Berço, poesia de Stella Leonardos

7 07 2015

 

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Berço

 

Stella Leonardos

 

 

Foi vime que nasce à toa

Debruçado na lagoa,

Colhido de manhã cedo.

Já viu garça azul que voa,

Já viu rastro de canoa,

Já escutou vento e arvoredo.

Por isso a fragrância boa,

Esse cheiro de segredo.

 

 

Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.11





Sublinhando…

1 07 2015

 

 

Otto van Rees (1884-1957) De vertelling, 1926A tradução, 1926

Otto van Rees (Alemanha, 1884-1957)

óleo sobre tela

 

 

“Leve, breve, suave,

Um canto de ave

Sobe no ar com que principia

o dia.

Escuto, e passou…

Parece que foi só porque escutei

Que parou.”

 

 

Fernando Pessoa (Portugal, 1888-1935) em Leve, breve, suave. 





À tarde na varanda, poesia de Maria Thereza de Andrade Cunha

30 06 2015

 

José Maria Ribeiro,Paisagem, ost,1979, 50 x 40 cmPaisagem, 1979

José Maria Ribeiro (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 50 x 40 cm

www.josemariaribeiro.com

 

 

À tarde, na varanda

 

 

Maria Thereza de Andrade Cunha

 

Desce,

sonora

como uma prece,

que canta e chora,

a voz do sino…

Seis horas. Voa

uma ave, a toa,

sem destino!…

Na serra em frente,

languidamente,

o sol desmaia.

A brisa bole

na folha mole

da samambaia,

que se despenca

da jarra.

Uma cigarra

chia, estridente.

Virente,

um pé de avenca,

num canto escuro

do muro,

dorme tranquilo.

Cricrila um grilo.

Rosas vermelhas,

despetaladas,

tombam cansadas.

Abelhas

voam ainda,

na tarde linda.

Das trepadeiras

pendem flores

de muitas cores.

Nuvens douradas

vão apressadas,

ligeiras…

Aonde irão?

— O vento as leva;

logo, na treva,

morrerão.

Nesse momento

o firmamento

é ouro e azul.

Taful,

a ramaria,

verde, se agita.

É o fim do dia.

Que luz bendita

nos alumia!

Depois, violeta

se há de tornar

a tarde

que arde.

— Pintor

pega a palheta,

por favor,

e vá copiar

na tela

a tarde bela!

…Tão colorida

que é a vida.

 

 

Em:  É primavera… escuta., Maria Thereza de Andrade Cunha, Rio de Janeiro, 1949, p.65-67.





Fadas e Bruxas, poesia infantil de Roseanna Murray

29 06 2015

 

 

feitiçoMadame Min joga um feitiço, ilustração Walt Disney.

 

 

Fadas e Bruxas

 

Roseanna Murray

 

Metade de mim é fada,
a outra metade é bruxa.
Uma escreve com sol,
a outra escreve com a lua.
Uma anda pelas ruas
cantarolando baixinho,
a outra caminha de noite
dando de comer à sua sombra.
Uma é séria, a outra sorri;
uma voa, a outra é pesada.
Uma sonha dormindo,
a outra sonha acordada.

 

 

Em: Pera, Uva ou Maçã, Roseanna Murray, ed. Scipione: 2005





As flores e os pinheiros, poema de Machado de Assis

23 06 2015

 

Guilherme Matter (1904 -1978) plantação de trigo no Paraná.Plantação de trigo no Paraná

Guilherme Matter (Brasil, 1904-1978)

óleo sobre tela

 

 

As flores e os pinheiros

Machado de Assis *

 
Vi os pinheiros no alto da montanha
Ouriçados e velhos;
E ao sopé da montanha, abrindo as flores
Os cálices vermelhos.

Contemplando os pinheiros da montanha,
As flores tresloucadas
Zombam deles enchendo o espaço em torno
De alegres gargalhadas.

Quando o outono voltou, vi na montanha
Os meus pinheiros vivos,
Brancos de neve, e meneando ao vento
Os galhos pensativos.

Volvi o olhar ao sítio onde escutara
Os risos mofadores;
Procurei-as em vão; tinham morrido
As zombeteiras flores.

 

*Este poema é a tradução de Machado de Assis do poema publicado em francês do poeta chinês Tin-Tun-Sing.

 

 

Em: Antologia Poética para a Infância e a Juventude, selecionado por Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro:1961,p. 173.





Trova do acidente de carro

22 06 2015

 

 

acidente, carro, tintin, hergéTintin observa o resultado dos pneus furados, ilustração de Hergé.

 

Todo “barbeiro” sustenta
que a batida foi assim:
– Veio um poste a mais de oitenta,
na contra-mão, contra mim!…

 

(Izo Goldman)





Trova do amor

14 06 2015

 

 

Casal, na escada, clarence coles phillipsIlustração Clarence Coles Phillips (EUA, 1880-1927).

 

Dizem que o amor é feitiço,

é mágoa, alegria e dor.

– Mas se amor não fosse isso,

que graça teria o amor?

 

(Lilinha Fernandes)





Trova humorística dos grilos — já pensando no dia dos namorados…

11 06 2015

 

 

aquarela chinesaSem título

Linag Zhi Qing (China, contemporâneo)

aquarela sobre papel de arroz, 40 x 40 cm

 

 

A grilinha, toda ardida,

murmurava, num queixume:

–Nunca mais, na minha vida,

Vou namorar vagalume.

 

(Mário Peixoto)





25 anos, soneto de Menotti del Picchia

8 06 2015

 

75e570ac2d6c8ac4e71bc03d71d14182Menino com cesto e cão, 1861

Édouard Manet (França,1832-1883)

Óleo sobe tela, 92 x 72 cm

Coleção Particular, Paris

 

25 anos

 

Menotti del Picchia

 

Quase me desconheço. Onde anda o imbele

menino alegre, de calcinha curta,

cantando, sempre aos saltos entre a murta,

entre os cafeeiros tão amigos dele?

 

Cresceu: ei-lo descrente… Eu sou aquele menino alegre.

A vida logo encurta as ilusões, a idade os risos furta…

E quem diria agora que eu sou ele?

Hoje me desconheço.

 

O outro, a criança lembro,

toda risonha, ao sol ardente

pelos campos em flor vagando a esmo…

 

Mas, sempre que me vem isto à lembrança,

sinto-me tão mudado e diferente

que chego a ter saudades de mim mesmo.

 

 

Em: Entardecer, Menotti del Picchia, São Paulo, MPM propaganda: 1978, p. 57.





Quadrinha das cores no sinal

2 06 2015

 

 

atravessar a rua

 

O amarelo diz: espere!

O verde manda passar

E o vermelho nos avisa

Que é proibido avançar.

 

 

Em: 1001 Quadrinhas Escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1965