
Em bando sutil, as garças,
pontilhando o lamaçal,
são quais pérolas esparsas,
adornando o pantanal.
(Dorothy Jansson Moretti)

Em bando sutil, as garças,
pontilhando o lamaçal,
são quais pérolas esparsas,
adornando o pantanal.
(Dorothy Jansson Moretti)
Portão de convento em Salvador – BA
Emídio Magalhães (Brasil, 1905-1990)
óleo sobre tela, 38 X 48 cm
Lucilo Antônio da Cunha Bueno (1886-1938)
Alta noite o mar batendo frio
Nas paredes do longo Monastério,
Junta ao perfil tão pálido e sombrio
A sombra ideal e vaga do Mistério.
Passa horas mortas — devagar — esguio,
Rondando a calma desse cemitério,
O olhar da Monja, desolado e frio
Como aquelas paredes do Ascetério.
Naquele paredão encanecido,
Soluça em vão o tétrico gemido
Das almas que padecem satisfeitas.
Nada penetra na Solidão, e quando
Vem o Sol o horizonte arroxeando,
Choram em coro, as ilusões desfeitas.
Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 243.
Vocabulário:
Ascetério — lugar próprio para a meditação e para a vida ascética; convento, mosteiro.
Encanecer — envelhecer, ficar com os cabelos brancos

José Joaquim Cândido de Macedo Júnior (1842 – 1860)
Quando cismas, donzela, no teu rosto
Que linda per’la suspirando corre!
— Pranto dourado que não diz desgosto,
Que num sorriso no teu seio morre!
Mimo dos anjos que tua alma prende
Aos céus ridentes nesse doce encanto,
Lágrimas d’ouro que teu peito incende,
Que o amor celeste se traduz num pranto!
E a gota pura vem cantar um hino
Que os anjos n’alma te murmuram rindo,
Pérola branda diz um som divino
Que o peito entoa em murmurejo infindo!
Bela — do altar do teu virgíneo seio
Deixa esse orvalho de dulçor correr;
Minh’alma treme nesse brando enleio,
Ai! vai por ele nos teus pés morrer!
Chora! a inocência te sorri no choro,
São risos virgens de infantis amores,
São doces hinos de um celeste coro,
Dizem — enleios — mas não dizem dores.
Teu pranto puro beberão os anjos
Num doce anseio de inocente medo,
Teu sol — ó virgem — só serão arcanjos
— Teu lábio os beije no infantil segredo.
Chora, donzela, de teu níveo seio
Deve esse orvalho de dulçor correr;
Minh’alma treme nesse doce enleio,
Vai por teu pranto nos teus pés morrer!
Em: O Espelho: revista de literatura, modas, indústria e artes, n. 2, 11 de setembro de 1859, p.12. da edição em facsímile, Rio de Janeiro, MEC:2008, p. 32.
Ilustração de Kate Greenaway, 1910, para o Flautista de Hamelin
Para dar cor aos matizes
da mais bela floração,
humildemente, as raízes
vivem ocultas no chão !
(Cipriano Ferreira Gomes)
Dois pombinhos, 1897
Joseph Caraud (França, 1821-1905)
óleo sobre tela, 60 x 45 cm
Alfredo de Souza
Vem, sem demora, ver estes pombinhos
Que se beijam tão ternos, venturosos,
Deixando muito tempo os seus biquinhos
Colados em transportes amorosos;
Vem — mirar como fazem seus carinhos;
Ora arrulando em cantos maviosos,
Ora as asas batendo para os ninhos
— Ninhos plenos de odor, ninhos ditosos.
E já que tu sentiste quanto é bela
Essa cena que vimos, dando ensejo
De imitá-la por dentro da janela…
Resta apenas dizer-te, ó minha flor,
Que colemos os lábios, num só beijo,
Fingindo de pombinhos, meu amor!
Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 232.
Alfredo de Souza (Rio de Janeiro, 1880 — ??) — Foi jornalista e funcionário público.
Bibliografia
Aurora, sem data

Manuel Bandeira
Olho a praia. A treva é densa.
Ulula o mar, que não vejo,
Naquela voz sem consolo,
Naquela tristeza imensa
Que há na voz do meu desejo.
E nesse tom sem consolo
Ouço a voz do meu destino:
Má sina que desconheço,
Vem vindo desde eu menino,
Cresce quanto em anos cresço.
– Voz de oceano que não vejo
Da praia do meu desejo…
Em: Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1979, pp 30.
Ilustração de Mort Engel.
Teu retrato, enraivecida,
eu rasguei, sem embaraços…
mas a saudade, atrevida,
juntou de novo os pedaços!…
(Marilúcia Rezende)
Piazza d’Italia, 1960
Giorgio de Chirico (Itália, 1888 – 1978)
óleo sobre tela
Hermes Fontes
Sempre que me procuro e não me encontro em mim,
pois há pedaços do meu ser que andam dispersos
nas sombras do jardim,
nos silêncios da noite,
nas músicas do mar,
e sinto os olhos, sob as pálpebras, imersos
nesta serena unção crepuscular
que lhes prolonga o trágico tresnoite
da vigília sem fim,
abro meu coração, como um jardim,
e desfolho a corola dos meus versos,
faz-me lembrar a alma que esteve em mim,
e que, um dia, perdi e vivo a procurar
nos silêncios da noite,
nas sombras do jardim,
na música do mar…
(1930)
Em: Poesias escolhidas, Hermes Fontes , Rio de Janeiro, Epasa: 1944, p.362-363.
Domingo
Cláudio Dantas (Brasil, 1959)
óleo sobre tela
Carlos Drummond de Andrade
Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou na relva para pegar um pássaro.
O mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranquilo ao redor de Clara.
As crianças olhavam para o céu… Não era proibido!
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos…
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs, naquele tempo!!!
Em: Poemas para a Infância: antologia escolar, editado por Henriqueta Lisboa, s/d, São Paulo: Edições de Ouro, p. 26-7
Ilustração, ©Walt Disney
O trabalho do banqueiro
está no seu jogo impuro:
tem lucro com meu dinheiro
e ainda me cobra juro.
(Olympio Coutinho)