Konstantin Andreevich Somov (Rússia 1869 – 1939)
óleo sobre tela
“Um clássico é algo que todo mundo gostaria de ter lido e ninguém quer ler.”
Mark Twain
Konstantin Andreevich Somov (Rússia 1869 – 1939)
óleo sobre tela
Mark Twain
Karl Albert Buehr (Alemanha/EUA, 1866-1952)
óleo sobre tela colada em placa, 100 x 82 cm
Coleção Particular
Marie Fox (EUA contemporânea)
acrílica sobre tela, 30 x 30 cm
Sempre aprendo na internet. É só ter curiosidade. Tudo está na rede.
Hoje dei com um artigo sobre terapia através de livros. Não falo de livros escritos com o objetivo de autoajuda. Não é disso que se trata. É a leitura de literatura, tanto antiga quanto contemporânea, auxiliando no entendimento de emoções, de prazer, da felicidade. Biblioterapia parece estar em alta. É esse o campo, que meus amigos bibliotecários certamente devem conhecer, mas eu ignorava.
O artigo na revista online The Millions, titulado Books Should Send Us Into Therapy: On The Paradox of Bibliotherapy, de James McWilliams expandiu meu conhecimento sobre o uso pragmático da leitura e levantou perguntas relacionadas ao Brasil: Nós temos biblioterapia? Há livros de ficção literária brasileira que possam ser usados na terapia?
No mundo de língua inglesa há, por exemplo, os livros de Jane Austen. Ninguém duvida do valor literário da autora inglesa. Mas eu não sabia que poderíamos usar seus livros no processo de psicoterapia como William Deresiewicz sugere em A Jane Austen Education. Ou que o mesmo resultado parece ter sido atingido pelo autor britânico Andy Miller no best-seller The Year of Reading Dangerously.
O autor do artigo cita Lendo Lolita no Teerã, de Azar Nafisi, o único mencionado com tradução brasileira, que li em 2004. Faz muito tempo. Mas me recordo dele demonstrar o crescimento emocional dos personagens e o desenvolvimento da felicidade através da leitura.
Enfim, vou explorar essa nova visão da literatura. Uma consequência formal do hábito de ler que qualquer leitor assíduo já sabia, instintivamente. Deve estar aí o sucesso de grupos de leitura onde o hábito de ler regularmente e discutir emoções, aventuras, consequências e associações dos personagens nas tramas literárias oferece uma variedade imensa de situações e paralelos com a vida real que podem contribuir para o desenvolvimento emocional dos leitores.
Uma coisa sei por experiência: ler e discutir uma leitura em comum num grupo de leitores, regularmente, promove amizades sinceras, em qualquer idade. Nasce e se desenvolve um sentido de coesão, entendimento e aceitação do outro que supera meios tradicionais de se fazer amigos.
Clarence Hinkle (EUA, 1880-1960)
óleo sobre tela, 90 x 75 cm
Coleção da Família Payton, Laguna Art Museum
Ilustração de Lacombe.
“Ana Sebastiana, viúva profissional. Enterrou três maridos em dez anos, herdando um pecúlio que lhe permitia levar em Lourenço Marques, naqueles vertiginosos anos 60, uma vida muito confortável. Voltou a casar, já depois de Faustino Manso ter partido para Quelimane, com um oficial da marinha portuguesa. O marido assassinou-a a tiro. Preso, levado a tribunal, alegou legítima defesa. O juiz deu-lhe razão.”
Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.196.
Fernando Botero (Colômbia, 1932)
óleo sobre tela
“Certos artistas, escritores ou pintores, florescem em espaços confinados como os bebês em gestação. Seus temas estreitos podem desconcertar ou desapontar algumas pessoas. Rituais de fazer a corte entre os membros da pequena nobreza do século XVIII, a vida sob os velames de um barco,coelhos falantes, lebres esculpidas, retratos de gente obesa, de cachorros, de cavalos, de aristocratas, nus reclinados, milhões de cenas da natividade, crucificações, subidas ao céu, tigelas com frutas, flores em vasos. E pão e queijo holandeses com ou sem uma faca ao lado. Alguns escritores de prosa cuidam apenas de seus egos. Também no campo científico há quem dedique a vida a uma caramujo albanês ou a um vírus. Darwin consagrou oito anos às cracas. E, mais velho e mais sábio, às minhocas. Milhares de pesquisadores passaram a vida correndo atrás do bóson de Higgs, uma coisinha de nada. Estar circunscrito a uma casca de noz, ver o mundo em cinco centímetros de marfim, num grão de areia. Por que não, quando toda a literatura, toda arte e a iniciativa humana não passam de uma partícula no universo das coisas possíveis? E mesmo nesse universo pode ser uma partícula numa infinidade de universos reais e possíveis?”
Em: Enclausurado, Ian McEwan, São Paulo, Cia das Letras: 2016, tradução de Jorio Dauster, páginas 69-70;