Uma orquestra na fazenda, texto de Luiz Antonio de Assis Brasil

1 09 2025

Orquestra

Mariinha Santos (Brasil, ativa nas décadas de 1970-80)

aquarela, 48 x 68 cm

 

 

O Major convidara os estancieiros mais próximos, e assim a capela encheu-se de cadeiras, e foi preciso que as crianças ficassem pelo chão, junto com os cachorros. O Maestro ostentava a casaca nova, e, ao entrar pelo corredor central, com as músicas debaixo do braço, caminhando para sua orquestra como para oficiar uma missa, todos se compenetraram: jamais haviam visto algo semelhante. Os notáveis que, de fato, ainda abominavam o Maestro, agora intrigavam-se com aquela dignidade. – “Ele deu vida a esta capela” – disse o Major ao Vigário, que concordou com um movimento de cabeça e pôs o indicador frente aos lábios: o Maestro, já de costas para os convidados, esperava que cessassem as tossidelas e os murmúrios; depois, ergueu as mãos num gesto elegante e decidido, e os instrumentistas perfilaram-se nas pontas das cadeiras. Ficou assim, imóvel, por um momento; depois, muito lentamente, acariciando o ar, baixou os braços – e as rabecas deram início a um andante cantabile mal audível, lascivo, complicado por appogiaturas que se enredavam nas notas. Na plateia, ninguém se animava a um só movimento. A melodia cresceu, ganhou inesperada rapidez, e logo um festivo allegro retumbava pela capela, num estrépito de tambores e cornetas. O Maestro luzia de suor, transfigurando-se pelo fogo de seus movimentos, que varriam o espaço acima das cabeças; seu colarinho saía para fora da gola, e surgiram os punhos da camisa. E a música foi-se desdobrando em ondas, ganhando matizes delicados, para logo ressurgir com mais força, avançando ao limite do suportável. Em poucos minutos atingiu um paroxismo sonoro que fazia vibrarem os vidros das janelas. Quando os ouvintes já se entreolhavam em desespero, tudo acabou num triunfante e ensurdecedor acorde de toda a orquestra. No silêncio imediato, seguiu-se o grito do Major: – “A la fresca!”. A audição continuou, agora com obras ligeiras, onde se percebia sua anterior destinação à banda. Aí sim, os ouvintes sentiram-se mais à vontade, e os homens autorizavam-se a marcar os compassos, batendo com os pés na laje do piso. O Maestro pretendeu agradar os brios gaúchos e atacou o hino da República Rio-Grandense, o que fez com que os convidados, ao comando do Major, se levantassem para ouvir a música do Mendanha.

 

Em: Concerto Campestre, Luiz Antonio de Assis Brasil, L&PM: 1997, Porto Alegre





A música dos anjos na Candelária

7 08 2011

Orquestra para Violoncelos e Contrabaixos de Volta Redonda, concerto na Igreja da Candelária no Rio de Janeiro.

Hoje, arcanjos cantaram na Candelária e foram acompanhados por uma notável orquestra de violoncelos e contrabaixos.  Experiência única: ouvirmos o contraste de vozes  humanas acariciadas pelos sons de uma orquestra tão singular.   Não sou novata.  Este não é entusiasmo de quem ouve um concerto pela primeira vez.  Mas música dos anjos foi a maneira encontrei para descrever a emoção suscitada em mim e na platéia à minha volta quando da apresentação da Orquestra para Violoncelos e Contrabaixos de Volta Redonda sob a direção da maestrina Sarah Higino.   Não foram poucos os olhos marejados ao final do programa, cuja apresentação fez parte da 17ª edição do Rio International Cello Encounter, um evento que reúne alguns dos maiores violoncelistas do mundo.

A Orquestra para Violoncelos e Contrabaixos de Volta Redonda faz parte do projeto “Volta Redonda Cidade da Música”, criado pelo maestro Nicolau Martins de Oliveira  e mantido pela prefeitura.  Ele envolve cerca de 4.000 alunos das escolas municipais da cidade.   Se você ainda não conhece esta orquestra, precisa fazê-lo.  Aproveite as diversas apresentações desses músicos no estado.  Oportunidades existem aqui no Rio de Janeiro, assim como em outras localidades.  Decida ir.  Você não se arrependerá.

Deixo aqui abaixo o único vídeo da Orquestra de Cordas de Volta Redonda que inclui os 50 membros da orquestra de violoncelos e contrabaixos.  Foi o único vídeo que encontrei na rede.  Não apresenta os números do concerto da tarde de hoje, mas mostra a excelência de execução desses jovens integrantes.






É hoje o concerto da Orquestra YouTube!!!

15 04 2009

musicos-de-bremem1Os músicos de Bremen.  Ilustração: Christina Rossetti.

 

Uma orquestra internacional formada por cerca de 90 músicos selecionados pelo site de vídeo YouTube se apresentará no Carnegie Hall, em Nova York, hoje,  quarta-feira, depois de três dias de ensaios. Oriundos de mais de 30 países, entre os quais o Brasil, os membros da orquestra YouTube ensaiaram para o concerto em suas casas, recebendo lições online de alguns dos mais famosos músicos mundiais.

 

Eles se encontraram pela primeira vez no domingo. “Todo mundo na orquestra tem claramente grande experiência em seus instrumentos“, disse Michael Tilson Thomas, o maestro premiado com o Grammy que regerá a apresentação. “Alguns deles são músicos com grande experiência de trabalho conjunto, em música de câmara e orquestral, e outros têm menos experiência“, disse o maestro, que dirige a orquestra sinfônica de San Francisco. “Alguns deles têm outras profissões: são físicos, jogadores de pôquer e analistas financeiros.

 

A apresentação incluirá trabalhos de Gabrieli, Bach, Mozart, Brahms, Villa Lobos e John Cage, bem como a Sinfonia Número 1 para internet Eroica, composta por Tan Dun, o compositor chinês premiado com um Oscar por sua trilha para o filme O Tigre e o Dragão. “Trata-se de uma forma moderna de um antigo casamento arranjado, intermediada pelo Google e YouTube“, disse Dun. “É um sonho realizado.”

 

A orquestra foi montada depois que mais de 3 mil audições online foram submetidas em dezembro e janeiro. Jurados de algumas das principais orquestras mundiais reduziram o número a 200 candidatos, e os vencedores foram escolhidos pelos usuários do YouTube, controlado pelo Google.

 

O canal da YouTube Symphony Orchestra disponível no endereço www.youtube.com/symphony   foi assistido mais de 15 milhões de vezes desde seu lançamento em dezembro, por pessoas de mais de 200 países e territórios.  Um vídeo do concerto estará disponível no YouTube na quinta-feira.

 

Duas brasileiras farão parte de orquestra colaborativa do YouTube: Larissa Mattos e Irina Kodin. 

 

foto-beto-novaes-mineira-larissa-mattos

Larissa Mattos, foto Beto Novaes.

 

 

A mineira Larissa Mattos foi convencida por uma amiga, que viu o edital.  Mas Larissa, estudante de violoncelo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que também toca violoncelo em três bandas de música popular brasileira e já se apresentou em peças de teatro,  não ficou muito animada. “Achava que não tinha chance, por ser um concurso com músicos do mundo inteiro“, revela a violoncelista.  A amiga, persistente, imprimiu as partituras de duas peças para ela estudar. Diante de tanto empenho, Larissa não teve como desistir. E a investida deu certo.

 

Para mim foi uma surpresa muito grande ser uma das finalistas. Estou muito contente e ansiosa para a apresentação em Nova York. Ganhar um concurso de música clássica no Brasil tem um peso maior do que em qualquer outro país”, diz Larissa.

 

irina_kodin

Irina Kodin

 

Irina Kodin, também representa o Brasil no concerto.  Ela é violinista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).  Irina já atua profissionalmente há alguns anos e é música da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Para ela, isso demonstra o alcance do projeto promovido pelo YouTube.

 

 Estou muito curiosa para saber o que vai acontecer em Nova York. Esse concurso poderia servir de exemplo para testes futuros em orquestras, pois se trata de uma forma democrática de seleção” diz Irina.

 

Seu interesse no evento, com 3 mil vídeos inscritos, surgiu por se tratar de uma iniciativa diferente. “É algo inédito, nunca feito antes. O resultado pode ser bem interessante e, por isso, achei que deveria participar”, afirmou Irina.  

 
 

Fontes:

 

Reuters; Portal Uai

 

 

 

 

Outras ilustrações de Christina Rossetti neste blog:

 

A boneca quebrada

Gato e Rato

 

 

 

 

Outras ilustrações dos músicos de Bremen neste blog:

 

Anônimo, Flicker

 

 

 

 





Concerto campestre: Luiz Antonio de Assis Brasil

13 07 2008

 

Kiko Medeiros (RS, Brasil 1955) Músicos, A/T

Kiko Medeiros (RS, Brasil 1955) Músicos, A/T

 

Concerto Campestre é um livro sedutor que permanece na nossa imaginação por muito tempo depois de termos acabado sua leitura.  É uma história que cobre duas das maiores paixões brasileiras:  música e o amor proibido.  Luiz Antonio de Assis Brasil mostra como o preconceito racial funcionava no século XIX;  também retrata eloqüentemente  o vazio da vida levada pelas mulheres da época,  que nascidas e criadas nas fazendas, eram em geral analfabetas.   Elas tinham muito pouco com que se distrair, e como herdeiras de terras, não pertencendo à classe trabalhadora,  não lhes era permitido dedicarem-se a trabalho nenhum.

 

Assis Brasil mostra crenças e preconceitos arraigados no interior, no Rio Grande do Sul rural do século retrasado.   O estado, terra dos gaúchos, solo fértil da grama alta e florida dos pampas, da criação de gado e de grandes fazendeiros — famosos por sua rebeldia e independência — é mostrado com acuidade e poesia nestas páginas, mesmo que vejamos o retrato da educação quase nula, não existente mesmo, rude,  dos donos da terra; e nos familiarizamos com a mentalidade estreita e as regras das tênues diferenças de classes sociais, não só na região austral do país mas também vivenciadas na maior parte do interior do país.

 

A história gira em torno de um senhor da terra que decide ter uma pequena orquestra para concertos ao ar livre.  Ele contrata um conhecido maestro, mulato, que após se estabelecer na fazenda começa a organizar um grupo de músicos, com o objetivo de construir a tão sonhada pequena orquestra do fazendeiro.    Este maestro seduz não só a burguesia do local com sua música, surpreendendo todos os fazendeiros vizinhos, mas também conquista e é conquistado pela filha de seu patrão.    Ela é inteligente, apesar de analfabeta.  E está ciente da vida estéril que a espera, no casamento arranjado pelos pais com o filho de um fazendeiro local.  Ela percebe este casamento como uma das piores coisas que poderiam lhe acontecer.  E aceita o amor do maestro com gosto e reciprocidade.  

 

A história é narrada com muita leveza: o que não é dito pode ser mais importante do que o que se encontra no papel.  É uma história quase escrita nas entrelinhas.  As elipses que ocorrem são não só preocupantes como eloqüentes.  Assim, Assis Brasil mostra a mão do bom escritor que é; controlando ambos texto e história,  sem hesitação.  Este é um romance pequeno, de apenas 176 páginas, que vai muito longe.  É  uma janela descortinando o inconsciente brasileiro.  Certamente sobreviverá no tempo, tornando-se um clássico, porque fala da alma brasileira.

 

 

 

Concerto campestre, Luiz Antonio de Assis Brasil, L&PM: 1997, Porto Alegre

 

 

 

Este texto apareceu primeiro em inglês, há dois anos, no portal: living in the postcard.

Luiz Antonio de Assis Brasil
Luiz Antonio de Assis Brasil