Mamãezinha, poesia de Alceu Maynard Araújo

5 05 2014

 

 

mãe e filho, capa Good Housekeeping, junho 1928Ilustração Capa da Revista Good Housekeeping, junho de 1928.

 

Mamãezinha

 

Alceu Maynard de Araújo [Almayara]

 

Quando o dia rompe

Vermelho e risonho,

Meu doce sonho

Se interrompe,

— Acordo pensando em você, mamãezinha.

 

Quando o dia some

Na linha azul do horizonte,

Antes que a treva desponte,

Só me lembro de um nome

E é o doce nome de você, mamãezinha.

 

Quando o dia já dorme,

Eu genuflexo, sozinho,

Digo bem baixinho

Na minha solidão enorme:

— Penso só em você, mamãezinha.

 

De noite ou de dia,

A todo momento,

Quer no sofrimento,

No prazer ou na alegria,

Sempre eu penso em você, mamãezinha.

 

Em: 232 Poetas Paulistas:antologia,  ed. e col. Pedro de Alcântara Worms, São Paulo, Conquista: 1968, p. 368-9

 

 





O Maracujá, poesia de Sônia Carneiro Leão

10 04 2014

 

Aquarela_Passiflora_edulis_01Ilustração botânica do maracujá [Passiflora edulis Sims] de Maria Cecília Tomasi.

O Maracujá

Sônia Carneiro Leão

Pego o maracujá e me assusto

Tão dura e tão oca

essa fruta mais louca

me deixa perplexa

de tão desconexa.

Sua carne é só casca.

Seu ventre, sementes.

Sua polpa tão pouca,

não dá pros meus dentes,

Maracujá intrigante,

enrugado, velhinho,

de gosto aceso, bacante,

como o do vinho.

Quero morder, não consigo.

Chupar, tão pouco não posso.

Que fazer, então, contigo,

com o teu paradoxo?

Ninguém o fura com o dedo

para evitar contusão,

esconde dentro o segredo

o doce-azedo da paixão.

Respeitamos o non-sense

da sua concepção.

Em: Respostas ao Criador Das Frutas, Sônia Carneiro Leão, auto-publicação,Holos Design,  ilustrado por Renata Vilanova, p. 13.

 –

Sônia Carneiro Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas reside em Recife.  Psicanalista, escritora, poetisa, contista  e tradutora.

 





Sombra, poema de Flora Figueiredo

16 03 2014

Jan Catharinus Adriaan GoedhartA carta, 1930

Jan Catharinus Adriaan Goedhart(Holanda, 1893 – 1975)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

Coleção Particular

Sombra

Flora Figueiredo

Tem um lugar no meu quarto

em que a luz não entra.

Tudo que se tenta

não dá certo.

Em vão tirar telha,

abrir janela,

furar o teto.

Postou-se ali um escuro

soturno e quieto,

recentemente diagnosticado.

É uma fração de passado

que o tempo não leva

para não rever fatos,

e que a vida ceva

porque é da vida conservar mandatos.

Para que o escuro seja então cassado,

é preciso um clarão qualificado,

capaz de sorvê-lo em sucção;

que durante o processo de deglutição

use artimanha,

até transformá-lo em cavidade.

É nesse vão que vai florar felicidade,

parida da entranha do bicho-papão.

Em: Amor a céu aberto, Flora Figueiredo, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1992, p. 101.





Beira-mar, poesia de Domingos Pellegrini

15 01 2014

SYLVIO PINTO (1918-1997)Barcos e traineiras na Baia de Guanabara – RJ,1978, ost, 60 X 81Barcos e treineiras na Baía de Guanabara, 1978

Sylvio Pinto (Brasil, 1918-1997)

óleo sobre tela, 60 x 81cm

Beira-mar

Domingos Pellegrini

O mar com seu motor que nunca para

o vento em seus humores vagadios

ou a te dar refresco ou arrepios

e a máscara de sal na tua cara

O pernilongo que sempre declara

guerra ao teu sono, e o interminável cio

duma coruja a repetir seu pio

para o luar que a nuvem desaclara

Então aquieta a música do brejo

enquanto as pererecas pensam se

será complô dos grilos e morcegos

E antes que a sinfonia recomece

dá para ouvir que a saparia tem

tão pouco assunto para tanta conversa

Em: Gaiola aberta: 1964-2004, Domingos Pellegrini, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2005





A estrela polar — poesia de Vinícius de Moraes

14 12 2013

noite, ceu, estrelas,Nicolas Gouny - cueillir des étoilesIlustração de Nicolas Gouny.

A estrela polar

Vinicius de Moraes

Eu vi a estrela polar

Chorando em cima do mar

Eu vi a estrela polar

Nas costas de Portugal!

Desde então não seja Vênus

A mais pura das estrelas

A estrela polar não brilha

Se humilha no firmamento

Parece uma criancinha

Enjeitada pelo frio

Estrelinha franciscana

Teresinha, mariana

Perdida no Polo Norte

De toda a tristeza humana.

Em: Poemas para a Infância – antologia escolar – de Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s.d., p.18.





Canção da árvore, poesia de Correa Júnior

18 06 2013

arvore, mary blairIlustração Mary Blair.

Canção da árvore

Correa Júnior

    A árvore é flor, sombra na estrada,

    fruto que a sede nos mitiga.

    A árvore é dádiva sagrada:

    — dá-nos ao lar, multiplicada,

    o leito… a mesa… a porta… a viga!

    A árvore é paz, graça e doçura:

    simplicidade, amor, perdão!

    Mostra a esperança, na verdura

    de cada galho, e a dor obscura

    deixa escondida sob o chão.

    O ar purifica, ampara os ninhos:

    e sem vaidade, silenciosa,

    rica de bênçãos e carinhos,

    é, para nós e os passarinhos,

    a criatura mais piedosa.

    A árvore é flor, sombra na estrada,

    fruto que a sede nos mitiga.

    A árvore é dádiva sagrada:

    — dá-nos ao lar, multiplicada,

    o leito… a mesa… a porta… a viga!





Embalo, poesia infantil de Ribeiro Couto

16 04 2013

mãe e filho Jessie Willcox SmithMãe e filho, ilustração de Jessie Willcox Smith.

Embalo

Ribeiro Couto

Cantando e ninando

A mãe adormece.

Que regaço brando!

A sombra parece

Tutu marambaia

Com uma boca enorme.

Que regaço brando!

O menino esquece

Que tem medo e dorme.

Mas  o anjo da guarda,

Que à noite não dorme,

No quarto não tarda.

Anjo ou capitão?

Espada na cinta,

Ginete na mão.

Põe junto da saia

Da mãe do menino

A espada a brilhar.

Que espada medonha!

É para matar

Tutu marambaia?

O menino sonha.

Em: Antologia de poemas para a infância, vários autores, Rio de Janeiro, Ediouro:2004





O corvo e a raposa, poema e fábula, Bocage

24 02 2013

1289703457Ilustração de John Rae.

O corvo e a raposa

Bocage

——————-(tradução de La Fontaine)

 –

É fama que estava o corvo

Sobre uma árvore pousado

E que no sôfrego bico

Tinha um queijo atravessado.

Pelo faro, àquele sítio

Veio a raposa matreira,

A qual, pouco mais ou menos,

Lhe falou desta maneira:

– Bons dias, meu lindo corvo;

És glória desta espessura;

És outra fênix, se acaso

Tens a voz como a figura.

A tais palavras, o corvo,

Com louca, estranha afouteza,

Por mostrar que é bom solista

Abre o bico e solta a presa.

Lança-lhe a mestra o gadanho

E diz: – Meu amigo, aprende

Como vive o lisonjeiro

À custa de quem o atende.

Esta lição vale um queijo;

Tem destas para teu uso.

Rosna então consigo o corvo

Envergonhado e confuso:

– Velhaca, deixou-me em branco;

Fui tolo em fiar-me dela;

Mas este logro me livra

De cair noutra esparrela.





Chuva, poesia infantil de Luísa Ducla Soares

13 02 2013

chuva e gato preto B. Midderigh Bokhorst,

Ilustração alemã, sem autoria, década de 1930.

Chuva

Luísa Ducla Soares

Cai a chuva, ploc, ploc
corre a chuva ploc, ploc
como um cavalo a galope.

Enche a rua, plás, plás
esconde a lua, plás, plás
e leva as folhas atrás.

Risca os vidros, truz, truz
molha os gatos, truz, truz

e até apaga a luz.

Parte as flores, plim, plim
maça a gente plim, plim
parece não ter mais fim.

Em: A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca, Luísa Ducla Soares, Teorema: 1990





A flor, poema de Afonso Louzada

12 01 2013

20120923gogh-60

Vaso com oleandro e livros, 1888

Vincent van Gogh (Holanda,1853-1890)

óleo sobre tela 60 x 73 cm

Metropolitan Museum, Nova York

A flor

Afonso Louzada

Talvez marcando o poema, em livro antigo,

encontrei uma flor já ressequida.

Velha história de amor… penso comigo,

pondo-me a ler a página esquecida.

Quem à flor nesse livro deu abrigo,

quem sabe? procurou tê-la escondida –

do amor sentindo o grande abraço amigo,

para a própria saudade comovida.

E o que ficou daquele amor profundo?

Talvez agora, já não resta nada

De tudo que era sonho e que era vida.

Sob o silêncio lúgubre do mundo,

Apenas essa flor abandonada –

marcando a velha página esquecida.

Em: Sonetos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, 1956, 2ª edição aumentada.