Feliz é o macaco, poesia infantil de Albércio Vieira Machado

8 07 2022
Macaquinho pendurado, ilustração MW editora.

 

Feliz é o macaco

 

Albércio Vieira Machado

 

 

Pela cauda preso ao galho,

ele faz o seu trabalho:

com as mãos faz o “diabo!”

Porém, nós, que não o fazemos,

com inveja, então dizemos:

— Quanta falta faz um rabo!

 

 

Em: Poetas do Brasil, organização Aparício Fernandes, 4º volume, Rio de Janeiro, Folha Carioca: 1979, p. 31





Trova das perucas

5 07 2022

As perucas diferentes,

que a vaidade lhe requer,

dão-me adultérios frequentes

com minha própria mulher!

(Antonio Carlos Teixeira Pinto)





Trova da infância

3 07 2022

Desconheço a autoria desta ilustração.

Na infância, festa de cores,

tudo era encanto e magia

e eu via muito mais flores

além das tantas que havia.

 

(Pedro Ornellas)





Trova da astúcia

30 06 2022

Soldados

John Singer Sargent (EUA, 1856-1925)

aquarela

 


Se a guerra foi declarada

e é poderoso o oponente,

faze da astúcia aliada,

que astúcia é força da mente!

 

(Élbea Priscila de Souza e Silva)

 





Lira das penas, poesia de Armando Braga

28 06 2022

Lira das penas

Armando Braga

Numa gaiola, toda azul e ouro,

De raro estilo e singular beleza,

Tinha um canário, a pálida Princesa:

— Seu bem-amado e seu maior tesouro…

Às vezes presa de infundado agouro,

Vivia instantes de mortal tristeza;

E então ficava, debruçada à mesa,

a ouvir cantar o seu Caruso louro…

Mas certo dia de um destino vário,

Chora a Princesa a morte do canário

Que fora a vida de seus sonhos ledos!

Como eu te invejo, ó Príncipe Encantado,

Que mais pudesse com cantar teu fado,

Do que eu com a lira a me gemer nos dedos!

Em: Poetas nas Bandas do Mar: uma antologia, ed. João do Prado Maia e outros marinheiros poetas, ed. José Nazar, Rio de Janeiro, Companhia de Freud: 2007, pp: 75-6.

Armando Braga (1883-1969), engenheiro, geógrafo, poeta, músico, escultor, pianista e compositor, teve suas obras (poesia e prosa) publicadas nas revistas Careta, O Malho, entre outras.





Trova da dúvida

21 04 2022
Ilustração de Maurício de Sousa.

Não sei se vá ou se fique,

Não sei se fique ou se vá,

Indo lá não fico aqui,

Ficando aqui não vou lá.  

(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)





W. H.Auden, Funeral Blues, em inglês e duas traduções

19 04 2022

Composição, 1957

Antônio Bandeira (Brasil, 1922 – 1967)

óleo sobre tela, 90 x 90 cm

 

Funeral Blues

 

W. H. Auden

 

Stop all the clocks, cut off the telephone,

prevent the dog from barking with a juicy bone,

silence the pianos and, with muffled drums,

bring out the coffin, let the mourners come.

 

Let airplanes circle moaning overhead

scribbling on the sky the message: he’s dead.

Put crepe-bows round the white necks of the public doves,

let the traffic policemen wear black cotton gloves.

 

He was my North, my South, my East and West,

my working week, my Sunday rest,

my noon, my midnight, my talk, my song.

I thought that love would last forever; I was wrong.

 

The stars are not wanted now, put out every one.

Pack up the moon, dismantle the sun.

Pull away the ocean and sweep up the wood.

For nothing now can ever come to any good.             

 

 

Em: Tell me the truth about love: ten poems, W. H. Auden, Vintage: 1994

 

 

TRADUÇÂO I

 

Parem já os relógios, corte-se o telefone,

dê-se um bom osso ao cão para que ele não rosne,

emudeçam pianos, com rufos abafados

transportem o caixão, venham enlutados.

 

Descrevam aviões em círculos no céu

a garatuja de um lamento: Ele Morreu.

no alvo colo das pombas ponham crepes de viúvas,

polícias-sinaleiros tinjam de preto as luvas.

 

Era-me Norte e Sul, Leste e Oeste, o emprego

dos dias da semana, Domingo de sossego,

meio-dia, meia-noite, era-me voz, canção;

julguei o amor pra sempre: mas não tinha razão.

 

Não quero agora estrelas: vão todos lá para fora;

enevoe-se a lua e vá-se o sol agora;

esvaziem-se os mares e varra-se a floresta.

Nada mais vale a pena agora do que resta.

 

tradução de Vasco Graça Moura

 

 

TRADUÇÂO II

 

Parem todos os relógios, que os telefones emudeçam.

Para calar o cachorro, um bom osso lhe ofereçam.

Silenciem os pianos, e em surdina os tambores

Acompanhem o féretro. Venham os pranteadores.

 

Que aviões a sobrevoar em círculos lamurientos

Rabisquem no céu o Anúncio de Seu Falecimento.

Que nas praças as pombas usem coleiras de crepe, em luto,

E os guardas de trânsito calcem luvas negras em tributo.

 

Ele foi meu norte, meu sul, meu nascente, meu poente.

Foi o labor da minha semana, meu domingo indolente.

Foi meu dia, minha noite, meu falar e meu cantar.

Julguei ser o amor infindo. Como pude assim errar?

 

Já não me importam as estrelas: fique o céu todo apagado.

Empacotem e embrulhem a lua; seja o sol desmantelado.

Esvaziem os oceanos, do mundo sejam as florestas varridas.

Porque agora, para mim, nada resta de bom nesta vida.

 

tradução de Humberto Kawai

 

 

 

 





Trova do juízo

3 03 2022

Vendo num retrato antigo

meu rosto arteiro e bem liso, 

concluo: rugas, amigo,

é quanto custa o juízo.

 

(Maurício Cardoso Faria)





Trova da estrada

25 02 2022
Ilustração Marco de Gastryne

Foste embora e por maldade

deixaste a troco de nada,                

rastros da tua saudade

em cada curva da estrada!…

(Marilúcia Resende)

 





Trova das visitas

17 02 2022
Ilustração, Walt Disney

Visitas, meu camarada,

sempre dão prazer à vida:

não sendo quando à chegada,

será, por certo, à saída…

 

(Pedro Uzzo)