
Aquele que no fracasso
nos estende a sua mão
e não nos nega um abraço,
é mais que um amigo, é um irmão.
(José Augusto Fernandes)

Aquele que no fracasso
nos estende a sua mão
e não nos nega um abraço,
é mais que um amigo, é um irmão.
(José Augusto Fernandes)

Papa-capim e um amigo, ilustração: Maurício de Sousa
Vêm das fábricas descendo
impurezas em excesso.
A Natureza morrendo…
Chamam a isto progresso?
(Luiz Evandro Innocêncio)
O jequitibá, s/d
Zenaide Smith ( Brasil, contemporânea)
Óleo sobre tela — 80 x 120 cm
O orgulhoso
Monteiro Lobato
Era um jequitibá enorme, o mais importante da floresta. Mas orgulhoso e gabola. Fazia pouco das árvores menores e ria-se com desprezo das plantinhas humildes. Vendo a seus pés uma tabua disse:
— Que triste vida levas, tão pequenina, sempre à beira d’água, vivendo entre saracuras e rãs… Qualquer ventinho te dobra. Um tisio que pouse em tua haste já te verga que nem bodoque. Que diferença entre nós!A minha copada chega às nuvens e as minhas folhas tapam o sol. Quando ronca a tempestade, rio-me dos ventos e divirto-me cá do alto a ver os teus apuros.
— Muito obrigada! Respondeu a tabua ironicamente. Mas fique sabendo que não me queixo e cá à beira d’água vou vivendo como posso. Se o vento me dobra, em compensação não me quebra e, cessado o temporal, ergo-me direitinha como antes. Você, entretanto…
— Eu, que?
— Você jequitibá tem resistido aos vendavais de até aqui; mas resistirá sempre? Não revirará um dia de pernas para o ar?
— Rio-me dos ventos como rio-me de ti, murmurou com ar de desprezo a orgulhosa árvore.
Meses depois, na estação das chuvas, sobreveio certa noite uma tremenda tempestade. Raios coriscavam um atrás do outro e o ribombo dos trovões estremecia a terra. O vento infernal foi destruindo tudo quanto se opunha à sua passagem.
A tabua, apavorada, fechou os olhos e curvou-se rente ao chão. E ficou assim encolhidinha até que o furor dos elementos se acalmasse e uma fresca manhã de céu limpo sucedesse aquela noite de horrores. Ergueu, então, a haste flexível e pode ver os estragos da tormenta. Inúmeras árvores por terra, despedaçadas, e entre as vítimas o jequitibá orgulhoso, com a raizana colossal à mostra…
***
Em: Criança Brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Quarto Livro de Leitura: de acordo com os novos programas do ensino primário. Rio de Janeiro, Agir: 1949.
VOCABULÁRIO
Imponente: altivo, orgulhoso; gabola: pretensioso, vaidoso; tabua: planta de haste fina e flexível; copada: ramagem; apuros: dificuldades; coriscavam: faiscavam; ribombo: barulho, estrondo; rente: junto; tormenta: tempestade; raizana: conjunto das raízes de uma planta.
——-
José Bento Monteiro Lobato, ( Taubaté, SP, 1882 – 1948). Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.
Obras:
A Barca de Gleyre, 1944
A Caçada da Onça, 1924
A ceia dos acusados, 1936
A Chave do Tamanho, 1942
A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955
A Epopéia Americana, 1940
A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924
Alice no País do Espelho, 1933
América, 1932
Aritmética da Emília, 1935
As caçadas de Pedrinho, 1933
Aventuras de Hans Staden, 1927
Caçada da Onça, 1925
Cidades Mortas, 1919
Contos Leves, 1935
Contos Pesados, 1940
Conversa entre Amigos, 1986
D. Quixote das crianças, 1936
Emília no País da Gramática, 1934
Escândalo do Petróleo, 1936
Fábulas, 1922
Fábulas de Narizinho, 1923
Ferro, 1931
Filosofia da vida, 1937
Formação da mentalidade, 1940
Geografia de Dona Benta, 1935
História da civilização, 1946
História da filosofia, 1935
História da literatura mundial, 1941
História das Invenções, 1935
História do Mundo para crianças, 1933
Histórias de Tia Nastácia, 1937
How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926
Idéias de Jeca Tatu, 1919
Jeca-Tatuzinho, 1925
Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921
Memórias de Emília, 1936
Mister Slang e o Brasil, 1927
Mundo da Lua, 1923
Na Antevéspera, 1933
Narizinho Arrebitado, 1923
Negrinha, 1920
Novas Reinações de Narizinho, 1933
O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926
O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930
O livro da jangal, 1941
O Macaco que Se Fez Homem, 1923
O Marquês de Rabicó, 1922
O Minotauro, 1939
O pequeno César, 1935
O Picapau Amarelo, 1939
O pó de pirlimpimpim, 1931
O Poço do Visconde, 1937
O presidente negro, 1926
O Saci, 1918
Onda Verde, 1923
Os Doze Trabalhos de Hércules, 1944
Os grandes pensadores, 1939
Os Negros, 1924
Prefácios e Entrevistas, 1946
Problema Vital, 1918
Reforma da Natureza, 1941
Reinações de Narizinho, 1931
Serões de Dona Benta, 1937
Urupês, 1918
Viagem ao Céu, 1932
ELOGIO DO BEM
Cleómenes Campos
Amigo, faze o bem: esse prazer dispensa
A maior recompensa.
Aqueles frutos saborosos
Que o teu vizinho colhe, às vezes, a cantar,
Custaram, com certeza, os trabalhos penosos
De alguém que já sabia
Que nunca, em sua vida, os colheria…
Mas nem por isso mesmo, os deixou de plantar.
Em: Criança Brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Quarto Livro de Leitura: de acordo com os novos programas do ensino primário. Rio de Janeiro, Agir: 1949.
Cleómenes Campos de Oliveira, ( Maroim, SE 1895 – São Paulo, SP, 1968). Pseudônimo: Ariel. Poeta, teatrólogo, radicado em SP desde 1912, agente fiscal do imposto de consumo, membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Paulista de Letras. Estudou as primeiras letras em seu estado natal, indo depois para a Bahia, onde freqüentou o Ginásio São José. Ainda jovem, teve que abandonar os estudos, ingressando na vida comercial em Santos. Foi nomeado para os Correios de São Paulo, após concurso e mais tarde foi transferido para o Ministério da Fazenda. Fundou “A garoa”, uma das revistas literárias que mais custaram a morrer… Faleceu em 30 de abril de 1968.
Obras:
Coração encantado, 1923, poesia, [prêmio Academia Brasileira de Letras]
De mãos postas, 1926 [prêmio Academia Brasileira de Letras]
Humildade, 1931, poesia
Meu livro de Amor, 1931
Canção da felicidade, 1934
Zebelê, 1940
Sonata do desencanto, 1950. poesia
O segredo de nós dois, 1969, poesia
O louco e as estrelas, s/d
Teatro
Mascote, com Oduvaldo Viana,
Gatinha observadora, por Michael Leu ( Formosa, China/EUA)
De olhos azuis transparentes,
a Mimi não é francesa,
mas seduz bichos e gentes
essa gatinha… siamesa.
(Dorothy Jansson Moretti)

Magali no seu aniversário: ilustração de Maurício de Sousa
Meu Aniversário
Hoje é o meu aniversário,
é um dia sem igual!
Eu queria que hoje fosse
feriado nacional!
Pedro Bandeira

Uma boa parte dos leitores deste blog é de professores dos cursos básico e médio que procuram poesias adequadas à sala de aula. Grande ênfase tem sido dada aos pequenos poemas, com trocadilhos e uma atitude jocosa nas rimas ou ritmos. Há na verdade ótimos poetas brasileiros e portugueses que se enquadram exatamente nessa tendência, chamada “para crianças”. Mas não muito tempo atrás, já bem na segunda metade do século XX a poesia para crianças era — com exceção de uns poucos autores entre eles os nomes clássico como Olavo Bilac, Zalina Rolim – a poesia que autores escreviam para um público geral e que era selecionada para uso escolar, por causa da temática e do linguajar de mais fácil compreensão. Daí o sucesso de antologias de poesias para a infância, tais como aquelas organizadas e selecionadas por Henriqueta Lisboa, ela mesma uma excelente poeta brasileira. Quisera eu me lembrar do nome do organizador da antologia de textos e poesias brasileiras em cujo volume estudei na escola municipal do Rio de Janeiro onde completei os meus primeiros anos escolares… Mas não me lembro.
Lembro-me, no entanto, que decorávamos poesias, na sala de aula, a turma inteira, éramos 30, lendo o texto em conjunto, como faríamos se regidos numa missa à cultura brasileira. Vez por outra, íamos, um a um, para perto da professora, lá na frente, e declamávamos – por bem ou por mal – um ou outro poema, lendo de nosso livro de textos. Tive sorte, agradeço à minha professora, Dona Yolanda, algumas boas memórias. Entre elas está o poema Meus oito anos, de Casimiro de Abreu, que por ser muito longo – e o líamos inteiro – foi recitado em conjunto, em sala de aula, como se declamássemos uma tabuada de versos, e depois, cada estrofe, era lida por uma criança, em cadeia perpétua: quem lia a última estrofe era seguido por quem lia a primeira estrofe de novo, como num rondó, interminável. É um poema que sei de cor até hoje. Em parte, porque eu conseguia me ver naquele menino de oito anos “correndo pelas campinas, à roda das cachoeiras, atrás das asas ligeiras das borboletas…” Não havia campinas no Rio de Janeiro, não havia cachoeiras perto de minha casa e muito menos borboletas azuis. Mas eu sabia que deveria haver um local assim, à sombra das bananeiras.
Não é difícil imaginar a influência que esse poeta teve no Brasil e principalmente a influência desse poema especificamente: ENORME! Achei que poderíamos nos lembrar de Meus oito anos, aqui no blog, pois ontem, virando as páginas de alguns livros de poesia, achei uma outra jóia, influenciada por Casimiro de Abreu e que também pode ser usada na sala de aula. Em, Cheiro de chuva, do poeta norte rio-grandense José Lucas de Barros, sentimos claramente a influência de Casimiro de Abreu, no ritmo, no tema escolhidos. No entanto, é um poema que se destaca por si só, seu valor independe de Meus oito anos. Colocarei aqui os dois textos, para uma bela e saudável comparação. Em ambos há um retorno à infância e um retrato da natureza como imaginamos, que hoje, depois da abertura da nossa conscientização sobre o meio-ambiente, a natureza deva ser ou possa voltar a ser. É claro que há uma idealização mas uma idealização que só sublinha ainda mais enfaticamente a necessidade que temos de que a nossa terra e o nosso planeta voltem a nos dar prazeres semelhantes aos descritos nos dois poemas. Bom proveito!

Chuva no sertão, fotografia Pedro Cavalcante/Flickr.
Cheiro de chuva
José Lucas de Barros
Deus, que saudosa manhã,
Em que ouço a melodia
Do canto da saparia
E o grito da jaçanã!
Ai! Quem conhece esse encanto
No meu sertão grato e santo
Esquecer não poderá.
O que há de bom nesta vida,
Pode passar de corrida,
A saudade deixará.
Vendo d’água a terra cheia,
Eu sinto a doce lembrança
De meu tempo de criança,
Dos meus açudes de areia;
A corrente do regato,
O cheiro de flor do mato
Das caatingas do sertão,
Tudo são gratas memórias
Que vêm cavar mil histórias
Plantadas no coração.
Nada mais belo e atraente
Do que, no rio revolto,
Pelejar de braço solto
De encontro à bruta corrente.
Lembro-me bem, no Espinharas,
Em manhãs boas e claras,
Após noite de trovão
A gente afogava as mágoas,
Cortando o peito nas águas
Como simples diversão.
Depois de ver-se na terra
Fartura d’água rolando,
O relâmpago faiscando,
O trovão quebrando a serra,
O gemer das cachoeiras,
Nas madrugadas fagueiras
Dá testemunho aos ateus
De que toda essa grandeza
É a própria Natureza
Cantando a glória de Deus.
NOTA: Espinharas, nome de um rio no estado da Paraíba.
Em: Panorama da poesia norte-riograndense, Rômulo C. Wanderley, Rio de Janeiro, Edições do Val: 1965, prefácio de Luís da Câmara Cascudo.

Menino, caju e Recife ao fundo, década de 1970
Cícero Dias ( Brasil 1907-2003)
Óleo sobre tela, 70 x 63 cm
Meus Oito Anos
Casimiro de Abreu
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar – é lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!
—-
José Lucas de Barros, (original da PB, registrado em Serra Negra do Norte, RN, 1934) professor, advogado, poeta, trovador e pesquisador da literatura popular. Vice- presidente da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte, presidente da Associação Estadual de Poetas Populares – RN e membro da União Brasileira de Trovadores, seção de Natal/RN.
Obras:
Cantigas de meu destino, trovas
Repentes e desafios, ensaio e pesquisa
Caminhada, poesias
—
Casimiro José Marques de Abreu (Barra de São João, 4 de janeiro de 1839 — Nova Friburgo, 18 de outubro de 1860) poeta brasileiro da segunda geração romântica. Foi a Portugal com seu pai em 1853, onde permaneceu até 1857. Morreu aos 21 anos de idade de tuberculose. Deixou um único livro de poesias publicado em 1859, Primaveras, mas foi o suficiente para se tornar um dos mais populares poetas brasileiros de todos os tempos.
Obras:
Teatro:
Camões e o Jaú , 1856
Poesia:
Primaveras, 1859
Romances:
Carolina, 1856
Camila, romance inacabado, 1856
A virgem loura,
Páginas do coração, prosa poética,1857

Bandeira brasileira, s/d
Olavo Campos
Madeira reciclada
Ao vento, assim, desfraldada,
numa data alvissareira,
lembra a Pátria idolatrada
— a Bandeira Brasileira.
(Moyses Augusto Torres)

Pato Donald ao telefone, ilustração de Walt Disney.
O tagarela, insistente,
jamais consegue agradar…
Mas agrada, sempre, a gente
Quem sabe ouvir e calar…
(A. F. Bastos)
Escola: pintura à óleo de Diva do Val Golfieri (Brasil, contemporânea)
Eu sei ler
Martins D’ Alvarez
Eu sei ler corretamente,
faço contas de somar,
sou batuta em dividir,
gosto de multiplicar.
Quando a professora escreve
no quadro-negro da escola,
leio até de olhos fechados:
“Paulo corre atrás da bola.”
Pra somar uma banana
com mais duas e mais três,
vou comendo e vou somando
1 mais 2 mais 3 são 6.
Pra dividir três pães
comigo e com meu irmão?
Eu sou o maior, ganho dois.
Para ele basta um pão.
Se mamãe me dá um doce
na hora de merendar,
acabo comendo três.
Como eu sei multiplicar!
Em: Vamos estudar? – cartilha — de Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1961 [Para a aprendizagem simultânea da leitura e da escrita].
José Martins D’Alvarez (CE 1904) Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904. Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez os estudos primários na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceará. Depois de formado em Odontologia. Transferiu em 1938 sua residência para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades no magistério superior.
Obras:
“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930 (versos).
“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).
“Vitral”, 1934 (poemas).
“Morro do moinho” 1937 (romance)
“O Norte Canta”, 1941 (poesia popular).
“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).
“Chama infinita, 1949 (poesias)
“O nordeste que o sul não conhece 1953 (ensaio)
“Ritmos e legendas” 1959 (poesias escolhidas)
“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967 (poesias escolhidas)
“Poesia do cotidiano”, 1977 (poesias)
Outros poemas de Martins d’Alvarez neste blog:
ANJO BOM ; AMIGOS ; JOÃO E MARIA ; SÚPLICA