Ilustração Corinne Malvern.
Stella Leonardos
Foi vime que nasce à toa
Debruçado na lagoa,
Colhido de manhã cedo.
Já viu garça azul que voa,
Já viu rastro de canoa,
Já escutou vento e arvoredo.
Por isso a fragrância boa,
Esse cheiro de segredo.
Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.11
Vendedor de cataventos, Sérgio Bastos.
Stella Leonardos
— Onde estás, vendedor de pirulitos,
Fazedor das ventoinhas de papel?
Daqueles cataventos tão bonitos?
Daquelas gostosuras cor de mel?
Tu que adoças as ruas com teus gritos
E que marcas os ventos nas calçadas:
Me dá de novo os sonhos infinitos
Das tuas rosas que são quase aladas!
— Queres minhas ventoinhas? Há-de tê-las.
Criança grande! Por que te agradam tanto?
— Não são ventoinhas: são almas de estrelas
De um céu ingênuo que foi céu de encanto.
Em: Pedaço de Madrugada, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p.79
Edy Gomes Carollo (Brasil, 1921- 2000)
óleo sobre madeira, 33 x 40 cm
“A chácara da Prima Zezé descia de platô em platô até o nível da rua. Era só comparável à de minha avó materna, em Juiz de Fora. Só que nela predominavam as mangueiras de densa sombra e os jambeiros esgalhados. Prima Zezé gostava descer com o farrancho para o meio das árvores. Palestrar chupando fruta. Vamos seu Marote! Vamos seu Pedro! Vamos subir nessas árvores e apanhar uns jambos pra gente. Ou eram mangas. Ou eram abios. Ou eram sapotis. Subíamos: alto de ver os trens passando longe, na linha da Central e na outra direção, mais longe ainda, os da Leopoldina e os minaretes de Manguinhos. Lembro da queimadura que peguei no dorso da mão só de roçar casulos vazios em que a taturana deixara o pelo venenoso depois de virar frágil borboleta. A tarde descia e subíamos para jantar sob a lâmpada amiga do lustre baixo, baixo, sobre a mesa da sala de jantar. Foi aí nessa ocasião, que ouvi Prima Zezé fazer o inventário das joias da Inhá Luísa e dizer a minha Mãe que ela fora prejudicada na partilha. Minha Mãe que não! Zezé, fora tudo muito justo… Mas Prima Zezé que absolutamente! de jeito nenhum… E enumerava os adereços, as montagens, as rivières, os sautoirs, os berloques, os oiros, as pérolas, os diamantes, as marcassitas, as pedrarias. Mudavam de assunto, passavam Juiz de Fora num crivo. Às vezes baixavam a voz, riam muito. Filhos do marido nada, Dibança! Filhíssimos do Seu Nanal da Tartaria. Isso. Esse mesmo, primo do Saninho Castro. Gente mais conhecida em Oliveira… A grande lâmpada acesa. Como calhaus, os besouros abatiam-se na brancura da toalha ou batiam no vidro do abajur. As mariposas faziam nuvem vinda da mata. A Amair trazia uma larga bacia cheia d’água onde os bichinhos se precipitavam vendo na lâmina líquida a reflexão das lâmpadas. de vez em quando um pio de mocho, tescunjuro! ou um silvo raro de locomotiva…”
Em: Chão de Ferro: memórias 3, Pedro Nava, Rio de Janeiro, José Olympio:1976, 2ª edição, pp. 164-165.
Décio Rodrigues Villares (Brasil , 1851-1931)
óleo sobre tela
Museu Nacional de Belas Artes, RJ
Há uma propaganda de carro na televisão no momento lembrando que devemos ter orgulho do nosso nome, que ele nos faz únicos! Será? Será que é sempre assim? Lembrei-me desse trecho das memórias de Pedro Nava.
“A irmã mais moça de meu pai recebera, em lembrança de certa tia e madrinha de meu avô paterno, nome absolutamente igual ao desta antepassada: Maria Euquéria Nava. Além disso, quando ela nasceu, era tão mofina e miúda que o tio Itriclio, ao vê-la no primeiro banho, dissera logo que aquilo não era gente. Isto é um belisco… E a menina, além de Euquéria, teve de arcar com o apelido que pegara e Belisco ficou sendo. O Euquéria, ela rifou ao assinar o registro de casamento. O Belisco, depois, quando, com muita paciência e muito jeito, ela conseguiu modificá-lo no Bibi com que morreu. Tia Bibi. Delicada, reservada, discreta criatura. ”
Em: Baú de Ossos: memórias, Pedro Nava, Rio de Janeiro, Sabiá: 1972, p. 338.
Tenho alguns casos na família semelhantes a esse. E você?
Capa da Revista Para Todos,26 de fevereiro de 1927
J. Carlos (Brasil, 1884-1950)
“Água não era só de chuva e de enchente. Mais abundante era a dos entrudos. Carnaval. Passavam uns escassos mascarados, dominós de voz fina, diabinhos com que o Benjamim Rezende se divertia arrancando o rabos, quebrando os chifres. O Paulo Figueiredo, encantando minha avó com seu Pierrot recamado de lantejoulas. Os primeiros lança-perfumes — Vlan e o Rodo. Mas o bom mesmo era o entrudo. Havia instrumentos aperfeiçoados para jogar água, como os relógios, assim chamados porque esses recipientes imitavam a forma de um relógio fechado, com dois tampo metálicos flexíveis que, quando apertados, deixavam air um delicado esguicho de água perfumada. Havia de todos os tamanhos, desde os pequeninos, que vinham no bolso, aos enormes, que ficavam no chão e eram acionados com o pé. Havia os revólveres — seringas que imitavam a forma da arma — cano metálico e o cabo de borracha que se apertava, apontando quem se queria molhar. Os limões de todos os tamanhos e de todas as cores que eram preparados com semanas de antecedência e em enorme quantidade. Continham água de cheiro, água pura, água colorida, mas os que caíam da sacada do Barão vinham cheios de água suja, de tinta, de mijo podre. Desciam ao mesmo tempo que as cusparadas das moças. Além dos relógios, dos revólveres, dos limões, eram mobilizadas todas as seringas de clister e improvisados seringões com gomos de bambu. Todos os pontos estratégicos da casa eram ocupados com jarras, baldes, latas e bacias para esperar os atacantes. Porque havia os assaltos de porta a porta. Éramos investidos pelos Pinto de Moura e depois do combate, já encharcados, confraternizávamos, para atacar a casa dos Gonçalves. Logo depois já era um grupo maior que avançava sobre as fortalezas fronteiras dos Couto e Silva e do tio Chiquinhorta, onde nos esperavam valorosamente o Antonico e o Mário Horta. Meu pai comandava a refrega protegido nas dobras de um vasto macfarlane, cujas asas davam-lhe gestos de pássaro gigante. Acabava tudo numa inundação de vinho-do-porto, para rebater e cortar o frio. À noite meu Pai penava com asma…”
Em: Baú de Ossos: memórias, Pedro Nava, Rio de Janeiro, Sabiá: 1972, p. 261-62.
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José Marques Campão (Brasil, 1892-1949)
óleo sobre madeira, 17 x 24 cm
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Bernardino Lopes
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Amanhecera. O tropeiro
Passa, cantando na estrada;
No seu casebre o roceiro
Prepara as foices e a enxada.
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Ao rumor a luz casada
Enche de vida o terreiro;
Parecem bruma cerrada
As flores, lá! do espinheiro…
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Aspira-se o olor suave
Do bom café… Alto e grave
Bate o pilão nas cozinhas.
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Há junto à horta uns barrancos
Onde a mulher de tamancos,
Distribui milho às galinhas.
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Em: Cromos, 1881
Cemitério de estrada, próximo a Neuve Église
George Edmund Butler (Inglaterra, 1872 – 1936)
aquarela
Manuel Bandeira
Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto aqui.
Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1978, 10ª edição,pp: 88-89.
Chá das cinco, ilustração de autor desconhecido, provavelmente inglês seguidor de Walter Crane.
Esse tempo que passou
de trabalho e de fadiga,
também sorrisos deixou
em nossas vidas, amiga.
(Alice de Oliveira)