A estrela pequenina, soneto de Olegário Mariano

27 04 2023
Ilustração de Jimmy Liao.

 

 

A estrela pequenina

 

Olegário  Mariano

 

Quando à noite olho o céu desta larga janela,

Vejo através da talagarça da neblina,

Uma estrela infantil, inquieta e pequenina,

Que, por ser infantil, me parece mais bela.

 

Ora se esconde, ora ressurge, ora se inclina,

Aumentando o esplendor da sua cidadela.

Devo a Deus que me pôs em contato com ela,

O espírito do céu nessa graça divina.

 

E pergunto a mim mesmo, extasiado de vê-la:

Quem viverá no corpo ideal daquela estrela?

Quem nela se encarnou? Que destino era o seu?

 

Será o Amor que aquele ponto de ouro encerra?

Ou a Saudade que põe os olhos sobre a terra,

Por não  poder voltar à terra onde nasceu?

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 2 (1932-1955), p. 450.

 

 





Vida de escritora

12 04 2023

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Nas últimas semanas,  março e abril,  comecei a sair do meu ninho, voltando para uma vida mais normal.  Marquei um encontro com Judy Botler, no dia 25 de março.Nossos livros, Cerejas de Maio de Judy Botler e À meia voz de minha autoria estão na Amazon e em livrarias no Rio de Janeiro. Recebi um volume do livro Cerejas de Maio, para doação à biblioteca da Usina de Arte, em PE para qual o Livro Errante está recolhendo livros novos.

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Sim, tiramos fotos juntos. Mas me dei ao luxo de não gostar de nenhuma das minhas. Ou estava desarrumada, ou mais acabada do que me acho, ou parecia com sono… eliminei TODAS…. Minha página, meu gosto!





Carnaval, texto de Marques Rebêlo

6 02 2023

Claudio Faciolli - Carnaval no Rio de Janeiro - o.s.e - ass. c.i.e - datado de 2010 med 46x61 cmCarnaval no Rio de Janeiro, 2010

Claudio Faciolli (Brasil, 1955)

óleo sobre eucatex, 46, x, 61 cm

[25 de fevereiro de 1938]

“A minha estreia nos salões do High-life foi com Clotilde, de odalisca, (Zuza ficara de serviço),  e Tatá nos acompanhava sem companheira, meio chateado — tivera uma rusga com Dulce Sampaio, que aceitara por despique um convite para o Clube Naval. Mas desacompanhado não entrou. Nas imediações da bilheteria e da porta de entrada, aglomerava-se uma pequena legião de mulheres se oferecendo, com maior ou menor agressividade, para completar o ingresso que dava direito a uma dama — mascaradas, todas, na maioria gordas, de pijama, de dominó de surradas roupas masculinas, com luvas para esconder a denunciadora evidência das mãos, e ventarola abanando o rosto sufocado pela máscara de pano, de papelão, de tela metálica. Tatá, com o ingresso na mão, rodou uma perfunctória e despreciativa olhada e escolheu o desbotado dominó carmezim:

— Vamos, vovó!

A escolhida fez que não entendeu, tomou-lhe o braço numa forçada mesura, e entramos, as luzes profusas, a ornamentação oriental, faixas e correntes de papel de seda cruzando o teto de estuque das três salas térreas, que mais tarde, numa abolição gradativa das paredes de pau a pique, se transformaram num único salão, e logo nos perdemos, só nos encontrando de espaço em espaço, ora no capricho das danças, ora nos breves intervalos da música, à beira do bufê, entornando a sua cerveja “gelada como rabo de foca”, ou sentado, descansando, na incômoda borda de cimento dos canteiros. No penúltimo encontro, diante do repuxo que irradiava rumor de esguincho e frescura, já se descartara do dominó carmezim. Aderira à cigana sem máscara, e soprou-me:

— Bofe por bofe, este não é antediluviano…

Realmente era jovem, mas feia e maltratada, o nariz de cavalete, os pés de lancha com sujos coscorções, um descomunal dente de ouro. E com ela é que saiu, depois do furioso galope final, com destino ao seu quartinho da Rua Taylor, cercado de prostíbulos, como ele dizia, por todos os lados, exíguo como um ovo, mas onde conseguira prodigiosamente encaixar uma mesa redonda, na qual domingueiramente pegava uns pacas no pôquer, acolitado por Miguel, sem que isto, honra lhe seja prestada, implicasse em combinação e trapaça — era um viciado bafejado por uma sorte invulgar.

Os corpos se colavam na promiscuidade, a poeira cegava os olhos, o calor sufocava, a música estrondava, os gestos de incontida lubricidade tomavam as mãos, as brigas se sucediam. O éter era cheirado à solta. Contra as paredes formava-se um lambrim de gente de lenço no nariz, alguns desequilibrando-se iam cair no meio dos dançarinos, que continuavam, tendo o cuidado apenas de contornar o corpo estendido como se recortassem uma figura no chão. De vez em quando, o estouro duma lança-perfume e o grito:

— Oh, que pena!

Clotilde era imitativa:

— Deixe eu cheirar um pouco.

— Para quê?  Bobagem!

— Que bobagem! É gostoso… friozinho… danado de bom!

— Não cheira não.

— Uma prise só…

Acabou cheirando. Acabei cheirando também, curioso e foi uma sensação angustiante, como se tivesse bolas girando dentro de mim, bolas frias, dum perfume enjoado de jasmim, se entrechocando. Parei na experiência:

— Não convence não.

Clotilde prosseguiu, esvaziou o tubo, quis outro sem que eu o desse, os olhos ficaram injetados, custou a se recompor. Quando chegamos no quarto da Rua Barroso, o sol já nascera e ela estava indócil, excitadíssima.

— E se o Zuza chegar duma hora para outra? Olha que o serviço termina às seis horas…

— Dane-se!”

Em: O trapicheiro, Marques Rebelo, 1º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1959, 1ª edição, numerada,  p. 347-348.





Poema natural, Adalgisa Nery

6 02 2023

Mulher lendo

Mordecai Lavanon (Romênia-Israel, 1901-1968)

óleo sobre tela, 71 x 59 cm

 

 

 

Poema natural

 

Adalgisa Nery

 

Abro os olhos, não vi nada

Fecho os olhos, já vi tudo.

O meu mundo é muito grande

E tudo que penso acontece.

Aquela nuvem lá em cima?

Eu estou lá,

Ela sou eu.

Ontem com aquele calor

Eu subi, me condensei

E, se o calor aumentar, choverá e cairei.

Abro os olhos, vejo um mar,

Fecho os olhos e já sei.

Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?

Eu estou lá,

Ela sou eu.

Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.

Quando a maré baixar, na areia secarei,

Mais tarde em pó tomarei.

Abro os olhos novamente

E vejo a grande montanha,

Fecho os olhos e comento:

Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,

Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?

Eu estou lá,

Ela sou eu.

 

 

Poemas, Adalgisa Nery, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional:1960





O crime, José Américo de Almeida

1 09 2022

A leitora, 1901

Auguste Frederic Dufaux (Suiça,1852-1943)

óleo sobre tela

 

O crime

 

Morava no engenho uma mulher por nome Josefa, conhecida como feiticeira. Tinha três filhos homens: João Duda, Antônio Cuíca e Felizardo, o melhor cortador de cana, que voltou da cidade, num dia de feira, em toda carreira, com a polícia no encalço. Chegando,gritou de longe para meu pai dizendo que acabara de cometer um crime e pedindo proteção. Matara Mesquece, um vendedor de cocada, por uma questão de troco.

Meu pai negou-lhe asilo.  Não admitia criminoso em sua terra, mas nesse dia não jantou e dormiu tarde.

Veio o comandante do destacamento, tenente Moreirinha, e pediu licença para correr a propriedade. Contrariando a tradição de inviolabilidade dos engenhos, meu pai permitiu.

Além de varejar todas as casas, a polícia surrou a mãe do assassino e sua cunhada, mulher de Antônio Cuíca, o que causou indignação a meu pai.

Diziam os moradores que, com a diligência na ilharga, Felizardo tornara-se invisível por ter virado a camisa pelo avesso.  Fugiu e homiziou-se numa usina em Pernambuco, só voltando a Areia depois de prescrito o crime.

 

Em: Memórias: antes que me esqueça, José Américo de Almeida, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1976, pp. 60-61





Rosinha segue viage, poesia de Luiz Peixoto

29 08 2022

 

 

GERSON POMPEU PINHEIRO (1910 - 1978) Mestiça, o.s.t., 60 X 49 cm, assinado e datado (1953) no c.i.e.Mestiça, 1953

[Retrato de Maria Augusta]

Gerson Pompeu Pinheiro (Brasil, 1910 – 1978)

óleo sobre tela, 60 X 49 cm

 

Rosinha segue viage

 

Luiz Peixoto

 

Rosinha seguiu viage,

não disse adeus a ninguém.

Levou no peito uma image

do Deus-menino em Belém,

levou cama, levou rede,

levou ferro de engomá,

levou panela de barro,

levou linha de bordá,

levou todos os terém.

Nunca vi tanta bagage!

No meio das catrevage,

meu coração foi também.

 

Em: Poesia de Luiz Peixoto, Rio de Janeiro, Editora Brasil-América:1964, p.79

 

 





Perda sentida…

17 07 2022

Moça chorando, 1964

Roy Lichtenstein (EUA, 1923-1997)

esmalte sobre aço, 116 x 116 cm

Milwaukee Art Museum

 

Neste domingo, 17 de julho de 2022, tive notícia triste.  Chaia Sara Zisman, artista plástica, escritora, membro do grupo de leitura Papalivros e amiga pessoal minha e de meu falecido marido, foi completar seu destino na outra dimensão, deixando em todos que a conhecemos um imenso vazio. É irrelevante que Chaia tivesse idade para ser mãe e até mesmo avó de muitas de suas companheiras de leitura. Seu otimismo, senso de humor inabalável e generosidade eram conhecidos por todos ao redor. Deu aos amigos apoio incondicional para que fossem atrás de seus sonhos.  Doou seu tempo, criatividade e energia singulares às mais diversas atividades sociais e beneméritas, sempre mantendo discrição quanto ao papel de apoiadora das justas causas.

Era advogada.  Mais tarde, na maturidade, dedicou-se às artes plásticas como pintora e sobretudo gravurista.  Suas xilogravuras eram de mestre na suavidade que conseguia transmitir para o papel, na nuance das cores utilizadas, coisa difícil e rara na gravura em madeira.  Mas confesso que de seus quadros havia dois deles, a óleo, quase abstratos, em sua sala de jantar, que me seduziam todas as vezes que os via, pelas cores, abstrações e energia transmitidos.  Era um par de grandes dimensões.  Mas suas gravuras foram de fato excepcionais.

Quando se dedicou ao marido adoentado Chaia colocou as artes plásticas de lado e como toda pessoa criativa, descobriu outra maneira de se expressar.  Sem espaço para poder se fechar no ateliê, encontrou abrigo na escrita.  Podia fazê-lo nas noites insones, na quietude do lar.  Publicou diversos livros. Li quatro deles: Estórias que fazem histórias, Além do tempo, O espelho, Uma família como a nossa. Além deles  também escreveu pelo menos duas peças de teatro. É possível que tenham sido mais, mas eu vi duas primeiras leituras no teatro do Midrash, no Leblon, de um musical, passado na Praça Onze, no Rio de Janeiro, e alguns anos depois outra peça no Brasil contemporâneo, mas aludindo à peça de Pirandello, Assim é (se lhe parece). Chaia foi grande leitora que dispensava livros com tramas sem grande substância.  Dedicava-se à leitura e queria retirar algo dos livros.  Muito observadora, escrevia notas sobre cada capítulo.  Aprendi com ela que esse era um ótimo hábito.  Hoje, faço isso com mais frequência, principalmente no kindle que torna todas essas anotações mais fáceis.

 

Chaia Zisman

Aprendi muito com essa amiga, que conheci em 2011 e que se tornou importante para mim.  Com ela tive exemplo de como envelhecer e não se deixar dominar pelo envelhecimento.  Lúcida até o fim de seus noventa e quatro anos, foi guerreira, batalhadora, justa.  Muito generosa.  Doava-se. Chaia parecia pressentir o que outras pessoas necessitavam ouvir.  Observadora, cuidadosa com a saúde, lutou até o fim com muita vontade de viver.  Uma mulher à frente de seu tempo. Nem tenho palavras para expressar minha admiração por ela.  Éramos vizinhas.  Cinco quarteirões nos separavam. Nos últimos anos, antes da pandemia, nos visitávamos informalmente, como se fazia no Rio de Janeiro antigo, com apenas um telefonema rápido dizendo: vou passar por aí… Sim, terei muitas saudades de sua companhia e de seu entusiasmo  pela vida. [Numa nota pessoal:  Chaia e meu falecido marido se entendiam bem.  “Old Souls” (Velhas almas).  Não precisavam de palavras.  Eles se compreendiam.  Uma razão a mais para que eu lhe admirasse.] Yehi zichra baruch (que sua memória seja abençoada). Descanse em paz.

©Ladyce West, 2022, Rio de Janeiro.





Leituras em 2022: Dôra, Doralina, de Rachel de Queiroz, resenha

8 01 2022

Prisma, 1977

Brian James Dunlop. (Australia, 1938-2009)

aquarela, 30 x 27 cm

Ao terminar Dôra, Doralina, de Rachel de Queiroz, eu me pergunto o motivo dela não ser mencionada entre os grandes da literatura brasileira, no mesmo altar de Machado, Graciliano e Guimarães Rosa, Clarice. Dela li três livros: O Quinze, Memorial de Maria Moura e agora este, publicado em 1975. Rachel de Queiroz não deixa a desejar quando comparada com os grandes nomes da nossa literatura. E não listá-la entre os maiores é injustiça e um desserviço à tão maltratada cultura brasileira.

Dôra, Doralina conta mais do que a história de vida de Maria das Dores, mulher herdeira de uma fazenda no interior do Ceará, completamente dominada pela mãe, a quem chamava Senhora e que depois de viúva, foge deste lugar, encontra abrigo emocional como membro de um grupo de teatro mambembe, com eles viaja ao Rio de Janeiro, no período da ditadura Vargas e da Segunda Guerra Mundial. 

Na capital do país amasia-se com um comandante que conheceu na viagem pelo Rio São Francisco a caminho do sul.  Com ele, perdidamente apaixonada, vive em altos e baixos, tensa com gênio violento do companheiro e por seus ciúmes. Eventualmente se vê envolvida, a contragosto, na contravenção. Mas o flerte com a vida de segredos e transgressões não lhe era desconhecido, já deixara os rincões cearenses com tralha semelhante.

Narrativa rica em assuntos controversos, que cobre com vocabulário exemplar e de fácil compreensão, relata não só a descoberta do amor para Dôra, como também, por causa de suas limitadas experiências fora do local onde nasceu, seu próprio acordar para o mundo e para si mesma. E conselhos não lhe servem para nada, como diz: “Gente nova não adivinha nem quer adivinhar certas coisas; e mesmo quando tem um aviso, dez avisos, não acredita.”

Rachel de Queiroz

Central na trama estão as relações familiares, e a ausência delas;  amizades e a complexidade das emoções humanas. Há traição, abuso, arrogância, ciúmes pontuados esparsamente por  lealdade e honestidade.  É uma obra de realismo físico e emocional, refinada pela palavra certa, ritmo preciso e relato direto,  sem bordados. 

Recomendo a leitura.  A obra de Rachel de Queiroz, a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, deve fazer parte da lista de leitura de qualquer brasileiro curioso sobre a rica herança literária do país. Nota 10.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Sublinhando…

9 09 2021
Ilustração de Jean Emile Laboureur, 1912.

“O mundo, meu caro, é um imenso livro de maravilhas. A parte que o homem já leu chama-se passado; o presente é a página em que está aberto o livro, o futuro são as páginas ainda por cortar.”

Em: O presidente negro, Monteiro Lobato, Capítulo IV. Não posso dar a página, porque li em versão eletrônica. Em domínio público.





Resenha: “Herdando uma biblioteca”, Miguel Sanches Neto

2 01 2021

 

 

 

Não deixo passar um livro sobre livros.  Se chega ao meu radar, leio.  Passei todas as fases de minha vida ligada aos livros e às bibliotecas.  Não sei como Herdando uma biblioteca chegou ao meu conhecimento. Tenho a impressão que foi sugestão de um site de livraria que examina suas compras anteriores, e sugere algo que o sistema de computação recomenda.  Comprei o livro de Miguel Sanches Neto há tempos e um dia, a pilha de livros “para ler este ano” chegou nele.

Este é um volume composto por crônicas, ou pequenos ensaios sobre livros e bibliotecas, todos tratados de maneira pessoal pelo autor, revelando um intelectual de sucesso.  Mas me senti na obrigação de procurar mais informações sobre Miguel Sanches Neto, porque são muitas as crônicas em que os sentimentos do autor sobre sua infância sem livros formam os parâmetros de suas observações.

 

 

 

O paranaense Sanches Neto, que é  escritor, cronista, professor universitário e reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa, nasceu no norte do estado em 1965, no município de Bela Vista do Paraíso. Sua família se mudou para Peabiru, município mais a oeste, ambos hoje com um pouco mais de treze mil habitantes, cada.  Municípios pequenos, dependentes da agricultura.  A família era pobre. No dia a dia da sobrevivência não via mérito em livros ou talvez seus membros desconhecessem o valor econômico que o conhecimento adquirido na leitura pudesse trazer. Mesmo assim Sanches Neto superou a falta de livros em sua infância e adolescência, revoltou-se contra as expectativas familiares, e tornou-se um homem de letras, um intelectual.  Isso é coisa de ficção, das mais sedutoras.  

Tudo que Sanches Neto passou é história que muitos cineastas americanos já exploraram e continuarão a explorar: o herói que sai de circunstâncias contrárias ao desenvolvimento de seus sonhos, supera barreiras sociais e econômicas, chegando ao sucesso. Diferente do Brasil, a autossuficiência, o subir na vida, vindo do nada, ou de quase nada é um dos axiomas da cultura americana. Característica que se respeita.  A expressão “Pull yourself up by your bootstraps.” [suspendeu-se pelas próprias tiras das botas]  é corriqueira para distinguir a pessoa que subiu na vida pelo próprio esforço. E com isso, ganha respeito. 

Surpreendi-me, portanto, de ver na prosa do autor, muito ressentimento.  Ressentimento por não ter nascido numa família que apreciasse as letras, mágoa pelo tempo perdido nos bancos da escola agrícola.  Melindre pela origem pobre, sem recursos.

 

Sanches Neto

 

 

“Das muitas orfandades que sofri, uma das mais fortes foi não ter herdado uma biblioteca familiar.”[37]  Seu desgosto faz com que considere uma pena não ter herdado uma biblioteca, mas não se pode herdar aquilo que não existe, aquilo que é impossível de ser repassado.  Mais tarde na página seguinte: “Não venho de uma biblioteca paterna, e sim de sua ausência. Tive que buscar a figura do pai em amigos e autores e fiz das afinidades culturais o caminho para esta família, dispersa no tempo e no espaço, que a literatura me deu.[38]

Infelizmente esse ressentimento coloriu um bom número dos capítulos dessa coletânea.  Sua insistência sobre a ausência de incentivo à leitura na infância e adolescência me mostrou um homem que ainda não conseguiu vir a termos com sua própria história.  Não conheço os detalhes da vida de Sanches Neto, de sua infância.  Mas, hoje, aos cinquenta e cinco anos, me parece que se os livros lhe ensinaram muito, ainda não o levaram a ser grato por ter tido a oportunidade de estudar, mesmo que nem sempre estudasse o que queria; a chance de escolher seu destino; o benefício de ter colhido frutos por seu próprio esforço. Ele é um vencedor.  Um guerreiro.  Sofrer por não ter recebido o que pessoas à sua volta não podiam dar, é pequeno demais para tamanho sucesso. Se seus pais, padrasto, família não puderam lhe incentivar a leitura, porque eles mesmos não viam valor nos livros, não há razão de cultivar ressentimento por aquilo que lhes era ausente. Este passo de aceitação da vida pregressa está ausente da narrativa e a mágoa pelo que não foi, a decepção pelo que não teve, o azedume, coloriram grande parte de Herdando uma biblioteca.  Esse descontentamento nas crônicas, me incomodou.  Perturbou-me a falta de aceitação de seu destino.  Sanches Neto passa a ideia de ser vitimizado por sua infância, pela falta de livros; quando de fato, foi ela mesma que modelou sua perseverança tornando-o no professor universitário de sucesso que é.

 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.