Trova da pobreza

29 12 2014

 

A_Couple_and_Two_Children_Sleeping_on_a_London_Bridge)_by_Gustave_DoreUm casal e duas crianças dormindo na London Bridge, 1871

Gustave Doré (França, 1832-1883)

gravura,  19 x 24 cm

Berger Collection, Denver Art Museum

 

 

Pobreza, mísera peça,

soluços, pranto, ruína…

Té a palavra começa

por onde tudo termina.

 

 

(L.J. Soares de Macedo Fº)





Viagem, poesia de Odylo Costa Filho

27 12 2014

 

 

Eduardo Cambuí Figueiredo Junior (Brasil, contemporâneo)Av. Paulista com Rua Pamplona, 2004, Óleo sobre tela - 150 x 60 cm - 2004Avenida Paulista com Rua Pamplona, 2004

Eduardo Cambuí Figueiredo Jr (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 150 x 60 cm

 

 

Viagem

 

Odylo Costa Filho

 

Mote:
Veste o terno mais velho, e vai-te embora.
Alphonsus de Guimarães Filho

 

 

Veste o terno mais velho, e vai-te embora.

Atravessa o quintal e pula o muro.

E entre morte do luar e a luz da aurora

parte na antemanhã, ainda no escuro.

 

Bebe as velhas fachadas, as cidades

que a água penetra, ameiga e acaricia;

e nelas o sinal de outras idades

gosto de vinho velho em novo dia.

 

Quando cessar a febre das viagens

e cansares de tudo — das paisagens,

de ignotas gentes e de virgens praias —

 

volta aos brejos natais. Arma tua rede

em pleno campo. E mata tua sede

de pureza nas grandes sapucaias.

 

 

Em: Boca da noite, Odylo Costa Filho, Rio de Janeiro, Salamandra: 1979, p. 58

 

NB: na opinião leiga da Peregrina um dos mais belos sonetos do século XX.

 





Trova da despedida

22 12 2014

 

adeus. susan jaekel

Adeus, Ilustração de Susan Jaekel.

 

É comum nas despedidas

depois dos risos e abraços,

ficarem almas feridas

e corações em pedaços.

 

(Décio Valente)





Poema de Natal, Jorge de Lima

21 12 2014

 

Aldemir Martins, natividade, ost, 1969Natividade, 1969

Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)

óleo sobre tela

 

 

Poema de Natal

Jorge de Lima

 

 

ERA UM POEMA frequente,

repetido,

com o menino nos braços

de uma virgem.

Desse poema presente

e sempre ouvido,

os tempos e os espaços tinham origem,

 

pois à origem do poema

sempre havia

essa virgem e o infante

e a poesia.

E era o início e era a extrema

da criação,

era o eterno e era o instante

da canção.

 

Publicado em Rio, Rio de Janeiro, 1951

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. IV, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 58





A formiga e a cigarra, poesia de Afonso Louzada

18 12 2014

 

la cigale et la fourmiIlustração para a fábula de La Fontaine, de Calvet-Rogniat.

 

 

A formiga e a cigarra

 

Afonso Louzada

 

 

Depois de acumular barras e barras de ouro,

a formiga, afinal, sentiu o último alento,

pesarosa, talvez, como bom avarento,

de não poder levar consigo o seu tesouro.

 

–“A minha vida foi um trabalho incessante!

Trabalhei! Trabalhei sem parar um instante!”

 

Naquele mesmo dia, estranha coincidência,

exausta de cantar, a boêmia da cigarra

o derradeiro adeus deu, cheia de eloquência,

à vida que levara, ao léu, sempre na farra.

 

— “Cantei! Cantei, alheia ao mais, despreocupada,

que a vida é só amor; o resto não é nada!”

 

E, juntas, para o céu elas foram subindo.

A cigarra cantava, estuante de alegria:

— “Mas que dia! E que sol! Como tudo está lindo!”

— “O meu ouro ficou…” a formiga gemia.

 

Foi recebê-las Deus: — “Responde-me cigarra;

o que fizeste lá? O que fizeste, narra.”

 

— “Cantei. Sempre cantei, em meio à humana dor,

a alegria da vida, a alegria do amor”.

 

— “E tu?” — “Eu trabalhei. E tudo lá ficou…”

Depois de ouvi-las, Deus bondoso lhes falou:

 

–“O trabalho merece e a glória do Paraíso.

Mas tu, (disse esboçando esplêndido sorriso,

 

sob a fascinação do canto da cigarra)

se levaste, afinal, uma vida bizarra

 

alegraste, porém os corações aflitos

que sangravam de dor, dos humanos precitos”.

 

…  E à flor dos lábios tendo seu melhor sorriso,

abriu para a cigarra as portas do Paraíso.

 

 

Em: Noturnos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional: 1947, pp, 11-12.

 





Trova do meu bem

16 12 2014

 

Mulher, 1905,Stanislaw Wyspianski, esposa do pintor,pastel, 36x36Mulher, 1905

[esposa do pintor]

Stanislaw Wyspianski (Polônia, 1869-1907)

pastel sobre papel, 36 x 36 cm

 

 

Eu não explico a ninguém,

pois ainda não compreendi

porque te chamo meu bem

se sofro tanto por ti.

 

(Gilka Machado)





A memória, desafio # Poemaday dia 2

2 12 2014

 

 

1954.031Sol da manhã, 1952
Edward Hopper (EUA, 1882-1967)
Óleo sobre tela
Columbus Museum of Art, Oh, EUA

 

Memória

 

Ladyce West

 

A memória te data,
Te mata,
Retrata
No passado
Sempre presente.
A memória,
Pingente fluido
Da mente.
Enevoada,
Idealizada.
Mente.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014





Quadrinha do poeta

26 11 2014

escritor computador, Amadeu, disneyAmadeu é escritor, ilustração de Walt Disney.

Meu destino é fazer versos.

Fazer versos, correr mundo…

Para os bons, eu sou poeta;

para os maus, sou vagabundo…

(Nidoval Reis)





Trova do chapéu

22 11 2014

 

chapéu amarelo, al parkerChapéu amarelo, ilustração de Al Parker.

 

Que chapéu extravagante

dessa madame travessa!

Virou moda de elegante

– por chapéu sem ter cabeça!

 

(Eva Reis)

 





Belém, soneto de Correa Pinto

18 11 2014

 

 

Landi-catedraldoparaA Catedral de Belém do Pará, gravura.

 

Belém

 

Correa Pinto

 

Três séculos e meio tens de idade

Mas, ao beijo do sol equatorial,

Reconquistas a eterna mocidade

Como a Iara em seu banho matinal.

 

Enfeitiçante e cálida cidade!

Encerras um mistério sem igual:

Longe de ti morre-se de saudade

Como quem lembra uma paixão sensual.

 

Na verde alcova de tuas avenidas

Ao capitoso aroma das mangueiras,

Como é romântico, Belém, te amar

 

Cidade em flor, que ao êxtase convida,

Bendigo as fortes gerações primeiras,

Que te plantaram entre o rio e o mar!

 

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 91-92

 

 

Augusto Correa Pinto Filho poeta, ensaísta, contista. Nasceu em Óbidos, Pará, em 1915. Faleceu em 1976 no Rio de Janeiro.

Obras:

Fascinação, poesia, 1943

Sonetos, poesia, 1964

Exaltação a Portugal, 1964

Oração da Humanidade, 1951

Perfil de Paulo Maranhão, 1956

Machado de Assis, ensaio, 1958

Belém: Imagens e Evocações, 1968

Fim, Análise de um Mundo que Morre, 1961.