Pássaros na cidade, ilustração de Sylvie Daigneault.
Cruza o espaço a passarada,
no seu voo alegre e arisco,
levando à manhã menina
as bênçãos de São Francisco.
(Corrêa Júnior)
Pássaros na cidade, ilustração de Sylvie Daigneault.
Cruza o espaço a passarada,
no seu voo alegre e arisco,
levando à manhã menina
as bênçãos de São Francisco.
(Corrêa Júnior)
Xilogravura japonesa policromada, Ukiyo-e.
Vai o rio em cantochão…
Suas águas se lamentam.
-Parecem pedir perdão
às pedras que as atormentam.
(Durval Mendonça)
Castelo de cartas, ilustração de H. B. Long.
Guilherme de Almeida
Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!
Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?
Como vais, como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?
Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.
Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!
Céu e água II, 1938
M.C. Escher ( Holanda, 1898-1972)
Xilogravura
Antes do voo da ave,
que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal
que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece,
e assim deve ser,
O animal,
onde já não está
e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve,
o que não serve para nada.
A recordação
é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza
de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada,
e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa,
e ensina-me a passar!
Em: Poemas completos de Alberto Caeiro, Mensagem, Fernando Pessoa, Lima, Peru, Los Libros Mas Pequeños del Mundo: 2011, páginas 149-150.
Noite enevoada
Barbara Fracchia (EUA, contemporânea)
Óleo sobre tela, 60 x 50 cm
Vem a neblina… e a cidade
goteja um pranto silente…
– Neblina é como a saudade
molhando os olhos da gente.
(Joubert de Araújo Silva)

Em bando sutil, as garças,
pontilhando o lamaçal,
são quais pérolas esparsas,
adornando o pantanal.
(Dorothy Jansson Moretti)
Gato peludo, ilustração de Harrison Fisher (1875-1934).
Bobagem grande, de fato,
que o meu bom senso rejeita…
Mas que inveja dá-me o gato
que no teu colo se deita!…
(A. A. de Assis)
Ilustração de Pierre Brissaud.
Antonio Cícero
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.
por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
Por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Em: Guardar: poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2008, página 11

José Joaquim Cândido de Macedo Júnior (1842 – 1860)
Quando cismas, donzela, no teu rosto
Que linda per’la suspirando corre!
— Pranto dourado que não diz desgosto,
Que num sorriso no teu seio morre!
Mimo dos anjos que tua alma prende
Aos céus ridentes nesse doce encanto,
Lágrimas d’ouro que teu peito incende,
Que o amor celeste se traduz num pranto!
E a gota pura vem cantar um hino
Que os anjos n’alma te murmuram rindo,
Pérola branda diz um som divino
Que o peito entoa em murmurejo infindo!
Bela — do altar do teu virgíneo seio
Deixa esse orvalho de dulçor correr;
Minh’alma treme nesse brando enleio,
Ai! vai por ele nos teus pés morrer!
Chora! a inocência te sorri no choro,
São risos virgens de infantis amores,
São doces hinos de um celeste coro,
Dizem — enleios — mas não dizem dores.
Teu pranto puro beberão os anjos
Num doce anseio de inocente medo,
Teu sol — ó virgem — só serão arcanjos
— Teu lábio os beije no infantil segredo.
Chora, donzela, de teu níveo seio
Deve esse orvalho de dulçor correr;
Minh’alma treme nesse doce enleio,
Vai por teu pranto nos teus pés morrer!
Em: O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 2, 11 de setembro de 1859, p.12. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 32.
Ilustração de Kate Greenaway, 1910, para o Flautista de Hamelin
Para dar cor aos matizes
da mais bela floração,
humildemente, as raízes
vivem ocultas no chão !
(Cipriano Ferreira Gomes)