e resguardaste-me do sol. Não fique memória na terra de uma ingratidão d’Aquele que mais a detesta e, para que o exemplo sirva e aproveite, abençôo-te e amerceio-te com a força e com a Graça.
Fraco, darás o alimento essencial; mísero, encerrarás em ti o mistério divino. Será o pão e serás a hóstia e assim, com a tua franqueza, suplantarás a árvore mais vigorosa e com a tua humildade serás maior que o sol.
No teu seio desabrocharão as papoulas e, dentro em pouco, a flor virá anunciar-te a espiga e a espiga dará a farinha branca, que será força nos homens e sacrário da minha essência. Assim Deus, engrandecendo-os, responde à esmola dos pequeninos.
Disse, e, contente, mais com o que fizera ao trigo do que com a criação de todo o universo maravilhoso, ao clarear da lua, quando os rouxinóis cantavam, remontou ao céu entre os anjos que foram, em coros, pelos ares claros, apregoando a sua onipotência e a sua misericórdia.
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Em: Coelho Neto e a ecologia no Brasil, 1898-1928, org. Eulálio de Oliveira Leandro, Imperatriz, MA, Editora Ética: 2002
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Ilustração, autoria desconhecida.–
Quanta gente nos ilude
e julgamos ser verdade
aquela máscara rude
que finge sinceridade!
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(Gabriel Bicalho)
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Natal na escola, ilustração de Amos Sewell, (EUA, 1901-1982), para anúncio do Carro Pontiac.–
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Norman Vincent Peale
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Coração, ave sem penas,
às penas do amor sujeito,
não sei se vives ou penas
na gaiola do meu peito.
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(Athayr Cagnin)
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Caçadores no bosque, 1880
Antoni Piotrowski (Polônia, 1853-1924)
Óleo sobre tela, 127 x 170cm
Christie’s Auction House, junho 2009
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Um pequeno romance de grande impacto, As Brasas de Sándor Márai revolve em torno da amizade de dois homens, amizade de infância. A trama é simples: um confronto entre dois amigos após quarenta e um anos de separação. Um evento, que se esclarece ao longo da segunda metade do livro, foi o ponto de fricção entre eles. O encontro entre os dois, cuidadosamente encenado por Henrik, um militar aposentado do exército do antigo império austro-húngaro, leva ao clímax do romance, quando, num penoso e intenso solilóquio, ele descortina as nuances de emoções e comportamentos, que explicam e justificam o evento que levou ao término da amizade.
Nesse monólogo raramente interrompido por Konrad, o amigo que o visita, e que agora reside em Londres, Henrik explora suas reações ao longo dos anos, depois da separação dele, do amigo e de Krisztina, sua esposa. A trama traz ao proscênio o melhor que a literatura tem a dar: um estudo das emoções humanas. Como componentes da trama, fazendo parte do cenário, trazidos vez por outra para o foco de luz no palco, estão o amor, a inveja, a traição, a honra e o dever.
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No entanto há uma extensa metáfora nessa encenação, que se passa no ano de 1919, logo após a desintegração do império austro-húngaro. Ambos os amigos vêm de famílias com nobreza, mas Henrik pertence a uma família mais importante, mais chegada à realeza húngara, enquanto Konrad vem de uma família nobre empobrecida, cujos laços nobiliárquicos estavam enraizados na Polônia e que precisa vender terras para poder mantê-lo na escola militar. Há um desequilíbrio de classe social e financeiro entre os dois que faz um paralelo direto com a realidade daquele império formado em 1867, entre a casa dos Habsburgos e a família real da Hungria. Quando Sándor Márai caracteriza a amizade como um dever, na fala de Henrik, ele fala de amigos ou de nações? E Konrad lembra a Henrik, que tudo que juraram defender, já não existe, mas Henrik só admite que o modo de vida do qual fazia parte talvez não exista mais ao final da narrativa.
Konrad é retratado não só como passional como indigno de confiança, como quando toca piano, uma peça de Chopin, de quem era parente distante, e se transforma. Falsidade e deslealdade eram características atribuídas a povos não húngaros. Para Henrik, ou melhor, para o verdadeiro húngaro, Konrad prova ser dessa estirpe desleal, assim como por extensão sua própria mãe e Krisztina, sua esposa. Ainda que a presença de Konrad pareça quase acidental na trama, já que é o monólogo de Henrik que revela a complexidade de seus sentimentos e de suas ações, Konrad é essencial pois torna-se o avesso, a imagem espelhada, de Henrik. Assim vemos os dois lados do império austro-húngaro: a nobreza traída, e os que dela escaparam, mesmo que a grandes penas. Diferente do esperado esta é uma história escrita não por quem venceu a guerra, mas por quem a perdeu.
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Sándor Márai
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Eventualmente Henrik reconhece que há coisas piores do que o sofrimento e a morte, entre elas, a perda do amor-próprio. E isto também pode ser visto não só como sua descoberta pessoal depois de passar quarenta e um anos analisando os eventos que levaram ao final dessa amizade, como pode ser considerado o retrato daqueles que por orgulho, dívida, dever resistiram à dissolução do império.
Como eixo da trama está Krisztina, traída duas vezes: por Henrik e por Konrad. Uma mulher enigmática, estrangeira, pobre, que receia seus próprios pensamentos e mantém um estranho diário, documento íntimo, cuja importância Henrik cultiva através dos anos e que ao final se faz totalmente desnecessário. Ela também pode ser vista por dois ângulos: traída por dois homens e traidora dos dois. Que versão adotar?
As brasas é uma obra que nos leva a pensar em círculos. A considerar as desventuras do ser humano. É apropriado perguntar se precisamos de tanto sofrimento. De tanta angústia auto-imposta. E vale lembrar que as conotações de valores como dever, dívida, lealdade, mesmo que possam ser consideradas absolutas por uns, terão sempre uma dualidade, um reverso que pode não ser esperado.
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Ano Novo, s/d
Alexandre Gulyaev (Rússia, 1917-1995)
óleo sobre tela
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Lindolfo Gomes
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Nas noites de Natal, da minha infância,
Tinha brinquedos nos meus sapatinhos,
Que um Anjo transformava em doces ninhos,
Iludindo-me à ingênua vigilância.
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Do nosso lar na idolatrada estância,
A mesa posta, com iguaria, vinhos…
Minh’alma respirava a sã fragrância
Dessas flores silvestres dos caminhos.
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Agora no Natal desta velhice,
Seguindo a vacilar por ínvios trilhos,
Arrasto os sapatões, ao léu do fado…
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Mas me revejo em plena meninice,
Ao ver nos sapatinhos de meus filhos
Meus brinquedos, meus sonhos, meu passado…
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Lindolfo Eduardo Gomes (SP 1875 – RJ 1953) Poeta, Jornalista, contista, ensaísta, folclorista, professor e teatrólogo. Passou sua juventudo em Resende, no estado do RJ, mudando-se mais tarde para Juiz de Fora, MG, onde passou grande parte da sua vida profissional tendo redigido para os jornais O Pharol, Jornal do Commercio, Diário do Povo, Diário Mercantil, revista Marília,entre outros.
Obras:
Folclore e Tradições do Brasil, 1915
Contos Populares Brasileiros, 1918
Nihil novi, 1927
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Alfredo Araujo Santoyo (Colômbia, 1972)
desenho a carvão sobre papel, 35 x 27 cm
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Joyce Carol Oates