Trova do meu amor

19 10 2020

 

Griswold Tyng (American- b. 1883)Ilustração, Griswold Tyng (American,  1883 – 1960)

 

 

O quanto te amo, querida,

nem às paredes confesso,

mas deixo a casa florida

esperando o teu regresso.

 

(Antonio Francisco Pereira)





Tua mão, poesia de Naide Vasconcelos

5 10 2020

 

 

OSWALDO TEIXEIRA (1904-1975). Dama com Flores, óleo s cartão, 39 X 29. (Década de 30). Assinado no c.s.e. Reproduzido com foto no catálogoDama com flores, (Década de 30)

Oswaldo Teixeira (Brasil, 1904 -1975)

óleo s cartão, 39 X 29 cm

 

Tua mão

 

Naide Vasconcelos

 

A tua mão pequena de escultura

é cópia da pérola mais rara

ou duma rosa branca a miniatura,

talhada em fino bloco de Carrara.

 

O mundo inteiro deslumbrado a encara

quando, soltando a cabeleira escura,

ostentas essa mão, mimosa e clara,

num glorioso esplendor de formosura.

 

Tua mão lembra as trêmulas papoulas,

as conchas de nacar, as verde algas

o aroma penetrante das caçoulas

 

Trabalho dum antigo colorista

a tua mão, que tem poses fidalgas,

foi feita para impressionar a vista.

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 298-9

 





Dona Felicidade, poesia de Raul Braga

29 09 2020

 

 

Gildásio Jardim Barbosa- do vale do Jequitinhonha - MG. Trabalho de pintura sobre tecidos estampados em tela. Que faz fusão dos personagens com as estampas -2Moça lendo na rede

Gildásio Jardim Barbosa (Brasil, contemporâneo)

[Vale do Jequitinhonha – MG]

pintura sobre tecidos estampados em tela.

 

Dona Felicidade

 

Raul Braga

 

Quão inconstante és tu, felicidade,

Irrefletida em não poder mais ser

Que a gente fica em tal ansiedade,

Com medo de perder-te, ou de não ter.

 

E vai a vida, assim em desprezar,

Gastos nos dias bons da mocidade,

Sem que nos venha nesse amanhecer

Um vislumbre, sequer, de claridade.

 

Insensato sou eu, quanto insensato,

Em querer esboçar uma quimera

Quando bem fácil eu tenho o teu retrato

Felicidade, em tudo és bem mulher:

 

— Tu vens chegando, quando não se espera,

E vais embora, quando não se quer.

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 332-3





As samambaias, poesia de Hélio Pellegrino

24 09 2020

 

 

samambaias, foto-LadyceWestSamambaias, foto: Ladyce West

 

 

As samambaias

 

Hélio Pellegrino

 

As samambaias

debruçadas no espaço

esplendem seu silêncio.

 

Que farta verdade

em seu verde farfalha!

 

Rio, 2/10/1980

 

Em: Minérios Domados, poesia reunida, Hélio Pellegrino, Rio de Janeiro, Rocco: 1993, p. 47.





Trova da virtude

20 08 2020

 

 

e não tenho um tostãoBolinha não tem um tostão.

 

 

Busca primeiro a virtude;

teu ouro, busca depois.

Quem não toma essa atitude

acaba perdendo os dois!

 

(Renata Paccola)





Minha prece, poesia de Naide Vasconcelos

10 08 2020

 

GUTTMAN BICHO, Galdino (1888 - 1955) Paisagem, o.s.t. - 60 x 74 Assinado cid.Paisagem

Galdino Guttman Bicho (Brasil, 1888 – 1955)

óleo sobre tela, 60 x 74 cm

 

Minha prece

 

Naide Vasconcelos

 

Senhor!

Tu que deste ao Brasil, prodigamente,

De par com toda sorte de belezas;

Que estonteiam os olhos e a mente,

As mais raras espécies de riquezas.

 

Tem-no sob Tua guarda! Pai clemente,

Não permita que as ríspidas torpezas

Dos flagelos maltratem-no… Consente

Que ele seja sem males nem cruzes.

 

Abençoa seus filhos. Extermina

O vício das suas almas, ilumina

Seus corações, e a todo o mal os cerra…

 

Assim, a minha Pátria idolatrada

Ficará, certamente, colocada

— Onde começa o céu e finda a terra.

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 298





Trova da renovação

5 08 2020

 

limpando a casa, silhueta

 

Pra tirar o pó do amor

saiba que o melhor caminho

sequer passa pela dor:

basta um sopro de carinho.

 

(Adilson Roberto Gonçalves)





Serenata, poesia de Elmano Queiroz

3 08 2020

 

 

Tony Lima (Brasil, 1964),Tocando Violão,80 x 60 cm – OST,Ass. CID e Dat. 2006Tocando Violão, 2006

Tony Lima (Brasil, 1964)

óleo sobre tela, 80 x 60 cm

 

Serenata

Elmano Queiroz

 

Não sei porque nas horas sossegadas,

Comove tanto a música das ruas.

 

Parece que, alta noite, essas baladas,

Relembra, coisas íntimas passadas

Em fases mais ditosas de outras luas.

 

Parece que o cantar do boêmio errante

Vai derramado pela noite fora,

Motivos simples de canções de outrora.

 

Reminiscências de lugar distante.

 

Uma capela rústica, pequena,

Ao pé do morro, entre árvores antigas…

Outras vozes simpáticas, amigas…

O luar na aldeia… as noites de novenas.

 

Os goivos das saudades que passaram

Ressuscitam, na alcova, a noite morta,

Quando esses boêmios passam pela porta,

Cantando essas canções, que outros cantaram.

 

Lembram noites da infância… A alma assustada…

Um tropel… um rumor… um bater d’asa…

 

As goteiras, chorando na calçada…

O caboré gemendo, atrás da casa…

 

Tudo desperta, no silêncio d’alma,

Quando passam cantando pela rua,

Na alcova, a insônia… lá por fora, a calma…

E na volúpia que da Lua transborda

A imagem da saudade branca e nua…

 

Depois, ao longe, um cão, que um ébrio acorda,

Fica na solidão ladrando à luz…

 

[1924]

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p.114-5

 





Trova do vencedor

28 07 2020

 

 

ganhou concursos,Ilustração Equipe Mauricio de Souza.

 

 

Ganha mais brilho a vitória

quando o nobre vencedor,

no pódio da sua glória,

não humilha o perdedor!

 

(Alba Helena Corrêa)





Trova do outono

23 07 2020

 

 

outono, folhas, brincadeira, menina

 

 

Quando a folha seca e muda

segue no seu abandono,

ela abraça o vento e ajuda,

com arte, a pintar o outono.

 

(Lúcia Sertã)