Quadrinha da sombrinha

17 03 2014

mulher-na-chuvaIlustração Sérgio Bastos.

De onde vens hoje, ó vizinha,

que assim às tontas, ao léu,

– na curva azul da sombrinha

pareces trazer o céu?

(Gentil Fernando de Castro)





Sombra, poema de Flora Figueiredo

16 03 2014

Jan Catharinus Adriaan GoedhartA carta, 1930

Jan Catharinus Adriaan Goedhart(Holanda, 1893 – 1975)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

Coleção Particular

Sombra

Flora Figueiredo

Tem um lugar no meu quarto

em que a luz não entra.

Tudo que se tenta

não dá certo.

Em vão tirar telha,

abrir janela,

furar o teto.

Postou-se ali um escuro

soturno e quieto,

recentemente diagnosticado.

É uma fração de passado

que o tempo não leva

para não rever fatos,

e que a vida ceva

porque é da vida conservar mandatos.

Para que o escuro seja então cassado,

é preciso um clarão qualificado,

capaz de sorvê-lo em sucção;

que durante o processo de deglutição

use artimanha,

até transformá-lo em cavidade.

É nesse vão que vai florar felicidade,

parida da entranha do bicho-papão.

Em: Amor a céu aberto, Flora Figueiredo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1992, p. 101.





Quadrinha do verdadeiro amigo

13 03 2014

doente, dodoi, Margret BorissIlustração de Margret Boriss.

Somente um bem acontece

quando a gente cai doente:

aí é que se conhece

quem é amigo da gente.

(Aloísio Alves da Costa)





Quadrinha da linda morena

3 03 2014

mulher e pássaro, vogue, junho 1921Mulher e pássaro, capa da revista Vogue, junho de 1921.

Morena, linda morena

de lábios cor de carmim,

quero saber se teus olhos

sorriem só para mim.

(Ângela Maria)





A gente nunca está só, poesia de Adelmar Tavares

24 02 2014

menina no lago, Martta Wendelin (Finlandia)Menina no lago, ilustração de Martta Wendelin.

A gente nunca está só

Adelmar Tavares

A gente nunca está só.

Ou se está com uma saudade

De um sonho desfeito em pó;

Ou se está com uma esperança

De nova felicidade

No coração que não cansa…

Sempre uma sombra com a gente,

Constantemente,

Uma sombra… Boa… ou má…

Só é que nunca se está.

Em: Poemas para a Infância: antologia escolar, editado por Henriqueta Lisboa, s/d, São Paulo: Edições de Ouro, p. 59





Quadrinha da felicidade

10 02 2014

flores na janela, FruitGardenAndHome1923-11Capa da revista Fruit, Garden & Home, novembro de 1923.

Saibam que a felicidade

raramente é percebida,

porque ela só é encontrada,

nas coisas simples da vida.

(Anônimo)





Quadrinha do teu destino

31 01 2014

aranha, Clarence Coles PhillipsIlustração Clarence Coles Phillips.

Não tens mais do que mereces,

homem fraco e pequenino,

porque tu mesmo é que teces

a teia do teu destino.

(Ariston Teles)





Perdoa, poesia de Maria Pagano de Botana

28 01 2014

Bernard rolland-la-lectureA leitura

Bernard Rolland (França, contemporâneo)

acrílica sobre tela

Perdoa

Maria Pagano de Botana

Se o vento desfolhar do teu jardim as rosas

E as deixar pelo chão espalhadas à toa,

Cruza os braços, fitando as roseiras graciosas,

— E a maldade do vento, em silêncio, perdoa!

Se a poeira vier ferir teus olhos, na estrada,

Deixa que o teu olhar tranquilamente doa,

Eleva para o azul as pálpebras, mais nada…

— E a maldade do pó, com ternura, perdoa!

Se alguém encher de fel teu coração dorido,

Sem que do teu pesar um dia se condoa,

Não maldigas: esquece o insulto recebido,

E a maldade do mundo, em lágrimas, perdoa!

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 342.

Maria Pagano de Botana  ( Pederneiras, SP, 1909)  [ Baronesa de Santa Inês] Poeta, cronista, professora, jornalista .  Pseudônimos:  Marlon, Maria do Rosário.

Obras:

Do sonho à realidade, crônicas, 1945

Canteiro humilde, pensamentos, 1948

Amor fonte de vida, poesia, 1950

Luzes e imagens, 1972, biografia romanceada





Paulista eu sou há quatrocentos anos, soneto de Martins Fontes

25 01 2014

Agostinho Batista de Freitas (1927-1997)Vale do Anhangabaú,1980,ost, 50 x 70 cmVale do Anhangabaú, 1980

Agostinho Batista de Freitas (Brasil, 1927-1997)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

Paulista eu sou há quatrocentos anos

es

Martins Fontes

Paulista eu sou há quatrocentos anos:
Imortal, indomável, infinita,
Dos mortos de que venho, ressuscita
A alma dos Bandeirantes sobrehumanos.

Tenho o orgulho dos nossos altiplanos.
Tenho a paixão da gleba circunscrita.
Quero morrer, ouvindo a voz bendita
Dos pausados cantares paulistanos.

De minha terra, para minha terra,
Tenho vivido. Meu amor encerra
A adoração de tudo quanto é nosso.

Por ela, sonho num perpetuo enlevo.
E, incapaz de servi-la quanto devo,
Quero ao menos e amá-la quanto posso.

Em: 232 Poetas Paulistanos: antologia, Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista:1968, p. 130

Homenagem ao aniversário da cidade de São Paulo!




Retrato na praia, poema de Carlos Pena Filho

21 01 2014

Julia lendo e descansando na praia, s/d

Nancy Salamouny (Líbano, contemporânea)

http://nancysalamouny.blogspot.com

Retrato na praia

Carlos Pena Filho

Ei-la ao sol, como um claro desafio

ao tenuíssimo azul predominante.

Debruçada na areia e assim, diante

do mar, é um animal rude e bravio.

Bem perto, há um comentário sobre estio,

mormaço e sonolência. Lá, distante,

muito vagos indícios de um navio

que ela talvez contemple nesse instante.

Mas o importante mesmo é o sol, que esse desliza

por seu corpo salgado, enxuto e belo,

como se nuvem fosse, ou quase brisa.

E desce pelos seus braços, e rodeia

seu brevíssimo e branco tornozelo,

onde se aquece e cresce, e se incendeia.

Em: Melhores poemas, Carlos Pena Filho, Sel. Edilberto Coutinho, Editora Global:2000, 4ª edição.

Carlos Pena Filho  nasceu no Recife, em 1929.  Formado em Direito, pela Faculdade de Direito do Recife, foi poeta, letrista, jornalista, ensaísta para o Jornal do Comércio. Morreu num acidente automobilístico em 1960.

Obras:

O tempo da busca, 1952

Memórias do boi Serapião, 1955

A vertigem lúcida, 1958

Livro geral (obra reunida), 1959

Melhores poemas (póstuma) seleção de Edilberto Coutinho, 1983