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Birgit Stern (Alemanha, contemporânea)
aquarela
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“Não há magia capaz de fazer com que um livro ruim cative o leitor.”
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Paulo Rocco
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Birgit Stern (Alemanha, contemporânea)
aquarela
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Paulo Rocco
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Leitura, s/d
José Marques Campão (Brasil, 1892-1949)
óleo sobre tela, 63 x 70 cm
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José Marques Campão (São Paulo SP 1892 – idem 1949) Pintor. Freqüenta as aulas de pintura de Oscar Pereira da Silva (1867-1939), em São Paulo, em meados de 1905. Entre 1912 e 1918, viaja para Paris (França) onde estuda na École Nationale Superieure des Beaux-Arts [Escola Nacional Superior de Belas Artes] e na Académie Julian, com Jean-Paul Laurens (1838-1921) e Paul Albert Laurens (1870-1934). Integra a Comissão de Orientação Artística em São Paulo. [Itaú Cultural]
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Paisagem com casa, 1946
Virgílio Carvalho de Araújo Lima (Brasil, 1886-1958)
óleo sobre tela, 47 x 65 cm
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O texto de Luís Jardim que posto abaixo desencadeou um sem-número de divagações e reflexões, com as quais me lembrei de que a leitura é uma obra de dois autores: um pouco do escritor e muito do leitor.
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“– O meu asilo era a casa de Compton. A nossa amizade era “de madeira de lei”, dizia ele. E de madeira provinha coincidentemente esse afeto recíproco, o meu pelo nobre estrangeiro ainda mais respeitoso e cheio de admiração. Conhecemo-nos graças a uma trave de madeira que um dos carros do sítio carregava para uma cumeeira a ser levantada. O inglês furava poços artesianos nas planícies da Lavoura Seca. Precisava de um esteio a todo custo. Dirigiu-se ao carreiro, ofereceu-lhe um preço exorbitante, mas o homem recusou a fortuna porque “o objeto era do patrão”. Ouvindo-lhe os rogos engrolados, atendi-o:
— Para dar água à minha terra, a trave lhe fica de graça, senhor…
— Compton ou Capitão – disse-me o inglês, já de mão estendida para um laço de amizade.
Daí em diante as nossas relações cresceram e se firmaram. Antes eu o procurava pela razão mesma da amizade e quase digo para ilustrar-me com o seu convívio. O nosso perfeito entendimento em nada se alterou pelo fato de que eu desconhecia o seu idioma e ele ainda se encrespasse todo para falar o meu. Somente, eu não tinha a sua franqueza, pois Compton achava, rindo-se de si próprio, que “arranhava um enxacoco”, palavra da minha língua que eu também ignorava.
Agradava-me particularmente a casa do amigo, de paredes recobertas de couros de bichos, de flechas, de penas, coisas que nos pertenciam, nativamente, e das quais não sabíamos tirar aquele efeito decorativo. Apreciava as suas panóplias, “bárbaras”, como dizia ele, formadas de velhas e esquisitas pistolas de uso matuto, de facas, de punhais comprados nas feiras populares. As suas cadeiras macias, o silêncio, os seus livros bem arrumados e cheios de ilustrações, o seu tapete, pele de onça de dentes arreganhados. A sua casa era o modelo ideal que eu imaginava para a que viesse um dia a construir. Mas a casa outrora desejada era agora um castelo sobre areia.
Já não eram esses pequenos luxos domésticos, essa paz interior, ornada com discrição e gosto, aquilo que eu procurava no doce lar do amigo. Nem mesmo a sua amizade, franca e leal. Procurava determinadamente a sua natureza cheia de experiência, sem devaneios nem fantasias, o seu comportamento de inglês robusto, cuja objetiva curiosidade dissecava as coisas, virando-as pelo avesso para ver como eram, como se constituíam e de onde procediam. Contentavam-me em proveito da minha indecisão, os seus reparos duros e frios, como este que me fez sobre o meu caso oculto, assunto aliás que nunca mais lhe falara:
— Talvez aquilo que hoje faz sofrer seja exatamente motivo de rir mais tarde. Contudo, essa é a vida, é óbvio. Seria talvez absurdo imaginar o contrário. Eis tudo.
Era essa a realidade quase em relevo que eu agora procurava, em desacordo com a minha própria natureza. E esse dom inglês de encarar materialmente os fatos, essa compreensão geral da vida atraía-me e me fazia bem como o ar puro sorvido depois de reclusões sufocantes.”
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Em: As Confissões de meu tio Gonzaga, Luís Jardim, Rio de Janeiro, José Olympio:1963, 3ª edição.
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Uma parede de tesouros, 1636,
Frans Francken , o jovem (Bélgica, 1581 – 1642)
Kunsthistorisches Museum, Viena.
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Há pessoas que conseguem canalizar sua curiosidade para coleções de objetos que transformam ambientes em ninhos acolhedores e ricos em significado. É natural do ser humano o ato de colecionar, tomar posse daquilo que intriga. Desde os tempos nas cavernas arrecadávamos conchas, pedras roliças de rio, plumas de um pássaro distante. Está na nossa natureza, na nossa maneira de ser, a necessidade de colher, de trazer para si o que nos fascina. Às vezes é para marcar grandes ocasiões: caçadores que empalham cabeça do veado caçado na floresta. Às vezes é para adquirir o poder mágico que associamos a um objeto como acontecia com o coral, visto na Idade Média como protetor contra o mau-olhado. Coleções dizem muito sobre quem as fez.
Há muitos anos, nos EUA, fui ao leilão do espólio de uma senhora que falecera sem herdeiros. Arrematei grande parte de sua biblioteca, que nesse caso foi vendida em caixas, contendo indiscriminadamente 30 a 35 livros cada. Na família éramos dois professores. Livros sempre foram algo de corriqueiro, do dia a dia. Comprá-los é como comprar gêneros de primeira necessidade. Adquiri também nesse dia alguns itens de cerâmica francesa e outros objetos de cerâmica oriental. Ms. Jenkins, como ficou conhecida para mim, viajara o mundo, e havia feito algo que eu sempre sonhei em fazer: atravessara a Europa em direção à Turquia pelo Orient Express, isso nos anos 20. Como sei disso? Pelos livros que me deixou. Não que tenha me deixado. Afinal eu os comprei. Mas me senti como tendo recebido um presente dessa senhora. Descobri quando abrimos as caixas de livros que compramos, muitas delas desejadas só por um ou dois títulos, é que nossos gostos, nossas preferências e maneiras de ver o mundo eram semelhantes. Ms. Jenkins e eu teríamos sido farinha do mesmo saco, ou como dizem os americanos, ervilhas da mesma vagem. Teríamos sido amigas em vida se tivéssemos nos conhecido. Nossos gostos não eram semelhantes só nos livros, nas cerâmicas, nos tapetes, no brique a braque característico de um lar. Havia algo místico, indefinível, na maneira como a cada caixa aberta, mais ela se fazia presente.
Por isso entendo que Compton no texto de Luís Jardim, acima, tenha se mostrado simultaneamente fascinante e familiar, que sua amizade com o narrador tenha se aprofundado. Afinal os objetos que o fascinavam, que decoravam as paredes dessa casa de interior, falavam. Era uma linguagem silenciosa mas eloquente. Foi fácil saber os interesses do dono da casa, reconhecer sua estética. Daí certamente o senso de conforto do mineiro com o estrangeiro. Este ao abrir a sua casa deixara a descoberto sua personalidade, sua vida interior. Era terreno fértil para o desabrochar de uma amizade.
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Estandarte de UR, 2600 a.C. [DETALHE]
Concha, calcário, lápis-lázuli e betume
Cemitério Real,Tumba Real, provavelmente do rei Ur-Pabilsag, Iraque.
Museu Britânico,Londres.
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Você sabia que a história de ficção mais antiga que conhecemos vem da Mesopotâmia? Pois os Sumérios, que ocupavam o vale entre os rios Tigre e Eufrates, uma região de solo muito fértil que hoje faz parte do estado do Iraque, foram os primeiros a desenvolver a escrita – escrita cuneiforme – por isso mesmo são os autores da primeira história de ficção, que se conhece. A versão mais antiga que temos dessa obra é de 18 séculos antes da Era Comum [século XVIII a. C.]. Essa obra em versos, chama-se em português A epopéia de Gilgamesh, e conta a história de Gilgamesh e companheiro de aventuras Enkidu. Quando Enkidu morre, Gilgamesh se vê questionando a morte e sai à procura da vida eterna. Acredita-se que essa obra seja o resultado da compilação de diversos poemas e lendas tradicionais do povo sumério, contadas de uma forma poética. É aqui que aparece a primeira referência, anterior à da Bíblia, do Dilúvio Universal.
Há diversas traduções dessa obra para o português e também algumas versões para o público infantil.
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Stanislav Brusilov (Rússia, 1976)
óleo sobre tela
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Duas camponesas, s/d
János László Aldor (Hungria, 1895- Áustria,1944)
óleo sobre tela
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Janos László Aldor nasceu em Nagyimánd,na Hungria em 1895. Em 1919 concluiu o curso de arquitetura, mas como pintor foi autodidata. A partir de 1914 começou a expor seus quadros regularmente. Ficou conhecido pelos retratos de mulheres. Faleceu em 1944.
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Nick Botting (Inglaterra, 1963)
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Geneviève Cacerès (1923-1982)
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Kik Zeiler (Holanda, 1948)
óleo sobre tela, 41 x 66 cm
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Romain Rolland