O Maracujá, poesia de Sônia Carneiro Leão

10 04 2014

 

Aquarela_Passiflora_edulis_01Ilustração botânica do maracujá [Passiflora edulis Sims] de Maria Cecília Tomasi.

O Maracujá

Sônia Carneiro Leão

Pego o maracujá e me assusto

Tão dura e tão oca

essa fruta mais louca

me deixa perplexa

de tão desconexa.

Sua carne é só casca.

Seu ventre, sementes.

Sua polpa tão pouca,

não dá pros meus dentes,

Maracujá intrigante,

enrugado, velhinho,

de gosto aceso, bacante,

como o do vinho.

Quero morder, não consigo.

Chupar, tão pouco não posso.

Que fazer, então, contigo,

com o teu paradoxo?

Ninguém o fura com o dedo

para evitar contusão,

esconde dentro o segredo

o doce-azedo da paixão.

Respeitamos o non-sense

da sua concepção.

Em: Respostas ao Criador Das Frutas, Sônia Carneiro Leão, auto-publicação,Holos Design,  ilustrado por Renata Vilanova, p. 13.

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Sônia Carneiro Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas reside em Recife.  Psicanalista, escritora, poetisa, contista  e tradutora.

 





Canção do outono — poesia de Mário Quintana

7 04 2014

outono, Paul Bransom (1885-1979)Outono, ilustração de Paul Bransom (1885-1979).

Canção de Outono

Mário Quintana

O outono toca realejo

No pátio da minha vida.

Velha canção, sempre a mesma,

Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?

Como é possível sabê-lo?

Um gozo incerto e dorido

De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?

Colher as horas, em suma…

Mas os caminhos do Outono

Vão dar em parte nenhuma!

Em: Prosa e Verso, Mário Quintana – série paradidática Globo, Porto Alegre, Edições Globo: 1978, p. 12

 





Quadrinha do orgulho

5 04 2014

orgulhoso demais,

Orgulho é como se fosse

uma bolha de sabão:

com um sopro do destino,

espatifa-se no chão.

(Ailsa Alves Santos)





Quadrinha do pé na estrada

2 04 2014

homem e cachorro, hergéTintin e cachorro, ilustração de Hergé.

Faze da vida, sem pressa,

um constante aprendizado;

toda estrada só começa

no primeiro passo dado!

(Nélio Bessant)





Quadrinha do amigo

25 03 2014

Amigos, Mark ArianAmigos, Mark Arian

Amigo é um grande tesouro

guardado com muito jeito.

A chave é talhada a ouro,

a fechadura é no peito.

(José Carlos Gomes)





Boizinho velho, poesia de Henriqueta Lisboa

19 03 2014

dp_26-06-2013_03Boi no pasto, 2013

Cristina Jaco (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 40 x 50 cm

www.cristinajaco.art.br

Boizinho velho

Henriqueta Lisboa

Boizinho de olhos cansados

boizinho de olhos compridos

sentado nas quatro patas

numa curva do caminho.

Os carros subindo o morro

(boizinho agora se lembra)

cantavam — ou era um choro?

Mas isso foi no outro tempo.

Em: Nova Lírica, Henriqueta Lisboa, Belo Horizonte, Imprensa Oficial: 1972, p.36





Quadrinha da sombrinha

17 03 2014

mulher-na-chuvaIlustração Sérgio Bastos.

De onde vens hoje, ó vizinha,

que assim às tontas, ao léu,

– na curva azul da sombrinha

pareces trazer o céu?

(Gentil Fernando de Castro)





Sombra, poema de Flora Figueiredo

16 03 2014

Jan Catharinus Adriaan GoedhartA carta, 1930

Jan Catharinus Adriaan Goedhart(Holanda, 1893 – 1975)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

Coleção Particular

Sombra

Flora Figueiredo

Tem um lugar no meu quarto

em que a luz não entra.

Tudo que se tenta

não dá certo.

Em vão tirar telha,

abrir janela,

furar o teto.

Postou-se ali um escuro

soturno e quieto,

recentemente diagnosticado.

É uma fração de passado

que o tempo não leva

para não rever fatos,

e que a vida ceva

porque é da vida conservar mandatos.

Para que o escuro seja então cassado,

é preciso um clarão qualificado,

capaz de sorvê-lo em sucção;

que durante o processo de deglutição

use artimanha,

até transformá-lo em cavidade.

É nesse vão que vai florar felicidade,

parida da entranha do bicho-papão.

Em: Amor a céu aberto, Flora Figueiredo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1992, p. 101.





Quadrinha do verdadeiro amigo

13 03 2014

doente, dodoi, Margret BorissIlustração de Margret Boriss.

Somente um bem acontece

quando a gente cai doente:

aí é que se conhece

quem é amigo da gente.

(Aloísio Alves da Costa)





Namoro em tom menor, poesia de Stella Leonardos

11 03 2014

Cartão Postal da virada do século XIX para o XX.

Namoro em tom menor

Stella Leonardos

— Eu fui andando

Por um caminho.

— Eu fui também.

— Eu vi cantando

Um passarinho.

— Eu vi também.

— Ia pensando

Em fazer ninho.

— Você também?

Em: Fantoches, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1956