Ilustração Rudolf Koivu
Vencendo o tempo e a distância
num clima de eternidade,
os natais de minha infância
permanecem na saudade.
(Ivo dos Santos Castro)
Ilustração Rudolf Koivu
Vencendo o tempo e a distância
num clima de eternidade,
os natais de minha infância
permanecem na saudade.
(Ivo dos Santos Castro)
Um sorriso em um semblante,
um quarto, uma ceia, um grito…
Arte é o que faz de um instante
um resumo… do infinito.
(Sérgio Ferreira da Silva)
A florista
Clodoaldo Martins (Brasil, 1985)
óleo sobre tela, 64 x 76 cm
Casimiro de Abreu
Moreninha, Moreninha,
Tu és do campo a rainha,
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d’amores,
Faceira, vendendo as flores
Que colhes no teu jardim.
Quando tu passas n’aldeia
Diz o povo à boca cheia:
– “Mulher mais linda não há
“Ai! vejam como é bonita
“Co’as tranças presas na fita,
“Co’as flores no samburá! –
Tu és meiga, és inocente
Como a rola que contente
Voa e folga no rosal;
Envolta nas simples galas,
Na voz, no riso, nas falas,
Morena – não tens rival!
Tu, ontem, vinhas do monte
E paraste ao pé da fonte
À fresca sombra do til;
Regando as flores, sozinha,
Nem tu sabes, Moreninha,
O quanto achei-te gentil!
Depois segui-te calado
Como o pássaro esfaimado
Vai seguindo a juriti;
Mas tão pura ias brincando,
Pelas pedrinhas saltando,
Que eu tive pena de ti!
E disse então: – Moreninha,
Se um dia tu fores minha,
Que amor, que amor não terás!
Eu dou-te noites de rosas
Cantando canções formosas
Ao som dos meus ternos ais.
Morena, minha sereia,
Tu és a rosa da aldeia,
Mulher mais linda não há;
Ninguém t’iguala ou t’imita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!
Tu és a deusa da praça,
E todo o homem que passa
Apenas viu-te… parou!
Segue depois seu caminho
Mas vai calado e sozinho
Porque sua alma ficou!
Tu és bela, Moreninha,
Sentada em tua banquinha
Cercada de todos nós;
Rufando alegre o pandeiro,
Como a ave no espinheiro
Tu soltas também a voz:
– “Oh quem me compra estas flores?
“São lindas como os amores,
“Tão belas não há assim;
“Foram banhadas de orvalho,
“São flores do meu serralho,
“Colhi-as no meu jardim.” –
Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
– Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!…
Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má
– Como tu ficas bonita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!
Eu disse então: – “Meus amores,
“Deixa mirar tuas flores,
“Deixa perfumes sentir!”
Mas naquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!
Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelha como a romã!
Tu fugiste, feiticeira,
E decerto mais ligeira
Qualquer gazela não é;
Tu ias de saia curta…
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!
Ai! Morena, ai! meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,
Mas dá-me um beijo também;
Que importam rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem?…
Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te – rosa da aldeia –
Como mais linda não há.
– Jesus! Como eras bonita
Co’as tranças presas na fita,
Co’as flores no samburá!
Indaiassú – 1857
Olavo Nunes (1871-1942)
Quando ela passa, risonha e pura,
De arzinho honesto, cheia de graça…
Todos murmuram: Que formosura!…
Quando ela passa…
Flores rebentam pelo caminho
Sob os pezinhos que a bota enlaça;
Beijos se escutam de ninho a ninho,
Quando ela passa…
Seguem-na olhares cheios de gula
Como os da fera fitando a caça,
Olhares meigos que amor açula,
Quando ela passa…
Boca vermelha que o riso enflora
Cintura fina que um dedo abraça,
Parece ver-se Nossa Senhora,
Quando ela passa…
À luz dos olhos dessa menina
Deserta o pranto, foge a desgraça;
Com grande afeto tudo se inclina,
Quando ela passa…
Sombrero alegre, cheio de fita,
Vestido leve de fina cassa,
Gosto de vê-la assim tão bonita,
Quando ela passa…
Trinulam aves pelas umbrosas
Ramas que o vento no alto entrelaça,
E abelhas d’oiro desfolham rosas,
Quando ela passa…
Quando ela passa, risonha e pura,
De arzinho honesto, cheia de graça…
Todos murmuram: Que formosura!…
Quando ela passa…
Em: Coelho Netto e a Mina Literária, Imprensa de Alfredo Silva, Pará: 1899, pp 34-36
Queridos seguidores e leitores:
Escolhi entre mais opções esta capa para meu próximo livro de poemas. Como no meu livro anterior a capa será com um quadro. Não sei se ainda vai ficar com o titulo onde está, embaixo, se estas serão as fontes usadas… ou se o titulo vai lá para cima. Estou nos primeiros estágios dessa nova publicação. Mas gostaria de saber de vocês quais três palavras esta imagem sugere para vocês ao verem essa capa. Será de grande ajuda para mim. Muito grata.
O enterro de Atala, 1808
Anne-Louis Girodet (França, 1767-1824)
óleo sobre tela, 207 x 267 cm
Louvre
Juvenal Galeno
Hoje, Dia de Finados,
Às campas os vivos vão
Aos mortos render menagem;
Mas, com certa ostentação…
E eu visito um cemitério
Dentro do meu coração.
Ai, nele, quantos sepulcros,
Quantas cruzes no seu chão:
Amores da primavera,
Amores do meu verão,
Que em meu outono revejo
Dentro do meu coração.
Quantas florinhas fanadas,
Ai, murchas ‘inda em botão;
Quanta esperança perdida,
Ai, quanta morta ilusão…
Aqui todas sepultadas
Dentro do meu coração.
E quantas cruzes de amigos,
Lembrando dedicação;
De amigos que me deixaram
Chorando na solidão,
Neste triste cemitério,
Dentro do meu coração.
Onde cultivo flores,
Eis minha consolação;
A saudade, a sempre-viva,
Perpétua recordação,
Para enfeitar suas campas,
Dentro do meu coração.
E minh’alma ajoelhada
Nesta santa região,
Entoa sentidas preces
Da mais pura devoção,
Entre ciprestes e cruzes,
Dentro do meu coração.
— Ceará, 2 de novembro de 1904 —
Tomates no saco plástico, 2009
Renato Meziat (Brasil, 1952)
óleo sobre tela, 60 x 80 cm
Fabrício Corsaletti
os tomates
fervendo na panela
meu pai minha mãe
na sala televisão
fiquei olhando
os tomates
estava frio o bafo
quente dos tomates
esquentava as mãos
saía da panela
já naquele dia
um cheiro
forte de passado
Meu pai julga que me tem
fechadinha na varanda.
Coitadinho de meu pai
que bem enganado anda…
(Cultura popular)
A vitória, 1939
René Magritte (Bélgica, 1898-1967)
óleo sobre tela, 73 x 54 cm
Ferreira Gullar
À vida falta uma parte
— seria o lado de fora —
pra que se visse passar
ao mesmo tempo que passa
e no final fosse apenas
um tempo de que se acorda
não um sono sem resposta.
À vida falta uma porta.
Em: Barulhos, Rio de Janeiro, José Olympio: 1987, p. 58
“Coma conosco, querida!”…
Confusa e num gesto tosco,
a moça, olhando a comida:
– Quero provar o “conosco”!
(Elisabeth Souza Cruz)