Resenha: Línguas, Domenico Starnone

17 07 2025

Moça lendo à janela, 1928

Albert André (França, 1869-1954)

óleo sobre tela, 73 x 61 cm

 

 

 

Línguas, de Domenico Starnone, com tradução de  Maurício Santana Dias, foi o terceiro livro do autor que li. Posso dizer que gostei de sua escrita desde que o encontrei em Assombrações (2018) e Laços (2017). Gosto imensamente de sua voz narrativa: calma, nostálgica, reflexiva.  Sua escrita é de nuances. Ele não precisa abrir o jogo, contar tudo, tintim por tintim. Ele nos deixa espaço para imaginar e sonhar; ar para respirar e tempo para absorver o lugar, os sons, as memórias do autor que se imiscuem com as nossas.

Línguas é um pouco diferente dos outros que li.  Menos fluido. Tem breque. É uma obra em dois tempos. Primeiro vemos o delicioso despertar do primeiro amor de um menino de oito ou nove anos, em Nápoles.  Ele se apaixona por uma menina do edifício em frente ao dele. Ela é bem mais arrojada que ele, flerta com a morte, dançando no peitoril da varanda.  Ela é diferente. Diferente de tudo que ele conhece. Ela não é como ele, do sul da Itália. Vem do norte e por isso, para surpresa do apaixonado garoto, ela fala com outro sotaque, usa vocabulário diverso, demonstra maneira de se expressar inesperada.  A paixão dele, só aumenta.  É o fascínio do outro, do desconhecido.  Mas, para atrapalhar, no horizonte, há Lello, um amigo, que também se apaixona pela milanesa.  Com o triângulo amoroso formado, a briga pela atenção da menina se desenvolve.  Irão às vias de fato?  Deixo isso para descoberta do leitor…  Depois… temos a segunda parte dessa história. Os dois, que em criança haviam sido apaixonados por Emanuela, se encontram, são jovens adultos.  Continuam a não se gostar e nesse encontro, e só então, Lello, o rapaz que sabe tudo de tudo, revela o verdadeiro destino da jovem bailarina de Milão.

 

 

 

Além da fascinante arte narrativa de Starnone, aprecio as diversas referências à literatura clássica em suas obras.  Da mera alusão à mitologia greco-romana, aos contos medievais, vamos nos informando, circundando assuntos cujas menções ecoam e enriquecem o texto.  Em Línguas, a própria abertura, o primeiro parágrafo ele já se refere ao trágico mito grego de Orfeu e Eurídice.  A leitura atenta, já vislumbra, nas primeiras frases que abrem o texto, por causa dessa referência,  um desfecho trágico, uma morte, quem sabe?  

Entre os oito e os nove anos de idade, decidi encontrar a fossa dos mortos. Tinha acabado de aprender nas aulas de italiano da escola a fábula de Orfeu e Eurídice debaixo da terra, onde ela havia ido parar por causa de uma picada de cobra. Eu planejava fazer o mesmo com uma menina que infelizmente não era minha namorada, mas que poderia vir a ser caso eu conseguisse tirá-la das profundezas da terra, enfeitiçando baratas, gambás, ratos e musaranhos.” [7]

 

Domenico Starnone

Línguas apresenta reflexões sobre dois temas constantemente ligados na literatura e no nosso emocional: amor e morte. Desde da Grécia antiga, e até antes disso, a relação entre essas duas profundas experiências fascinou poetas, escritores e filósofos. Por isso, não é surpresa que Starnone os considere, mesmo ao falar do primeiro amor — aquela paixão emocional que nasce na infância dos personagens, vista pelos olhos de quando eram crianças. Mas o texto é mais rico ainda, como complemento há contrastes entre juventude e velhice, línguas faladas tão próximas umas das outras e ainda assim estranhas.  A riqueza do  texto encanta e seduz.

Esse é um livro que aflora a sensibilidade do leitor.  Não é repleto de fortes emoções ou de diálogos arrebatadores. Starnone é mais fino, dedica-se a tênues paralelos. As observações desse menino de nove anos são curiosas, engraçadas, trazem um leve humor para o texto, mas nem por isso deixam de ser perspicazes, deixam de elaborar complexos argumentos. Boa leitura.  Dessas que adicionam. Recomendo sem restrições. 

 





Resenha: A carteira, de Francesca Giannone

24 04 2025

Jovem sentimental, 1920-22

Ubaldo Oppi (Itália, 1889-1942)

óleo sobre placa

Museo d’Arte Moderna e Contemporanea di Trento e Rovereto

 

 

A carteira, de Francesca Giannone, traduzido para o português por Roberta Sartori [Editora LVM: 2024] , é o primeiro romance da autora, chamada por alguns como uma “segunda Elena Ferrante“.  Esse livro foi vencedor do Prêmio Bancarella de 2023.  A comparação com Ferrante talvez seja uma das razões de seu grande sucesso – mais de 625.000 livros vendidos em 2023.  Só a localização italiana, acompanhando a narrativa sobre uma mulher e sua família, amigos e parentes, no entanto, não é suficiente para transformá-la em uma segunda autora com potencial de ser universalmente aclamada. Falta-lhe a riqueza nos detalhes relevantes, e o desenvolvimento psicológico dos personagens esboçados para que a comparação se justifique.  

Uma história com ingredientes interessantes que se perde, nas quatrocentas e mais páginas: detalhes desimportantes, com laudas facilmente subtraíveis, sobretudo no último terço, sobre a construção da Casa da Mulher.  A sinopse parecia boa:  uma mulher do norte da Itália se casa com um italiano do sul e vai morar com ele na Puglia, onde ele se encarrega de desenvolver uma vinícola, nas terras que herdou.  Anna o acompanha.  Dona de um espírito independente, culta, leitora, acaba trabalhando como carteira da cidade, após concurso, quando quebra as expectativas de todos, familiares e habitantes locais, por trabalhar numa posição até então ocupada por homens. Considerada uma estranha no ninho, por seus hábitos e linguagem de outra região, ela  teria a oportunidade de conhecer e interagir com os habitantes de Lizanello, [Lecce] entregando cartas e telegramas para toda a população.

 

 

 

No entanto, essa troca entre habitantes e Anna não é explorada pela autora, ainda que seja sugerida na sinopse.  O livro se arrasta cobrindo algumas décadas da vida da carteira, enquanto a trama se perde no núcleo familiar de Anna, seu marido Carlo e filho Roberto; na atração que Antonio, irmão de Carlo, tem por Ana, no passado de Carlo, familiares, filhos legítimos ou não, e um ou outro personagem como Giovanna vítima de um relacionamento abusivo com um padre.  Mas se espremermos o conteúdo  temos uma novela televisiva, em que intrigas e amores proibidos são alimento para um longo volume que merecia bom editor, para cortar cenas inúteis, diálogos que não levam a nada e enchem o leitor de  informação espúria para a trama.

Terminei o livro com a sensação de tempo perdido.  É superficial. É adolescente.  Não é livro para leitor maduro.  Francesca Giannone poderia e deveria entregar mais.  Percebi nela algumas características que costumo ver nos escritores de primeira viagem.  Sua obra poderia ser melhorada com a assistência de um bom editor.  Pergunto-me : para que um prólogo?  Em que ele ajudou nessa narrativa?  Outros detalhes de primeiros romances: muitos personagens nomeados que aparecem uma única vez e não participam mais do resto da trama. Uma das primeiras regras de uma boa edição: personagens com nomes devem ser sempre aqueles que o leitor precisa gravar para entender o enredo. Enfim, há espaço para melhorias na escrita.  Mas é preciso que a autora e que seus editores queiram que isso aconteça, e que não se deitem no sucesso da primeira obra, porque pode ser que não se sustente.  Francesca Giannone toca em assuntos queridos na atualidade: emancipação feminina, mulheres trabalhando, votando, mulheres em profissões fora do esperado, mudança em preconceitos sociais. Mas não se aprofunda em nenhum desses aspectos. Tudo não passa de conversa fiada, de um aceno ao espírito da época.

 

 

Francesca Giannone

 

 

Uma palavra sobre a edição brasileira: deveria ter tido mais rigor na revisão.  Aponto aqui alguns problemas que saltaram aos olhos: duas maneiras de escrever o nome Agata ou Agatha.  Ambos aparecem no texto.  Há frases inteiras que não fazem sentido, mostro algumas mas há mais. Imagino serem resultado de uma revisão final pela inteligência artificial que não distingue homônimos  ou que deixa passar a palavra correta na ordem errada.  1) “Ela havia ficara em recuperação.” [169]; “ele cresceu de forma surpreendentemente” [228]; “No final, ele dará há algo para ele também” [350] “A dela mãe a expulsou de casa” [433]. 

Não recomendo.  Preferiria dar uma estrela negativa, mas não posso.  Fica uma estrela pelo esforço da escritora, pela tradução e alguns pontos a menos pela revisão editorial.  Não conheço essa editora.  Não começamos com o pé direito.  Espero que melhorem no futuro.  Não pretendo colocar o Prêmio Bancarella entre aqueles cujos vencedores farão parte da minha lista de futuras leituras.  Ver que esse prêmio existe há setenta e dois anos e que teve como vencedores Ernest Hemingway (1953), Boris Pasternak (1958), Oriana Fallacci (1970); Umberto Eco (1989) entre outros conhecidos nomes da literatura mundial é surpreendente. Não sei o  que houve em 2023. 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Resenha: “O corpo humano” de Paolo Giordano

31 08 2015

 

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[DETALHE]

Retrato Equestre de Guidoriccio da Fogliano

Simone Martini (Siena, 1280 a 1285 — 1344)

Afresco, 340 x 960 cm

Palazzo Publico, Siena, Itália

 

 

Com um título que mais lembra compêndios científicos para a sala de aula, O corpo humano de início não me atraiu. Mas vinha assinado por Paolo Giordano, autor de um dos mais sensíveis livros que li em 2010, A solidão dos números primos. Além disso, aprendi, há algum tempo, a desconfiar de segundos livros de autores cujas primeiras publicações achei espetaculares. Em geral, as segundas tentativas desapontam. Por isso posterguei a leitura. Mas felizmente meus medos não se realizaram dessa vez. Pelo contrário, Paolo Giordano consegue mais uma vez, abordar temas que invadem o nosso dia a dia, de uma maneira sensível, e por um ângulo inusitado.

Sim, esse é um livro de guerra. Guerra no Afeganistão. Mas não se trata do exército americano, como a situação poderia nos levar a crer. Trata-se de soldados italianos que fazem parte dos esforços da OTAN naquele país. E em lugar da narrativa se concentrar na guerra, ela nos mostra o dia a dia de um grupo de soldados, e não só acompanha os homens desde antes da guerra, como lá, no estrangeiro, em local minado por perigo. Somos expostos aos dilemas diários desses homens, jovens, sem muita experiência, como se comportam e se exasperam, o que os limita física e emocionalmente. Daí, o corpo humano, essa máquina orgânica que nos prende, limita, nos trai e suporta.

 

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Paolo Giordano surpreende mais uma vez por conseguir retratar a angústia pessoal de cada um de seus personagens, cada qual com seu problema íntimo — aqui, neste livro, problemas deixados para trás nos vilarejos ou cidades de onde vieram — com sensibilidade e distanciamento. Isso permite o leitor de se interessar pelo que pode acontecer a cada um, com o que parece ser um envolvimento mínimo. No entanto, quando finalmente um evento muda radicalmente a perspectiva dos soldados, é um choque perceber o quanto nos envolvemos com cada um deles e o quanto sabemos de seus desejo e frustrações e o fervor com que torcemos para que cada consiga ultrapassar os obstáculos físicos e emocionais.

 

 

Paolo GiordanoPaolo Giordano ©Niko Giovanni Coniglio

 

Não considero O corpo humano um livro de guerra nos moldes tradicionais. Ele é um livro sobre o ser humano, seus desejos, sonhos, experiências, necessidades, desilusões, decepções: emocionais e físicas. Ele nos mostra como ou porque chegamos a atos de audácia, fazemos juízo, nos mostramos corajosos, decididos e firmes. E ele nos mostra a chama, o piloto de energia que, no âmago, se incendeia quando cada um de nós age, decide, se droga, se perde, se desintegra, se constrói. Por isso mesmo Paolo Giordano passa a ser para mim, um dos autores que melhor se dedica ao entendimento do ser humano.

 

Recomendo a todos, amantes ou não dos livros de guerra

 

foglian2Retrato Equestre de Guidoriccio da Fogliano, c. 1330
Simone Martini (Siena, 1280 a 1285 — 1344)
Afresco, 340 x 960 cm
Palazzo Pubblico, Siena, Itália




A dignidade na vida e na morte: “Acabadora” de Michela Murgia

20 07 2013

Pablo Picasso, A vida, 1903, Cleveland Museum

A vida, 1903

Pablo Picasso (Espanha, 1881 – 1973)

Óleo sobre tela, 196 x 129 cm

Cleveland Museum of Fine Arts, EUA

Não me surpreende que Michela Murgia tenha ganhado diversos prêmios literários na sua terra natal, a Itália, com o livro Acabadora.  Sua escrita é poética, sensível, retrata uma realidade que sabemos verdadeira apesar de parecer um sonho enevoado e o faz  com sedução, guiando o leitor pela mão, a ponderar sobre a vida, seu valor; sobre o que é bondade;  a morte,  a traição, a eutanásia e a dignidade humana.

Passado em uma pequena vila da Sardenha,  na década de 1950, o romance está centrado nas figuras de Bonaria Urrai e Maria Listru.  Maria foi adotada.  Quarta filha de uma família pobre com muitos filhos é dada à Bonaria para educá-la.  Bonaria tem uma vida dupla de costureira durante o dia e  de facilitadora da morte, para aqueles que se encontram em seus últimos momentos de vida.  Este segundo ofício é conhecido e aceito por todos os habitantes do vilarejo. Mas não é falado.  Assim Maria cresce sem saber da delicada profissão noturna de sua mãe adotiva.  Bonaria é uma boa mãe. Educa Maria em casa e na escola.  Tira-lhe o hábito dos pequenos roubos.  Incentiva-lhe a aplicação aos estudos.  Mas espera o momento apropriado para contar á Maria o que faz nas noites em que sai de casa.  Maria descobre antes de Bonaria lhe contar. Descobre  por outros,  e sentindo-se traída, quando se vê como  a única no vilarejo que não conhecia o ofício de Bonaria,  não perdoa  a velha senhora. E se afasta.  Há pelo menos dois sentimentos que Maria tem que resolver: o desgosto pelo que Bonaria faz, e a traição.

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O mais interessante dessa narrativa é que não somos levados a questionar a retidão de caráter de Bonaria.  Ela é  dura, honesta, resistente à adversidade, rígida, fiel a seus princípios morais. Conhecedora, como ninguém, dos personagens do vilarejo, Bonaria não tem dúvidas sobre a necessidade de seu ofício. E não vacila ao aplicar a sua ética.  Os vizinhos concordam em silêncio, assim como todas as outras pessoas no vilarejo. Bonaria, afinal, traz paz aos que dela necessitam.   Bonaria, no entanto é seduzida a se desviar de sua ética uma única vez, e é justamente nesse momento que Maria descobre a profissão de sua mãe de criação.

A rejeição de Maria à Bonaria é imediata.  Mas por muito tempo ficamos sem saber se esta rejeição é por se sentir traída, não sabendo tudo sobre sua mãe de criação, ou se é por rejeição completa ao ofício de Bonaria. Não importa, eventualmente,  Maria chega a uma solução que não desmerece tudo que aprendeu com a velha senhora. E faz as pazes com os parâmetros de sua existência.

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A minha reserva quanto ao livro está justamente nos capítulos em que Maria, deixando a Sardenha, consegue um emprego como babá. Não pareceram viáveis.  Foi uma maneira da autora resolver alguns conflitos internos de Maria, mas os personagens não parecem críveis, não convencem.  Pena.  Cento e sessenta páginas e um discurso poético que seduz, encanta e corta, pois obriga o leitor a ponderar sobre seu posicionamento sobre dignidade humana,  na vida e na morte. Sobre a dignidade da vida quando o ser humano sofre uma limitação física acabrunhadora.  Um belo texto.

AVISO: os comentários a esta resenha não estão abertos a qualquer discussão sobre a eutanásia, a favor ou contra, qualquer postura religiosa ou política.  Nenhum comentário será aceito que se revele portador desses assuntos.  Comentários não serão publicados ou serão removidos.





O deserto dos tártaros: Dino Buzzati

24 02 2009

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Paisagem com vilarejo à distância,

Pieter Stevens (Antuérpia, 1567-1624)

Nanquim sobre papel e aguada cinza

22 x 32cm

 

 

 

 

Senti-me como Miss Marple, um dos personagens mais conhecidos dos livros de Agatha Christie, uma senhora que resolve crimes pela lógica e pelo conhecimento que tem da natureza humana ao ler O deserto dos Tártaros de Dino Buzatti [São Paulo, Clube do Livro: s/d].  Para Miss Marple um ingrediente necessário na arte de desvendar mistérios é a catalogação mental que faz das pessoas à sua volta: umas sempre lembram outras e seu comportamento consequentemente não deve ser diferente.  Assim, todos os problemas que aparecem na região da aldeia de St. Mary Mead, residência da boa detetive,  podem ser resolvidos pelo trabalho extraordinário de associações entre pessoas que ela executa.

 

Em O deserto dos Tártaros também fiz minhas associações à maneira de Miss Marple.  À medida que lia imagens de quadros e filmes que assisti vieram a preencher a minha imaginação.  A história quase simples e previsível é a de um homem, de um país desconhecido, numa época qualquer, que ao entrar para o exército, tem como  sua primeira missão,  uma permanência indefinida numa estação fronteiriça,  enfiada atrás das montanhas de mais difícil ultrapassagem.  O objetivo final é o Forte Bastiani, obra protetora de uma fronteira esquecida.  Lá o marasmo impera e se entranha por tudo e por todos.  Visivelmente alerta para a estranheza do forte, Drogo, o personagem principal desta aventura, pede para ser colocado em outro local.  Mas depois de uma conversa com um superior aceita ficar por quatro meses.  Estes aos poucos se transformam em quinze anos, graças à acomodação de Drogo, graças às escolhas que faz durante sua estadia e ao estranhamento que sente quando depois de quatro anos no forte volta à cidade natal, onde já não reconhece nada, nem mesmo a si mesmo.

 

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A primeira associação que tive veio pela descrição inicial da viagem de Drogo rumo ao Forte Bastiani.  Não consegui tirar da minha memória as paisagens maneiristas do século XVI.  Principalmente as da Europa do norte, tais como as de Pieter Stevens.  

 

Lá se vão Giovanni Drogo e seu cavalo, diminutos, no flanco das montanhas que se tornam sempre maiores e mais selvagens.  Ele continua subindo para chegar ao forte ainda durante o dia, porém mais rápidas que ele, do fundo, de onde rumoreja o riacho, mais rápidas que ele sobem as sombras.  A um certo ponto elas estão justamente à altura de Drogo, na vertente oposta da garganta; parecem por um instante reduzir sua corrida, como que para não desencorajá-lo, depois deslizam por cima dos penhascos e dos rochedos, e o cavaleiro permanece embaixo.

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Mais adiante, quando Drogo começa a achar razões para permanecer no forte lembrei-me incessantemente de um dos filmes mais extraordinários que já vi, um filme do espanhol Luis Buñuel, Anjo Exterminador, 1962.   O roteiro, a história, o vazio são paralelos perfeitos para o Deserto dos Tártaros:   Após uma extravagante e farta refeição, os convidados se sentem estranhamente incapazes de deixar a sala de jantar e, nos dias que se seguem, pouco a pouco, caem as máscaras de civilização e virtude e o grupo passa a viver como animais. 

 

E enquanto as sombras do outro lado da montanha, depois da fronteira mexiam com a imaginação dos soldados no forte, suas descrições mexiam com as minhas memórias das paisagens desertas de De Chirico, um pintor também italiano e contemporâneo de Dino Buzzati:  Interrompeu-se porque do alto de um paredão cinzento, pendente sobre eles, chegara um som de desmoronamento.  Ouviam-se os baques dos rochedos que explodiam contra os penhascos e ricocheteavam com ímpeto selvagem pelo abismo, entre nuvens de poeira.  Um estrondo de trovão repercutia de parede a parede.  No coração dos despenhadeiros, o misterioso desmoronamento continuou por alguns instantes, mas exauriu-se nos profundos canais antes de chegar embaixo; nos cascalhos, por onde subiam os soldados, só chegaram duas ou três pedrinhas.

 

 

 

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A angústia da partida, 1913-1914

Giorgio De Chirico (Itália, 1888-1978)

Óleo sobre tela

Albright-Knox Art Gallery Búfalo, EUA

 

E assim fui de memória em memória saindo do mundo da literatura para o mundo das artes plásticas, até o final do livro peregrinando pelas imagens desérticas, pelo sentido de desalento e de paralisação, até que cheguei às minhas memórias do conto The Beast in the Jungle, 1903, de Henry James (EUA 1843 – Inglaterra 1916) que no Brasil foi editado como um pequeno livro com o título de  A Fera na Selva: a história de um homem a quem nada absolutamente acontecera, como resultado das decisões que tomara ou que deixara de tomar, sempre à espera de um grande evento. 

 

 

Afinal a que todas essas conexões me levam?  O que elas têm em comum é a exploração do fantástico, da fantasia pessoal, do imaginário individual.  Apesar de alguns críticos ligarem a obra de Dino Buzzati  a escritores como Kafka, Sartre e Camus, principalmente nesta obra O deserto dos Tártaros, originalmente publicado em 1940, na minha opinião esta história, com o desenvolvimento dado, pertence mais ao campo da fantasia do imaginário,  algo mais fluido e menos desesperador, mais na tradição de Edgar Allan Poe e de outros autores transcendentalistas.   Quer coloquemos este livro entre os surrealistas ou os transcendentalistas, não importa.  É simplesmente um livro que deve ser lido, pela narrativa, pela abstração e pelo descobrimento de nós mesmos.

 

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O escritor Dino Buzzati (1906-1972)





O quarto do bispo de Piero Chiara

28 12 2008

 

Neste finalzinho de ano, entre o Natal e o Ano Novo tive a boa idéia de ler O quarto do bispo, (José Olympio: 1986) um pequeno romance de Piero Chiara, publicado originalmente em 1976 com o nome de La stanza del Vescovo.   Um ano depois de sua publicação este romance foi adaptado para o cinema, com direção de Dino Risi.  Em italiano, recebeu o mesmo nome do livro, mas no Brasil o filme ficou conhecido como Venha dormir lá em casa esta noite (1977), e estranhamente classificado como comédia.  

  

 

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Nunca havia lido nada do autor, até mesmo porque depois de sua morte em 1986 pouco foi traduzido para o português.  Localizo, além do livro mencionado acima, só um outro romance de Piero Chiara em português, O Balordo, (Melhoramentos, 1986) com o mesmo nome no original, que aparentemente retrata a vida num pequeno vilarejo italiano. 

 

A narrativa de Piero Chiara, em O Quarto do bispo, com a tradução de Teresa Ottoni, é misteriosamente clara, breve e sedutora.  Não me surpreendi ao ver que este romance havia sido logo transportado para o cinema, porque através de sua leitura não pude deixar de pensar nos grandes filmes italianos da década de 1960, filmes  em que o nefasto se faz presente de maneira oblíqua e cotidiana.  

 

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Lago Maggiore

 

 

 O ritmo da narração é ditado pelo Lago Maior (Lago Maggiore) pano de fundo do romance.   Narrado na primeira pessoa, Piero Chiara nos faz cúmplices do mistério que envolve as águas e os ventos do lago.  Há um ritmo vagaroso, deliberado e sinistro que nos leva a desfrutar com o narrador da calma, da majestade e das belezas do Lago Maggiore, sem, no entanto, perdermos a sensação do nefasto.  Chiara nos deixa perpetuamente à espreita, à espera de um acontecimento fatal, de um evento ameaçador que desconhecemos, mas que sabemos sinistro.  O mistério está onipresente nas águas do lago, nos ventos dos Alpes, nas imagens quase oníricas que nos acompanham.  Algo acontecerá que não sabemos exatamente de onde virá e que forma terá ao se concretizar.  Seu suspense é  soberbo!

 

A ação se passa logo depois da Segunda Guerra, em 1946, durante o período de um ano.  Neste tempo somos levados em pequenas viagens, de um canto ao outro por um barco a vela, sem nenhum propósito além do prazer, como se à deriva, por diversas aldeias italianas, por uma miríade de pequeninos portos particulares e públicos.  A presença constante, onipresente e gigantesca é do Lago Maior, que entre a Itália e a Suíça, não só é um dos principais lagos alpinos, mas o segundo maior lago da Itália.  Suas grandes casas, quintas, sítios revelam uma classe abastada, mal acomodada, sofrida, arcaica e enraizada à beira d’água.  Um grupo social que perdeu a direção, o propósito de sua existência.  

 

Escritor Piero Chiara (1913-1986)

Escritor Piero Chiara (1913-1986)

 

  

 

 O mistério não chega a se resolver completamente quando terminamos com a leitura do livro.  Claro, há uma morte, uma investigação e a descoberta de como alguns eventos se desenvolveram.   Mas muito ainda permanece misterioso, poderia se dizer encantado na bruma das águas lacustres.   A razão é simples: o mistério é nosso.  É o lado humano que nem sempre conhecemos de alguém, é o imponderável do comportamento humano que ocasionalmente se revela e surpreende.  

 

Sinopse: No verão de 1946, no lago Maior, ao qual o fim da guerra devolveu a esperança e a paz, um jovem e sedutor dom-juan arma seu barco e lança-se de uma margem à outra numa navegação repleta de aventuras galantes.  Em Oggebbio, é recebido por um advogado, dr. Orimbelli, que vive com a esposa, mais idosa que ele, e com a cunhada viúva, Matilde.  Após este encontro desenrola-se nos velhos quartos da villa um enredo que envolve numa espiral, entre policial e erótica, com um ligeiro toque de comicidade, as várias personagens: o equívoco Orimbelli, a ingênua Cleofe, a sensual Matilde, um sobrevivente da guerra da Abissínia, emasculado em conseqüência de ferimentos, que será o deus-ex-machina da solução final.

 

Este livro é uma pequena obra prima.  E se você assim como eu ainda não conhecia Piero Chiara, sugiro que vá ao sebo mais próximo de sua casa e compre um volume deste pequenino romance.  Vale a pena.