Trova do trem de ferro

17 10 2018

 

 

978-84-15208-79-2_Un_beso_y_adios-Jimmy Liao, 幾米, well-known Taiwanese illustrator and writer.Ilustração Jimmy Liao.

 

 

Trem-de-ferro, o teu apito

lembra-me um sino plangente:

tanta mágoa no teu grito,

tanta saudade na gente!

 

(Dorothy Jansson Moretti)





Gato pensa? — poesia de Ferreira Gullar

13 10 2018

 

 

gatinho travessoDesconheço a autoria dessa ilustração.

 

 

 

Gato pensa?

 

Ferreira Gullar

 

Dizem que gato não pensa

mas é difícil de crer.

Já que ele também não fala

como é que se vai saber?

 

A verdade é que o Gatinho

quando mija na almofada

vai depressa se esconder:

sabe que fez coisa errada.

 

E se a comida está quente,

ele, antes de comer,

muito calculadamente

toca com a pata pra ver.

 

Só quando a temperatura

da comida está normal

vem ele e come afinal.

 

E você pode explicar

como é que ele sabia

que ela ia esfriar?

 

 





Trova para São Francisco de Assis

4 10 2018

 

 

 

passaros na cidade, Sylvie DaigneaultPássaros na cidade, ilustração de Sylvie Daigneault.

 

 

Cruza o espaço a passarada,

no seu voo alegre e arisco,

levando à manhã menina

as bênçãos de São Francisco.

 

(Corrêa Júnior)





Trova do rio

1 10 2018

 

 

girl-by-river-vintage-japan-ukiyo-e-woodcut-just-eclecticXilogravura japonesa policromada, Ukiyo-e.

 

 

Vai o rio em cantochão…

Suas águas se lamentam.

-Parecem pedir perdão

às pedras que as atormentam.

 

(Durval Mendonça)





“Coração”, poesia de Guilherme de Almeida

11 09 2018

 

 

castelo de cartas, jb longCastelo de cartas, ilustração de H. B. Long.

 

 

 

Coração

 

Guilherme de Almeida

 

 

Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!

Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?

Como vais, como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?

Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.

Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!





Trova da morte

6 09 2018

 

 

Journey's_End_Cemetery

 

 

 

Sem resposta que conforte,

dúvida imensa me corta:

Qual o segredo da morte?

Fim? Partida? Porto? Porta?

 

(Alonso Rocha)





Trova das garças

28 07 2018

 

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Em bando sutil, as garças,

pontilhando o lamaçal,

são quais pérolas esparsas,

adornando o pantanal.

 

(Dorothy Jansson Moretti)





Trova do gato

19 07 2018

 

gato peludo Harrison Fisher (1875 - 1934)Gato peludo, ilustração de Harrison Fisher (1875-1934).

 

 

Bobagem grande, de fato,

que o meu bom senso rejeita…

Mas que inveja dá-me o gato

que no teu colo se deita!…

 

(A. A. de Assis)





“Guardar”, poema de Antonio Cícero

12 07 2018

 

 

Illustration by Pierre BrissaudIlustração de Pierre Brissaud.

 

 

 

Guardar

 

Antonio Cícero

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

Do que um pássaro sem voos.

por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

Por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

 

 

Em: Guardar: poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2008, página 11

 





“O pranto da inocência”, poesia de José Joaquim Cândido de Macedo Júnior

2 07 2018

 

 

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O pranto da inocência

 

José Joaquim Cândido de Macedo Júnior (1842 – 1860)

 

Quando cismas, donzela, no teu rosto

Que linda per’la suspirando corre!

— Pranto dourado que não diz desgosto,

Que num sorriso no teu seio morre!

 

Mimo dos anjos que tua alma prende

Aos céus ridentes nesse doce encanto,

Lágrimas d’ouro que teu peito incende,

Que o amor celeste se traduz num pranto!

 

E a gota pura vem cantar um hino

Que os anjos n’alma te murmuram rindo,

Pérola branda diz um som divino

Que o peito entoa em murmurejo infindo!

 

Bela — do altar do teu virgíneo seio

Deixa esse orvalho de dulçor correr;

Minh’alma treme nesse brando enleio,

Ai! vai por ele nos teus pés morrer!

 

Chora! a inocência te sorri no choro,

São risos virgens de infantis amores,

São doces hinos de um celeste coro,

Dizem — enleios — mas não dizem dores.

 

Teu pranto puro beberão os anjos

Num doce anseio de inocente medo,

Teu sol — ó virgem — só serão arcanjos

— Teu lábio os beije no infantil segredo.

 

Chora, donzela, de teu níveo seio

Deve esse orvalho de dulçor correr;

Minh’alma treme nesse doce enleio,

Vai por teu pranto nos teus pés morrer!

 

 

Em:  O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 2,  11 de setembro de 1859, p.12. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 32.