Nossa mesa, José Luís Peixoto

1 05 2025

Retrato de M. V. Dobuzhinsky à mesa, 1913

Boris Kustodiev (Rússia, 1878-1927)

óleo sobre tela

 

 

“na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco”

 

José Luís Peixoto





Resenha: “O segredo de Espinosa”, de José Rodrigues dos Santos

12 03 2025

Portrait of Benedictus de Spinoza, c. 1665

Anônimo

óleo sobre tela

Biblioteca Herzog August, Wolfenbüttel

 

 

Biografias de intelectuais famosos, pensadores, podem facilmente se tornar narrativas que se perdem nas explicações teóricas sobre as contribuições dos retratados.  Essas podem desinteressar o leitor comum, nem sempre motivado para aulas teóricas na leitura de entretenimento. Ou, na tentativa de agradar a maior público esses livros podem pecar também ao  passarem por cima de teoria representativa da contribuição dos biografados no intuito do texto ser melhor digerido pelo público não especializado.  Esse não é o caso de O segredo de Espinosa, de José Rodrigues dos Santos [Planeta: 2023].  Esse é um livro muito bem escrito, cobrindo a vida do filósofo Baruch Espinosa, nascido na Holanda, judeu marrano de origem portuguesa. que trata por meio de diálogos, uma boa parte dos posicionamentos de Espinoza, fazendo-os acessíveis ao leitor sem entediá-lo.

Essas ponderações são ainda mais pertinentes quando se trata de uma obra que traz ao leitor o papel da religião no dia a dia, assim como na vida do Estado. Espinosa foi um dos grandes defensores da separação entre Igreja e Estado. Levando a racionalidade de Descartes a nível não imaginado anteriormente. Considerado o filósofo que abre a era da modernidade nos estudos filosóficos, ele está hoje entre os filósofos mais influentes do mundo atual. Toda essa importância poderia tornar O segredo de Espinosa difícil de ler, difícil de interpretar, mas José Rodrigues dos Santos fez um excelente trabalho cobrindo desde a infância de Espinosa até seus últimos dias.


 

 

Além de ser fiel aos argumentos de Baruch Espinosa, José Rodrigues dos Santos presenteia o leitor com deliciosas vinhetas da vida na Holanda do século XVII, historicamente confirmadas,  assim como eloquentes cenas da política local, da população em revolta.  Não se recusa tampouco a delinear com precisão as questões religiosas e culturais complexas da época.

Ao longo da Breestraat viam-se as lojas e os armazéns a exibirem os produtos mais variados; muitos provenientes de empresas neerlandesas como a Companhia das Índias Orientais e a Companhia das Índias Ocidentais, outros de empresas portuguesas como a Carreira das Índias e a Companhia Geral do Comércio do Brasil, outros ainda de navios oriundos de Veneza, de Antuérpia, de Hamburgo ou de outros pontos, incluindo saques efetuados por corsários marroquinos. As prateleiras enchiam-se assim de porcelanas de Cantão e de Nuremberg, tapetes de Esmirna, tulipas de Constantinopla, sedas de Bombaim e de Lyon, pimenta das Molucas, sal de Setúbal, linho branco de Haarlem, lã de Málaga, faiança de Delft, sumagre do Porto, açúcar do Recife, madeira de Bjørgvin, tabaco de Curaçau, marfim de Mina, azeite de Faro. Havia ali de tudo e de toda a parte, como se o bairro português de Amsterdã fosse o bazar dos bazares, o mercado do mundo.

 

 

José Rodrigues dos Santos

Esse é um romance histórico, uma biografia cuidadosamente construída, que explora a maneira como Espinosa desenvolveu levou adiante as ideias de Descartes.  A obra afirma a retidão de seu caráter, expõe a maneira como as publicações se espalhavam no século XVII, e trabalha a narrativa de tal forma que o leitor não deseja parar de ler.  Foi um presente conhecer esse autor português.  Irei procurar outras de suas obras.  Recomendo sem qualquer restrição, foi para minha lista de favoritos.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Amar ou odiar, soneto de Fausto Guedes Teixeira

6 11 2024
Ilustração de Lane Timothy.
Amar ou odiar

 

Fausto Guedes Teixeira

 

Amar ou odiar: ou tudo ou nada!

O meio termo é que não pode ser.

A alma tem que estar sobressaltada

Para o nosso barro se sentir viver…

 

Não é uma cruz a que não for pesada,

Metade de um prazer não é um prazer;

E quem quiser a alma sossegada,

Fuja do mundo e deixe-se morrer!

 

Vive-se tanto mais quando se sente:

Todo o valor está no que sofremos.

Que nenhum homem seja indiferente!

 

Amemos muito como odiamos já:

A verdade está sempre nos extremos

Porque é no sentimento que ela está!





Estação, poema de José do Carmo Francisco

11 07 2024

Ferrovia

Dario Mecatti (Itália-Brasil, 1909-1976)

óleo sobre tela, 49 x 61 cm

 

 

 

Estação

 

José do Carmo Francisco

 

Um comboio que partisse

Sem sair da estação

No lado esquerdo da linha

Transporte dum coração

 

Um comboio que chegasse

Na ânsia de não saber

Qual janela  escolhida

No trânsito desta mulher

 

Afinal sombra, um modelo

Visto apenas de passagem

O comboio não se deteve

Não era minha viagem

 

Afinal pó de um momento

Registrado num poema

Se o comboio esteve aqui

Era o mesmo do cinema

 

Em: As emboscadas do esquecimento, José do Carmo Francisco, Santarém, Ed. O Mirante:1999, p.40





Bucólica, poema de Miguel Torga

19 10 2023

Casinha da vovó,1976

Lorenzato (Brasil, 1900-1995)

óleo sobre cartão, 38 x 32 cm

 

 

 

Bucólica

(Diário I, 1941)

 

Miguel Torga

 

 

 

A vida é feita de nadas:

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;

 

De casas de moradia

Caiadas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;

 

De poeira;

De sombra de uma figueira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma mãe que faz a trança à filha.





Lugares imaginários: Porto Negro

12 07 2023

Paisagem, 1979

Francisco Rebolo (Brasil, 1902- 1980)

óleo sobre tela, 35 x 46 cm

 

Porto Negro é a cidade fictícia, capital da Ilha de São Cristóvão, localizada no Oceano Pacífico. É a cidade onde se passa o romance de Norberto Morais, O pecado de Porto Negro: uma cidade estabelecida e enraizada no imaginário luso-colonial.  Poderia ser localizada tanto no Brasil, quanto em Cabo Verde; em Angola ou Moçambique; ou em qualquer outro lugar fundado por portugueses, porque nela nos familiarizamos com o mundo arquétipo do colonialismo lusitano que entendemos pela familiaridade cultural.





Refeições literárias…

17 04 2023

DETALHE**

Os sentidos: toque, audição e paladar, c. 1620*

Jan Brueghel  (Flandres, 1568-1625)

óleo sobre tela, tamanho do original 176 x 264 cm

Museu do Prado

* acima temos um detalhe.  O original pertence a um par de quadros enormes, representando os cinco sentidos.

** Veja abaixo esta tela completa

 

Em abril de 2014 postei uma pergunta aos leitores: você se lembra de alguma refeição literária memorável?  O questionamento veio de um artigo que eu havia acabado de ler na revista Smithsonian daquele mês, onde a exposição fotográfica de Dinah Fried, Fictitious Dishes [Pratos fictícios] retratavam refeições descritas em conhecidas obras literárias. Naquele dia, próximo à Páscoa, me lembrei de uma refeição descrita por José de Alencar, no livro Senhora, um de meus livros favoritos quando jovem adolescente, que li e reli diversas vezes.  Nesta última semana tive a oportunidade de reler outro livro favorito da minha adolescência, A cidade e as Serras, de Eça de Queiroz, votado como livro do mês pelo grupo Encontros na Praça.  É claro  que tinha que passar para vocês a deliciosa primeira refeição no interior de Portugal  de Jacinto, recém-chegado de Paris.   Aqui vai para vocês esta refeição memorável, que é a porta de entrada para toda a segunda metade do livro, a vida de Jacinto, o citadino ao interior de seu país natal.

 

Na mesa, encostada ao muro denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa, duas velas de sebo em castiçais de lata alumiavam grossos pratos de louça amarela, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro. Os copos, de um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que neles passara em fartos anos de fartas vindimas. A malga de barro, atestada de azeitonas pretas, contentaria Diógenes. Espetado na côdea de um imenso pão reluzia um imenso facalhão. E na cadeira senhorial reservada ao meu Príncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de hirto espaldar de couro, com madeira roída de caruncho, a clina fugia em melenas pelos rasgões do assento puído. Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que Suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar… Jacinto ocupou a sede ancestral — e durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. 

Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e recendia. Provou — e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: — “Está bom!” Estava precioso: tinha fígado e tinha moela; o seu perfume enternecia; três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo. — Também lá volto! — exclamava Jacinto com uma convicção imensa. — É que estou com uma fome… Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome. Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado — e pousou sobre a mesa uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominava favas!… Tentou todavia uma garfada tímida — e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado: — Ótimo!… Ah, destas favas, sim! Ó que fava! Que delícia! E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio…

— Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo! O homem ótimo sorria, inteiramente desanuviado: — Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até Suas Incelências se riam… Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, também vai engordar e enrijar! O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e minguava… e o meu Príncipe, na verdade, parecia saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar: — “É divino!” Mas nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde — um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, à vela de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o meu Príncipe, com um resplendor de otimismo na face, citou Virgílio: — Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amável destas serras? Eu, que não gosto que me avantajem em saber clássico, espanejei logo também o meu Virgílio, louvando as doçuras da vida rural: — Hanc olim veteres vitam coluere Sabini… Assim viveram os velhos Sabinos. Assim Rómulo e Remo… Assim cresceu a valente Etrúria. Assim Roma se tornou a maravilha do mundo! E imóvel, com a mão agarrada à infusa, o Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e religiosa reverência.

Ah! Jantámos deliciosamente sob os auspícios do Melchior — que ainda depois, próvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante nós se alongava uma noite de monte, voltamos para as janelas desvidraçadas, na sala imensa, a contemplar o suntuoso céu de verão.Filosofamos então, com a pachorra e facúndia.”

 

Em: A cidade e as Serras, Eça de Queiroz.  Em domínio público.  Esta versão Amazon, Kindle.

 

Aqui a tela completa do início da postagens:

 

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/87/File-Bruegel_d._%C3%84.%2C_Jan_-The_Senses_of_Hearing%2C_Touch_and_Taste_-_1618.jpg





Súplica, poesia de Miguel Torga

16 01 2023

Uma xícara de café, 2020

Alexei Ravski (Bielorússia, 1961, radicado na França)

óleo sobre tela, 38 x 46 cm

 

Súplica

 

Miguel Torga

 

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,

E que nele posso navegar sem rumo,

Não respondas

Às urgentes perguntas

Que te fiz.

Deixa-me ser feliz

Assim,

Já tão longe de ti como de mim.

 

Perde-se a vida a desejá-la tanto.

Só soubemos sofrer, enquanto

O nosso amor

Durou.

Mas o tempo passou,

Há calmaria…

Não perturbes a paz que me foi dada.

Ouvir de novo a tua voz seria

Matar a sede com água salgada.





Viajar, texto de Eça de Queirós

1 02 2021

A estação de trem, 1862

William Powell Frith (GB, 1819 – 1909)

óleo sobre tela

Royal Holloway College, University of London

 

Viajar, texto de Eça de Queirós

 

Ia viajar!… Viajei. Trinta e quatro vezes, à, pressa, bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia, num vagão, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam a entranha. Catorze vezes subi derreadamente, atrás de um criado, a escadaria desconhecida de um hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, donde me erguia, estremunhado, para pedir em línguas desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomináveis na rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé direito. Em mais de trinta mesas redondas esperei tristonhamente que me chegasse o boeuf-à-la-mode, já frio, com molho coalhado – e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordéus que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em catorze museus, cento e quarenta salas revestidas até aos tetos de Cristos, heróis, santos, ninfas, princesas, batalhas, arquiteturas, verduras, nudezas, sombrias manchas de betume, tristezas das formas imóveis! E o dia mais doce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho inglês de penca flamejante que habitara o Porto… Gastei seis mil francos Tinha viajado.

 

[Exemplo de Sucessão de fatos]

Em: Flor do Lácio, [antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 151.





Resenha: “Nenhum olhar” de José Luís Peixoto

26 04 2020

 

 

 

Pedro Buisel (Portugal, contemporâneo) , Monsaraz, 2001, ost, 53 x 80 cmMonsaraz, 2001

Pedro Buisel (Portugal, contemporâneo)

óleo sobre tela, 53 x 80 cm

 

 

Confesso que comecei a leitura de Nenhum Olhar de José Luís Peixoto com certa apreensão.  Eu havia gostado tanto, tanto, de seu Livro, que tinha medo de me decepcionar com qualquer outra obra do autor.  Dei tempo entre os dois e caí de amores mais uma vez por este autor que surpreende com a habilidade de encantar com a utilização de palavras comuns, que eu, você, nós todos sabemos e aplicamos diariamente.  Em sua escrita esses vocábulos comuns tornam-se elementos de uma  narrativa lúdica e poética capaz de abordar delicadas e violentas emoções de modo único e sensível.  Chega a ser difícil acreditar que temos  em comum as mesmas palavras, no número finito das existentes na língua portuguesa, porque José Luís Peixoto não inventa novos vocábulos, mas consegue construir  linguagem única,  que entendemos pelas ausências,  no avesso ou como se lêssemos pelo espelho.  Frases curtas trazem à tona reticências eloquentes. Silêncios  soturnos envolvem o leitor com um cordão mágico invisível que o amarra ao texto.  E imergimos num mundo fantástico e real, plausível, mágico.  Enigmático.

José Luís Peixoto canta uma aldeia. Cantar é a palavra que melhor descreve a prosa-poética, ou a poesia em prosa, da narrativa sobre esta aldeia portuguesa, que parece perdida no tempo, solitária no espaço, contida em si mesma, isolada na  imensa extensão agreste, bruta, bravia e rústica do Alentejo.  Sente-se o lugar.  É hostil, habitantes abrutalhados, sem  possibilidades de mudança.  Vivem sob o pesado manto dos séculos de isolamento e conformismo.  Nem todos são gente comum.  Há um tanto de mágica local. Mas há falta de perspectiva,  seus habitantes não veem o  horizonte além.  ‘Nenhum olhar’ atravessa a distância,  supera a realidade desolada do lugar.

 

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Gosto particularmente da capa desta edição da Dublinense de  Samir Machado  de Machado. Gosto porque desta janela do aposento de onde a foto foi tirada, não há horizonte visível.  Há telhados. E céu.  O olhar atravessa a janela e para.  Para  logo ali adiante.  Ali pertinho.  Ali, na casa ao lado, no vizinho vigilante, na vereda deserta, no silêncio impenetrável dos vigiados seguidos por trás das cortinas em seus mais corriqueiros movimentos. O olhar para ali,  sem qualquer esperança, para no muro e nas telhas.  Isso reflete a asfixia da aldeia.  A falta de espaço tão bem representada pelos irmãos siameses;  a exiguidade a despeito da imensidão algarvia que a rodeia.  Esta aridez externa ecoa na população retratada, do gigante à mulher estuprada, do pastor de ovelhas à mulher cega. E como num deserto, onde ocasionalmente vemos uma planta esboçar um alento, aqui também há amor.  Silencioso, profundo, dramático.  Talvez esses excessos nos levem a aceitar com maior encantamento a virada de perspectivas que ocasionalmente nos obriga a parar e pensar. “Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra como um céu, e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.” [123-24]

 

jlpJosé Luís Peixoto

 

Os eventos que compõem a história dessa aldeia podem ser contados repetidamente, de maneira poética ou objetiva. E no entrar e sair do sonho, no abraçar ou abandonar o onírico, temos entendimento mais completo da agonizante e ferrenha determinação de seus  habitantes pela sobrevivência física e emocional. Esdrúxulas como a própria paisagem que as gera, essas pessoas parecem habitar o mundo das alegorias.  Seus nomes, vindos dos Novo e Velho testamento aparentam ser maiores do que os seres que os carregam e dão aos acontecimentos, junto com os personagens fantasiosos, um ar simbólico que em vão tentamos decifrar.

Essa é a história de uma aldeia. Belíssima narrativa ainda que extremamente triste.  Recomendo.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.