Quadrinha dos filhos e netos

21 08 2012

Visita à vovó, ilustração Marie Cramer.

Fizemos na vida ingrata
do nosso amor um tesouro:
os filhos nos deram prata!
Os netos nos deram ouro!


(José Maria Machado de Araujo)





Esse pequeno mundo, poesia de Pedro Bandeira

20 08 2012

Esse pequeno mundo

Pedro Bandeira

Sei que o mundo é mais que a casa,

Mais que a rua, mais que a escola,

Mais que a mãe e mais que o pai.

 –

Vai além do horizonte,

Que eu desenhei no caderno,

Como linha reta e preta,

Que separa azul de verde.

 –

Sei que é muito, sei que é grande,

Sei que é cheio, sei que é vasto.

 –

Me disseram que é uma bola,

Que flutua pelo espaço,

Atirada pelo espaço,

Atirada pelo chute

De um gigante poderoso;

Vai direto para um gol,

Que ninguém sabe onde é.

 –

Mas para mim o que mais conta

É este mundo que eu conheço

E que cabe direitinho

Bem debaixo do meu pé.

Em: Cavalgando o arco-íris, Pedro Bandeira, São Paulo, Moderna:1984.

 –





Quadrinha da poluição

17 08 2012

Ilustração Chris Madden. [www.chrismadden.co.uk]

A casa alheia varrendo
antes de limpar a sua
– é o que o homem está fazendo,
tão preocupado com a Lua.

(Ney Damasceno)





A minha sombra, poema de Pedroso Rodrigues

15 08 2012

Decalcomania, 1966

René Magritte (Bélgica, )

óleo sobre tela

Coleção Particular, Dr. Noémi Perelman Mattis e Dr. Daniel C. Mattis

A minha sombra

Pedroso Rodrigues

Que sombra vacilante e receosa,

De pedra em pedra, ao longo do caminho,

Vem seguindo os meus passos de mansinho,

E para, quando eu paro, cautelosa?

Vê-me partir da terra e corre, ansiosa,

Morre e renasce, à luz do luar de arminho;

Sobre as ondas do mar, como um golfinho,

Corta do meu navio a proa airosa.

Vai onde eu vou, onde eu existo existe;

Afasta-se sutil se a luz da esperança

Afaga o meu olhar; se me vê triste

Vem logo a mim guardar-me noite e dia…

Sombra fiel, quem és, que não te cansa

Ser a sombra da luz que me alumia?

Em: Poemas em sonetos, Pedroso Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora do autor: 1933.

Pedroso Rodrigues (Portugal? — Brasil?)

Obras:

Auto Pastoril, teatro, 1903

Bodas de Lia, teatro, 1906

A Cilada, teatro, 1912

Poemas em Sonetos, poesia, 1933





Quadrinha da casa onde cresci

14 08 2012

Ilustração Lívia.

Recordo o velho sobrado…
meus pais… a infância inocente…
e as essências do passado
vão perfumando o presente!…

(Arlindo Tadeu Hagen)





Bichos, poesia de Domingos Pellegrini

7 08 2012

A jaula do leão, 1883

Daniel Hernández Morillo (Peru, 1856-1932)

óleo sobre tela

Bichos

Domingos Pellegrini

No zoológico o mais esquisito

não é o bicho encolhido de medo

nem é o condor encarcerado em tédio

em vez de viajar ao infinito

Não é tigre triste e sem remédio

não é macaco com olhar aflito

não é o leão vizinho do cabrito

ou a girafa longe de arvoredo

Não é o rinoceronte sem campina

nem a onça sem caça a nos olhar

com a selvageria já mofina

Bicho mais esquisito é o que aprisiona

a bicharada para se apreciar

arrotando pipoca e Coca-Cola

Em: Gaiola aberta: 1964-2004, Domingos Pellegrini, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2005





Sem melar as mãos, poesia infantil de Francisco Azevedo

4 08 2012

Margarida toma sorvete, ilustração de Maurício Sousa.

Sem melar as mãos

Francisco Azevedo

Nesta vida

a gente vai tomando sorvete

como pode.

O pescoço torto

lambe em volta

pra não cair respingo.

De repente, suspense:

a língua salva

em segundos

o excesso que escorre.

Os olhos não enxergam

um palmo adiante do nariz:

riscos e cuidados

sujeira por um triz.

Ao final

(Mesmo de colher)

só os raros chegam

sem melar as mãos.

— Me alcança um guardanapo, vai.

(New York, 1982)

Em: A casa dos arcos, Francisco Azevedo, Paz e Terra: 1984, Rio de Janeiro

Francisco José Alonso Vellozo Azevedo, (Rio de Janeiro, RJ , 23/2/1951) –  formado em direito, diplomata, escritor, roteirista, cinematógrafo e poeta.

Obras:

Contra os moinhos de vento, poesia e prosa, 1979

A casa dos arcos, poesia, 1984

O arroz de palma, romance, 2008

Doce Gabito, romance, 2012

Unha e carne, teatro

A casa de Anaïs Nin, teatro





Quadrinha para o papai

1 08 2012

Cebolinha no carro com papai. Ilustração Maurício de Sousa.

Pai, tu foste um exemplo

de coragem e honestidade.

Fizeste da vida um templo

– Culto ao amor e à verdade!

 –

(Jessé Nascimento)





Quadrinha das ruas da cidade

28 07 2012

Rua de Patópolis, ilustração de Walt Disney.

As ruas são labirintos
onde eu noto, em profusão,
milhões de dramas distintos
vagando na multidão!

(Arlindo Tadeu Hagen)





O galo, poesia de José Paulo Moreira da Fonseca

26 07 2012

Galo cantando, ilustração de Walter Tomlin, capa da Revista House & Garden, de julho de 1927.

O galo

José Paulo Moreira da Fonseca


Antes do rubor da aurora

O teu vermelho canto se ergue em flamas

Ferindo a noturna paisagem, mas tão rude e sôfrego

Que dir-se-ia tudo perdido. E o repetes

E um novo cantar, ao longe, nos relembra a imensidão das sombras.

Em: Antologia Poética, José Paulo M. F., Rio de Janeiro, Leitura: 1968