Resenha: “A Uruguaia” de Pedro Mairal

20 02 2020

 

 

 

Joaquin_Torres_Garcia_-_PinturaTabac, 1928

Joaquin Torres Garcia (Uruguai, 1874 –  1949)

óleo sobre  cartão,  52 x 73 cm

Museu de Artes Visuais do Uruguai

 

 

Há algum tempo coleciono pequenos romances, de preferência  de cento e cinquenta a duzentas páginas, cuja brevidade narrativa não esvazia a densidade literária.  A uruguaia, romance do argentino Pedro Mairal, preenche esses requisitos e depois  de lido achou um lugar especial entre outras obras do gênero:  O fuzil de caça  de Yasushi Inoue  e  A vida peculiar de um a carteiro solitário, de Denis Thériault.

Talvez seja uma das narrativas mais masculinas que li nos últimos tempos. O que isso quer dizer?  O ponto de vista e a maneira de contar são explicitamente masculinos.  Trata-se da história de um homem, num casamento que perdeu a paixão, frustrado profissionalmente, mantido pela mulher, que usa um pagamento antecipado de editoras sobre dois de seus livros  — ele é escritor — para sair de Buenos Aires, ir a Montevidéu, fazer uma operação de câmbio que só faz sentido na América Latina e  mais ainda na volúvel economia argentina.  Ele sai de manhã em direção a Montevidéu para efetuar a  transação bancária programada, enquanto secretamente nutre o desejo de se encontrar com Magali, “Maga”, jovem que o encantara meses antes, num evento literário no Uruguai e que desde então tem preenchido suas fantasias românticas.

 

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Volta para casa dezessete horas depois.  Neste meio tempo, enquanto viaja, nós também somos levados por ele através do tempo, aprendendo sobre seu casamento, filho, profissão, Magali,  o cotidiano em Buenos Aires e ausência de criatividade que o assola.  Também ficamos cientes de suas fantasias sexuais e do que planeja fazer ao encontrar a jovem uruguaia que o enfeitiçara. Nem por isso  deixamos de nos surpreender com os eventos.  Há um pequeno gosto de mistério nesta história.

Pedro Mairal desenvolve uma narrativa densa, clara, direta que encanta o leitor, levado pela mão a acompanhá-lo.  Repleto de referências à livros, escritores,  à  cena literária e cultural,  à música, com fino humor e destro gerenciamento, ele enriquece em muito o que em mãos menos hábeis não passaria de uma pequena aventura, de uma malandrice literária. Apesar de trabalhar seu texto incessantemente para chegar à clareza apesar da complexa linha narrativa, a leitura de A uruguaia é rápida, agradável e insinuante.

 

Pedro-MairalPedro Mairal

Por suas  constantes referências aos escritores argentinos e de outros lugares, Pedro Mairal posiciona sua escrita dentro do panorama literário atual da América Latina e percebemos que é junto a Borges,  Cortazar e outros de semelhante calibre que um dia pretende se encontrar.  Muito justo se continuar assim.

Entendo este ser seu segundo romance.  O primeiro Uma noite com Sabrina Love, que comprei depois de ler este livro, está na pilha para leitura próxima.  Já foi transformado em filme.  Sou fã do cinema argentino.  Filmes argentinos, quase sempre, são maravilhosos com perspectivas únicas sobre casos corriqueiros.  É justamente esse tom que permeia A uruguaia.  Parece roteiro de filme argentino.  E que roteiro!  Excelente leitura.    Recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “Vasto mundo” de Maria Valéria Rezende

17 02 2020

 

 

Carlos Prado (1908 - 1992),Paisagem com Igreja,Óleo sobre madeira,48 x 69 cmPaisagem com Igreja

Carlos Prado (Brasil, 1908 – 1992),

Óleo sobre madeira, 48 x 69 cm

 

 

Vasto mundo foi uma agradável surpresa. Um livro de contos entremeados, passados em Farinhada, vilarejo ficcional da Paraíba, que ao final fecha as história como num romance.  Com a mão leve e a habilidade de contar o essencial, de maneira bucólica quase poética, Maria Valéria Rezende presenteia os leitores com o mundo fantástico das pequenas comunidades brasileiras esquecidas nos confins interioranos do país.

Quem está familiarizado e aprecia a literatura brasileira de meados do século XX, com a ficção de Mário Palmério, José Condé, José Lins do Rego, Geraldo França de Lima, entre os que retrataram a vida das pequenas comunidades do interior brasileiro, certamente acolherá bem,  a escritora e freira Maria Valéria Rezende.   Porque ela trabalha dentro dos parâmetros desta tradição brasileira, em que a vidinha das cidades interioranas é caracterizada com leveza e carinho, demonstra a inocência ou ingenuidade do caipira, o ardil de que usa para sobreviver, a aceitação do sobrenatural e a certeza do destino, de que pouco mudará em sua vida do nascimento à morte.

 

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Maria Valéria Rezende adiciona à narrativa descrição clara, por palavras ou ações, do ser humano com falhas e qualidades.  E do específico, as histórias se tornam universais.  Apesar da linguagem leve, de se ater ao essencial, a autora consegue trazer à tona um travo causado pelos pequenos desapontamentos, esperanças modificadas pelo acaso, que cinzelam o comportamento dos personagens.  Cada sonho, ilusão, anseio encontra eco no leitor que se frustra e simultaneamente se encanta com a solução achada pela simplória maneira de ser.

 

mariavaleria2Maria Valéria Rezende

 

Profundamente humana a narrativa de Maria Valeria Rezende proporciona grande prazer até quando sofremos junto aos personagens que retrata.  Recomendo sem restrições a leitura deste livro.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “Talvez uma história de amor”, de Martin Page

9 09 2019

 

 

 

TELEFONE westelec_phone 1948aIlustração de anúncio da companhia de telefonia Western Eletric, 1948.

 

 

Em menos de seis meses, este é o terceiro livro que leio em que um telefonema, ou uma mensagem deixada por telefone, dá início à trama.  Deve ser coincidência. Espero.  Pois, de repente ficou um início batido.  Não surpreende. Neste caso, no romance de Martin Page, Talvez uma história de amor, nosso anti-herói, Virgile,  chega em casa e ouve a mensagem deixada em sua secretária eletrônica (parece coisa antiga, não é mesmo?): Clara termina o relacionamento com ele. O problema é que Virgile não se lembra de ter qualquer relacionamento com alguma Clara. Passamos, portanto, as próximas 150 páginas tentando esclarecer essa questão que se torna obsessiva para ele: quem era Clara e teria ele tido um relacionamento com ela?

Achei a premissa muito interessante. Intrigante mesmo.  E fui em frente à espera das mais mirabolantes possibilidades. Não sei como eu resolveria essa questão caso fosse eu o romancista,  mas não deixei de ter uma pequena decepção com o desenrolar da trama.  Primeiro porque Virgile lembou-me Do contra Hiromashi,  personagem da Turma da Mônica, cujo nome sugere está sempre a contrariar, muitas vezes sem propósito algum, o senso-comum da sociedade, do lugar onde vive, daquilo estabelecido por comum acordo.  Preso a essa faceta, Virgile, de nebuloso caráter, que trabalha numa agência de publicidade, começa a voltar atrás, seguindo seus próprios passos do passado recente, para se certificar da saúde de sua memória, ou se, de fato, havia se relacionado com alguém de quem não se lembrava.

 

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A volta ao passado é ensejo para nos familiarizarmos com os amigos de Virgile, com  trabalho, amores, e principalmente maneira de ver as coisas.  Como publicitário de sucesso, e prestes a receber uma promoção, Virgile tem um jeito interessante de se expressar, e há diversas passagens que surpreendem, astutas, que nos fazem voltar atrás e ler de novo, deliciosas por um breve momento, como: “Se Hemingway desembarcasse em Paris nos dias de hoje, já não teria recursos para frequentar os cafés como fazia na década de 1920. O único canto onde poderia se instalar para beber um café e escrever seria o McDonald’s. Em nenhum outro lugar uma pessoa pode se refugiar no calor durante horas por uma quantia módica.” [69-70].  Mas não passam de observações interessantes sem particular significado.  O que parece um pensamento sagaz, profundo, quando relido, mostra não ter lastro, ser tão leve quanto a obra inteira. É um sopro de encontro à brisa.

A solidão que encapsula Virgile é criada, construída, por ele mesmo.  Frequentemente mencionada pelos leitores e resenhistas da obra, fiquei surpresa de ver que outros leitores a consideraram aspecto importante da personalidade do personagem. A mim, me deu a impressão de ser mais uma questão de postura existencialista, do que verdadeira solidão.  Há em Virgile, muito do teatral, muito de gesto no lugar da ação.  Há também uma adolescente vontade de chocar,  um tanto descabida para um homem feito, com sucesso no trabalho e muitos amores para contar.

 

martin-page-author-b5f13b2a-079d-40df-bfce-5918266354c-resize-750Martin Page

 

Este é o segundo livro de Martin Page que leio.  Meu primeiro, A libélula dos seus oito anos, não me agradou.  Achei Talvez uma história de amor, tradução de Bernardo Ajzenberg, mais interessante como tema, e com melhor desenvolvimento, mas, assim como na leitura anterior Martin Page me deixa surpresa por seu sucesso.  Tornou-se um escritor muito considerado desde o lançamento de seu primeiro livro, Como me tornei estúpido, mas para mim, sua ficção necessitaria de mais conteúdo e menos forma para que o autor se tornasse um de meus favoritos.  Fico na dúvida: estou cega para o que o faz um sucesso? –  ou são os outros que talvez não esperem tanto das horas de leitura que dedicam a um autor?  Mas sem dúvida, ele escreve bem.  O bastante para manter esta leitora até o fim. Três de cinco estrelas.

 

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Pequena resenha de “Passagem para o ocidente” de Mohsin Hamid

6 08 2019

 

 

 

Hardaker-Charles-Open-Doors-with-MetronomePortas abertas com metrônomo

Charles Hardaker (GB, 1934)

óleo sobre tela,  40 x 40 cm

 

 

Muito barulho por nada.  Este livro foi cotado como um dos melhores livros de 2017 pelo jornal The New York Times. Obra do paquistanês e britânico Mohsin Hamid, na edição brasileira traz, ainda, na capa,  a ratificação do ex-presidente dos EUA, Barack Obama — “um dos melhores livros do ano” —  que,  fica claro, não leu o que eu li naquele ano.  Este livro não faria parte da minha lista das melhores leituras de 2017, nem dos anos subsequentes.

A obra é dividida informalmente em três tempos. Trata-se da história entre um homem e uma mulher, mais para “amizade com benefícios” do que uma história de amor, que se desenrola num país qualquer, do Oriente Médio, muçulmano e em guerra.  O casal é formado por uma jovem e corajosa mulher acostumada a desafiar costumes tradicionais, e um rapaz, mais conservador do que ela, um homem sonhador e dependente emocionalmente da família.  Este primeiro terço da obra é interessante, pois quebra diversas e costumeiras suposições sobre a vida de jovens muçulmanos e do dia a dia de um lugar em conflito. Não tenho como saber se é um retrato realista dessas circunstâncias.  Mas a intenção do autor é que assim julguemos.

 

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De repente, no afã de mostrar diversas possibilidades e ajustes no processo de emigração que se faz necessário para os que desejam sobreviver, somos apresentados às vantagens e problemas de imigrantes em diferentes países,  enquanto acompanhamos a vida de Nadia e Saeed em lugares do mundo variados, da Grécia aos EUA, passando pela Inglaterra, na migração sequencial em que embarcaram.

Mohsin Hamid, no segundo tempo, revira a narrativa e através de um dispositivo primário, como portas ou portais para diferentes realidades e incita o questionamento da natureza da terra natal, seu significado e relativismo.  O autor mistura gêneros, do quase realismo à fantasia.  Essa manobra me deixou fria, desinteressada.  E mais: perplexa com o sucesso deste livro.

 

Mohsin_Hamid_reading,_BrooklynMohsin Hamid

 

No terceiro tempo, passados cinquenta anos, encontramos Nadia e Saeed em sua terra natal, onde Saeed ainda sonha em viajar ao Chile para observar o cosmos. Passagem para o Ocidente é frequentemente aplaudido, pelos leitores de língua inglesa, como um texto poético, narrado com delicadeza.  No Brasil, na tradução de José Geraldo Couto, essas qualidades não foram ressaltadas.  O livro apresenta uma linguagem objetiva e seca.  Cristalina.  Sem firulas.  Não agrada, nem desmerece a leitura.

Difícil recomendar esta leitura.

 

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Resenha: “O coração do Tártaro” de Rosa Montero

30 07 2019

 

 

 

mongols-nomads-mobility-minMongóis em conflito, século XIV

Rashid-ad-Din’s Gami’ at-tawarih. Tabriz (?)

Diez A fol. 70, p. 58.

Aquarela sobre papel, 21x 26 cm

Staatsbibliothek Berlin, Orientabteilung

 

 

Há alguns anos Rosa Montero se tornou uma de minhas escritoras favoritas.  O coração do tártaro, publicado pela Nova Fronteira em 2013, é o quinto romance da autora que leio.  A louca da casa, A história do rei transparenteTe tratarei como uma rainha, Instruções para salvar o mundo, além de dois livros de não ficção: Muitas coisas que perguntei e algumas que disse e Histórias de mulheres precederam esta leitura. E ela consegue surpreender. Sempre.  Li o livro há dois meses.  Mas minha opinião precisava se  cristalizar.  Inicialmente pensei ser a  mais simples história de R. Montero, mas mudei de opinião.

Rosa Montero não é uma estilista da língua.  Não encontramos em seus livros figuras de linguagem, nem escolha de imagens poéticas.  Há, em seu lugar, uma voz narrativa forte, baseada no idioma do dia a dia,  enunciada de maneira franca,  com economia.  A exposição  é direta e o ritmo importante.  O que deslumbra seus leitores é o que ela nos faz imaginar, o que ela nos revela para considerarmos.  Trama.  Histórias dentro de histórias, em geral  autorreflexivas.  Aí vemos a riqueza do que nos foi apresentado, o cabedal de recursos imaginários que nos confronta, a exuberante criatividade. É difícil dizer, nessas circunstâncias de qual livro mais gosto.  São todos tão diferentes!  Mas sem dúvida, A louca da casa e A história do Rei Transparente estavam ombro a ombro entre os melhores do grupo e agora,  O coração do tártaro coloco junto a eles, formando esse corpo literário de três cabeças, este Cérbero guardando a porta para o mundo imaginário, para o submundo de que suas obras são feitas, universo onírico de pesadelos que acabam com esperança, atravessando nossas almas, toda vez que nos enterramos na ficção da autora.

O coração do tártaro retrata o dia de uma mulher de 36 anos, Sofia Zarzamala, que trabalha com manuscritos medievais e que ao receber de manhã cedo um telefonema ameaçador de alguém que a procurava, ao ouvir a voz do outro lado entra em alerta total e em poucos minutos muda o rumo de sua vida.  Foge.  Ela sabia que este dia viria e  precisa agir. Toda trama se passa nas vinte e quatro horas seguintes. Zarza, foge do irmão  gêmeo, Nicolas um gangster, que tem bons motivos para persegui-la.  A fuga a leva a lugares do passado e assim vamos conhecendo os motivos dessa perseguição.  Vinda de família completamente disfuncional, Zarza e Nicolas têm ainda dois irmãos,  Martina, que de todos é a que parece ter a vida mais normal e Miguel, um menino autista, mas um gênio no cubo de Rubick, que Zarza e Nicolas colocaram num sanatório.  Zarza e Nicolas cometem todo tipo de ofensas em troca da heroína em haviam se viciado e com isso prejudicam até mesmo o irmão caçula. A mãe desses quatro irmãos morreu de causa desconhecida, talvez suicídio, talvez assassinada pelo marido; e o pai,  figura gigantesca na imaginação e na presença malévola que tem neste lar, é um homem descontrolado que abusa dos filhos, destruindo suas vidas de maneira tão arrasadora que é comparado por Zarza, a Gengis Khan, o imperador mongol que destruía tudo que encontrava.

É este passado de sofrimento, de abuso do pai, que desapareceu subitamente, que também a persegue.  Ao fugir do irmão,  ela se lembra dele e reavalia ações do passado distante com a família e do passado recente da Rainha Branca, a heroína que a manteve cativa.  Lembra-se Urbano o modesto carpinteiro que a retirou da prostituição e de como o tratou de maneira que precisava se redimir.  Enfim, Zarza passa a limpo o passado, talvez pela última vez.

 

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Neste meio tempo somos apresentados a um conto medieval atribuído a Chrétien de Troyes, conhecido poeta e trovador francês do século XII.  Há cinco grandes poemas de sua autoria: Érec e Énide, Cligès, Lancelote: o Cavaleiro da Carreta, Ivain: o Cavaleiro do LeãoPerceval ou le Conte du Graal [inacabado], todos cobrindo de 1170 a 1190. E há um grande número de obras atribuídas a ele.  E é aí nesta fissura do nosso conhecimento que Rosa Montero trabalha um conto, escrito por ela, mas com todas as características do que era escrito no século XII, que espelha a trama de O coração do tártaro.  Primeiro Montero nos diz que a obra é de Chrétien de Troyes, atribuída por dois dos maiores medievalistas contemporâneos.  Mas essa história é de Rosa Montero. Como ela vai misturar realidade e fantasia e ainda mencionar conhecidos intelectuais?  Ela provoca.  Faz com que acreditemos neste possível conto, avalizado por Le Goff e Harris (conhecidos historiadores do período medieval) só para no final, colocar dúvida de novo na autoria.  É uma maneira astuta de evitar qualquer problema jurídico e ao mesmo tempo dar valor à sua criação.

 

Rosa-MonteroRosa Montero

 

Mas este livro  se coloca entre os mais interessantes de Rosa Montero  também pelo variado uso do espelhar de histórias, de personagens e situações, até mesmo transcendendo o tempo.  Este espelhar,  chamado em geral de Doppelgänger, do alemão, ou seja, o outro igual ao que se apresenta, está muito bem distribuído e elaborado na trama, enriquecendo o contexto, fixando no leitor as experiências vividas na leitura.  Nem sempre o duplo é tão óbvio quanto no maravilhoso Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou trabalhado de maneira mais disfarçada como em O duplo, de Dostoiévski, por exemplo.  Exemplos não faltam na literatura e no folclore europeu. Mas eu ainda não tinha me encontrado com “o duplo” em tantos níveis: Zarza e Nicolas, Nicolas e o pai, o presente e o conto medieval entre outros.

Além dessas observações é preciso notar que Rosa Montero parece estar sempre trafegando nas zonas sombrias das emoções.  Seus personagens existem no submundo.  Não só o submundo social, mas o submundo arquétipo como definiu Carl Jung, aquele vestíbulo da mente, dos segredos que carregamos, a porta de entrada para o inconsciente. Este submundo é sombrio.  É melancólico e repleto de desespero.  Aqui, em O coração do tártaro, como aconteceu em Te tratarei como uma rainha e Instruções para salvar o mundo também seus personagens enevoados não pertencem ao universo solar. Há penumbra e solidão. O familiar desespero que encontramos em obras anteriores de Rosa Montero também permeia esta trama. No entanto, como sempre, saímos da leitura com uma nesga de esperança,  com um tanto de fé, nutrindo a fantasia de melhores tempos.  Talvez seja por isso que suas obras sejam tão bem aceitas.  Assim como esta, elas “quase” acabam bem. É incerto, como a vida.  Recomendo a leitura.

 

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Resenha: “Limonov” de Emmanuel Carrère

22 07 2019

 

 

 

s-l1600Sem título, da Série Dois

Martin M (Rússia, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 18 x 13 cm

 

 

Limonov, de Emmanuel Carrère, foi best-seller na França e recipiente do Prêmio Renaudot da Língua Francesa e do Prix des Prix, em 2011.  Traduzido por André Telles e publicado pela Alfaguara em 2013, não fez marolas por aqui, até ser indicado por Marcelo Rubens Paiva para uma editora que publica livros por assinatura em 2017.  Não é leitura fácil, em parte porque o biografado, Eduard Limonov, é uma pessoa desprezível, canalha, ordinário e sem-vergonha.  Mas que descrito pelo autor parece uma pessoa fascinante.  “Limonov não é um personagem de ficção. Ele existe.  Eu o conheço. Ele foi delinquente na Ucrânia, ídolo do underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris, soldado perdido nas guerras dos Balcãs e agora no imenso caos do pós comunismo na Rússia, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados…”  Com essa introdução por Carrère é natural que se espere mais de Eduard Limonov do que o repelente marginal, personalidade secundária, um ser asqueroso, cuja vida seguimos em grande detalhe.

Limonov é descrito como biografia. Mas premiado como romance.  Como?  Por que?  Em parte porque Carrère só entrevistou Eduard Limonov uma vez por duas semanas e a esta altura com o livro quase pronto.  Por outro lado, porque a vida do biografado e a do biógrafo se intercalam e aos poucos descobrimos a paixão, ou até mesmo a inveja de Carrère, não pelo homem Limonov, (Carrère para de escrever o livro por mais ou menos um ano, duvidando da própria razão deste trabalho) mas pela sedução que a vida de aventuras de seu biografado parece ter acendido.  Passei, então, a ver o livro não como uma biografia, mas como um interlóquio entre o escritor e Limonov.

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São dois homens que pararam emocionalmente na adolescência.  Basta dizer que para ambos os livros que mais marcaram suas vidas foram os de aventuras de Alexandre Dumas e obras do americano Jack London.  Eduard Limonov ( Eduard Savenko) nasceu na Ucrânia (portanto cidadão de segunda classe na hierarquia soviética) e passou a vida como rebelde. Pobre, sem respeito por mãe ou pai, Limonov se rebela contra o status quo de qualquer situação.  Seu verdadeiro objetivo é ser do contra.  Mesmo quando o que advoga, por anos, acontece, ele rapidamente muda de posição e torna-se um insurgente, um do contra, já que o que defendia tornou-se norma.  Revolta, seu nome é Limonov.  E sua maneira de revoltar-se não passa de grandes gestos juvenis, sem esteio ou fundamento.  Tanto que no frigir dos ovos Limonov não consegue nada, não passa de um energúmeno, machista, inepto e idiota.

Emmanuel Carrère, por outro lado, desfrutou de uma família bem estruturada: pai executivo, mãe historiadora e professora universitária.  Cresceu e continuou como adulto a se beneficiar das benesses da vida burguesa parisiense. Não se revoltou contra o estabelecimento.  É o verdadeiro oposto de Limonov.  E, ainda que pudesse ter interesse intelectual sobre os revolucionários russos, a mim, escapa a fascinação do autor por um membro tão desnorteado da cosmografia russa.  Não posso deixar de pensar numa pequena revolta contra sua própria mãe, especialista em história russa.  Será que Carrère, deveria ter dedicado tanto de seu tempo e indústria construindo um altar ao anti-herói? Talvez sua mãe, se assim quisesse, pudesse nos dar valor mais acertado do verdadeiro papel de Limonov na resistência, se relevante, contra a abertura do sistema soviético do final do século XX.  E ainda, a fascinação com o “revolucionário” lembra-me defensores do comunismo severo, do stalinismo ou seguidores de Trotsky, que, aqui no ocidente, dormindo em camas macias com lençóis de seda, dirigindo carros do ano, comendo e bebendo á vontade, abrigando-se em belas e espaçosas casas, continuam achando que uma revolução ou um sistema semelhante ao que se estabeleceu na antiga URSS seria a solução para as desigualdades no mundo.  É uma visão idealista, sem qualquer pé na realidade e primária. E, nós mesmos, leitores de Limonov testemunhamos a falácia do sistema através da própria narrativa de Carrère.

 

emmanuel-carrere (2)Emmanuel Carrère

 

Há duas grandes qualidades nesta obra.  A primeira é a habilidade de Carrère de nos manter atentos ao texto, de tal modo que mesmo execrando as ações de Eduard Limonov,  o que nos é contado, de maneira muitas vezes rude ou crua, nos faz  continuar página após página a seguir o fanático e imbecil personagem que o autor nos impôs. A segunda qualidade é o retrato da Rússia sob o governo comunista e sob a abertura iniciada por Gorbachev e da Rússia que conhecemos hoje, a Rússia de Putin, que mais do que nunca aparece como cidadão bastante perigoso.  Poucas vezes temos a oportunidade de ler uma obra que nos traz ações tão contemporâneas, referências a momentos históricos que vimos na televisão ou lemos nos jornais. Essa parte política, tenho certeza, foi de grande valia para que o livro se tornasse best seller na França.  Para os franceses o que acontece em Moscou é de grande importância.  Eles estão muito próximos, apesar dos diversos países que os separam: Bélgica, Alemanha,  Polônia, Bielorrússia. A título de curiosidade procurei a distância entre Paris e Moscou.  É um pouco mais de 2.800 km.  Colocando em nossos termos é menor do que a distância entre Porto Alegre e Palmas, esta é superior a 2.900 km.  Assim, tudo que acontece na Rússia é de muito maior interesse para os franceses do que para nós, aqui em outro continente separados por mar e terra imensos.

Não sei para quem devo recomendar este livro.  Li.  Não gostei.  Mas apreciei as informações que me foram dadas.  E apreciei a habilidade de Carrère.  Mas de cinco estrelas, três estão de bom tamanho.

 

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Resenha: “Regras de Cortesia”, por Amor Towles

18 07 2019

 

 

 

stella_brooklyn_bridgeA ponte de Brooklyn: variação sobre um tema antigo, 1939

Joseph Stella (Itália/EUA, 1877 – 1946)

óleo sobre tela, 178 x 107 cm

The Whitney Museum of American Art, Nova York

 

 

Encantada com Um cavalheiro em Moscou, do escritor americano Amor Towles, procurei seu primeiro livro, Regras de Cortesia, publicado sem grande fanfarra, no Brasil, em 2012, pela Editora Rocco, com tradução de Léa Viveiros de Castro.  Temerosa dessa leitura não chegar aos pés do feitiço da anterior, fui devagar à fonte, li outros autores no intervalo, para poder apreciar a obra de maneira mais distante.  Levei um pouco mais de tempo para sucumbir ao charme da voz narrativa de Amor Towles neste livro.  Mas acabei a leitura tão encantada quanto com o livro anterior. E hoje, não consigo me decidir qual deles mais me agrada.

Amor Towles traz para seus textos imagens novas em linguagem sedutora.  Regras de Cortesia se passa em um único ano. Cobre do Ano Novo de 1937-38 a dezembro de 1938.  A personagem principal, aquela que me fascinou, com a qual reconheci o verdadeiro espírito da nova-iorquina típica, cavadora, trabalhadora, desenvolta, diligente,  buliçosa, filha de imigrantes que acredita na possibilidade de crescer e subir na vida, é Katey Kontent que, vinda de Brighton Beach em Brooklyn, trabalha como  secretária numa firma de advocacia em Wall Street e mora na pensão da Sra. Martingale, junto a outras jovens como ela.  Katey está alerta para todas as oportunidades de crescimento. Neste fim de ano de 1937, está acompanhada da amiga, Eve Ross, jovem do interior do país, filha de pequenos fazendeiros, que também sonha em escapar do destino que lhe parece inevitável na cidade natal, fugindo para Nova York, a tentar sorte e fortuna.  Juntas passam uma das mais interessantes comemorações de Ano Novo, quando conhecem Theodore (Tinker) Grey, rapaz de família abastada, que ambas reconhecem como um bom partido, ainda que provavelmente fora de suas possibilidades sociais.  Temos aí o trio de personagens que constrói a história de Regras de Cortesia.

 

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Mais do que a trama entre esses personagens, Amor Towles delineia uma Nova York excitante e cheia de possibilidades para quem consegue, como Katey Kontent,  navegar Manhattan de cima abaixo, dos bairros boêmios aos ricos fronteiriços ao Central Park.  Jovem e energética, Katey nos leva aos quatro cantos da ilha, passando por mais de um emprego, por uma gama de conhecidos das classes abastadas, através das quatro estações do ano.  Ao final de 1938 encontramos Katey no alto escalão de sociedade nova-iorquina como secretária da Condé Nast.  Um ano extraordinário para os três personagens cujas vidas se entrelaçam.

 

 

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Regras de Cortesia é um retrato de uma época, o retrato vibrante da grande cidade americana, no desenvolvimento que viria a torná-la a capital mundial depois da Segunda Guerra.  Através de Katey, Ema, Tinker e seus companheiros temos a sensação de rever o final da década de 1930, pós-Depressão e testemunhar o espírito que melhor define a maneira de ser nova-iorquina. Um excelente retrato do espírito da época, ou Zeitgeist. Leitura fartamente recomendada para quem gostaria de presenciar o espírito do que levou ao desenvolvimento de Nova York,  da segunda metade do século XX e dos EUA.

 

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Resenha: “As redes da ilusão” de Amy Tan

4 07 2019

 

 

 

Painting04-600x457Aldeia à beira de rio, em Burma

U M.T. Hla (Burma, 1874 -1946)

Aquarela,  21 x 16cm

 

 

Comecei a leitura de As redes da ilusão de Amy Tan [tradução de Ana Deiró] de maneira hesitante: um fantasma, como narrador, não me parecia interessante.  Grande erro.  A alma morta que nos conta a história do livro tem um grande senso de humor, e não foram poucos os momentos de riso solto durante o convívio com essa protagonista.  Este é o primeiro livro de Amy Tan que leio.  Chego atrasada à famosa escritora de grandes sucessos.  Mas descobri que, entre seus seguidores, esta não é uma obra favorita.  Entendo.  A leitura deste volume me pareceu longa, com muitos momentos em que vi com pesar a falta de um editor que tivesse a responsabilidade de cortar umas cem páginas do total, repletas de detalhes que subtraem do interesse do leitor.

Trata-se da história de um grupo de turistas americanos que viaja a Burma, parando primeiro na China.  A narradora-fantasma seria a guia do grupo, mas morreu antes.  Daí seu interesse, em parte.  É um grupo heterogêneo, típicos ocidentais, americanos, mas poderiam facilmente ser brasileiros, que acreditam na superioridade de seus conhecimentos.  Absorvidos em si mesmos quase não aproveitam as oportunidades que lhes são apresentadas e por descuido de quem não entende a cultura onde se inseriu, fazem os maiores descalabros, causando revolta e aparecendo no noticiário local.  Ainda que a intenção do texto seja mostrar a falta de cuidado com a cultura dos outros que muitos turistas internacionais têm, essas “distrações” são fonte de grande humor e de alguma ponderação sobre o comportamento humano.

 

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Nesse meio tempo somos apresentados a um grupo de nativos da região que acredita,  que, um dia, um ser espiritual branco virá salvá-los. Ao verem os mais básicos e corriqueiros truques de mágica de um dos adolescentes do grupo, esse povo acredita na chegada de seu salvador.  E resolve raptá-lo.  Na verdade, levam o grupo inteiro de turistas pelos caminhos da floresta.  Turistas tão absorvidos em si próprios que não se dão conta de que estão sendo raptados. Para mim esta foi uma das partes mais interessantes da narrativa. De aventura em aventura, chegamos a vislumbrar alguns problemas de excesso de poder da junta militar de Burma, e a falta de respeito aos direitos humanos que ainda prevalece em muitos lugares no mundo.  Achei este desenvolvimento do texto sobre a política local, forçado e inserido para agradar à população americana de origem asiática.  Por mim, não é essa a maneira de se sensibilizar os leitores, ficou fora da cadência anterior, engraçada, quase uma comédia de erros.

 

amy tanAmy Tan

 

Curiosamente As redes da ilusão leva um nome diferente no original em inglês: “Saving fish from drowning” [salvando peixes do afogamento], que se refere a uma pequena passagem no livro, sobre uma lenda  local  que desculpa pescadores de matar os peixes pescados.  Eles pescam os peixes para que não morram afogados.  Quando morrem porque estão fora d’água não resta mais nada senão comê-los ou vendê-los.  Ilustra um ponto importante deste romance, que mostra que muitas vezes ajudamos alguém com as melhores intenções mas não conseguimos salvá-los de seus próprios destinos, como acontece com os turistas neste livro.

No todo, com menos umas cem páginas, este seria um livro recomendável a todos.  Como está, uma colcha de retalhos de aventuras díspares e com a inserção de postulados políticos, acho difícil recomendar a leitura universalmente.  Houve momentos em que do livro fui ao Google, para procurar imagens das cidades, montanhas, lugares descritos.  Isso ajudou a passar os momentos de enfado com um texto que nem sempre parece ter direção.  E é claro, aumentou muito a minha cultura sobre essa região do mundo.  Mas foi preciso um esforço meu, para vencer a prosa prolixa de Amy Tan.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha de “As fúrias invisíveis do coração” de John Boyne

2 07 2019

 

 

 

AN IRISH VILLAGE by Markey RobinsonUma aldeia irlandesa, ilustração de Markey Robinson.

 

 

Este não foi o mais interessante romance de John Boyne.  É uma história ambiciosa, prolixa,  dramática que poderia ter tido maior impacto se o escritor não tivesse sucumbido à tentação de numerosos detalhes desnecessários e à armadilha comercial de um final feliz. Nesta longa obra o leitor acompanha a vida de um homem, irlandês, gay, nascido logo depois da Segunda Guerra Mundial, em 1945, de sua gestação à morte. Tomamos carona para acompanhar também mudanças de comportamento social no mundo pós-guerra e as dificuldades enfrentadas pelos homossexuais no mesmo período. Passamos pela Irlanda católica, pela Europa, centrada em Amsterdã, vamos aos Estados Unidos e como não poderia faltar somos levados a considerar alguns aspectos da horrível epidemia da AIDS que se espalhou pelo mundo a partir dos anos 80 do século passado. Definitivamente um projeto audacioso e necessário por trazer para o cultura popular considerações que vemos com maior frequência restritas a obras menos comerciais ou ao nicho da literatura gay.

Como bom escritor, apreciado por multidões,  John Boyne traz ritmo, drama e humor para um enredo que se desenvolve apoiado por uma dúzia de personagens curiosos, quase todos fora da norma, preenchendo a máxima popular comum nos nossos dias: “de perto ninguém é normal.”  Cada um é rebelde à sua maneira. Só o nosso biografado é o único a não se rebelar. Tímido e frouxo Cyril é um anti-herói. É um personagem principal, sem um osso de bravura, covarde e irresponsável,  incapaz de medir as consequências de seus atos para com terceiros.  E é ele quem acompanhamos com cuidado. E a quem devemos, no final, imaginar com carinho, entendimento e calor.  Uma façanha difícil para esta leitora.  O final desaponta.  Muda o tom da narrativa.  Do realismo aspirado durante a história, pulamos para o mundo da fantasia.  A boa vontade do autor traz um fechamento onde se reconhece os bons aspectos de todos os personagens envolvidos, num final feliz característico dos contos de fadas.

 

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Talvez esse livro tivesse me agradado mais se não contivesse tantos erros históricos que demonstram uma pesquisa porca.  Descuidada.  Tive essa sensação algumas vezes até que de repente vejo General De Gaulle da França mencionado como tendo se aposentado em 1959, quando na verdade este foi o ano em que ele começou a presidência da França.  Daí por diante encontrei uma série de problemas.  Há uma visão anacrônica do mundo.  Preocupações sobre o cigarro, limitações de comportamento daqueles que fumam, por exemplo, aparecem como pertinentes nos anos 50-60 quando na verdade o fumo era liberado em todo canto, dentro e fora dos ambientes fechados.  Há o problema de mencionar a República Checa em 1987, quando na realidade, nesta época não havia este país.  O país fazia parte do que se chamava Checoslováquia.  O mesmo para a Eslovênia.  Foi preciso uma série de conflitos, de guerras entre 1989 e 1992 para que os países que formaram, a contragosto, desde 1945 o país Iugoslávia, voltassem a ser independentes como eram antes do domínio comunista, sob o comando do ditador Tito. Não há perdão para esse tipo de erro.  E esses não são os únicos erros.  Passando em revista outras resenhas em sites de livros e resenhas, vejo que tenho companhia, dezenas de outros leitores listaram muitos outros detalhes incôngruos.

 

boyneJohn Boyne

 

Um escritor tão popular quanto John Boyne tem a obrigação de trazer fatos históricos corretos.  Se ele não quer fazer a pesquisa, tenho certeza de que poderia pagar um assistente para verificar dados.  Não posso liberar de culpa a editora original, porque ela também deveria ter tido o interesse de checar esses detalhes.  Muitos leitores adquirem conhecimentos de história através de livros.  É um desserviço para com seus leitores que Boyne não se preocupe em limpar o texto.  Sinto, mas perde muito com isso.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “Autobiografia”, Agatha Christie

21 11 2018

 

 

 

Bryce Cameron Liston, An Enchanting Tale, 2013, ost, 50 x 40 cmHistória fascinante, 2013

Bryce Cameron Liston (EUA, 1965)

óleo sobre tela, 50 x 40 cm

 

 

Muito me surpreendi com a Autobiografia da Agatha Christie.  Boa surpresa.  Esta é uma leitura feita por uma profissional da escrita: fácil de ler, interessante, repleta de informações pessoais, culturais e sobre hábitos da época.  Foram quase 600 páginas que me deixaram com gosto de quero mais.  Não é qualquer um  que consegue isso. Na virada de 2018 tomei decisão de ler mais livros de outros segmentos além de ficção/romance.  Ando interessada em memórias.  Gosto daquelas que colocam a vida do autor no contexto da época.  Esta é uma delas.

Neste livro, aprendi sobre costumes da época (virada do século XIX para o XX) que são interessantes de pontuar. Hábitos e maneira de pensar eram diferentes.  Uma das surpresas foi saber da existência de uma tal “carroça de banho de mar” que as mulheres na primeira década do século XX usavam.  Era realmente uma carroça, com rodas, e uma tendinha de madeira em cima para a troca de roupas.  Elas eram puxadas para um lugar mais fundo do mar para mulheres poderem nadar. Veja foto abaixo.  Eu já conhecia regras que circunscreviam os banhos de mar para mulheres, mas essa foi a primeira vez que soube desses carrinhos.

Há observações sobre o comportamento das mulheres que quero ressaltar. Em 1919, Agatha Christie teve um filha. Quando Rosalind está com dois anos e pouco, em 1922, Archie Christie, seu marido, tem oportunidade de trabalhar viajando por um ano de navio, através dos países que faziam parte da Commonwealth Britânica. Agatha não se estressa.  Deixa a filha com a mãe e a irmã e uma babá e vai viajar pelo mundo por um ano inteiro, por todas as colônias inglesas. Hoje, em pleno século XXI, a mesma classe média alta, pelo menos aqui no Brasil, ou até mesmo nos EUA, acharia estranha essa decisão.  Como?  Não ver sua única filhinha, tão pequenina por um ano inteiro?  Num mundo sem SKYPE, sem Whatsap, sem internet, sem a facilidade de telefonemas internacionais?

 

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Também é interessante notar que Agatha Christie é capaz de viajar sozinha através de muitos países.  Estamos falando de viagens antes da Segunda Guerra Mundial.  Sozinha.  Por que?  Porque quase todos os países por que passa são protetorados ingleses.  As leis inglesas protegiam essa mulher, que na Inglaterra da época já tinha bastante mais liberdade do que em outros cantos do mundo.  Se formos comparar com o presente, 2018, praticamente 100 anos depois das aventuras de Agatha Christie, nós mulheres, não podemos viajar sozinhas, como turistas, mala em punho, pela maioria dos países por onde ela passou no Oriente Médio.  Essa é uma diferença enorme.  Depois da independência desses países leis que restringem deslocamento de mulheres, baseadas no Alcorão ou em costumes locais,  deixaram de dar apoio a essa liberdade feminina.

O leitor tem também a oportunidade de descobrir que Agatha gostava bastante de esportes e com seu primeiro marido, esteve entre os primeiros europeus a praticar surfe em pé na prancha, quando nesta mesma viagem de 1922/23 estiveram no Havaí.  E numa época em que carros eram raros, ela já dirigia seu próprio.  No fundo, o que mais me surpreendeu nesta autobiografia foi perceber como ela foi uma mulher moderna.  Muito moderna. E com seu sucesso literário tomou para si o poder, o poder de decidir o que queria, de fazer o que queria, quando queria, sem dar satisfações.

 

young-agatha-christie-1926Agatha Christie, 1926

É claro que para os fãs de Agatha Christie ler sua autobiografia será interessante para conhecer que ideias apareceram em seus livros como resultado da própria vivência da escritora.  Curioso saber da surpresa dela com o próprio sucesso, e que, com o tempo, ela não se acanhava de fazer bom uso do dinheiro que lhe veio às mãos, comprando imóveis e remodelando-os.  Quando precisava de uma renda maior, para ajudar nas obras, para colocar mais uma viagem na agenda, Agatha Christie admite, sem pudor, que se sentava à mesa, para escrever um conto ou um romance que lhe trouxesse dinheiro.  Talvez seja por isso que conta mais de 80 títulos de sua autoria.

Outro aspecto que esquecemos quando falamos da Dama do Mistério é que ela também se sobressaiu na dramaturgia.  São dela as duas peças de teatro de maior sucesso no mundo, no século XX.  A ratoeira [The Mouse Trap], foi encenada, ininterruptamente desde 1952 até hoje. Testemunha de acusação [Witness for the prosecution] de 1953.

É difícil resenhar uma vida tão completa da escritora que mais vendeu livros no mundo, ficando em terceiro lugar, depois da Bíblia e Shakespeare. Calcula-se em 4 bilhões de exemplares.  Agatha Christie teve uma vida repleta.  Viveu bem e intensamente.  Deixou  80 livros policiais e de contos, 19 peças de teatro e 6 romances usando o pseudônimo Mary Westmoreland.  Suspeita-se que ainda haja outras obras com outra identidade.

 

bathing11Carroça de banho.

 

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