Trova do abraço

11 07 2025
Ilustração Mike Ludlow (1921-2010) para American Glamour.

 

Tão forte nos abraçamos,

confundidos no entrelaço,

que eu acho até que trocamos

de corações nesse abraço!

 

(Almerinda Liporage)





Menina passarinho, poesia infantil, Ferreira Gullar

7 07 2025
 
 
Menina passarinho

 

     Ferreira Gullar

 

    Menina passarinho,

    que tão de mansinho

    me pousas na mão

    Donde é que vens?

    De alguma floresta?

    De alguma canção?

    Ah, tu és a festa

    de que precisava

    este coração!

    Sei que já me deixas

    e é quase certo

    que não voltas, não.

    Mas fica a alegria

    de que houve um dia

    em que um passarinho

    me pousou na mão.





O amor e o tempo, poesia de Antônio Feijó

3 07 2025

Senhora no salão

Paul Walter Ehrhardt (Alemanha, 1872-1959)

óleo sobre tela, 84 x 66 cm

 

O amor e o tempo

 

Antônio Feijó

 

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

— «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trêmulas ao vento…
— «Porque voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» — Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
— «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo… Adeus! Adeus!

 

 





Trova do tempo

23 06 2025
Xilogravura poli-cromada japonesa, por Utagawa Hiroshige.

 

Os anos entram e saem,

o tempo leva-os a fio,

como essas folhas que caem

na correnteza do rio…

 

(Gomes Leite)





Trova dos namorados

12 06 2025
Ilustração anos 50

 

 

Em teus braços aninhada,

tenho, ao alcance da mão,

toda uma noite estrelada,

todo o sol no coração.

 

(Colombina)

 





Aurora Boreal, poema de Antonio Gedeão

10 06 2025
Ilustração, Thomas Crane

 

 

Aurora boreal

 

Antonio Gedeão

 

Tenho quarenta janelas

nas paredes do meu quarto.

Sem vidros nem bambinelas

posso ver através delas

o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do Sol,

por outra a luz do luar,

por outra a luz das estrelas

que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea

como um vapor de algodão,

por aquela a luz dos homens,

pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,

pela menor a certeza,

pela da frente a beleza

que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança

de quatro lados iguais,

quatro arestas, quatro vértices,

quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,

que as vigias são redondas,

e o sonho afaga e embala

à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,

por aquela entra a saudade,

e o desejo, e a humildade,

e o silêncio, e a surpresa,

e o amor dos homens, e o tédio,

e o medo, e a melancolia,

e essa fome sem remédio

a que se chama poesia,

e a inocência, e a bondade,

e a dor própria, e a dor alheia,

e a paixão que se incendeia,

e a viuvez, e a piedade,

e o grande pássaro branco,

e o grande pássaro negro

que se olham obliquamente,

arrepiados de medo,

todos os risos e choros,

todas as fomes e sedes,

tudo alonga a sua sombra

nas minhas quatro paredes.

 

Oh janelas do meu quarto,

quem vos pudesse rasgar!

Com tanta janela aberta

falta-me a luz e o ar.

 

 

 

António Gedeão, Obra Poética, Edições João Sá da Costa, Lisboa, 2001





Baile no sereno, poesia infantil, Ruth Rocha

2 06 2025
 
 
Baile no sereno

Ruth Rocha

 

Cantador canta tristeza,

canta alegria também.

É de sua natureza

cantar o mal e o bem.

Pois ele tem dentro dele

o canto que o canto tem…

Por isso, se o mar secar,

se cobra comprar sapato,

se cachorro virar gato,

se o mudo puder falar,

Se a chuva chover pra cima,

se barata for grã-fina,

Quando o embaixador for em cima,

Cantador vai se calar.





Trova da noite

28 05 2025
Ilustração de noite, Yan Nascimbene

 

Quando a noite vem descendo

e o mundo parece em calma,

existe um mundo fervendo

na inquietação de minha alma.

(Durval Mendonça)





Pessoas são diferentes, poesia infantil, Ruth Rocha

26 05 2025
   
 
    Pessoas são diferentes

   

     Ruth Rocha

 

    São duas crianças lindas

    Mas são muito diferentes!

    Uma é toda desdentada,

    A outra é cheia de dentes…

    Uma anda descabelada,

    A outra é cheia de pentes!

    Uma delas usa óculos,

    E a outra só usa lentes.

    Uma gosta de gelados,

    A outra gosta de quentes.

    Uma tem cabelos longos,

    A outra corta eles rentes.

    Não queira que sejam iguais,

    Aliás, nem mesmo tentes!

    São duas crianças lindas,

    Mas são muito diferentes!





Trova da tempestade

21 05 2025
Ilustração, Margaret C. Hoopes

 

 

O destino nos ensina

mensagens que são verdades:

– Quem só enfrenta neblina

fraqueja nas tempestades !…

 

(José Valdez de Castro Moura)