Domingo, um passeio no campo!

16 03 2014

JOSÉ MARIA DE ALMEIDA (1906 1995) Paisagem, o.s.t. 24 x 33Paisagem, s./d.

José Maria de Almeida (Portugal, 1906- Brasil, 1995)

óleo sobre tela, 24 x 33 cm





Domingo, um passeio no campo!

9 03 2014

Irene de Paula,Espantalho,30 x 40 cm – OST,Ass. CIE e Dat. 1986Espantalho, 1986

Irene de Paula (Brasil, ?-?)

óleo sobre tela, 30 x 40 cm





Coleção de arte doada: ganha a UEMG, ganhamos todos

6 03 2014

Noite de São Joãode Alberto da Veiga GuignardAcervo-Artístico-Priscila-FreireNoite de São João

Alberto da Veiga Guignard (Brasil, 1896-1962)

óleo sobre tela

Coleção Priscila Freire

Um belo empurrão na preservação da cultura brasileira foi a recente doação de uma coleção de arte, com destaque para a arte popular do Vale do Jequitinhonha, por Priscila Freire ex-diretora do Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte. Priscila Freire cedeu todo o seu acervo à Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG).  Não fosse isso bastante, cedeu também uma área na chácara onde mora, para que ali seja instalada uma escola de arte. Sem filhos. Sem herdeiros naturais, ela  nomeou a UEMG como consignatária de sua coleção onde se encontram obras de Guignard [só dele são dezessete obras], Tarsila do Amaral [desenhos de sua viagem a MG em 1924] e  Pancetti;  cerâmicas do Vale do Jequitinhonha, gravuras, esculturas e tapeçarias conhecidos artistas brasileiros.

Guignard, Retrato de Priscila freire,Retrato de Priscila Freire, 1959

Alberto da Veiga Guignard (Brasil, 1896-1962)

óleo sobre tela, 55 x 46 cm

A Chácara Santa Eulália, localizada no bairro de São Bernardo, na região norte de Belo Horizonte foi comprada por seu pai na década de 30 e compreende 53 mil metros quadrados.  Essa área ficará aos cuidados da universidade que usará 2.000m² para um núcleo de pesquisa e criação artística da Escola Guignard, vinculada à UEMG, enquanto os restantes 50 000 m² –continuarão a constituir a reserva ecológica de que já são parte.

Dijon Moraes Júnior, reitor da universidade lembra que  o gesto de Priscila Freire é semelhante ao de  José Mindlin, advogado, empresário e bibliófilo que cedeu sua biblioteca  à Universidade de São Paulo,e  de Yolanda Penteado, que doou obras de arte e dinheiro a museus.  Todos mostram o reconhecimento da relevância das instituições recebedoras de tais presente e quem lucra, é claro, somos nós o público, o curador final da cultura brasileira.

FONTES: UAI, Veja BH





Domingo, um passeio no campo!

9 02 2014

Holmes Neves - Paisagem Mineira - 1984 - O.S.T - a.c.i.d. - 50x61 cmPaisagem mineira, 1984

Holmes Neves (Brasil, 1925)

óleo sobre tela, 50 x 61 cm





Pode entrar, que a casa é sua — poesia de Djalma Andrade

4 02 2014

Casario e igrejas em Ouro Preto, MG, 1963

Luiz de Almeida Júnior ( Brasil 1894-1970)

óleo sobre tela  50 x 60cm

Pode entrar, que a casa é sua

-(

Djalma Andrade

Minas… Igrejas e sinos
De sons puros, cristalinos…
Pompas… Passado de glórias…
Cidades velhas, velhinhas,
Com ternura de avozinhas,
Que contam lindas histórias.

Minas… As velhas fazendas
Cheias de casos e lendas
De uma era sombria, escura…
E Minas das claras fontes,
Dos rasgados horizontes,
Minas do pão, da fartura.

Minas… as longas estradas
Nos duros morros cravadas…
Gente forte à luta afeita!
Carros gemendo e cantando,
Serras e montes galgando,
Na alegria da colheita.

Minas… Repiques festivos,
A banda, dobrados vivos
Rompe com fúria infernal…
Foguetes, o largo cheio…
Todo o povo alegre veio
Para a festa no arraial.

Minas… É o lar que se agita
Gente de fora, visita,
Todos à porta da rua…
Sorriso franco e bondoso,
Lá dentro o café cheiroso:
– Pode entrar, que a casa é sua.

Djalma Andrade (Congonhas, MG, 1871-1975)





Domingo, um passeio no campo!

26 01 2014

INIMÁ DE PAULA (1918-1999) - Paisagem na Tarde, ost, 60 X 81. Assinado no c.i.d. e no verso (1989)Paisagem na tarde, 1989

Inimá de Paula (Brasil, 1918-1999)

óleo sobre tela, 60 x 81 cm





Flores para um sábado perfeito!

21 09 2013

Luiz Chaves, Flores e pássaros, ast, 80 x 60 cmFlores e pássaros, 2008

Luiz Chaves (Brasil, 1946)

acrílica sobre tela, 80 x 60 cm

Luiz Chaves





No turno de — poema de Gilberto Mendonça Teles

28 01 2012

Tiradentes, duas igrejas

Oscar Araripe ( Rio de Janeiro, contemporâneo)

86 x 110cm

www.oscarararipe.com.br

No turno de


Para Luiz Carlos Alves

Eu fui a Belo Horizonte
ver as meninas gerais.
Vi montanhas e montanhas,
soube de seus litorais,
conheci Minas por dentro,
gostei de alguns minerais,
visitei as novas praças
e seus antigos currais,
vi a toca das raposas,
ouvi discursos e uais,
vi políticos cursando
colégios eleitorais,
vi contistas e contistas
cada qual contando mais,
vi poetas de vanguarda
desenhando nos jornais,
conheci suas tendências,
seus refrões episcopais,
vi gente de toda parte,
do Piauí, de Goiás
(goiano fazendo cera,
piauiense muito mais),
vi homens pulando cercas,
mulheres com seus plurais,
vi a família mineira
na barra dos tribunais,
e na Rua Carangola
(Ouro Preto no cartaz)
vi uma moça morena
cantando seus madrigais,
fazendo um túnel no tempo
e me fazendo sinais
de que só existe Minas
na forma dos festivais,
quando o barroco já rouco
cochicha pelos beirais,
quando a lua e a serenata
passeiam pelos quintais,
quando há miados de gata
no serenô das gerais.

Em: Plural de nuvens, Gilberto Mendonça Teles, Rio de Janeiro, José Olympio: 1990


Gilberto Mendonça Teles (Bela Vista de Goiás, 30 de junho de 1931) é um poeta e crítico literário brasileiro.


Obras:


Alvorada, 1955.
Estrela-d’Alva, 1958
Fábula de Fogo, 1961
Pássaro de Pedra, 1962
Sonetos do Azul sem Tempo, 1964
Sintaxe Invisível, 1967
La Palabra Perdida (Antología),1967
A Raíz da Fala, 1972
Arte de Armar. Rio de de Janeiro: Imago, 1977
Poemas Reunidos, 1978
Plural de Nuvens, 1984
Sociologia Goiana, 1982
Hora Aberta, 1986
Palavra (Antologia Poética),1990
L ´Animal (Anthologie Poétique), 1990
Nominais, 1993
Os Melhores Poemas de Gilberto Mendonça Teles
Sonetos (Reunião), 1998





Os sinos de Mariana — Revista Kósmos, Maio 1907 — texto de Mário Behring

2 10 2011

Vista Parcial de Mariana – MG, 2010

Baptista Gariglio Filho (BH, Brasil, 1961)

óleo sobre tela,  70x90cm

http://www.gariglio.cjb.net/

Os sinos de Mariana

Mário Behring

No dia 30 de junho de 1743 grande era o movimento na Vila Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo, hoje cidade arquiepiscopal de Mariana.

Após três meses de permanência, seguia o Bispo do Rio de Janeiro, D. Frei João da Cruz que viera em correição às Minas, para Camargos.

Várias providências haviam sido tomadas pelo prelado nesses três meses, a fim de regularizar a situação do clero na Vila, sendo uma delas a demissão do vigário da vara Padre Dr. Francisco Pinheiro da Fonseca que menos curava das almas do que dos seus negócios particulares, antes do temporal, que do espiritual, pecado que era aliás de todo o clero das Minas, interessado em quanta especulação surgisse para atrair o ouro que fartamente fluía  das catas riquíssimas.

Esse Padre, por isso que fazia vista grossa aos pecados dos seus paroquianos, era tido e havido na conta de um excelente homem, tendo uma grande roda de amigos aos quais agravou a decisão violenta do Bispo, resolvendo-se tirar dela uma vingança pública.

E com tal segredo a prepararam que nada transpirou por entre o povo.

A 20, pela manhã, pôs-se em marcha a comitiva do Bispo – No momento da partida porém, quando os sinos se preparavam para saudar  o seu pastor com os seus costumados cortejos e repiques (1) deram os sineiros pela falta de todos os badalos dos quatro sinos da matriz e do da capela de São Gonçalo.

Célere chegou ao Bispo a notícia do acontecido e voltando então outra vez para Mariana mandou tirar os badalos restantes das demais Igrejas, interditando os templos de toda a Freguesia.

O ouvidor da Vila Rica, Caetano Furtado de Mendonça (2) mandou logo que teve conhecimento do fato, tirar quatro devassas pelas autoridades eclesiásticas.  A primeira pelo próprio Bispo, a segunda pelo Vigário da vara, a terceira pelo Cônego Domingos Lopes e a quarta pelo Vigário de Antônio Dias, Padre Félix Simões.

Dessas devassas resultou para o juízo eclesiástico a convicção de culpa de várias pessoas importantes da Vila e assim, para que não escapassem à pronúncia, o Padre Domingos Lopes reuniu um grande corpo de clérigos armados de clavinas, pistolas e catanas pondo cerco à Vila para efetuar as prisões.

À frente de um troço armado o Padre Domingos Lopes, cuja casa servia de quartel general, invadiu as residências dos culpados, prendendo o Bacharel Manuel Ribeiro de Carvalho, advogado nos Auditórios da Vila, Domingos Pinto Coelho, José de Almeida Costa, o Licenciado em farmácia Manoel Peixoto de Sampaio e Manuel Pinto da Rocha, conseguindo outros fugir a coorte clerical e refugiar-se em lugar seguro.

Paisagem de Mariana, Minas Gerais, 1995

Carlos Bracher ( Brasil, 1940)

óleo sobre tela, 81 x 100 cm

Realizada a prisão desses acusados, mandou o Bispo carregá-los de ferros, metendo-os no tronco da cadeia, como se costuma fazer aos escravos, (3).

Enquanto isso se dava, na casa Juiz de Fora, José Pereira de Moura, aparecia uma carta anônima dizendo o local em que se achavam os badalos subtraídos.

Dirigindo-se com alguns oficiais de justiça a um córrego que atravessava o pasto da Vila, constatou o Juiz de Fora a presença dos badalos que foram logo restituídos à autoridade eclesiástica.

Resolveu o Bispo que fossem os presos transportados para o Rio de Janeiro e para isso organizou um corpo de 20 clérigos armados que deveriam vencer o ordenado de 200 oitavas de ouro cada um a custa da fazenda dos culpados.

A isso porém se opôs o ouvidor Furtado de Mendonça, dizendo que tendo os presos entreposto recurso de sua pronúncia para o juízo da Coroa, deviam permanecer na cadeia da Vila até final decisão.

Animados com as primeiras violências não se quiseram sujeitar os clérigos à decisão do Ouvidor , e combinaram um assalto à cadeia para arrancando à viva força os presos, seguirem para o Rio , conforme determinara o Prelado.

Ânimo resoluto e decidido não se acorbadou o Ouvidor: antes determinou imediatamente ao  Juiz de Fora que fizesse guardar a cadeia por oficiais de justiça bem armados e estabelecesse rondas na Vila, até que se acalmasse aquela paixão eclesiástica.

Não se conteve o Padre Domingos Lopes, generalíssimo dos Padres belicosos.

E tais censuras dirigiu ao Ouvidor que este em carta dirigida à Corte assim se expressava:

“Não sofre demora a satisfação do castigo porque se os juízes da Coroa de Vossa Majestade houverem de ser descompostos nos provimentos dos recursos por esses Padres desavergonhados e enfronhados nas suas ordens, que lhes parece de tudo são isentos nos seus desaforos, não haverá Juiz da Coroa, que com medo de sua venenosa língua e pena se atreva a valer com a proteção Real aos oprimidos vassalos de Vossa Majestade”…

Essa questão entre o Ouvidor de um lado e o Bispo e Vigário da vara de outro, agravou-se dentro em pouco por motivo de um conflito de jurisdição.

Morrera um clérigo que deixando alguns bens em um testamento secular, as justiças eclesiásticas fizeram o seqüestro nesses bens. 

Paisagem de Mariana, 1977

Inimá de Paula (Brasil, 1918-1999)

óleo sobre tela  69 x 90 cm

Interpuseram os herdeiros recurso para o Ouvidor que lhes dando razão decidiu em seu favor a causa. 

Não cumpriu porém a decisão o Vigário da vara e na réplica usando de expressões pelo ouvidor julgadas desrespeitosas, retorquiu, chamando-o atrevido e petulante; não se calou o vigário da vara redargüindo com outras e equivalentes injúrias o que lhe valeu ser autuado pelo Ouvidor e condenado a multa de 200 oitavas de ouro em proveito da Fazenda Real.

A intimação dessa sentença mandou-a fazer o Ouvidor pelo seu escrivão no palácio episcopal.

Seguiu ele a cumprir o mandado e passado algum tempo vieram dizer ao Ouvidor que o Bispo prenderá o escrivão em palácio. 

Encolerizado, reuniu Furtado de Mendonça os oficiais de justiça e marchou para a residência do bispo, onde chegado mandou, tendo-lhe previamente posto cerco, uma intimação ao prelado para que desse imediata liberdade ao funcionário da justiça sob pena de ir arrancá-lo à força.  

Com o cerco começou a juntar-se povo defronte do palácio, chovendo comentários como soe sempre acontecer nessas ocasiões. 

O Bispo, em resposta, mandou dizer ao Ouvidor que em sua casa só entrava quem ele permitisse; que o escrivão não estava constrangido: aguardava somente um outro escrivão eclesiástico para dar contra fé do seu mandado.  Com isso e saindo o escrivão, retirou-se o Ouvidor, endereçando o Bispo à Corte longa queixa, contra Furtado de Mendonça.

Informada favoravelmente pelo governador Gomes freire de Andrade, saiu triunfante o Bispo da questão, sendo removido o Ouvidor.

A questão do furto dos badalos foi cometida então ao Juiz de Fora que abriu nova devassa, verificando a inocência de alguns dos que o Bispo prendera anteriormente como culpados.

Provaram as indagações tratar-se de uma simples vingança do Padre Francisco da Costa de Oliveira, já falecido em 1745, quando se concluiu a devassa, que o Bispo não admitira a exames, talvez por ser íntimo do ex-vigário do Dr. Francisco Pinheiro da Fonseca.

Também concorrera para o furto o Padre Antônio Sarmento.

Contra Miguel Pinto da Rocha um dos anteriormente presos havia indícios de cumplicidade visto como antes do fato ele assoalhara que os sinos da cidade calar-se-iam no dia da partida do Bispo. 

Quanto ao boticário Manuel Peixoto de Sampaio, sabia-se ser amicíssimo do ex-vigário, “ser homem arrogante, insolente” tendo tido um atrito com o Bispo que o coagira a firmar um termo de deixar o concubinato em que publicamente vivia.

A cerca deste último era opinião do Juiz de Fora que embora sobre ele não recaíssem mais que vagos indícios, devia ser retirado das Minas e mandado para outra capitania…

E eis aí como terminou essa questão, vencendo em toda a linha o clero, fazendo recuar os representantes da Justiça d’ El Rei.

Partiu para o Rio vitorioso o Bispo D. Frei João da Cruz; passados anos demitiu-se do cargo e ao retirar-se para o Reino julgou ser conveniente ao serviço de Deus, carregar com todas as alfaias, ornamentos e prataria comprados com a renda do Bispado e ainda com o espólio do seu antecessor D. Frei Antônio de Guadalupe, ação por sem dúvida merecedora de que aqui a rememoremos, (4) arrancando-a a injusto olvido. 

Maio – 907

— — — — — — — — — —

(1) Consulta do Conselho Ultramarino de 16 de Abril de 1744.

(2) Cartas de 6 e 25 de Agosto de 1743.

(3) Carta do Ouvidor de Vila Rica, Caetano Furtado de Mendonça para a Corte.

(4) Carta do Cabido da Sé do Rio de Janeiro, 6 de Abril de 1751.

[Texto integral, em domínio público,  mas com grafia atualizada para facilitar a leitura.   As ilustrações não pertencem ao texto original, são obras posteriores ao texto, paisagens da cidade mineira onde esses fatos aconteceram.  Mantive as maiúsculas como no texto ainda que seu uso seja irregular.  Estão de acordo com o texto original.]

Em:  Kósmos, revista artística, científica e literária, Ano IV, número 5, Maio de 1907, Rio de Janeiro.





Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós

3 07 2011

Natureza morta com tomates, 2008

Deb Kirkeeide (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 15 x 20cm

www.dailypainters.com

São poucos os autores de ficção que conseguem dizer muito em poucas palavras, que conseguem ser tão sucintos quanto os poetas, que conseguem contar uma história de maneira obliqua e simultaneamente clara.  Mas eles existem, esses mágicos da língua, esses domadores da prosa emocional, tecedores de imagens que nos envolvem e atrelam.  De vez em quando temos a chance de nos encontrarmos reféns de seus romances, de suas histórias.  Acabamos validando, a cada página, a Síndrome de Estocolmo, porque presas fáceis que somos da magia de seus textos, prolongamos a qualquer custo o prazer que sentimos na leitura e evitamos o desenlace final, a chegada dos últimos parágrafos.  Não somos mais os mesmos ao final da leitura, amamos o seqüestrador de momentos inebriantes, admiramos o sedutor de nossos sentidos, o raptor das nossas emoções.  Foi o que me aconteceu na leitura de  Vermelho amargo [Cosac Naify: 2011] do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós.

Chamar esta publicação de romance é um exagero, chamá-la de conto, peca pelo lado contrário.  São quase 70, as páginas que ordenam as contemplações de um menino que acaba de entrar na escola. Não conhecemos seu nome, nem os de seus familiares. Não sabemos onde mora, nem suas brincadeiras prediletas.  Mas ao acabar a leitura, compartilhamos intimamente de sua solidão.  Bebemos do sofrimento sobre o qual pondera. O ponto de partida é a perda da mãe.  E as meditações, centradas na imagem de um tomate, são seu testemunho sobre as mudanças na família a partir daquele momento. Como o título prenuncia, é amarga a descoberta da vida após a perda materna.

Sinestesia é a figura de linguagem que engloba a expressão Vermelho amargo, uma combinação poderosa das sensações provocadas por diferentes órgãos sensoriais: vista e palato.  Que esse título abençoa as memórias do menino, já deveria nos colocar de sobreaviso: a expressão poética, bela e sedutora, não consegue esconder o lado cáustico das reflexões do narrador. Da vida cotidiana aos sentimentos de perda e saudades, participamos do turbilhão emocional corrosivo de um menino sensível, deixado ao largo da vida familiar, a interpretar meramente o que o rodeia a partir dos sinais que lhe são visíveis.

Bartolomeu Campos de Queirós é considerado “um dos maiores expoentes da literatura infantojuvenil brasileira”, como anuncia a editora Cosac Naify, na sinopse desse volume.  Mas não se enganem, esse não é um livro infantojuvenil.  É um livro para adultos ou jovens, que não só possam se encantar com um texto rico, entremeado pelas mais diversas imagens e de perfeita retórica, como também melhor interpretado por aqueles que já desenvolveram dentro de si, pelas vicissitudes enfrentadas, um extenso rol de sentimentos, dos mais sublimes aos mais mesquinhos, com todas as nuances que lhes pertencem.

Bartolomeu Campos de Queirós

De pronto, esse volume, um ensaio meditativo, é enriquecido de maneira exemplar quando o autor persiste em manter um texto delicadamente equilibrado na junção de imagens antagônicas.  O momento emocional se revela justamente no espaço deixado em branco pelas antíteses narrativas e o sentimento que elas não conseguem definir.  Essa é uma leitura que requer pausa e reflexão.  Há pensamentos que precisam ser digeridos antes mesmo de se passar ao parágrafo seguinte.   As ponderações são de um adulto voltando-se para o seu passado de menino. Somos convidados a participar de uma recapitulação, de uma memória emocional: “Tantos pedaços de nós dormem num canto da memória, que a memória chega a esquecer-se deles.

Há livros que nos seqüestram pela trama, que nos seduzem pelo enredo.  Raras são as vezes em que é o texto, a maneira de dizer, que as imagens colocadas nos envolvem de tal maneira, que o argumento passa a segundo plano.  Tal é o caso de Vermelho amargo.  Esse é um livro para ser degustado mais por sua maneira de ser, por suas imagens, por sua prosa do que pelo que retrata.  Nele conseguimos viver os prazeres de uma língua bem colocada, bem armada.  Uma língua poética.  Fascinante.  Esse é o testemunho de uma língua viva, rica, amada e amante.  É uma ode ao idioma.  Aproveite-a.

Nota:  Agradeço à leitora desse blog, Nanci Sampaio, a recomendação da leitura desse livro.