Poesia “Redundâncias”, Ferreira Gullar

18 01 2024
Ilustração, Pierre Brissaud, 1912

 

 

 

Redundâncias

 

Ferreira Gullar

 

Ter medo da morte

é coisa dos vivos

o morto está livre

de tudo que é vida

 

Ter apego ao mundo

é coisa dos vivos

para o morto não há

(não houve)

raios rios risos

 

E ninguém vive a morte

quer morto quer vivo

mera noção que existe

só enquanto existo

 

Em: Muitas vozes: poemas, Ferreira Gullar, 3ª edição, Rio de Janeiro, José Olympio, 1999, p. 48





“Verão”, poesia de Ladyce West

22 12 2023
Verão, ilustração de Dick Sargent (1911 – 1978)

 

 

 

 

Verão

 

Ladyce West

 

 

Pelo próprio nome é aumentativo.

É mais quente, mais intenso,

mais esperado, ensolarado,

letárgico, suado.

Prefiro o outono,

 

Excessos sempre me exaurem.

 

 

Em: À meia voz, Ladyce West, Rio de Janeiro, Autografia: 2020, p. 26

 

 

Hoje, 22-12-23, solstício de verão, é quando a estação mais quente do ano se inicia.





Trova do Papai Noel

20 12 2023
Ilustração de J.C. Leyendecker, Dezembro, 1941, propaganda da Pan American Cofee Producers: Brasil, Colômbia, Costa Rica, Cuba, El Salvador e Venezuela.

 

 

Papai Noel – o segredo
mais risonho da Esperança;
o mais bonito brinquedo
no sonho azul da criança.

 

(Durval Mendonça)





Trova de Natal

14 12 2023
Monica e Magali sonham com os presentes de Natal, ilust. Mauricio de Sousa.

 

 

Papai Noel, bom velhinho,

neste Natal, sob a lua…

procure meu sapatinho

sobre a janela da rua!…

 

(Adelir Machado)





Primavera II, poesia de Augusto Frederico Schmidt

13 12 2023

Primavera no campo, 1967

Zé Inácio (Brasil, 1911-2007)

[José Inácio Alves de Oliveira]

óleo sobre tela, 33 x 41 cm

 

 

Primavera II

 

Augusto Frederico Schmidt

 

Dia para quem ama

Dia límpido e claro!

O azul do céu, o azul da terra, o azul do mar!

Dia para quem é feliz e sem tormento

Dia para quem ama e não sofre de amor!   

Dia para as  felicidades inocentes!

 

Em mim a mocidade acordou violentamente

Porque o sol expulsou as trevas e inundou-me!

Uma pulsação de vida enche meu ser doentio e incerto.

 

Veja as água correndo

Vejo a vida e o espaço

Vejo as matas e as grandes cidades líricas

Vejo os vergéis em flor!

É a primavera! É a primavera!

Desejo de tudo abandonar e sair cantando pelos caminhos!

 

 

Em: Eu te direi as grandes palavras, Augusto Frederico Schmidt, Editora Nova Fronteira, 2ª edição, Rio de Janeiro: 1977, p. 56

 





Trova da agricultura

30 11 2023
Ilustração Rudolf Koivu.

 

 

 

Terra – bendito seu nome,

sinônimo de fartura;

só quem nunca sentiu fome

menospreza a agricultura!

 

(Arlindo Tadeu Hagen)





O lago, soneto de Narcisa Amália

22 11 2023

Paisagem Rural com Espelho D’água e Casinha

Augusto Rodrigues Duarte (Portugal-Brasil, 1848 -1888)

óleo sobre madeira, 24 x 32 cm

 

 

O Lago I

 

Narcisa Amália

 

 

Calmo, fundo, translúcido, amplo o lago

longe, trêmulo, trêmulo morria,

No seu límpido espelho a ramaria,

curva, de um bosque punha sombra e afago

Terra e céu, ondulando, eram na fria

tela fundidos! O queixume vago

que a água modula, de ambos parecia

solto, ululante, intérmino, pressago!

“Trecho vulgar de sítio abstruso e agreste”

talvez; mas todo o encanto que o reveste

sentisse; contemplasses-lhe a beleza;

comigo ouvisse-lhe a mudez, que fala,

e sorverias no frescor que o embala

todo o alento vital da Natureza!

(1872)





Trova das minhas compras

16 11 2023
Pato Donald vai às compras, ilustração Disney.

Do meu anúncio em jornal

gostei tanto quando li

que antes do prazo final

comprei tudo o que eu vendi.

(Abílio Kac)





Insônia, poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

9 11 2023

Insônia

Joana Aslanian (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 73 x 91 cm

 

 

Ali onde se pescam amarguras,
a insônia se aprimora nas torturas.

 

 

Insônia

 

Reynaldo Valinho Alvarez

 

 

A manhã se aproxima e é sempre duro

quando o sol rompe a treva e inunda o escuro

de um sono que nem mesmo aconteceu.

Sinto-me novo e inútil Prometeu

a quem bicam o fígado, melhor

dizendo a mente, e que aprendeu de cor

os caminhos da noite soluçados,

como vagidos, em jardins murados,

numa vigília que não se escolheu.

Ah, estradas da noite, ah, poços fundos,

sempre cheios de lodo, tão imundos

deste vazio amortalhado em breu.

Ah, pontes sem destino, cruel fadiga

do tempo debulhado como espiga.

 

 

Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.63





Trova da lembrança

6 11 2023
Phillips C. Coles, capa da revista Good Housekeeping, Setembro de 1916

 

 

 

Minha amada foi-se embora

para bem longe de mim…

o que vou fazer agora

se a lembrança não tem fim?

 

 

(Luiz Antonio Cardoso)