Santos, poesia de Ribeiro Couto

17 05 2021

Porto de Santos, 1986

Aldemir Martins (Brasil, 1922-2006)

acrílica sobre tela, 54 x 46 cm

 

Santos

Ribeiro Couto

 

Nasci junto ao porto ouvindo o barulho dos embarques.

Os pesados carretões de café

Sacudiram as ruas, faziam trepidar o meu berço.

 

Cresci junto ao porto, vendo a azáfama dos embarques.

O apito triste dos cargueiros que partiam

Deixava longas ressonâncias na minha rua.

 

Brinquei de pegador entre os vagões das docas.

Os grãos de café, perdidos no lajedo,

Eram pedrinhas que eu atirava noutros meninos.

 

As grades de ferro dos armazéns, fechados à noite,

Faziam sonhar (tantas mercadorias!)

E me ensinavam a poesia do comércio.

 

Sou bem teu filho, ó cidade marítima,

Tenho  no sangue o instinto da partida,

O amor dos estrangeiros e das nações.

 

Oh, não me esqueças, nunca, ó cidade marítima,

Que eu te trago comigo por todos os climas

E o cheiro do café me dá tua presença.

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 17.





Minha terra, poesia de Álvaro Moreyra

26 04 2021

Estação de trem

Sylvio Pinto (Brasil, 1918 – 1997)

óleo sobre tela, 40 x 60 cm

 

A minha terra

Álvaro Moreyra

 

A minha terra…

É um céu tão azul que eu nunca mais olhei outro céu tão azul…

É um rio chamado Guaíba que tem uma ilha chamada Pintada…

É uma casa grande…

A minha terra…

Aquela procissão de noite…

O circo de Paulo Cirino…

A estação da estrada de ferro de onde saía o trem para São Leopoldo…

A minha terra cabe toda dentro de mim…

A minha terra é do tamanho de minha infância…

Porto Alegre…

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, pp. 10-11.





Na África, poesia de Álvares de Azevedo Sobrinho

19 04 2021

Alegoria da África,1834

[Da série, Alegorias dos Quatro Continentes]

François Dubois (França, 1790-1871)

óleo sobre tela,  80 x 201 cm

 

Na África

 

Manoel Antônio Álvares de Azevedo Sobrinho

 

A noite, novamente, reaparece

E sopra pela costa o rijo vento.

O vento abrasador no ocaso,

Soluça o verde mar como um lamento.

 

Validê tem o olhar no firmamento

Enquanto Allah recebe sua prece…

E nos seus olhos úmidos, parece,

Paira a saudade como o pensamento.

 

Caminha a caravana no deserto,

Sobre os negros cavalos estafados,

Sem oásis avistar distante ou perto…

 

E a moça relembrando o amor que sente,

O ardente pranto dos apaixonados,

Triste, derrama sobre a areia ardente!

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, pp. 213-14.





Ladainha, poesia de Cassiano Ricardo

8 03 2021

Paisagem

Bustamante Sá (Brasil, 1907- 1988)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

 

Ladainha

 

Cassiano Ricardo

 

Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome

de Ilha de Vera Cruz.

Ilha cheira de graça

Ilha cheia de pássaros

Ilha cheia de luz.

Ilha verde onde havia

mulheres morenas e nuas

anhangás a sonhar com histórias de luas

e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.

 

Depois mudaram-lhe o nome

pra terra de Santa Cruz.

Terra cheia de graça

Terra cheia de pássaros

Terra cheia de luz.

 

A grande Terra girassol onde havia guerreiros de tanga e onças ruivas  deitadas à sombra das árvores mosqueadas de sol.

 

Mas como houvesse, em abundância,

certa madeira cor de sangue cor de brasa

e como o fogo da manhã selvagem

fosse um brasido no carvão noturno da paisagem.

 

e como a Terra fosse de árvores vermelhas

e se houvesse mostrado assaz gentil

deram-lhe o nome de Brasil.

Brasil cheio de graça

Brasil cheio de pássaros

Brasil cheio de luz

 

Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, pp. 53-54.





Ladyce West, a Peregrina Cultural, lança seu primeiro livro de poesia

1 12 2020

Muito feliz de anunciar que meu livro, À meia voz, com 60 poemas, está a partir de hoje em PRÉ-VENDA a R$33,00, no site da editora Autografia. Estou muito orgulhosa.   Logo estará também à venda em e-book.

https://www.autografia.com.br/produto/a-meia-voz/





Nós, soneto de Inocêncio Candelária

1 12 2020

Lembrança do primeiro amor, 1995

Ernani Pavaneli (Brasil, 1942)

acrílica sobre tela, 65 x 54 cm

 

Nós

 

Inocêncio Candelária

 

Brincávamos nós dois o dia inteiro:

Você linda criança. eu pequenino,

Num mútuo benquerer, num verdadeiro

Mundo de flores, plácido e divino!

 

Sempre juntos, você foi quem primeiro

Ensinou-me de um modo peregrino,

Viver, amar, ser bom, ser altaneiro,

Minha loura boneca de menino…

 

Depois fui para longe… A nossa dita

O tempo transformou. Deus assim quer!

Fiquei moço e você ficou mulher…

 

E mulher, mais mimosa, mais bonita,

Você é ainda a mesma em meu destino

Minha loura boneca de menino.

 

Em: 232 Poetas Paulistas: antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 350

 

Inocêncio Candelária, (1910- 1992) jornalista,  contista, historiador, biógrafo, antologista, poeta e trovador,  nasceu no município de Salesópolis a 5 de setembro de 1910, filho de Benedito Ferreira Candelária e Benedita de Melo Candelária. Residiu e faleceu em Mogi das Cruzes.

Obras

 Filólogo da Escola da Praça, (1945) – crítica

 [premiado pela Academia Brasileira de Letras]

Poetas do Norte de São Paulo, (1958) antologia poética





“Esse cão”, poesia de Vera Lúcia de Oliveira

9 11 2020

Galgo, 2010

Aguiar Santana (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 30 x 30 cm

 

 

 

 

[Sem título]

 

Vera Lúcia de Oliveira

 

esse cão que me segue

é minha família, minha vida

ele tem frio mas não late nem pede

ele sabe que o que tenho

divido com ele, o que eu não tenho

também divido com ele

ele é meu irmão

ele é que é meu dono

 

 

Em: Cintilações da Sombra 2: antologia poética, coordenação Victor Oliveira Mateus, Fafe, Portugal, Labirinto e Núcleo de Artes e Letras de Fafe: s.d., p. 85





Trova da roseira

31 10 2020
Cartão postal.

 

Da vida, pelos caminhos,

uma coisa aprendi bem:

a roseira dá espinhos,

mas nos dá rosas, também…

 

(A. Isaias Ramires)





“O acendedor de lampiões” poema de Jorge de Lima

26 10 2020
lamplighter-carrying-out-his-duty-mary-evans-picture-libraryGravura anônima do Século XIX.
O acendedor de lampiões

 

Jorge de Lima

 

 

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!

Este mesmo que vem infatigavelmente,

Parodiar o sol e associar-se à lua

Quando a sombra da noite enegrece o poente!

 

Um, dois, três lampiões, acende e continua

Outros mais a acender imperturbavelmente,

À medida que a noite aos poucos se acentua

E a palidez da lua apenas pressente.

 

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —

Ele que doira a noite e ilumina a cidade,

Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

 

Tanta gente também nos outros insinua

Crenças, religiões, amor, felicidade,

Como este acendedor de lampiões de rua!

 

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 62





Casamento de raposa

20 10 2020

Ilustração de Georgia Dunn.

Casamento de raposa

Wilson W. Rodrigues

 

Chuva com sol é tão raro

como pérola de Ormuz;

da chuva pingos tão claros

e do sol pingos de luz.                   

 

 

Chuva com sol é tão doce

que parece a redenção

do bem e do mal reunidos

numa suave canção.

 

 

Chuva com sol nos sugere,

se é que pode sugerir,

olhos tristes a chorar

lábios felizes a rir…

 

 

Em: Beija-flor: poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, 1949, Publicitan Editora: p. 115