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É Natal no mundo inteiro,
mas persiste esta verdade:
não há Natal verdadeiro
sem a solidariedade.
(Milton Souza)
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É Natal no mundo inteiro,
mas persiste esta verdade:
não há Natal verdadeiro
sem a solidariedade.
(Milton Souza)
Cachorrinho de Natal.
Cartão francês.
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É Natal, que bom seria
se tanta fraternidade,
em vez de durar um dia,
durasse uma eternidade!
(Antônio Juraci Siqueira)
São Nicolau e seu dia: 6 de dezembro
Cartão Postal francês — Chambourcy
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Natal… ternura… poesia…
Vem o amor e foge o mal…
— Quem dera que todo dia
fosse dia de Natal!…
(Luiz Otávio)
Karen Bates (EUA)
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Ser criança é fase bela
de alegrias a granel.
É ver sempre da janela
presentes do bom Noel.
—
(Porphírio Rodrigues)
Osório Dutra
No leque verde dos coqueiros
Que ornam a margem dos caminhos,
Os periquitos galhofeiros
Zombam dos outros passarinhos.
Numa algazarra delirante,
Batendo as asas irisadas,
Cantam a terra e o céu distante,
Glorificando as alvoradas.
Porque se julguem muito ricos
Donos do espaço e das alturas,
Fogem dos pobres tico-ticos,
Trocando afetos e ternuras.
Unidos contra aos caçadores,
Andam ariscos e assustados:
Temem os ventos destruidores
E a poeira azul dos descampados.
São tão alegres, tão ruidosos,
Que a gente ao vê-los avalia
Que sejam todos venturosos,
Brincando ao sol de cada dia.
Não param nunca os mais tranqüilos.
Pulam, febris, de galho em galho.
Com que prazer, para segui-los,
Deixo de lado o meu trabalho!
Passam a vida saltitando
E é cada qual mais tagarela.
Onde vai um, lá vai o bando,
Cortando o azul na tarde bela.
Ordena um deles a partida
Em busca de outros horizontes.
Depois é a volta… E que corrida
Vertiginosa sobre os montes!
E quando, à noite, escuto os gritos
De mil insetos bandoleiros,
Dormem, sonhando, os periquitos
No leque aberto dos coqueiros.
Osório Hermogênio Dutra, Vassouras, Estado do Rio, (1889 -1968). Diplomata brasileiro e poeta.
Obras:
O país do deuses (crônicas sobre o Japão)
Terra Bendita, 1923 (poesia)
Castelos de Marfim e Céu Tropical (poesia), 1930
Inquietação, 1933 (poesia)
Dentro da noite Azul, 1934
Silêncio doce silêncio, 1936 (poesia)
O gênio poético de Martins Fontes, 1938
Mundo sem alma, 1943
Terra da gente, 1944 (poesia)
Emoção, 1945
Tempo perdido, 1946
Elas e nós, 1955, (poesia)
Vocabulário para uso escolar:
Ornar = decorar, enfeitar
Galhofeiro = brincalhão
Irisada = furta-cor
Venturoso = feliz
Bandoleiros = errante, sem paradeiro
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Sugestões para uso escolar do poema: Os Periquitos, de Osório Dutra
Aqui estão diversos exercícios que usam a leitura deste poema como base do aprendizado. Cada professor deve selecionar os exercícios que melhor se adaptem ao nível de conhecimento de seus alunos: 1ª, 2ª, 3ª série e assim por diante.
VOCABULÁRIO:
Ornar = decorar, enfeitar, ornamentar
“No leque verde dos coqueiros
Que ornam a margem dos caminhos,
Os periquitos galhofeiros
Zombam dos outros passarinhos”.
1 – Substitua o verbo nas seguintes frases, pelo verbo ornar:
Luzes pisca-pisca decoram as janelas no Natal.
Flores de açúcar enfeitarão o bolo da noiva.
O coelhinho ornamentava a cesta de ovos de Páscoa com papel colorido.
2 – Escolha, entre as mencionadas abaixo, outras coisas que possam ornar a margem do caminho:
Luzes, roseiras, latas de lixo, cerca de arame, árvores floridas, muro alto, bandeirinhas de São João, fios elétricos, garrafas de refrigerante.
3 – Onde também encontramos margens? Faça um círculo em volta das palavras certas:
Automóvel, lagoa, estrada, trem, rio, carroça, baía, patinete, caminhão, barco.
4 – Na cidade de São Paulo, existe uma estrada longa, que acompanha o rio Tietê. Ela se chama: Estrada Marginal Tietê. Explique nas suas palavras por que ela tem este nome?
5 – O leque é usado para espantar o calor. As pessoas se abanam com o leque para se refrescarem. Explique a expressão: leque do coqueiro. É por causa da cor verde? É por causa da forma das folhas dos coqueiros? É porque as folhas balanceiam com o vento?
6 – Você sabia que os primeiros leques eram feitos de penas? Ponha um X ao lado do que também é feito de penas:
( ) sombrinha ( ) camarão ( ) saia da baiana
( ) peteca ( ) chapéu ( ) cocar
( ) capa do livro ( ) lápis ( ) baleia
LEITURA:
A lenda do primeiro leque
Há muitos e muitos anos, na China, havia um mandarim muito poderoso. Ele tinha uma filha obediente e bonita, que todos na corte admiravam. Chamava-se Kan-Si. Ela era um modelo de bondade e todos que a viam ficavam encantados. Todos os anos o país inteiro participava de uma festa muito bonita neste reino. Chamava-se a Festa das Lanternas. Numa noite as pessoas que haviam preparado belas lanternas, mostravam a todo mundo o que tinham feito. Estas lanternas eram feitas com papel colorido, decoradas com pinturas ou com recortes de figuras coladas no papel. Elas também eram iluminadas por dentro, cada qual com sua vela. A noite ficava toda carregadinha de luzes das mais diversas cores e com a leve brisa do verão, as lanternas tinham um pisca-pisca, um tremelique mágico, fazendo a noite parecer encantada.
O mandarim e sua filha estavam sempre entre os juízes que decidiam quais eram as lanternas mais bonitas. Para que ninguém soubesse quem era o autor de cada lanterna ou quem eram os juízes da competição, todos os participantes usavam uma máscara, dura, feita com uma massa de papel, cola e tinta colorida. Assim todos que participavam da festa não podiam ser reconhecidos.
Naquele verão, naquela noite da Festa das Lanternas, havia uma competição muito grande. Todo mundo queria mostrar suas habilidades na arte de fazer e decorar lanternas. Havia prêmios! Eram tantas, mas tantas as lanternas acesas naquela noite no reino que já não se sabia se era noite ou dia. A jovem filha do Mandarim começou a sentir muito calor. Estavam no meio do verão. A noite permanecia quente e as todas as velas acesas aqueciam ainda mais o ar calmo. De repente, não agüentando mais, a jovem retirou a sua máscara e pôs-se a se abanar com ela, para aliviar o calor que sentia. Todos os membros da corte, vendo a bela princesa fazer isso, passaram a imitá-la também, arrancando suas máscaras e usando-as como abano. No ano seguinte, toda a corte compareceu à Festa das Lanternas mascarada, mas cada pessoa tinha em mãos um abano para aliviar o calor. Assim surgiram, na China, os primeiros leques.
7 – Periquitos. Existem periquitos no mundo inteiro. Mas há alguns periquitos que existem SÓ no Brasil e alguns que vivem aqui e em outros países da América do Sul:
Primeiro vejamos:
O periquito é parente do papagaio. E faz ninhos em árvores em lugares seguros contra seus predadores. Seus inimigos são: iguanas, serpentes, cães e o homem.
Periquito-do-rei
Periquito-do-rei – ou Jandaia – vive em todo o Brasil. Estes periquitos sempre andam em bandos. Acordam muito cedo e já fazem barulho de madrugada, antes do sol raiar. Gostam de comer arroz e milho. Quando decidem formar uma família eles deixam o bando de lado para criarem os filhotes sozinhos. Eles também gostam muito de cantar e conseguem aprender algumas palavras se tiverem contato com pessoas.
Periquito-da-cabeça-amarela
Periquito-da-cabeça-amarela – também é chamado de Jandaia – este, pode-se dizer que é um periquitão! Chega a 32 cm! Maior do que a tradicional régua de 30 cm. Os periquitos-da-cabeça-amarela gostam de um clima mais quente. Então moram principalmente no Nordeste do Brasil, nos seguintes estados: Maranhão, Piauí, Ceará e Pernambuco. Assim como os Periquitos-do-rei eles gostam de voar em bandos, estão sempre afiando os seus bicos, falam entre si o tempo todo, fazendo bastante barulho. Uma verdadeira algazarra.
Periquito–rei — também chamado de caturra — gosta mais do clima ameno. Vive da Bahia ao Rio Grande do Sul, e também no Paraguai e na Argentina.
Os periquitos-reis são menores chegando a um palmo de altura ou 20 cm. Ele tem um topetinho de penas vermelhas no topo da cabeça que descem pelas suas costas. Por isso, fora do Brasil, ele também é chamado de maitaca-da-cabeça-vermelha. São muito numerosos e pode-se vê-los em todo e qualquer lugar com árvores frutíferas. Adora comer milho e frutas.
Caturrita
Periquito-do-pantanal – também chamado de caturra ou caturrita – tem um tamanho entre o periquito-rei e o periquito-da-cabeça-amarela. Chega a medir 28 cm. As caturritas vivem no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná até os estados do Mato-Grosso e Mato-Grosso do Sul. Também moram no Paraguai, na Argentina e no Uruguai. Também gostam muito de comer milho e arroz. Mas eles são muito diferentes dos outros periquitos porque eles constroem uns ninhos muito grandes, às vezes até muitos ninhos numa mesma árvore. E tem mais: o casal de periquitos não se separa do grupo para criar seus filhotes. As caturritas fêmeas dividem o trabalho de cuidar dos filhotes e chegam até a morar duas ou três fêmeas por ninho.
Tuim
Periquito-do-Espírito-Santo também chamado de Tuim. Este periquito é verdadeiramente sul-americano, ou seja, mora em todo o Brasil e em toda a América do Sul. Vive na beira das florestas. Estes são os menores periquitos do Brasil, chegam só até 12 centímetros de comprimento. No entanto, fazem tanta algazarra o tempo todo, falando tão alto, que parecem até maiores do que são. Apesar de conversarem muito entre si, eles nunca chegam a falar. São namorados muito carinhosos. Gostam de comer milho e cana. Preferem sementes às frutas. São atraídos por árvores frutíferas como mangueiras, jabuticabeira, goiabeiras, laranjeiras e mamoeiros. Os cocos de muitas palmeiras constituem sua alimentação predileta, procuram também as frutas da imbaúba dos capinzais.
Periquito – este é o periquito comum. Não tem outro nome. É o mais encontrado dos periquitos no Brasil. Podemos vê-lo nos parques, nas cidades, nas praças públicas, nos jardins, nas fazendas. Adora brincar no bambuzal e roer bambus. Aliás adora roer. Ele chega a 26 cm de comprimento e gosta de milho e de arroz. Este periquito aprende a falar.
8 – Veja o mapa do Brasil
A – Cubra de tracinhos vermelhos os estados onde vivem os periquitos-do-rei.
B – Encha de bolinhas verdes os estados onde vivem os periquitos-do-pantanal.
9 — Galhofeiro quer dizer brincalhão, zombeteiro, a pessoa que ri à custa dos outros…
Substitua a palavra grifada pela palavra galhofeiro nas seguintes frases.
1- Depois que Esmeraldo, um conhecido zombeteiro, fez a turma toda rir dos sapatos vermelhos de Cazuza, este saiu chorando da sala.
2- Maria das Dores era brincalhona. Pegou um papel, escreveu a palavra burro e o colou nas costas de João Pedro sem que este soubesse.
3- O palhaço Zumzum sempre ri quando vê o jato d’água de sua flor na lapela molhar o rosto da pessoa com quem conversa. Ele é um zombeteiro de primeira categoria!
10- A palavra algazarra, quer dizer: barulheira, vozeria, tagaleria. Note que a palavra algazarra começa com as letras a + l, seguidas de uma consoante (g). Preencha os pontinhos formando palavras que comecem com as letras a+l seguidas de uma consoante:
Na salada: al _ _ _ _
Na costura: al _ _ _ _ _ _
No dicionário: al _ _ _ _ _ _
No armário de remédios: al _ _ _ _ _
Com o policial: al _ _ _ _ _
No navio: al _ _ _ _ _ _ _
Na gaiola do passarinho: al _ _ _ _ _
Leitura: Você sabia?
A nossa língua, a língua portuguesa, tem mais de 700 palavras que começam com as letras a + l. 600 destas palavras são de origem árabe. Do tempo que os mouros invadiram Portugal.
11 — …batendo as asas irisadas… Nós vimos que irisada quer dizer furta-cor, que muda de cor conforme o ângulo. Nas frases abaixo troque as palavras grifadas pela palavra irisada.
O corpo da mosca varejeira é furta-cor.
Maria colecionava conchinhas do mar, mas guardava só aquelas com as conchas matizadas.
Minha avó foi à festa com um vestido de tafetá rosa cambiante.
12 – No poema acima, Osório Dutra caracteriza os periquitos como “alegres e ruidosos”. E que por causa disso, eles parecem “venturosos”. Nas frases abaixo, passe um círculo em volta das palavras que sejam sinônimos de venturoso.
A — As meninas ao saírem da escola, alegres e tagarelas, pareciam felizes.
B – Nem todos os reis foram afortunados na guerra. Alguns perderam tudo.
C – João tem muita sorte, ganhou um ursinho de pelúcia no sorteio da escola.
D – Lúcia é uma jovem afortunada: inteligente, atraente e tem muitas amigas.
LEITURA/ DITADO
Em 1500, o Brasil foi descoberto por Pedro Álvares Cabral. N aquela época, D. Manuel I, também chamado O Venturoso, era rei de Portugal. Seu reinado foi repleto de muitos eventos felizes, de decisões acertadas e de várias aventuras marítimas bem realizadas. Foi um período importante para Portugal, porque o país se tornou muito rico. Dentre os eventos mais ditosos, mais felizes, de seu reinado estão: a descoberta do caminho marítimo para as Índias por Vasco da Gama e a descoberta do Brasil. Por isso esse rei ficou conhecido pelo cognome O Venturoso.
Cognome: é um nome, um apelido, pelo qual pessoas ficam conhecidas. Por exemplo:
Edson Arantes do Nascimento, cognome: Pelé.
Diogo Álvares Correia, cognome: Caramuru.
13 – Escreva o nome completo e seu cognome de um mártir da Independência do Brasil.
14 — Onde vai um, lá vai o bando, /Cortando o azul na tarde bela./ Ordena um deles a partida/ Em busca de outros horizontes. Nestes versos de Osório Duque parece que os periquitos têm um líder que os orienta. Nem todos os pássaros voam em bandos e seguem um líder. Faça um círculo em volta dos pássaros da lista abaixo que voam em grupos:
Águia, Beija-flor, Arara, Martim-pescador, Urubu, Pato, Albatroz, Sabiá, Flamingo, Cegonha, Assum-preto, Canário, Tucano, Maracanã.
15 – Onde dormem os periquitos? Onde dormem…
Os macacos?
Os morcegos?
O gado na fazenda?
A jaguatirica?
E os alunos da escola?
Ó rosa, nobre e bonita,
que encantamento trazeis!
Em vossa beleza, habita
a majestade dos reis!
—
(Eno Teodoro Wanke)
Bambu ao vento, aquarela chinesa.
Resiste ao vento o pinheiro,
e a ramaria espedaça;
mas o bambu, mesureiro,
dobra o dorso, e o vento passa.
(Archimino Lapagesse)
Cartão Postal de Ano Novo, década de 1930, França.
A lua faceira e bela,
vestindo um manto de prata,
debruçou-se numa nuvem
para ouvir a serenata.
( Joanna D’Arc Pereira)
Borboleta multicor
tu me lembras, ao passar,
um bilhetinho de amor
dobrado em dois, a voar…
(J. G. de Araújo Jorge)
Águia em vôo
Aquarela chinesa
A postagem de um poema de Vicente Guimarães neste blogue, João Bolinha virou gente, lembrou à leitora Vânia um poema que ela precisou decorar para a escola, chamava-se A morte da águia. E ela me pediu que se eu o conhecesse que lhe mandasse esse poema, pois não se lembrava de todas as estrofes.
De fato, o poema que conheço com este título é um antigo e belíssimo poema, bastante longo, de Luís Guimarães. E aqui está para nós todos nos deliciarmos.
A morte da águia
Luís Guimarães
A bordo vinha uma águia. Era um presente
Que um potentado, — um certo rei do Oriente,
Mandava a outro: — um mimo soberano.
Era uma águia real. Entre a sombria
Grade da jaula o seu olhar luzia,
Profundo e triste como o olhar humano.
Aos balanços do barco ela curvava
Ao níveo colo a fronte que cismava…
E enquanto as ondas túrbidas gemiam,
Ao som do vento – em fúnebres lamentos
Ela pensava nos longínquos ventos
Que do Himalaia os píncaros varriam.
Fora uma infame e traiçoeira bala,
Que, do régio fuzil negra vassala,
Invisível – uma asa lhe partira:
Cheia de luz, tranqüila, majestosa,
Dobrando a fronde branca e poderosa,
Aos pés de um rei a águia real caíra.
Os bonzos vis, proféticos doutores,
Sondando-lhe a ferida e as cruas dores,
Que um venenoso bálsamo tentava
Apaziguar em vão, — diziam rindo:
“Não há no mundo exemplar mais lindo:
Vale um império!” – E a águia agonizava.
Um dia, enfim, o animal valente
Resistindo aos martírios, — largamente
Respirou a amplidão. A asa possante
Abrir tentou de novo. Aberta estava
A jaula colossal que o esperava:
Forçoso era partir. Desde este instante,
A águia sombria e muda e pensativa,
Solene mártir, vítima cativa,
Terror dos vis e símbolo dos bravos,
Pediu a morte a Deus, — pediu-a ansiosa
Longe, porém, da corte vergonhosa
Desse covarde e baixo rei de escravos.
Pediu a morte a Deus, o cataclismo,
As convulsões elétricas do abismo,
As batalhas finais! Morrer num grito
Vibrante, imenso, heróico, soberano,
E fremente rolar no azul do Oceano,
Como um titã caído do infinito.
Morrer livre, cercada de vitórias,
Com suas asas – pavilhão de glórias –
Inundadas da luz que o Sol espalha:
Ter o fundo do mar por catacumba,
As orações do vento que retumba,
E as cambraias da espuma por mortalha.
Entanto, melancólica, tristonha,
Como um gigante mórbido que sonha,
Fitava, às vezes, o revolto oceano,
Com esse olhar nublado e delirante,
Com que saudava a César triunfante
O moribundo gladiador romano.
O comandante – urso do mar bondoso —
Disse um dia ao escravo rancoroso,
Ao carcereiro estúpido e inclemente:
“Leve-a ao convés. Verá que esse desmaio
Basta para apagá-lo um brando raio
Do largo Sol no rúbido oriente.”
Subiu então a jaula ao tombadilho:
Do nato dia ao purpurino brilho
Salpicava de luz o céu nevado…
E a águia elevando a pálpebra dormente
Abriu as asas ao clarão nascente
Como as hastes de leque iluminado.
O mar gemia, lôbrego e espumante,
Açoitando o navio; — além – distante,
Nas vaporosas bordas do horizonte,
As matutinas névoas que ondulavam,
Em suas várias curvas figuravam
Os largos flancos triunfais de um monte.
“Abre-lhe a porta da prisão,” ( ridente
O comandante disse ) “Esta corrente
Para conter-lhe o vôo é mais que forte!
Voar! pobre infeliz! causa piedade!
Dê-lhe um momento de ar e liberdade!
Único meio de a salvar da morte.”
Quando a porta se abriu, — como uma tromba,
Como o invencível furacão que arromba
Da tempestade as negras barricadas,
A águia lançou por terra o escravo pasmo,
E desprendendo um grito de sarcasmo,
Moveu as longas asas espalmadas.
Pairou sobre o navio — imensa e bela –
Como uma branca, uma isolada vela
A demandar um livre e novo mundo;
Crescia o Sol nas nuvens refulgentes,
E como um turbilhão de águias frementes,
Zunia o vento na amplidão, – profundo.
Ela lutou, ansiosa! Atra agonia
Sufocava-a. O escravo lhe estendia
Os miseráveis e covardes braços;
Nu o oceano ao longe cintilava
E a rainha do ar, em vão, buscava
Onde pousar os grandes membros lassos.
Sobre o barco pairou ainda, — e alçando,
Alçando mais os vôos, e afogando
Na luz do Sol a fronte alvinitente,
Ébria de espaço, ébria de liberdade,
Como um astro que cai da imensidade,
Afundou-se nas ondas de repente.
—
Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (RJ 1847 – Lisboa 1898), advogado, jornalista, ministro, diplomata, poeta, romancista, teatrólogo. Estudou no Colégio Calógeras em Petrópolis e cursou as faculdades de Direito de São Paulo e do Recife. Colaborador dos periódicos A reforma, A república, O correio paulistano, Imprensa Acadêmica de São Paulo, Gazeta de Notícias. Membro da Academia Brasileira de Letras, membro da Academia de Belas Artes do Chile, membro da Academia do Quiriti em Roma, membro da Arcádia Romana, membro da Sociedade de Geografia Italiana, oficial da Ordem da Rosa, oficial da Ordem de Cristo e da Ordem de São Tiago, cavaleiro da Ordem Romana do Sepulcro e da Ordem de São Gregório Magno.
Obra:
A Alma do outro mundo, 1913
A Carlos Gomes, 1870
A entrada no céu, 1882
A família Agulha, 1870
A morte, 1882
André Vidal, séc. XIX
As Jóias indiscretas, séc. XIX
As Quedas fatais, séc. XIX
Ave Estela, 1865
Contos sem pretensão, 1872
Corimbos, 1866
Ernesto Couto, 1872
Filigranas, 1872
Lírica, 1880
Lírio Branco, 1862
Mater dolorosa, 1880
Monte Alverne, séc. XIX
Noturnos, 1872
O Caminho mais curto, séc. XIX
Os Amores que passam, séc. XIX
Pedro Américo, 1871
Um Pequeno demônio, séc. XIX
Uma Cena contemporânea, 1862
Valentina, séc. XIX