Resenha: “Antonio”, de Beatriz Bracher

24 03 2025
Leitora, 1952, autoria desconhecida.

 

 

Nos últimos tempos, o grupo de leitura Ao Pé da Letra tem votado um maior número de obras de literatura brasileira contemporânea para leitura mensal, sem, no entanto, se limitar ao nicho. A escolha de março foi Antonio da escritora paulista Beatriz Bracher [Editora 34: 2010 — minha edição foi eletrônica, kindle]. Essa foi uma obra intrigante, que deixou os leitores do grupo, anotando nomes de personagens, fazendo árvores genealógicas, passando-as para o WhatsApp do grupo, escrevendo suas dúvidas sobre o que liam — quem é quem? — à medida que a história era construída. Por que? Trata-se de narrativa indireta de um segredo de família, sem que o leitor saiba de antemão quem ocupa qual papel no emaranhado das relações familiares.

Três gerações são abordadas, para que a quarta possa saber de onde vem e estar, eventualmente, ciente dos segredos mantidos por essa tradicional família brasileira. Somos tragados no emaranhado de feitos e desfeitos de diferentes gerações, em capítulos narrados por alguns personagens, que só entendemos quem são com muita atenção ao texto. Como em toda família há pessoas que demonstram comportamentos esdrúxulos, fora de série, inusitados, ainda que tenham por base, a época em que vivem e suas razões. A história da família é o tema da obra, contada por três diferentes pontos de vista. Cada um deles como se estivéssemos em sua presença, numa tarde, num dia não especificado, contando causos. A narrativa é não linear com linguagem casual, imitando a maneira de falar comum. Por isso mesmo, os textos são cheios de idas e vindas nos detalhes trazendo um efeito circular na contação.

 

 

O resultado é uma escrita perfeitamente inteligível, registrada como falamos. Cada capítulo é um imenso monólogo, dando a aparência de ter sido registrado ipsis verbis. Mas para dar esse efeito tão natural, certamente a escritora submeteu o texto a inúmeras edições para, finalmente chegar a registro tão semelhante à língua falada. Parabéns para ela.  Realmente, cada um dos capítulos parece um relato de alguém sentado no sofá à nossa frente. 

Mas essa maneira de contar uma história se torna um jogo de gato e rato em que a escritora, com todo poder nas mãos, brinca com o leitor. É um quebra-cabeças para quem lê, que se vê em um labirinto tal qual os labirintos de jardins do século XVIII, que nos dão ânsias para descobrir a saída, mergulhando, a caminho da solução, numa espiral descendente até o fim.  A forma enigmática do livro Antonio trouxe à mente o livro As iniciais de Bernardo Carvalho que assim como esse precisa ser desvendado, ainda que de maneira totalmente diferente. 

 

 

Beatriz Bracher

 

Antonio foi a obra colocada em segundo lugar no Prêmio Portugal Telecom de Literatura e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. em 2009.  Recomendo?  Com restrições. Não sei até agora, e já li esse livro há duas semanas, se o final, se a resolução do enigma, vale o esforço e as horas de dedicação do leitor.  Mas, como tenho facilidade de deixar de lado livros por diversos motivos, não importa se grandes ou pequenas obras, de autores conhecidos ou não, ver que  Antonio me fez ir até o fim e  que a trama, me levou a apreciar o poderoso domínio narrativo de Beatriz Bracher tem que ser levado em consideração.  Há equilíbrio entre forma e conteúdo. Esse foi o primeiro livro da autora que leio.  Três estrelas de cinco.

NOTA1: tenho muitos leitores portugueses que certamente observarão algo diferente: Antonio aparece sem acento circunflexo através da obra.

NOTA2: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Palavras para lembrar: Jules Renard

21 03 2025

Molly lendo, c. 1920

Rose Mead (Inglaterra,1867-1946)

óleo sobre tela

 

“Quando penso em todos os livros que tenho para ler, tenho a certeza de ainda ser feliz.”

 

Jules Renard





Imagem de leitura: Desconhecido

19 03 2025

Jovem lendo, c. 1940

Assinatura ilegível a lápis

óleo sobre madeira, 54 x 43 cm

[Em leilão na Alemanha]





Imagem de leitura: Armand Schönberger

16 03 2025

Moça lendo

Armand Schönberger (Hungria, 1885-1974)

têmpera sobre papel, 60 x 88 cm





Imagem de leitura: Edmund Charles Tarbell

6 03 2025

Josephine e Mercie,1908

Edmund Charles Tarbell (EUA, 1862-1938)

óleo sobre tela, 71 x 81 cm

National Gallery of Art, Washington DC





Imagem de leitura: Rupert Bunny

21 02 2025

Hilda, a irmã do pintor, lendo, 1890

Rupert Bunny (Austrália, 1864-1947)

óleo sobre placa, 24 x 15 cm

 





Resenha: O jovem, de Annie Ernaux

13 02 2025

Le quai des brumes

Francine van Hove (França, 1942)

óleo sobre  tela

 

 

Fazer resenha de alguns parágrafos sobre o livro O jovem de Annie Ernaux, com tradução de Marília Garcia [Fósforo: 2022] é mostrar que apesar de poucas páginas — um conto? — há pelo menos algo de mais sólido a ser observado sobre essa leitura.  Estou aos poucos cobrindo a obra de Annie Ernaux, volume por volume.  Não porque ela tenha sido recipiente do Nobel de Literatura 2022.  Não tenho o hábito de ler toda a obra de quem ganha o Nobel.  Mas sua prosa é de grande sensibilidade e a forma de autobiografia ficcionalizada,– sempre considero que qualquer biografia é ficção –, tem me atraído nos últimos tempos, também pela interação de história com memória. 

A linha narrativa deste minúsculo volume é simples: uma mulher de uma certa idade, tem um parceiro amoroso muito mais jovem do que ela.  O rapaz tem idade para ser seu filho.  Nas últimas décadas esse parece ser um acontecimento mais comum, menos escondido.  Vemos na mídia, com alguma frequência, senhoras envolvidas amorosamente com rapazes jovens.  Tinha impressão de que essa desigualdade de idades, com o perfil desse casal, fosse corriqueiro na França, mas, pelo visto, na época de Annie Ernaux, esse não era o caso.

 

 

O que me surpreendeu nessa história  foi perceber que a mulher, pelo menos nesse caso, acaba com atitudes e posicionamentos que vemos na descrição de homens mais velhos que mantêm relacionamentos com mulheres que, pela idade, poderiam ser suas filhas.  Não sei porque, eu achava que seria diferente: estava errada.  Nesse conto, a mulher (Annie) se sente superior ao rapaz e fada madrinha, dando ao jovem acompanhante oportunidade de viagens por diferentes cidades europeias, estadias e refeições em lugares luxuosos, ao mesmo tempo observando para si mesma e muitas vezes de maneira crítica,, gestos e maneirismos que lhe desagradam.  Ao mesmo tempo, sua exposição à penúria da vida do estudante, e aos métodos que ele usa para combater a falta de dinheiro, trazem para a narradora memórias de sua própria juventude.  Mas não há afeto.  É um estranho passeio sem emoção pela juventude da própria autora.

 

Annie Ernaux

A conclusão sobre o comportamento da mulher nessa memória fica a cargo do leitor.  Apesar de ser uma parte independente das outras obras de Annie Ernaux dessa volumosa autobiografia, acho um gesto de marketing fazer essa publicação em separado.  Talvez traga o benefício de apresentar a autora a um publico maior, que não queira investir tempo na leitura.  Mas suas outras obras, publicadas pela mesma editora podem muito bem preencher essas demandas, pois são livros de rápida leitura e poucas páginas. 

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Palavras para lembrar: Baruch Espinoza

9 02 2025

O erudito e seu cão

Eduard Charlemont (Austria, 1848-1906)

óleo sobre madeira, 57 x 48 cm

 
“O homem livre, no que pensa menos é na morte, e a sua sabedoria é uma meditação, não da morte, mas da vida.”
 
Baruch Espinoza





Imagem de leitura: Hope Gangloff

8 02 2025

Surfando no sofá, 2015

Hope Gangloff (EUA, 1974)

Técnica mista

 





Imagem de leitura: Aurélio de Figueiredo

3 02 2025

A leitura, 1880

Francisco Aurélio de Figueiredo e Mello (Brasil, 1854-1916)

óleo sobre madeira, 18 x 22 cm