Palavras para lembrar — Jean-Paul Sartre

3 01 2013

Anton Faistauer (Austria, 1887-1930)  A leitora, gd

Senhora à mesa com livro, 1916

Anton Faistaeur (Áustria, 1887 – 1930)

óleo sobre tela,

ColeçãoParticular em Saltzburg

www.saltzburgmuseum.at

“Tudo que sei a respeito da vida,  me parece, aprendi através dos livros”.


Jean-Paul Sartre





O Bonde de Burro, texto de Pedro Nava

30 12 2012

Bonde-movido-a-burro-1895-Rua15-de-Novembro

Bonde movido a burros, 1895, rua 15 de novembro, SP. Blog da garoa.

“Isso vem a propósito de minhas lembranças de bondes-de-burro.  Neles andei, talvez numa de nossas viagens ao Rio ou, mais certamente, depois de nossa vinda definitiva de Juiz de Fora. Quando? não posso dizer com exatidão, pois minhas recordações desse Aristides Lobo da infância surgem empilhadas e a fotografia positiva que delas obtenho resulta da revelação de vários negativos superpostos, cuja transparência permite que as imagens de uns se misturem com as luzes dos outros. O essencial é que me lembro dos bondes de burro com seus poucos bancos, com o condutor e o cobrador, os dois sem farda, de terno velho, colarinho duro, chapéu de lebre, ou chile, ou bilontra – e a bigodeira solta ao vento carioca. O primeiro governava os burros a chicotadas mais simbólicas do que propriamente para valer e principalmente, com a série de ruídos que tirava dos beiços, da língua, das bochechas, das goelas, e que eram muxoxos e chupões, assovios e estalos, brados monossilábicos e gritos churriados – a que as adestradas alimárias respondiam com o passo, a marcha, o trote, a andadura e a parada. De distância em distância as parelhas cansadas eram trocadas por outras mais frescas, nas mudas dispostas ao longo dos itinerários.  Uma destas perpetuou-se no nome que se estendeu a um bairro todo – o da Muda da Tijuca. Lembro-me bem da que ficava à esquina da Marquês de Sapucaí e Salvador de Sá, onde foi depois uma estação de elétricos – estação não no sentido de paragem, mas do local onde se recolhiam os bondes. Quem vinha de Aristides Lobo, era ali que trocava os burros. Eles eram soltos ao mesmo tempo  que as correntes que os prendiam à trave que era desengatada conjuntamente, do veículo. Quando eles se sentiam livres, empinavam as cabeças, zurravam e corriam, sem necessidade de serem conduzidos, para dentro da muda, para suas águas e seu capim.  Iam rebolando as ancas, repiqueteando os cascos ferrados, num tilintar de cadeias arrastadas. Compunham uma representação de movimento e som que vim a recuperar quando o cinema começou a explorar as dançarinas de rumba com suas bundas de potranca, suas caudas farfalhantes, seu agudo bater  de saltos e suas secas castanholas. Sempre que as via, reinundava minha alma do encanto infantil com que assistia à troca das bestas naquela esquina. E sempre que passo nesse cruzamento de ruas, reassumo meus cinco, meus seis anos e ouço o trincolejar de grilhões raspando no lajedo. Os bondinhos de tração animal seriam substituídos pelos elétricos, na Zona Norte, aí por volta de 1909.”

Em: Baú de Ossos, Pedro Nava, Rio de Janeiro, Sabiá: 1972, PP. 372-3





Resoluções literárias para o Ano Novo

29 12 2012

lecture28 temasA praia, s/d

Françoise Amadieu ( França, 1948)

acrílica  sobre papelão corrugado, resinado, dobrado, sobre madeira.

www.amadieu.eu

Todos os anos faço minha listinha: coisas que gostaria de  fazer durante o ano.  Depois coloco uma lista parcial, numa dessas notas de papel adesivas, e colo essa lista parcial no início do mês que se inicia na agenda que carrego comigo para todo lado.  À medida que vou riscando algumas das tarefas colocadas na lista, refaço a lista parcial. Assim a lista que inicia o mês de novembro já é completamente diferente da que iniciou o mês de abril, por exemplo.   Para minha surpresa, quando chega dezembro em geral consegui completar 90% ou mais do que havia programado.

O fato de estar sempre olhando para a lista, porque afinal está no início de cada mês na agenda, faz com que me lembre da promessa de comprometimento.  Também acho que não podemos ser  nem ambiciosos demais nem de menos nessa lista.  O equilíbrio é difícil de encontrar, mas com a prática se consegue.  E a mais importante das descobertas: quanto mais detalhada a lista, mais fácil é cumpri-la.

Quanto aos comprometimentos literários aqui vão algumas sugestões do que estou pensando em colocar na minha lista:

1 — Ler mais livros que não sejam de ficção.

2 — Organizar os livros que tenho.

3 – Ler a cada mês pelo menos um dos livros já comprados e empilhados em casa.

4 — Eliminar, por doação ou venda a um sebo, o número de livros em casa.

5 – Ler pelo menos um livro científico de assunto contemporâneo.

6 – Fazer um passeio literário. Estou pensando em pegar  as Memórias da Rua Ouvidor de Joaquim Manuel de Macedo e passear por recantos do Rio de Janeiro onde JMM se detém.

E vocês?  Fazem listas literárias de fim de ano?  O que colocaram nelas?





Sobre livros: Jennifer Howard

27 12 2012

Harry J Pearson (1872-1933) Sra no café

Senhora à mesa de café, s/d

Harry J. Pearson (EUA, 1872 – 1933)

Óleo sobre madeira, 51 x 41 cm

Coleção Particular, Gavin Graham Gallery, Londres

“Qualquer um que tenha mostrado um livro como troféu numa mesa de centro sabe que pessoas fazem muitas coisas com livros além de lê-los.  Um livro pode ser usado como um sinal de posicionamento ou aspiração intelectual. Pode ser usado como uma barreira social entre esposos no café da manhã ou entre estranhos em um trem.  Pode ser desmembrado e reciclado ou transformado em arte”.

Jennifer Howard, Secret Lives of Readers





Palavras para lembrar — Hilaire Belloc

23 12 2012

Heinrich Lossow. (1840 -1897)

Mulher descansando, s/d

Heinrich Lossow (Alemanha, 1847-1897)

óleo sobre tela

Grev Wedels Plass Leiloeiros

“Quando eu morrer, espero que possam dizer: seus pecados eram imorais, mas seus livros eram lidos”.


Hilaire Belloc





Palavras para lembrar — Charles Simic

21 12 2012

Jose van Gool, Lesend Vrouw, 2000, 70x60, ost

Moça lendo, 2000

José van Gool (Bélgica, 1945 )

óleo sobre tela, 60 x 70 cm

“Um poema é um segredo dividido entre duas pessoas que nunca se encontraram”.

Charles Simic

 





Livros de presente? Algumas sugestões em ficção

18 12 2012

Michele Usibelli

Leitora, Michele Usebelli www.micheleusebelli.com

Todos os anos venho aqui sugerir alguns livros de presente.  Este ano li poucos livros para os quais daria indiscutivelmente cinco estrelas, ou seja a nota máxima.  De modo que a seleção será pequena.  Não sei se li menos ou se fiz más escolhas.  Fato é que tenho pouco a recomendar sem restrições.  Mas os livros selecionados abaixo vão sem nenhuma restrição para o leitor ávido por boa literatura.

Dulce Maria Cardoso, O Retorno, Tinta da China

O Retorno, de Dulce Maria Cardoso

SINOPSE

Em 1975, um ano após a Revolução dos Cravos, Portugal perde as suas colônias. Em poucos meses, o país recebe mais de meio milhão de retornados, que de uma hora para a outra precisam abandonar as suas casas. É nesse contexto que conhecemos a história do narrador: Rui, um adolescente nascido em Luanda. Dulce Maria Cardosos alcança, com O retorno, uma linguagem de uma precisão absoluta. Uma linguagem lírica, delicada, mas também áspera e seca, oscilando entre os sentimentos com a habilidade que só os grandes têm. O universo da trama é tão bem construído que o leitor ri, chora, espera o pai, torce pelos personagens, como se os conhecesse. A vida salta do livro com suas mazelas e alegrias, com a potência do que é real. Tão real que a gente nem sabe por quê. Só sabe que é.


ISBN: 9788565500012
PÁGINAS: 272
ANO DE EDIÇÃO: 2012

Este é um livro que encanta e nos mostra um ângulo da história contemporânea raramente abordado. Magnífica linguagem.

letreiros
O Pintor de Letreiros, de R. K. Narayan.

SINOPSE

Malgudi é uma efervescente pequena cidade no Sul da Índia, onde se respira a força da cultura tradicional indiana unida ao anseio de integração no mundo moderno e global, um lugar em que palavras como ética, democracia, liberdade sexual e igualdade entre os sexos, individualismo e bem comum não só têm importância e sentido, como não estão necessariamente em conflito com a tradição. Um fio percorre e conecta a vida de uma inteira comunidade – são os letreiros de Raman. Do advogado ao comerciante, do sacerdote ao charlatão, é a escrita que os une. Raman prepara os letreiros no seu ateliê de fundo de quintal, onde vive sozinho com a tia, numa casa à beira do rio. Durante as solitárias leituras vespertinas ou pedalando a bicicleta a serviço dos fregueses e à caça de novos clientes, sua imaginação prevalece e torna incoerentes as convicções e certezas que defende e apregoa, fazendo-o cair em frequentes contradições, que geram situações embaraçosas e hilariantes ao mesmo tempo. Porém este equilíbrio na rotina metódica do pintor de letreiros é rompido com a chegada de uma forasteira. Idealista e determinada, ela contrata os seus serviços e o envolve numa viagem cheia de aventuras pela zona rural. Durante o percurso, Raman realiza uma dupla travessia – a atribulada viagem num carro-de-boi e o mergulho insidioso pelos meandros da paixão carnal e do romantismo.

ISBN: 9788599537190
PÁGINAS: 252
ANO DE EDIÇÃO: 2011

Um romance refinado de um dos maiores escritores indianos do século XX que só agora chega ao Brasil.  Um retrato curioso do processo de modernização na Índia.

Livro das horas, Nélida PiñonLivro das horas, de Nélida Piñon.

SINOPSE

Um livro magistral da mais importante escritora contemporânea brasileira. Em uma narrativa comovente e sensível, Nélida revive memórias afetivas que emergem a partir de um vertiginoso turbilhão de lembranças e emoções. E a cada página lida, fica claro ao leitor que independente de sua vivência ou da riqueza de suas lembranças, sua história de amor sempre foi uma só: com a palavra.

ISBN: 9788501099785
PÁGINAS: 208
ANO DE EDIÇÃO: 2012

Tomando como inspiração o livro de reflexões religiosas — os breviários — da Idade Média, Nelida Piñon pondera sobre diversos aspectos da vida pessoal e profissional.  Uma leitura pausada trará maior contentamento.

sonhei que a neve ferviaSonhei que a neve fervia, de Fal Azevedo.

SINOPSE

Em agosto de 2007, a morte do marido pegou a paulista Fal Azevedo – dona de um dos blogs mais acessados da internet, o Drops da Fal – de surpresa. Incredulidade, raiva e tristeza se misturaram ao conforto das mensagens de solidariedade e carinho de amigos e desconhecidos, leitores fiéis do blog. Sonhei que a neve fervia revê, através de e-mails e textos publicados na web, a jornada da tradutora e autora do elogiado Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite para encontrar força e (re)encontrar a voz – culta, engraçada, ferina, mas, acima de tudo, honesta e transparente – que conquistou leitores no mundo virtual e fora dele.

ISBN: 9788532526595
PÁGINAS: 384
ANO DE EDIÇÃO: 2012

Belo e triste relato do processo de luto por que as pessoas, e nesse caso a autora, passam ao perder o companheiro de vida.

A_LTIMA_FACANHA_DO_MAJOR_PETTIGREW_1302655650PA última façanha do Major Pettigrew, Helen Simonson.

SINOPSE

Entre os mais vendidos do New York Times e do Washington Post, em 2010, A última façanha do Major Pettigrew narra uma história de amor e amizade marcada pelo rompimento de valores tradicionais entre um viúvo inglês de 68 anos e uma paquistanesa, também viúva, que é excluída da comunidade por sua herança cultural, sua aparência e seus costumes. Ambientado em uma pequena cidade da Inglaterra, o livro acompanha os percalços enfrentados pelos protagonistas para assumir o seu amor. Aposentado pelo exército inglês, o Major Ernest Pettigrew considera a honra, a disciplina e as boas maneiras virtudes essenciais. Ele parece satisfeito com sua pacata rotina de viúvo – idas semanais ao clube de golfe, telefonemas esparsos para o filho, leitura de poemas clássicos – até perder o irmão, Bertie, e perceber que está mais sozinho do que imaginava. É a solidão repentina que o aproxima da paquistanesa Jasmina Ali, 58 anos. Ela é dona de um mercadinho da região e, assim como o major, grande apreciadora de obras literárias. Aos olhos dos moradores da vila, fofoqueiros e apegados à tradição, a diferença cultural entre eles é quase insustentável. Para o major, no entanto, Jasmina é uma nova e surpreendente companhia. Neste delicioso romance de estreia, que alcançou as principais listas dos mais vendidos norte-americana, Helen Simonson lança um olhar sobre o sistema de classes britânico com uma trama que é um misto de comédia de costumes com história de amor. Seu grande mérito foi construir dois personagens igualmente admiráveis e divertidos, num livro sobre o inesperado milagre do amor tardio.

ISBN: 9788532526298
PÁGINAS: 429
ANO DE EDIÇÃO: 2011

Uma deliciosa comédia retratando a maneira de viver na Inglaterra moderna, com seus novos habitantes vindos das antigas colônias.  Humor fino na tradição de Jane Austen.





Palavras para lembrar — Ernest Hemingway

17 12 2012

Roman Zaslonov

Dormindo

Roman Zaslonov (Belarússia, 1962)

óleo sobre tela,  122 x 122 cm

www.roman-zaslonov.com

“Todos os bons livros têm algo em comum – eles são mais verdadeiros do que se realmente tivessem acontecido”.

Ernest Hemingway





Palavras para lembrar — Joyce Carol Oates

9 12 2012

Alfredo Araujo Santoyo, (Colombia, contemporâneo) A leitora, desenho a carvão sobre papel, 35x27A leitora

Alfredo Araujo Santoyo (Colômbia, 1972)

desenho a carvão sobre papel, 35 x 27 cm

“Ler é a única maneira que temos de deslizar, involuntariamente, quase sem resistência, sob a pele de uma pessoa, usar a voz de um outro, entrar na alma de outrem”.

Joyce Carol Oates





Imagem de leitura — Louise Amélie Landre

7 12 2012

Louise Amelie Landre  (França, 1852 - )

Café da manhã da trabalhora, s/d

Louise Amélie Landre (França, 1852-?)

Oil on Canvas

Louise Amelie Landre nasceu em Paris em 1852.  Estudou no ateliê de Chaplin, depois com Barias e finalmente completou seus estudos em pintura com Hubert.  Sua carreira se iniciou no Salão de 1876.  Em 1885, foi nomeada como Associada aos artistas franceses. E continuou a expor os retratos e as paisagens pelos quais ficou conhecida, pelo mesno até 1918. Data de falecimento desconhecida.