Mãe, poesia de Abel Silva

20 12 2022

 

 

COLETE PUJOL (São Paulo, 1913 -1999) Dona do Lar. Óleo s tela. Ass. cie e datado de 1944. 46 x 38 cmDona do Lar, 1944

Colette Pujol (Brasil, 1913 -1999)

óleo s tela,  46 x 38 cm

 

Mãe

 

Abel Silva

 

E então começou a acontecer comigo

de encontrar a todo instante minha mãe.

Passo na fila da carne

lá está ela esperando a vez

chego comovido e irritado

vou tocar-lhe o ombro e dizer

bobagem, mãe!

pede a carne pelo telefone

mas logo percebo o engano me afasto

e a senhora desconhecida

ganha mais um metro na direção do balcão.

No táxi

vou gritar ao motorista que pare

minha mãe está na esquina sob o sol

não há dúvidas é ela

se protegendo da chuva sob a marquise

perplexa no arrastão ondeante de corpos esguios

perigosamente lenta na correnteza de meninos sem mãe

subitamente estrangeira

(minha mãe tão brasileira!)

sob códigos confusos

minha mãe nas mulheres entrevistadas pela TV

reclamando dos preços absurdos de tudo

nos bancos da rodoviária

na fila dos aposentados

minha mãe se multiplicando pelas ruas de minha cidade

onde carrego meu buquê de esperanças devastadas e sonhos implodidos

um mil séculos-luz longe do ninho

do ponto obscuro

uterino

de que hoje sou futuro.

 

Em: Mundo delirante: poesias, Abel Silva, Rio de Janeiro, Europa: 1990, p. 88

 





Trova da superação

19 12 2022
Ilustração Margret Boriss

Eu e a vida estamos quites

pois, se de modo severo,

a vida me impõe limites,

eu, quase sempre os supero…

(Luna Fernandes)





Poeta no museu: Raquel Naveira

8 12 2022

 

 

Samson_and_Delilah_by_RubensSansão e Dalila, 1610

Peter Paul Rubens (Flandres, 1577 — 1640)

óleo sobre madeira,  185 x 205 cm

National Gallery, Londres

 

Dalila
(poema inspirado no quadro “Sansão e Dalila”, de Rubens)

 

Raquel Naveira

 

Dalila reclinou-se sobre o divã,

Entre sedas e cetins,

O vestido de veludo vermelho rasgou-se,

Os seios volumosos,

Maçãs douradas,

Brilharam no escuro,

Sansão tocou-os como se fossem lâmpadas;

No alto,

Num nicho na parede,

A deusa Vênus

Observava a cena.

 

Cheia de prazer,

Toda lisa,

Cor de carne,

Cor de sangue,

Cálida Dalila.

 

Tentara prender Sansão

Com cordas de nervos,

Frescas e úmidas,

Com fios urdidos no seu tear de intrigas,

E agora,

Ei-lo ali,

Adormecido,

O torso curvado de paixão

Sobre seus joelhos.

 

Dalila sorri,

Segura as rédeas,

A crina,

Mechas de cabelo

Do homem que ela domina.

 

Afia a tesoura,

Corta a corrente de força

Numa estranha cirurgia,

Fura-lhe os olhos

Enquanto ele geme,

Cego de desejo.

 

Em: Casa e Castelo, Raquel Naveira, São Paulo, Escrituras: 2002, p.172-73

 

 

 





Trova da separação

6 12 2022

Se tu jamais foste minha,

se nunca fui teu também,

posso ir só, que irás sozinha…

Ninguém perde o que não tem!

(Antonio Carlos Teixeira Pinto)





Trova do Natal

21 11 2022

Cigarras e passarinhos,

no presépio das florestas,

entoam dentro dos ninhos:

“Feliz Natal! Boas Festas!”

(José Corrêa Villela)





Trova do tamanho

10 11 2022

Pequenez é coisa feia?

Grandeza é documentário?

— Pequeno é o grão de areia,

mas enguiça um maquinário.

(Carlos Ribeiro Rocha)





Trova dos namorados

8 11 2022
Rosinha e Chico Bento se encontram, ilustração Maurício de Sousa.

Todo dia, o dia inteiro,

É dia dos namorados.

Se o amor é verdadeiro,

Serão dois abençoados.

(Maria Eunice Silva de Lacerda)





Trova do pião

1 11 2022

Joga o teu pião, menino,

aproveita a brincadeira,

que a fieira do destino

vai jogar-te a vida inteira…

(Edgard Barcellos Cerqueira)





Trova da velhice

18 10 2022
Ilustração Stewart Sherwood

Tem calma, velhice, aguarda!

Não venhas me ver ainda!…

Que não receies ser tarda,

porque nem tarda és bem-vinda…

(Luna Fernandes)





Trova do tempo que passa

20 09 2022

Saudade, lembrança triste

de tudo que já não sou…

Passado que tanto insiste

em fingir que não passou…

(Edgard Barcellos Cerqueira)