Retrato, poesia de Cecília Meireles

10 07 2020

 

 

 

George Henry, Escocia, 1848, o espelho de tartarugaO espelho de tartaruga, 1903

George Henry (Escócia, 1858 – 1943)

óleo

The Paisley Art Institute, Paisley, Escócia

 

 

Retrato

Cecília Meireles

 

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?

 

Em: Antologia Poética, Cecília Meireles. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.





As nuvens e o sol, poesia de Anastácio Luiz de Bonsucesso

6 07 2020

 

 

Chuva arco-íris tondo

 

As nuvens e o sol

Anastácio Luiz de Bonsucesso

Fábula

 

O dia era fulgente, o sol brilhava,

Em vívido esplendor;

De repente mil nuvens se aglomeram,

O sol perde o fulgor.

 

E as nuvens encobrem

Do sol os lindos raios,

As terras se cobrem

De turvos desmaios;

Ninguém se conduz

Nas trevas sem luz.

 

Do sol de seu posto

Tais coisas bem via;

Das nuvens no rosto

Com força batia;

A tanto calor

Desfez-se o vapor.

 

Perdidas nos ares

As nuvens passaram,

Das zonas polares

Que rumo levaram?

Não viram o sol

O novo arrebol.

 

MORALIDADE

 

Luz um talento, os tolos anuviam

Os fogos da razão;

A luta é transitória — os zoilos morrem.

O gênio brilha então.

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Jnaeiro, Editora Vecchi: 1965, pp 157-158

 

Anastácio Luiz de Bonsucesso (1833-1899) Poeta carioca, fabulista, médico, jornalista, professor, teatrólogo, membro da Sociedade Propagadora das Belas Artes e da Academia Filosófica.

Obras:

Fábulas, 1854

Maroquinhas do Apito, comédia em versos

Versos de Cisnato Lúzio

Quatro Vultos, 1867,

 

 

 

 

 





Poeta no museu: Hélio Pellegrino

2 07 2020

 

 

Minke_Wagenaar_-_Vincent_van_Gogh_1888_The_yellow_house_('The_street')_-_detailA casa amarela, 1888

Vincent Van Gogh (Holanda, 1853 – 1890)

óleo sobre tela

Museu de Van Gogh, Amsterdã

 

 

Van Gogh em Amsterdã

 

Hélio Pellegrino

 

Por debaixo de tudo:

diques, dunas, frontões;

 

Por debaixo de tudo:

nobres pedras, canais

onde remam cisnes;

 

Por debaixo do mundo

lavra um incêndio.

 

Amsterdã, 1º/1/1981

 

Em: Minérios Domados, Hélio Pellegrino, Rio de Janeiro, Rocco:1993, p.39





Três poemas de José Ildone

22 06 2020

 

 

Martha Wendelin (Finnish. 1893-1986).Oma Koti, March 1934.Oma Koti, 1934

Martha Wendelin (Finlândia. 1893-1986)

óleo sobre tela

 

 

Três poemas de José Ildone

 

Receita

Tome este remédio.

É excelente,

Cura dores reumáticas,

traumáticas, gramáticas

e matemáticas.

 

Ode à distância

Nada é tão longe

que não se chegue

lá.

(Mesmo a morte)

 

Gaiola

Entre grades

passa

o canto

-manco.

 

 

Em: A lira na minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, Clóvis Meira, Belém: 1993, p. 243-4

 

 

 





A fonte, poesia de Faustino Nascimento

8 06 2020

 

 

product-image-196722180Ilustração Sung Kim.

 

 

A fonte

Faustino Nascimento

 

Do seio da floresta secular,

Ao abrigo do sol mais inclemente,

Gota por gota, vê-se derivar

A fonte cristalina e refulgente.

 

Deitada no seu leito, a murmurar.

Talvez. uma canção de amor fremente,

Reflete, no seu prisma, ao sol e ao luar,

Tudo que a cerca, a plácida corrente.

 

Repousa, assim, no leito, a correnteza,

Aos embalos sutis da natureza,

Como encantada Ninfa, em seu ritual.

 

Dorme… Depois, num sobressalto, acorda

E, como que a fremir de amor, transborda

E se espreguiça pelo branco areal…

 

Em:  Antologia Poética, Faustino Nascimento, Rio de Janeiro, Freitas Bastos: 1960, p. 15

 

Antônio Faustino Nascimento (Missão Velha, CE, 1901-)  advogado, magistrado, escritor, poeta, ensaísta, jornalista, tradutor.  Em Fortaleza, fundou a revista Argus.

Obras

Juvenília, poesia, 1927

As Cosmogonias, ensaio, 1929

Paisagens sonoras, poesia, 1937

Ritmos do novo continente, poesia, 1939, 1943

Elogio do amor e da ilusão, poesia, 1941

Cantos da paz e da guerra, poesia, 1943

O refúgio sublime, poesia, 1945

Exortação, soneto em cinco idiomas, 1949

O sonho do fauno, poesia, 1950

Cântico ao nordeste, poesia, 1954

Caminhos do Infinito, poesia, 1956

A  fonte de Afrodite, poesia, 1958

A Alvorada, cântico a Brasília, 1958

Antologia poética, 1960

A vida, o amor e a ilusão, poesia, 1962

A terra de Israel, ensaios, 1967

Oriente e ocidente, história, 1973





Trova da fé

28 05 2020

 

 

1c4106e83f878db09e55e0d43b1a50a5Tintin ia viajar, ilustração de Hergé.  (O trem para Nyon?…  Muito tarde, Senhores: lá vai ele, agora mesmo.)

 

 

Quem vai sem fé… sem coragem,

no embarque do trem da vida,

decreta o fim da viagem

antes mesmo da partida!

 

(José Almir Loures)





Confiança, poesia de Abel Silva

25 05 2020

 

 

b69c45bc9389e7c7fbf8bad718726ec8Ilustração de Kathy Wolmack

 

 

Confiança

 

Abel Silva

 

Sou destituído de fé religiosa

mas confio. Não tenho alternativas.

Eu não conheço o engenheiro

mas entro neste prédio.

Não conheço o piloto

e embarco no avião.

Não sei quem plantou

colheu ou preparou:

mas bebo o vinho

e como o pão.

 

Em: Mundo delirante: poesias, Abel Silva, Rio de Janeiro, Europa: 1990, p. 18





O relógio, poema de Jorge de Lima

17 05 2020

 

 

l27horlogedesapience28theclockofwisdom29fromabout1450O relógio do saber, século XV. — L’Horloge de Sapience (Bruxelles, Bibliothèque Royale , ms. IV 111

 

O relógio…

 

Jorge de Lima

 

Relógio, meu amigo, és a Vida em Segundos…

Consulto-te: um segundo!  E quem sabe se agora,

Como eu próprio, a pensar, pensará doutros mundos

Alma que filosofa e investiga e labora?

 

Há de a morte ceifar somas de moribundos.

O relógio trabalha… E um sorri e outro chora,

Nas cavernas, no mar ou nos antros profundos

Ou no abismo que assombra e que assusta e apavora…

 

Relógio, meu amigo, és o meu companheiro,

Que aos vencidos, aos réus, aos párias e ao morfético

Tem posturas de algoz e gestos de coveiro…

 

Relógio, meu amigo, as blasfêmias e a prece,

Tudo encerra o segundo, insólito — sintético:

A volúpia do beijo e a mágoa que enlouquece!

 

[A Instrução, Maceió, 1907]

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 45





Trova dos livros

14 05 2020

 

 

stack of books, Diana LynnIlustração de Diana Lynn.

 

 

Os livros, bons companheiros,

eu bem sei, desde menino,

que são gurus verdadeiros,

decretando o meu destino.

 

(Marília Conceição S. Oliveira)





“Bosquejo” poesia de Raimundo Correia

27 04 2020

 

 

Eduardo Feitosa, (Brasil, Sb do campo, 1957)mãe e filha, ostMãe e filha lendo

Eduardo Feitosa (Brasil, 1957)

óleo sobre tela

 

 

Bosquejo

 

Raimundo Correia

 

Repica o sino na matriz da vila,

Como um dia de gala…

São dez horas somente; o sol rutila,

Faísca o espelho de cristal na sala.

 

A pêndula palpita,

Compassada e monótona;  singelo,

Numa gaiola, elétrico saltita

Um canário amarelo.

 

São dez horas; erguidas

As persianas deixam ver, distantes,

Das árvore floridas

As frondes verdejantes.

 

Sutil essência de magnólia e rosa

Repassa o ambiente,,,  e a mãe a ler ensina,

Sorrindo  carinhosa,

A loura filha,  ingênua e pequenina.

 

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 24.