Lamparina, soneto de Jorge de Lima

21 05 2016

 

 

stom-aSenhora idosa e menino à luz de vela

Mathias Stom (Holanda(?) Bélgica (?), c. 1600 — depois de 1652)

óleo sobre madeira, 58 x 71 cm

Birmingham Museums Trust, Birmingham, Inglaterra

 

 

 

Lamparina

 

Jorge de Lima

 

Põe azeite na tua lamparina

Para que a treva eterna se retarde.

A tarde há de ensombrar a tua sina

E a Morte é indefectível como a tarde.

 

Observa: a sua luz não tem o alarde,

Que as combustões de súbito confina.

O fogaréu indômito ilumina,

Mas, quase sempre, em dois instantes arde.

 

A lamparina, entanto, muito calma,

— Luz pequenina, que parece uma alma,

Que à Grande Luz celestial se eleva –,

 

Espera nesse cândido transporte,

Que, extinto sendo o azeite, chegue a Morte,

Que a luz pequena para a Grande leva.

 

 

Jornal do Comércio, Maceió, 26 set. 1917

 

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 52





Trova da lição de mestre

17 05 2016

 

 

alice may cookIlustração Alice May Cook, c. 1918.

 

 

O grande tenor se cala

ante o pássaro silvestre.

– É o discípulo de gala

querendo escutar o mestre

 

 

(A. de Assis)





A estrela, poesia de Manuel Bandeira

10 05 2016

 

 

ceu estrelado de outono, jenifferCéu estrelado de outono, ilustração Jennifer

 

A Estrela

 

Manuel Bandeira

 

Vi uma estrela tão alta,

Vi uma estrela tão fria!

Vi uma estrela luzindo

Na minha vida vazia.

 

Era uma estrela tão alta!

Era uma estrela tão fria!

Era uma estrela sozinha

Luzindo no fim do dia.

 

Por que da sua distância

Para minha companhia

Não baixava aquela estrela?

Por que tão alta, luzia?

 

E ouvi-a na sombra funda

Responder que assim fazia

Para dar uma esperança

Mais triste ao fim do meu dia.

 

 

Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1978, 10ª edição,pp: 110-111.

 





Mãe, poesia de Gonçalves Crespo

3 05 2016

 

J.U. CAMPOS (Jurandir Ubirajara Campos) (Brasil, 1903-1972)Maternidade - óleo sobre tela - 71 x 58 cm - ass. dat. 1959 inf. dir.Maternidade, 1959

Jurandir Ubirajara Campos (Brasil, 1903-1972)

óleo sobre tela, 71 x 58 cm

 

 

Mãe
A M. De Campos Carvalho

 

 

Gonçalves Crespo

 

 

 

Ela velava perto

Do filho, que dormia,

E cândida sorria

Ao lírio entreaberto.

 

Da lua um raio incerto

No quarto se perdia;

E a mãe olhava o Dia

E a Luz do seu deserto.

 

No berço flutuante

Moveu-se agora o infante

E acorda pranteando…

 

Não há quadro mais belo

Que a mãe, solto o cabelo,

O filho acalentando!

 

1869

 

Em: Obras Completas, Gonçalves Crespo, Livros de Portugal, s/d, Rio de Janeiro, p. 122.





Trova das letras

27 04 2016

 

 

abc, cubos, antigos

 

As letras… que maravilha

com elas a gente faz:

desde alegres redondilhas,

até um tratado de paz!

 

 

(Antônio Augusto de Assis)

 





Trova da mente brilhante

14 04 2016

 

 

eleiçãoCremilda faz campanha, ilustração de Maurício de Sousa.

 

 

Este mundo é interessante!

Eu conheço muita gente

que não tem mente brilhante

mas mente brilhantemente.

 

 

(José Nogueira da Costa)





Miçanga, poema de Wilson W. Rodrigues

12 04 2016

 

chuva,Tatsuro KiuchiChuva, ilustração de Tatsuro Kiuchi.

 

 

Miçanga

 

Wilson W. Rodrigues

 

Chuva — miçangas do céu

de um invisível colar

que na amplidão se partiu

veio na terra tombar.

 

Chuva — miçangas do céu

feita de pingos de luz;

cada pingo — estojo d’água

que um diamante conduz.

 

Chuva — miçangas do céu

do colar que se partiu;

miçanga — orvalho perdido

que no seu peito luziu.

 

Em: Bahia Flor – Poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: s/d, p. 127

 

 

Nota: Na publicação original a palavra miçangas encontra-se escrita com dois esses — missangas.  Ambas as formas: miçangas e missangas estão corretas.  No entanto, desde a publicação deste livro [acredito que tenha sido publicado nos anos 50 do século passado] convencionou-se que a forma missanga é a correta em Portugal enquanto que a forma miçanga é a correta no Brasil.  Assim, ao postar este poema troquei a grafia para corresponder à forma correta no Brasil.





Trova do Descobrimento do Brasil

10 04 2016

 

 

elifas_andreato_-_brasilIlustração Elifas Andreato.

 

 

“Terra à vista!” – Um grito intenso

soou nos céus, como um cântico,

e o Brasil surgiu, imenso,

num parto às margens do Atlântico!

 

(José Ouverney)





Trova da lição do rio

9 04 2016

 

 

rio, atravessando o riacho, margret boriss“O mundo pertence aos corajosos”, ilustração de Margret Boriss.

 

Jamais esqueça, meu filho,

do rio a grande lição:

quando mais rude o seu trilho,

mais bela sua canção.

 

(José Nogueira da Costa)





Trova da espera

5 04 2016

 

moça com passarinho, Jocelyne Pache, 1969Moça com passarinho, de Jocelyne Pache, 1969.

 

 

Não mais te quero esperar,

Que esperar é sofrimento…

Vou, desde já, começar

A esperar o esquecimento!…

 

 

(Maria Thereza de Andrade Cunha)