Resenha: Segredo de justiça de Andréa Pachá

27 11 2014

 

gilles sacksickMulher lendo

Gilles Sacksick (França, 1942)

 

Acabo de ler Segredo de Justiça, a nova coletânea de crônicas da juíza Andréa Pachá. Gostei tanto deste volume quanto do anterior. Esse também é de fácil leitura, grande entretenimento e como no primeiro volume virei a última página e fiquei com uma sensação de otimismo pelo futuro, coisa rara cá pelas minhas bandas.

Após a leitura do primeiro livro, A vida não é justa [Nova Fronteira: 2012] há dois anos, lembro-me de ter-me surpreendido com a criatividade das soluções encontradas no dia a dia pelos brasileiros comuns, antes mesmo dessas soluções serem testadas pelo sistema judiciário. Nessa segunda coletânea, há a mesma exuberância de soluções para o que nos aflige no cotidiano, mas minha reação foi diferente: fiquei estranhamente absorta, entregue à reflexão, considerando a disparidade entre os sonhos que trazemos conosco e possibilidade de suas realizações. Como na publicação anterior, essa coletânea de casos da vara de família mostra os seres humanos em momentos de grande fragilidade, e pelos olhos considerados da juíza, conseguimos aceitar comportamentos que, não fosse a maneira como são retratados, provavelmente não imaginaríamos aceitá-los tão prontamente. Andréa Pachá habilmente mostra a seus leitores um espelho, onde podemos ver de maneira nítida a reflexão dos nossos próprios preconceitos.

 

capa_-_segredo_de_justica_ed

 

O sucessivo desfilar dos casos nessa coletânea me levou a alguns dias de recolhimento, à reconsideração de experiências minhas, de familiares e amigos próximos, aos divórcios, casamentos longevos, heranças, divisão de bens, orfandade, morte súbita e demais acontecimentos não programados, que presenciei em família ou através de amigos. Todos os casos são únicos e peculiares porque os participantes são indivíduos. E é nesses momentos que se vê as verdadeiras feições de cada um dos envolvidos e os princípios respeitados pelos familiares. Acabei dedicando algumas horas a repensar as soluções de que participei em horas críticas, por ocasião de luto, de divórcios, separações ou nascimentos fora do casamento, paternidade ou maternidade inesperadas, enfim, um leque inteiro de vivências inevitáveis no convívio de uma família e na pluralidade das soluções encontradas por aqueles que conheço. Dessa vez as crônicas de Andréa Pachá me pegaram em um momento diferente, produzindo muita reflexão, sobre o passado e trazendo um pouco mais de compaixão para os meus amigos, familiares e conhecidos, protagonistas desses eventos. Não há solução genérica, ideal e feliz, que agrade a todos os envolvidos em um divórcio, em uma guarda de menores ou de idosos, ou de qualquer outra crise familiar. Existe apenas “o melhor que se pode fazer naquelas circunstâncias”. Olhei com carinho e compaixão para os divórcios, heranças, e soluções encontradas após mortes súbitas na família. Nem sempre essas soluções foram do agrado de todos, mas certamente foram o que de melhor poderia ter sido feito em cada ocasião. Dar-se esse perdão, ter-se essa compreensão das águas passadas, não tem preço!

 

ANDRÉA-PACHÁ-CRÉDITO-PARA-FÁBIO-SEIXOAndréa Pachá, foto: Fábio Seixo.

 

Recomendo a leitura dessas crônicas. Elas mostram o Brasil e os brasileiros de maneira diferente da que vemos na televisão e nos romances. Outra coisa que fazem, e muito bem, é mostrar um pouco de como a nossa justiça funciona. Diga-se que é estranho que através de filmes e de programas na televisão estejamos frequentemente mais familiarizados com o processo judicial americano do que com o brasileiro. São obras como esta que nos ensinam a função das decisões judiciais e como elas ocorrem por aqui. Uma verdadeira aula de civilidade dada de forma leve, divertida e ponderada.





Imagem de leitura — Georgina de Albuquerque

26 11 2014

 

GEORGINA DE ALBUQUERQUE (1885 - 1962) - Carta de Amor, óleo s tela, 55 x 47. Assinado no c.i.dCarta de amor, s/d

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela, 55 x 47 cm





Imagem de leitura — Alfred Stevens

25 11 2014

 

 

alfred stevensA senhora de amarelo, 1863

Alfred Stevens (Bélgica, 1823-1906)

óleo sobre tela

Museus de Belas Artes da Bélgica, Bruxelas





Imagem de leitura — Onelio Marrero

24 11 2014

 

onelo marrero, lectriceLeitora

Onelio Marrero (Cuba/EUA, 1958)

óleo sobre tela

 





Palavras para lembrar — André Maurois

20 11 2014

 

 

Image_Resize_medium_News.aspO leitor II

Charles Bibbs (EUA, contemporâneo)

Glicée

 

“Na literatura, assim como no amor, somos sempre surpreendidos pelas escolhas dos outros.”

André Maurois





Imagem de leitura — Albin Veselka

19 11 2014

 

 

Laço Cor de rosa, Albin Veselka, óleo sobre tela, 20 x 20 cmLaço cor de rosa

Albin Veselka (EUA, 1979)

óleo sobre tela, 20 x 20 cm





Imagem de leitura — Judi A. Gorski

17 11 2014

 

Judi A Gorski (EUA) The Crossword Puzzle, Hawai ASTPalavras Cruzadas, Havaí, c. 2008

Judi A. Gorski (EUA, contemporânea)

acrílica sobre tela





Oportunidades perdidas, texto de Rosa Montero

15 11 2014

 

ALICE BRILL - Casario - OST - CID - dat 1988 - 79 x 42 cm.Casario, 1988

Alice Brill (Alemanha/Brasil, 1920-2013)

óleo sobre tela, 79 x 42 cm

 

“A máquina reduziu a velocidade e entrou em Bernal bufando. Antônia olhou pela janela, ainda meio tonta: uma estação vazia e quente; um carrinho de menino abandonado na plataforma; mais além, por cima das cercas onduladas, as torres de cimento de um bairro em expansão.  Antônia nunca tinha descido em Bernal, e esta cidade era para ela como um cenário de teatro: o costume havia convertido todo o itinerário em uma sucessão de cromos planos, de modo que Valbierzo era só os azulejos quebrados da estação; Valones, o relógio de marco de madeira que estava pendurado em um poste; e Bernal, estas plataformas e a ponta das torres sujas de cimento.  Mas agora Bernal adquiriu volume de repente, e Antônia compreendeu, pela primeira vez, que a cidade se estendia além do fragmento que abarcava a janela: centenas de ruas que nunca havia pisado, milhares de pessoas às quais nunca tinha visto. Engoliu saliva, deslumbrada frente a imensidão do mundo.  E se descesse? E se ficasse aqui? O colossal da ocorrência deixou-a sem fôlego. O trem tremia com respiração hidráulica e os minutos de parada se consumiam rapidamente. E se me levantasse, tirasse a maleta do compartimento, saísse dali, descesse do vagão? Que vertigem, que desfalecimento, que emoção. Estava com a passagem de volta, 5 mil pesetas que Antônio tinha dado para a mãe, 1.200 pesetas suas, uma muda de roupa interior, uma blusa sobressalente, uma camisola, as pantufas, uma escova de dentes, um pente, pó compacto, os remédios que o médico tinha receitado, uma garrafinha de plástico com colônia, dois lenços, as meias de seda da senhora Encarna, um pequeno estojo de cretone com utensílios de costura, uma jaqueta para o caso de fazer frio, um tubo de aspirinas, uma estampa de Niño del Remédio, um envelope com tirinhas, uma revista feminina. E se descesse? Agora era diferente. Agora as mulheres iam e vinham sozinhas para todos os lados, e eram médicas, e advogadas, e até policiais. Imaginou-se de pé na estação vazia, agarrada à sua nécessaire, contemplando como o trem apitava e se perdia ao longe, o caminho de Malgorta; tentou ir além e ver a si mesma saindo da estação em direção ao desconhecido, mas a cena desapareceu: era incapaz de imaginar aquilo que não conhecia. A locomotiva apitou, anunciando a saída. Agora, agora ou nunca, Bernal aí fora, esperando-a, Bernal imensa, cidade fabril, seca cidade da planície. Agora, agora ou nunca, mas o vagão rangia, e já começava a deslizar e Bernal resvalava lentamente ao outro lado da janela e suas dimensões contraíam-se ate fechar de novo no cromo plano e conhecido.

Antônia encostou-se no assento e suspirou com decepção e alívio. O trem ia adquirindo velocidade e atravessava já colinas nuas a caminho de Ruigarbo. O rapaz continuava lendo com o livro apoiado na opulência de suas coxas, o avô cuspia os brônquios em um acesso de tosse, as freiras passavam as contas do rosário entre seus dedos, e Antônia, fechando os olhos, decidiu se unir a elas em suas rezas e começou a murmurar para si mesma o terceiro mistério doloroso.”

Em: Te tratarei como uma rainha, Rosa Montero, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 2014, pp 84-86; tradução de Marcelo Barbão.

NOTA: Em espírito, este trecho me lembrou um dos mais interessantes contos de Henry James, A fera na selva, que no Brasil foi publicado como um romance, e nos Estados Unidos como um conto.  Se você não conhece essa obra de James vale a pena dedicar umas duas horas do seu tempo. É um trabalho muito importante.





Imagem de leitura — R. M. Pavão

12 11 2014

 

R.M.Pavão - tituloRetrato de Mulher- óleo sobre tela- dimensão 82 Cm x 62 Cm - assinado e datado pelo artista em 1943 no C.I.ERetrato de mulher, 1943

R. M. Pavão (Brasil, ?-?)

óleo sobre tela, 82 x 62 cm





Minutos de sabedoria — Diderot

12 11 2014

 

 

nattier012Retrato da Princesa de Rohan

Jean-Marc Nattier (França, 1685-1766)

óleo sobre tela, 71 x 91 cm

Coleção Particular

 

 

“Em qualquer país em que o talento e a virtude não produzam progresso, o dinheiro será a divindade nacional.”

 

 

Denis_Diderot_111Diderot