Ilustração de Avelino Guedes.
Nosso amor de adolescente
teve tanta intensidade,
que nem toda a vida à frente
vai matar esta saudade!
(Walter Leme)
Ilustração de Avelino Guedes.
Nosso amor de adolescente
teve tanta intensidade,
que nem toda a vida à frente
vai matar esta saudade!
(Walter Leme)
Rikhard-Karl Karlovich Zommer (Alemanha, 1866-1939)
óleo sobre tela, 52 x 93 cm
À caravana, que de longe vem
Cansada, a se arrastar num passo incerto,
As palmeiras do oásis oferecem
Um poema de sombras, no deserto.
(Maria Thereza de Andrade Cunha)
Pássaros no galho, ilustração de Noel Hopking.
Vede em seus lares como ao sol trabalha
O diligente e alegre passarinho:
Uma paina, um graveto, folha ou palha,
Ele conduz para fazer o ninho.
E no berço onduloso se agasalha,
Depois de horas de luta e de carinho,
Sem precisar de cobertor e toalha
A não ser o do céu estreladinho.
E bem feliz, na tépida mansão,
Cuida de sua meiga geração,
Sem vexames, sem lágrimas, sem guerra.
Humilde e bom, amando e sendo amado,
Cantando em meio às árvores do prado,
Antes eu fosse um pássaro na terra.
Em: Natureza: versos, Sabino de Campos, Rio de Janeiro, Pongetti: 1960, p. 36
Canal da Barra, ao fundo a Pedra da Gávea
Orlando Brito (Brasil, 1920-1981)
óleo sobre tela, 42 x 34 cm
Manasses Andrade (Brasil, 1955-2021)
acrílica sobre tela, 100 x 80 cm
Carlos Drummond de Andrade
Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.
A bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas de pau.
Mesma a volúpia de chutar
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
São voos de estátuas súbitas,
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
o jogador, gravado no ar
— afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade.
Carissa Rose Stevens (EUA,contemporânea)
aquarela e marcador permanente sharpie
Lêdo Ivo
O mundo em peso cai-me sobre os ombros
e em seguida se evola, sol de urânio.
Arquipélago branco, sai da terra
a rosa nuclear da anunciação.
Fossem meus braços límpidas colunas
e eu deteria o mundo enfurecido
por esta luz atômica que sobe
ao convívio dos céus despedaçados.
Ó corola de átomos, leitosa
flor da quinta estação da terra em pânico
que se exibe à feição do Apocalipse,
sê para nós igual à rosa branca
da paz, sempre banhada pelo orvalho
monumental das lágrimas dos homens!
Em: Central poética, Lêdo Ivo, Rio de Janeiro, Nova Aguillar: 1976, p. 98-9.
Na biblioteca há mil sábios
a nosso inteiro dispor.
— Sem sequer mover os lábios,
cada livro é um professor.
(A. A. de Assis)
Dia de chuva, Capa da Revista de Domingo do Minneapolis Journal, 1915.
Maria Thereza de Andrade Cunha
Domingo tristonho, de chuva, de vento.
Domingo de tédio, domingo nevoento.
Não vens. Todo o dia te espero, cansada;
Casais amorosos lá vão, na calçada,
E eu fico sozinha. Não vens.
Abandono…
Domingo de tédio, de bruma, de sono.
As mãos muito frias, a fronte pendida,
— Domingo sem cores… Domingo sem vida… —
Vidraça gelada que aos poucos se embaça:
Meu rosto apoiado de encontro à vidraça,
E a rua tão longa, tão triste, tão fria…
— Domingo chuvoso, de lenta agonia…
Em: É primavera… escuta., Maria Thereza de Andrade Cunha, Rio de Janeiro, 1949, p.106.
Quando estou em meu terraço,
olhando os astros risonhos,
a Lua atravessa o espaço,
puxando o carro dos sonhos!
(João Lucas de Barros)
Humberto da Costa (Brasil, 1941)
óleo sobre tela, 27 x 22 cm
Dona Margarida
Paulo Setúbal
Conheço apenas Dona Margarida
Por tê-la visto, acaso, num salão.
Seu negro olhar, cheio de fogo e vida,
Deixava em cada peito uma ferida,
Em cada peito abria uma paixão.
E eu, como os outros, vendo-a tão querida,
Tão moça, tão formosa, tão feliz,
Trouxe comigo, na alma dolorida,
A funda mágoa, Dona Margarida,
De não ter dito o que dizer lhe quis.
Em: Alma cabocla, poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920] p. 109-110.