“O pranto da inocência”, poesia de José Joaquim Cândido de Macedo Júnior

2 07 2018

 

 

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O pranto da inocência

 

José Joaquim Cândido de Macedo Júnior (1842 – 1860)

 

Quando cismas, donzela, no teu rosto

Que linda per’la suspirando corre!

— Pranto dourado que não diz desgosto,

Que num sorriso no teu seio morre!

 

Mimo dos anjos que tua alma prende

Aos céus ridentes nesse doce encanto,

Lágrimas d’ouro que teu peito incende,

Que o amor celeste se traduz num pranto!

 

E a gota pura vem cantar um hino

Que os anjos n’alma te murmuram rindo,

Pérola branda diz um som divino

Que o peito entoa em murmurejo infindo!

 

Bela — do altar do teu virgíneo seio

Deixa esse orvalho de dulçor correr;

Minh’alma treme nesse brando enleio,

Ai! vai por ele nos teus pés morrer!

 

Chora! a inocência te sorri no choro,

São risos virgens de infantis amores,

São doces hinos de um celeste coro,

Dizem — enleios — mas não dizem dores.

 

Teu pranto puro beberão os anjos

Num doce anseio de inocente medo,

Teu sol — ó virgem — só serão arcanjos

— Teu lábio os beije no infantil segredo.

 

Chora, donzela, de teu níveo seio

Deve esse orvalho de dulçor correr;

Minh’alma treme nesse doce enleio,

Vai por teu pranto nos teus pés morrer!

 

 

Em:  O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 2,  11 de setembro de 1859, p.12. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 32.





Trova dos sinos

25 06 2018

 

igreja e cidadeCidade brasileira, ilustração, Norbim.

 

 

 

O sino é um ser sem razão,
que não tem razão de ser:
quando para um coração,
ele começa a bater…
(Hegel Pontes)

 





Trova da árvore florida

5 06 2018

 

 

The Pied Piper of Hamelin by Kate Greenaway (1910)Ilustração de Kate Greenaway, 1910, para o Flautista de Hamelin

 

 

 

Para dar cor aos matizes

da mais bela floração,

humildemente, as raízes

vivem ocultas no chão !

 

 

(Cipriano Ferreira Gomes)





Trova da Terra

29 05 2018

 

 

 

agua poluidaIlustração Maurício de Sousa.

 

 

 

Ao sofrer uma agressão

a terra não choraminga

nem esboça reação,

mas… cedo ou tarde, se vinga…

 

(Adélia Victória Ferreira)





“Lápis coloridos” poesia de Maria da Gaça Almeida

25 05 2018

 

 

colorindo, Marli Soares Borges, aquarela_01Ilustração de Marli Soares Borges.

 

 

 

Lápis coloridos

 
Maria da Graça Almeida

 

Perfilados, apontados,
estão todos bem guardados
numa caixa tão bonita,
desenhada e com fitas!

São eretos, são brilhantes
coloridos, elegantes!
Têm o corpo de madeira,
têm a cor na cabeleira!

O azul colore o céu,
o verdinho aviva as folhas.
Pra pintar um bom painel,
o tom fica a sua escolha.

Tenho um sol brilhante e belo
com o lápis amarelo!
Lápis preto escurece
e o desenho entristece.

Com o branco passo apuros,
mas às vezes nele aposto,
sua cor em fundo escuro
quando vejo sempre gosto!
 





Trova da praia

11 05 2018

 

 

smock-vintage-beach-at-night-with-moon-patternIlustração japonesa, praia à noite.

 

 

Mostrando ser feminina,

a praia ouve os segredos

que o mar, por trás da neblina,

conta baixinho aos rochedos.

 

(Durval Mendonça)

 





Trova dos teus caminhos

5 04 2018

 

 

martine+et+jeanIlustração de Marcel Marlier ( Bélgica, 1930-2011)

 

 

Trago minhas mãos manchadas

de sangue, pelos espinhos

das mil rosas perfumadas

que espalhei nos teus caminhos…

 

 

Izo Goldman





Oceano, poema de Manuel Bandeira

2 04 2018

 

 

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Oceano

 

Manuel Bandeira

 

Olho a praia. A treva é densa.

Ulula o mar, que não vejo,

Naquela voz sem consolo,

Naquela tristeza imensa

Que há na voz do meu desejo.

 

E nesse tom sem consolo

Ouço a voz do meu destino:

Má sina que desconheço,

Vem vindo desde eu menino,

Cresce quanto em anos cresço.

 

– Voz de oceano que não vejo

Da praia do meu desejo…

 

Em: Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1979, pp 30.





Trova da fotografia

18 02 2018

 

 

 

fotografop-iaa3_Mort_EngelIlustração de Mort Engel.

 

 

 

Teu retrato, enraivecida,

eu rasguei, sem embaraços…

mas a saudade, atrevida,

juntou de novo os pedaços!…

 

(Marilúcia Rezende)





Trova do acordar

6 02 2018

 

 

acordar John_Gannam, junho 1948, St Narys blankletsIlustração de John Gannam, 1948.

 

 

Entra o sol pela vidraça

e em teu leito empalidece,

deslumbrado pela graça

que teu corpo lhe oferece.

 

 

(Durval Mendonça)