Recordações carnavalescas, Marques Rebêlo

15 12 2020

 

 

 

cartaz_NJ_0416Carnaval

Nelson Jungbluth (Brasil, 1921 – 2008)

acrílica sobre tela

 

“1914. A grande ambição carnavalesca era usar lança-perfume. Havia tubos para crianças, finos como dedos. Bisnagava-se até cachorro!

Na terça-feira gorda, o chão da Avenida tinha um palmo de confetes, os préstitos eram o delírio do ouropel — clarins, marchas triunfais, fogos-de-bengala, caracolantes ginetes abrindo os cortejos — gato, baeta, carapicu! — bamboleantes sóis, planetas, constelações, Vulcano, Júpiter, Netuno, mitológicos deuses paralisados em gestos de sarrafo e papelão, giratórias esferas rutilantes que se abriam em gomos para desvendar, por instantes deslumbrados, deidades semi-nuas, atirando beijos, para a multidão comprimida, com a ponta dos dedos inatingíveis.

Saímos de tardinha, providos de farnel — sanduíches, pastéis, coxinhas de galinha  — levávamos horas no bonde se arrastando aos arrancos, íamos postar-nos numa esquina propícia, sobre caixotes, para esperar o desfile de proverbial atraso.

Mas se a chama foliona se extinguia na cidade, entre missas, sinos e beatas, na manhã de quarta-feira, prolongava-se em nossa casa por muitos dias além com restos de serpentinas pendentes dos gradis, saldos de confetes tapizando sala de jantar, trono, capitel, concha ou nenúfar, donde Madalena reclinada, soberana, envolta em rotos filós de antigos cortinados, com as faces tingidas por carmim, os cabelos coroados por um desperdício de fitas, atirava em gestos longos cachoeiras de beijos para uma suposta multitude de súditos e adoradores. E a mim, dormido ou acordado, me perseguia incessante, priapística, a luxuriosa visão daquelas deidades apoteóticas, floração de um horto inacessível, habitantes olímpicas, deusas! deusas! pois como poder entrosá-las na fauna feminil que eu conhecia, mesmo a esterlina mulher de doutor Vítor, que era estrangeira e fumava?”

 

Em: O trapicheiro, Marques Rebelo, 1º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1959, 1ª edição, numerada,  pp. 217-218





A professora de São Cristóvão, texto de Gilberto Amado

23 11 2020

Figura de mulher, 1929

Ismael Nery (Brasil, 1900 -1934)

óleo sobre cartão, 38 x 46 cm

Galeria Almeida e Dale

 

“Maria Cândida, solteira, magra, sempre de enxaqueca com rubores súbitos, vivia a passar a mão sobre a cabeça dolorida. Certos dias colava nas venezianas um papel azul, para coar o sol e criar na sala da escola uma atmosfera opalina. Mas papel azul não podia ser obstáculo a que o sol de Itaporanga ferisse com sua violência a cabeça sensível da solteirona frágil, moça velha de peito murcho nas desesperanças do celibato. Maria Cândida, professora pública não ilustrada como Sá Limpa, professora particular.  Sá Limpa “puxava” pelos meninos. “Mulher não precisa saber”, dizia no tempo a maioria dos pais. Mas o meu, querendo dar a Iaiá instrução melhor, andou procurando professora; veio uma de São Cristóvão, grandalhona, muito recomendada. Abriu aula na Praça do Mercado.  Meninas das melhores famílias deixaram a escola pública para se matricular na dela. Viu-se logo, porém, que a recomendação não tinha fundamento. Num exemplo escandaloso, revelou-se-lhe a impreparação. Ensaiando as meninas para um recital, não se soube por que artes do demônio obrigou a que devia recitar o “Navio Negreiro” a pronunciar “albátros” em vez de albatroz, “albatroz, albatroz, águia do oceano”, dizia o poeta; albátros queria a professora que as meninas dissessem. Passava a esse tempo por Itaporanga Baltazar Góis, literato, professor do Liceu em Aracaju. Hospedado lá em casa, soube do fato. “É maluca… e escangalhou o decassílabo!”  A história propagou-se; a professora encalistrou, raspou-se sem se despedir, deixando os trastes; reintegrou São Cristóvão onde talvez não fizessem questão da pronúncia do nome da ave.”

 

Em: História da minha infância, Gilberto Amado, Rio de Janeiro, José Olympio:1966, 3ª edição, pp. 68-9





Um amor de Carnaval… Maria Helena Cardoso

10 11 2020

 

 

Haydea Santiago,Carnaval na rua das laranjeiras, OST 80 x 64,1938Carnaval na rua das Laranjeiras, 1938

Haydéa Santiago (Brasil, 1896 – 1980)

óleo sobre tela, 80 x 64 cm

 

“A primeira vez que o vi foi numa batalha de confetes. O dia tinha sido chuvoso. De vez em quando uma bátega d’água caía, prenunciando uma tarde com aguaceiro. A todo instante chegava {a janela para olhar o tempo. Logo naquela tarde em que pretendia estrear meu vestido novo, a chuva queria estragar os meus planos.

De cada vez que sondava o céu com os olhos, mamãe, que no meio de seus afazeres me observava, dizia:

— Não adianta olhar para o céu, hoje não tem batalha alguma. À tarde vamos ter temporal.

Nos entreolhávamos, eu e minha prima e respondia, mal-humorada:

— A senhora tá agourando pra gente não brincar. Bem que no seu tempo gostava de aproveitar.

Lá pela tardinha o tempo melhorou, o céu tingiu-se de uns laivos rosa.

“Graças a Deus”, pensei.

Ao escurecer, saímos. Vestia o famoso vestido novo. DE seda bois-de-rose, saia plissada, gola de pelerina, uma gravata de laço, estampada. A praia se achava repleta. Os passeios cheios de gente que ia e vinha, blocos de toda espécie, que passavam cantando, interrompendo o trânsito. Os carros circulavam vagarosamente, conduzindo foliões de outros bairros, famílias, moças e rapazes que lançavam serpentinas e confetes sobre a multidão que estacionava no passeio. Em frente ao posto 4 se achava o palanque para os membros do concurso de samba. Parou um carro e dele desceram os juízes que iriam julgar qual o melhor do carnaval daquele ano. O povo se comprimia mais ainda naquele ponto, paralisando completamente a circulação. Junto a um banco, eu olhava a multidão que se divertia. A orquestra começou a tocar o Olha, escuta meu bem …, que foi acompanhado pelo vozerio da multidão alegre. As luzes se acenderam, o burburinho era cada vez maior. Milhares de rolos de serpentinas coloridas eram atiradas dos carros, entrelaçando-se por sobre os fios, caindo na calçada em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Bandos de mulatas fantasiadas, se requebrando, em blocos ou não, se espalhavam em toda extensão da avenida, alguns cantando ao som de pequenas orquestras populares. Um frio nas pernas e, instintivamente, levei a mão às meias. Olhei em torno e não vi ninguém que me pudesse ter atirado lança-perfume. “Provavelmente, algum esguicho extraviado”, pensei, continuando a olhar os carros que passavam. A banda do palanque atacava agora uma marchinha do meu agrado, muito em voga na época.

Foi quando senti de novo o frio nas pernas. Evidentemente, desta vez era comigo. Procurei com os olhos entre a multidão que se encontrava próximo de mim e não vi ninguém conhecido. Um vozerio acompanhado de palmas fez-se ouvir por minutos. Acabava de subir ao palanque, sendo reconhecida pela multidão, que a aplaudia freneticamente, uma conhecida cantora popular. Às palmas e ao vozerio vieram juntar-se as buzinas dos vários carros parados ao longo da praia. Tentava abrir caminho entre o povo, sufocada pelo aperto que se fizera ao redor, quando o mesmo esguicho frio nas pernas me fez lançar um olhar rápido à minha frente: à distância de um metro mais ou menos, o vi pela primeira vez, que sorria para mim. Siegfried ou outro herói de Wagner, pois só podia ser um herói de lenda alemã. Correspondi-lhe ao sorriso e a partir de então começou o tempo do amor, o tempo do sofrimento, o tempo pelo qual esperava, o mais belo momento da minha vida.”

 

Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70, pp: 120-1





Casamento de raposa

20 10 2020

Ilustração de Georgia Dunn.

Casamento de raposa

Wilson W. Rodrigues

 

Chuva com sol é tão raro

como pérola de Ormuz;

da chuva pingos tão claros

e do sol pingos de luz.                   

 

 

Chuva com sol é tão doce

que parece a redenção

do bem e do mal reunidos

numa suave canção.

 

 

Chuva com sol nos sugere,

se é que pode sugerir,

olhos tristes a chorar

lábios felizes a rir…

 

 

Em: Beija-flor: poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, 1949, Publicitan Editora: p. 115





Chuva, texto de Gilberto Amado

1 08 2020

 

 

chuva 2Cebolinha em dia de chuva © Maurício de Sousa

 

“…Chuva para menino é festa, é rego barrento cachoeirando à porta de casa, chamando a gente para brincar com a água que passa fazendo cócegas nos pés … É goteira pingando, é de noite música no telhado. Na calçada, reúne-se a meninada, na exuberância, no contentamento de ver a água cair, meninada pançudinha, inchada pelas sezões, de frieira rosada nos pés, de boca sem dentes caídos na muda, de boqueira, meninotas de tranças, ossudinhas, uma de olhos de sapiranga, batendo palmas e se esgoelando:

 

Chove chuva

pra nascê capim

pro boi comê

pra papai matá

pra mamãe comê!”

 

Em: História da minha infância, Gilberto Amado, Rio de Janeiro, José Olympio:1966, 3ª edição, p. 72.





Visitantes da noite, soneto de José Otávio Gomes Venturelli

27 07 2020

 

 

From Unknown, 1940.Unknown Magazine, 1940.

 

Visitantes da noite

 

José Otávio Gomes Venturelli

 

Sonâmbula tristeza me rodeia,

Inebria-me  a prece dos crepúsculos,

Já não mais sinto a força que semeia

A resistência física dos músculos.

 

E o coração, minha esquecida aldeia,

Onde as casas são místicos corpúsculos,

Sente sua alma de saudades cheia,

E de prazeres parcos e minúsculos.

 

Os sonos se aproximam… Vêm vestidos

De horríveis pesadelos que me falam

De insônias infernais aos meus ouvidos.

 

Espíritos do mal, seres medonhos,

Eu não posso dormir se não se calam,

Porque querem roubar também meus sonhos!

 

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p.397

 





As nuvens e o sol, poesia de Anastácio Luiz de Bonsucesso

6 07 2020

 

 

Chuva arco-íris tondo

 

As nuvens e o sol

Anastácio Luiz de Bonsucesso

Fábula

 

O dia era fulgente, o sol brilhava,

Em vívido esplendor;

De repente mil nuvens se aglomeram,

O sol perde o fulgor.

 

E as nuvens encobrem

Do sol os lindos raios,

As terras se cobrem

De turvos desmaios;

Ninguém se conduz

Nas trevas sem luz.

 

Do sol de seu posto

Tais coisas bem via;

Das nuvens no rosto

Com força batia;

A tanto calor

Desfez-se o vapor.

 

Perdidas nos ares

As nuvens passaram,

Das zonas polares

Que rumo levaram?

Não viram o sol

O novo arrebol.

 

MORALIDADE

 

Luz um talento, os tolos anuviam

Os fogos da razão;

A luta é transitória — os zoilos morrem.

O gênio brilha então.

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Jnaeiro, Editora Vecchi: 1965, pp 157-158

 

Anastácio Luiz de Bonsucesso (1833-1899) Poeta carioca, fabulista, médico, jornalista, professor, teatrólogo, membro da Sociedade Propagadora das Belas Artes e da Academia Filosófica.

Obras:

Fábulas, 1854

Maroquinhas do Apito, comédia em versos

Versos de Cisnato Lúzio

Quatro Vultos, 1867,

 

 

 

 

 





Meus dias de menino, Oscar Negrão de Lima

26 05 2020

 

 

cavalgando

 

“Os meus dias de menino eram bem movimentados, não obstante a pacatez da vida do arraial. Trançando da rua para o quintal, em carreirinhas espertas, entrava eu em casa e atravessava a sala de jantar onde furtava biscoito fofo e broa de fubá mimoso, toda vez que roçasse pelo grande armário rústico, encostado à larga parede sem janelas.

Mas, ai de mim! Nem tudo era flores na boa vidinha da roça! O meu cavalo Brinquinho, pequira e pedrês, escorregou certa tarde de chuca, no facão da estrada de carro e pinchou-me no barranco, virando-se de costas. Apertou-me a perna esquerda que não se quebrou por milagre. Uma outra ocasião, um cachorro de boiadeiro, cortando a capoeira, da estrada de carro para o trilho de cavaleiros, surgiu-me pela frente, e o Brinquinho refugou, rodando, imprevisto, nos pés. Largou-me de borco na poeirinha do caminho.”

 

Vocabulário

pequira – raça brasileira de cavalos dóceis,  marchadores e de fácil manejo

borco — voltado para baixo

 

Em: Tamboril, Oscar Negrão de Lima, Rio de Janeiro, editora José Olympio: 1961, p.27-8





Meu amor pela leitura, texto de Maria Helena Cardoso

23 05 2020

 

 

Luke Martineau (Inglaterra, 1970)ww.lukemartineau.com,óleo s tel,Ollie-Imogen-and-Tati-oil-on-canvas-24-by-38-ins-2013-680x429Ollie, Imogen e Tati, 2013

Luke Martineau (Inglaterra, 1970)

óleo sobre tela, 60 x 96 cm

http://www.lukemartineau.com

 

“Os anos da Rua Paraíba, 214 marcam um período intenso na minha vida.  Meu amor pela leitura era tal que chegava a descurar dos estudos para me dedicar aos romances. Burlava com a maior facilidade a fiscalização de mamãe, que nesse ponto era bastante severa. Assim que me apanhei lendo em francês, nem ela nem meus irmãos (que só vieram a ler nessa língua algum tempo depois), puderam controlar minhas leituras.  Após as aulas, aos domingos e feriados, passava inteiramente entregue à minha paixão: lia tudo que me caía sob os olhos, não havendo nada que me interessasse tanto, nem cinema, nem festas, nada. Os meus estudos de inglês, muito me serviam nesse particular. Tinha um professor que preferia conversar com mamãe sobre jardinagem e galinhas, sendo suas aulas de meia hora, no máximo, com exceção de quando papai se achava em casa. Para mamãe, entretanto, inglês era a matéria de que eu mais gostava e à qual mais me dedicava, isto não só porque o professor nos ajudava a tapeá-la, falando conosco na sua presença, aquelas frases de principiantes:”What is this?“, “Where is the door?”, “How are you?“, “What is the matter with you?” e outras da mesma categoria, como também entre os compêndios adotados por ele havia um, o Inglês sem Mestre, que me auxiliava a mistificá-la.  Era um livro de tamanho bem maior do que o comum de estudo, capa dura, marrom. Metia dentro o romance que lia no momento e passava o dia com ele aberto ostensivamente, fingindo que preparava as lições para o dia seguinte. À noite, enquanto ela conversava com as irmãs, sentadas ao redor da mesa da sala de jantar, lá estava eu, absorta no estudo, pensava ela. De vez em quando, porém, reclamava:

— Helena, não sei que estudo é esse seu, ouvindo conversa ao mesmo tempo, assim não pode aprender.

Não respondia nada, mergulhada que estava na leitura apaixonante, de onde nem um tiro de canhão me arrancaria.  Quando, porém, as reclamações se amiudavam muito, abandonava a sala, indo para o meu quarto.

Dias havia, entretanto, em que, receosa de que acabasse desconfiando da minha grande dedicação ao estudo de inglês, mudava de tática.  Despedia-me dizendo que ia à casa de vovó, trancava a porta do meu quarto (cada um de nós tinha o seu naquele casarão), saindo pela porta da frente. Assim que transpunha o portão de ferro, parava uns passos adiante e, depois de alguns minutos de espera, voltava de manso, inspecionando o corredor da entrada para ver se tinha alguém e, se não, entrava rápida, pulava a janela do meu quarto, que deixara aberta de propósito. Metia-me debaixo da cama e ali passava o dia lendo romances, na maior felicidade, apesar dos sobressaltos e a despeito da posição incômoda, deitada de costas. De vez em quando, mamãe, na sua faina de dona de casa caprichosa, vinha varrer e catar as folhas secas que poderiam ter caído nos vasos de begônia que se alinhavam ao longo da entrada.

 

7_Henri_Lebasque_(French_artist,_1865-1937)_Girl_with_Flowers_1909Menina com livro, 1909

Henri Lebasque (França, 1865 – 1937)

óleo sobre tela

 

Ouvia, com o coração batendo, o ruído dos seus chinelos, pra lá pra cá, a vassoura de palha varrendo, louca de medo que me descobrisse. Mas nunca acontecia: continuava seu trabalho, longe de suspeitar que me achava ali bem perto. As horas passavam na maior rapidez e eu lia, lia, completamente esquecida do mundo e da realidade, vivendo apenas aquilo que o livro contava.

À hora do jantar saía de debaixo da cama, pulava de novo a janela e entrava pela porta da frente como se estivesse chegando naquele momento da casa de vovó. Deitada debaixo da cama, com luz insuficiente, os braços cansados de manter o livro à altura dos olhos, lia toda uma enfiada de livros a mais disparatada possível: Capitain, Pardaillan, Fausta Vencida de Miguel Zevacco, O Piano de ClaraO Violino do Diabo, Anjos da Terra, de Perez Escrich, Memórias de um Médico, Visconde de Bragelone, Vinte Anos Depois, Conde de Montecristo, de Alexandre Dumas, quase tudo de Júlio Verne, todos os fascículos de Sherlock Holmes, Nick Carter e Arsène Lupin e os primeiros romances de Paul Bourget, em grande moda da Bibliotèque de Ma Fille, a Filha do Diretor do Circo, que me pôs triste muitos dias, tudo misturado com Recordações da Casa dos Mortos, Le Crime de Sylvestre Bonnard, Le Lys Rouge, Crime e Castigo e muita coisa de que não me lembro. Mas não havia livro que chegasse para a minha enorme sede. Como não tinha dinheiro para comprar, recorria às colegas do colégio, lia escondido os do meu tio e o vendeiro vizinho nos emprestava alguns: O Judeu Errante, de Eugênio Sue e vários fascículos dos Dramas do Novo Mundo de Gustavo Aymard, além de alguns de Escrich. Siô Mané e Siô Chico, além de nossos fornecedores de gêneros, contribuíam também para o nosso desenvolvimento intelectual. Quando não havia outra fonte onde buscar, lá ia atrás deles , que sempre desencavavam algum velho romance de Escrich o façanhas de índios americanos. Outro meio de arranjar eram os amigos de Dauto, sendo necessário, porém, que lhe pagasse quatrocentos réis para comprar cocada baiana na venda de Zé Miliano, botequineiro da esquina da rua. Como pagamento era sempre adiantado, passava antes pela venda, comprava as cocadas e depois então ia em busca de Caio Líbano ou outro que tivesse livros. Em casa, esperava impaciente, chegando à calçada de minuto em minuto para ver se ele aparecia na esquina. Mas, qual, as horas passavam e nada. Já sabia, era só procurá-lo no quintal e encontrava-o trepado no mais alto galho do , pois abacateiro. Tinha conseguido entrar num dos momentos em que estava no interior e subira na árvore para se livrar de mim. Não podia atingi-lo, pois não tinha coragem de subir tão alto. Embaixo, pedia, chorava, ameaçava e ele, nada.

Só descia depois que tinha acabado de ler o livro que eu tinha pago para que buscasse pra mim. Mas não me corrigia: era só faltar leitura e me deixava seduzir pelas suas promessas de que daque vez procederia diferente.”

 

 

Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70, pp: 59-60

Maria Helena Cardoso, professora, escritora, ficcionista e memorialista.  Nasceu em Diamantina, MG em 1903 e faleceu  no Rio de Janeiro em 1994.  Passou a infância em Curvelo, MG, onde fez os primeiros estudos, prosseguindo-os em Belo Horizonte, onde se formou na Escola de Farmácia.  Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1923.  [Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras: 1711-2001, Nelly Novaes Coelho]

Obras:

Por onde andou meu coração, memórias, 1967

Vida,vida, romance, 1973





Saber viajar, texto de Francisco de Barros Júnior

20 05 2020

 

 

AGOSTINHO BATISTA DE FREITAS (1927-1997)Maria Fumaça na Paisagem Campestre, ost,. 1992. 50 x 71 cm.Maria fumaça na paisagem campestre, 1992

Agostinho Batista de Freitas (Brasil, 1927-1997)

acrílica sobre tela, 50 x 71 cm

 

 

“É frequente ouvirmos alguém afirmar que só viaja à noite, por ser “muito pau” aguentar dez ou doze horas a olhar pelas janelas, sentados em bancos incômodos, sem ver nada de importância, a não serem pastos, matos e morros longínquos. É que esses cavalheiros são daqueles de quem falam as escrituras: “oculos habent sed non vident“. E deles tenho pena.

Para quem sabe ver, não há paisagens monótonas. Numa campina verdejante onde pasta o gado, nos rápidos segundos que durou a visão, se soubermos ver, notaremos se os bois estão gordos, qual a raça predominante, divertimo-nos com o bezerrinho assustado pelo treme instintivamente o nosso pensamento vai para a fazenda em que passamos a infância, ou visita à estância de amigos, e à nossa memória acodem episódios relacionados com o que acabamos de ver. A paisagem é desoladora, só pedras e mato ressequido, mas tem, no alto de um barranco ou encosta empedrada cortada a prumo, um coqueiro esguio, ou elegante ipê coroado de ouro e pensamos na linda fotografia que poderíamos tomar…

Até o repugnante quadro  de uma rês morta e centenas de urubus, a se banquetearem uns, outros infartados, empoleirados nas árvores, é tema para uma série de divagações. De que teria morrido? Cobra? Erva? E figuramos o vaqueiro que, tendo visto de longe os tétricos necrófagos adejando em círculo, esporeia o cavalo para verificar, pesaroso, a perda, e depois or ao patrão dar a triste notícia nesse tom de mágoa, que conhecemos quando um vaqueiro fala da perda de uma cabeça de gado.

E enquanto a nossa fantasia trabalha, os quilômetros são vencidos e os minutos se passam sem que tenhamos tempo para nos aborrecer.  Até na monotonia das travessias marítimas temos como nos distrair e ilustrar, vendo surgir as nuvens de peixes voadores, os numerosos  golfinhos que afloram à superfície como se nadassem rolando sobre si mesmos, as gaivotas que adejam à volta do navio, ou o inesperado jato d’água de alguma baleia longínqua. E essas cenas nos ficam na memória, servindo mais tarde para tornar mais agradável a nossa conversação.

Estas considerações vieram-me de começo, quando ia dizer-lhes que a nossa viagem S. Francisco abaixo ia decorrendo sem que sentíssemos passarem os dias.”

 

Em:  Caçando e pescando por todo o Brasil, 3ª série: no planalto mineiro, no São Francisco, na Bahia, de Francisco de Barros Júnior, São Paulo, Melhoramentos: s/d, pp. 139-140.

 

Francisco Carvalho de Barros Júnior (Campinas, 14 de dezembro de 1883 — 1969) foi um escritor e naturalista brasileiro que ganhou em 1961 o Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria de literatura infanto-juvenil.

Francisco Carvalho de Barros Júnior, patrono da cadeira n° 16 da Academia Jundiaiense de Letras, colaborou em vários jornais e revistas e é o autor da série Caçando e Pescando Por Todo o Brasil, um relato de viagens pelo Brasil na primeira metade do século XX, descrevendo diversos aspectos das regiões visitadas (entre outros botânica, animais e populações caboclas e indígenas).

Obras:

Série Caçando e Pescando Por Todo o Brasil

Primeira série: Brasil-Sul, 1945

Segunda Série: Mato Grosso Goiás, 1947

Terceira Série: Planalto Mineiro – o São Francisco e a Bahia, 1949

Quarta Série: Norte,  Nordeste,  Marajó, Grandes Lagos, o Madeira, o Mamoré, 1950

Quinta Série: Purus e Acre, 1952

Sexta Série: Araguaia e Tocantins, 1952

Tragédias Caboclas, 1955, contos

Três Garotos em Férias no Rio Tietê, 1951, infanto-juvenil

Três Escoteiros em Férias no Rio Paraná, infanto-juvenil

Três Escoteiros em Férias no Rio Paraguai, infanto-juvenil

Três Escoteiros em Férias no Rio Aquidauana, infanto-juvenil