O mundo dos livros, ilustração de Jean-François Martin.
“Não há amigo mais fiel do que um livro.”
Ernest Hemingway
O mundo dos livros, ilustração de Jean-François Martin.
Ernest Hemingway
Mulher lendo no jardim
Georges D’Espagnat (França, 1870 – 1950)
óleo sobre tela, 64 x 80 cm
“Vou morrer, pensou Virgile. E repetiu a frase diversas vezes. O fim estava próximo, ele tinha certeza disso. Um calafrio atravessou-lhe o corpo, da cabeça aos pés. Ele tinha medo da morte, não porque ele não estaria mais por aqui — estava acostumado com o sentimento de ausência do mundo — , mas porque morrer significava tornar-se normal. Cadáveres não têm personalidade. Não era o instinto de sobrevivência, que não suportava a morte, mas um seu espírito de contradição.
Rebaixou a luz e sentou-se no sofá. Seus dedos brincavam pelas asperezas, pelas falhas, pelo desgaste do tecido a circunferência de uma queimadura de cigarro. Ávido por sensações e informações apalpou os objetos a seu redor como Hélène Keller lendo um livro em braile. Tinha vivido sete anos naquele apartamento. Tinha-o marcado assim como o pé transfere sua forma para o sapato. Será que se pode dizer a mesma coisa do mundo? Com nossa morte, será que a matéria do mundo guardará a nossa marca? Será que os átomos conservarão os contornos de nossos pensamentos? Pelo menos, pensava Virgile, o apartamento permaneceria, seus amigos continuaram vivos, seus livros e seus discos seriam adotados por outras pessoas.
Para o jantar, não se voltou para a despensa. Entrou no site do Bon Marché e pediu um verdadeiro banquete, com três garrafas de Mouton-Rotschild. A cesta lhe chegou em meia hora. A qualidade da refeição neutralizou um pouco as suas considerações sombrias. Ouviu seus vinis prediletos. Artistas do mundo inteiro de todas as épocas se sucediam na sala para um ótimo concerto em sua homenagem.
Com uma taça de vinho na mão caminhou pelo seu apartamento de dois cômodos com desejo de tocar em cada centímetro quadrado, para deixar marcada ali sua impressão digital. Os deltas, os cristais, os arcosm as curvas e os turbilhões da polpa de seus dedos se fossilizariam. Nenhuma faxina, nenhuma demolição seria capaz de apagar as provas de sua existência. Sues traços se manteriam impressos na penumbra do infinitamente reduzido, à espera dos arqueólogos que um dia os descobririam. Tinha lido uma reportagem sobre as louças da Antiguidade, que ao serem moldadas em argila, girando, gravavam à sua revelia, como num disco, as palavras pronunciadas durante o trabalho. Seu apartamento guardava milhões de microsulcos contendo seus monólogos e suas conversas.”
Em: Talvez uma história de amor, Martin Page, tradução de Bernardo Ajzenberg, Rio de Janeiro, Editora Rocco: 2009, páginas 18-19.
Sem título, da Série Dois
Martin M (Rússia, contemporâneo)
acrílica sobre tela, 18 x 13 cm
Limonov, de Emmanuel Carrère, foi best-seller na França e recipiente do Prêmio Renaudot da Língua Francesa e do Prix des Prix, em 2011. Traduzido por André Telles e publicado pela Alfaguara em 2013, não fez marolas por aqui, até ser indicado por Marcelo Rubens Paiva para uma editora que publica livros por assinatura em 2017. Não é leitura fácil, em parte porque o biografado, Eduard Limonov, é uma pessoa desprezível, canalha, ordinário e sem-vergonha. Mas que descrito pelo autor parece uma pessoa fascinante. “Limonov não é um personagem de ficção. Ele existe. Eu o conheço. Ele foi delinquente na Ucrânia, ídolo do underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris, soldado perdido nas guerras dos Balcãs e agora no imenso caos do pós comunismo na Rússia, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados…” Com essa introdução por Carrère é natural que se espere mais de Eduard Limonov do que o repelente marginal, personalidade secundária, um ser asqueroso, cuja vida seguimos em grande detalhe.
Limonov é descrito como biografia. Mas premiado como romance. Como? Por que? Em parte porque Carrère só entrevistou Eduard Limonov uma vez por duas semanas e a esta altura com o livro quase pronto. Por outro lado, porque a vida do biografado e a do biógrafo se intercalam e aos poucos descobrimos a paixão, ou até mesmo a inveja de Carrère, não pelo homem Limonov, (Carrère para de escrever o livro por mais ou menos um ano, duvidando da própria razão deste trabalho) mas pela sedução que a vida de aventuras de seu biografado parece ter acendido. Passei, então, a ver o livro não como uma biografia, mas como um interlóquio entre o escritor e Limonov.

São dois homens que pararam emocionalmente na adolescência. Basta dizer que para ambos os livros que mais marcaram suas vidas foram os de aventuras de Alexandre Dumas e obras do americano Jack London. Eduard Limonov (né Eduard Savenko) nasceu na Ucrânia (portanto cidadão de segunda classe na hierarquia soviética) e passou a vida como rebelde. Pobre, sem respeito por mãe ou pai, Limonov se rebela contra o status quo de qualquer situação. Seu verdadeiro objetivo é ser do contra. Mesmo quando o que advoga, por anos, acontece, ele rapidamente muda de posição e torna-se um insurgente, um do contra, já que o que defendia tornou-se norma. Revolta, seu nome é Limonov. E sua maneira de revoltar-se não passa de grandes gestos juvenis, sem esteio ou fundamento. Tanto que no frigir dos ovos Limonov não consegue nada, não passa de um energúmeno, machista, inepto e idiota.
Emmanuel Carrère, por outro lado, desfrutou de uma família bem estruturada: pai executivo, mãe historiadora e professora universitária. Cresceu e continuou como adulto a se beneficiar das benesses da vida burguesa parisiense. Não se revoltou contra o estabelecimento. É o verdadeiro oposto de Limonov. E, ainda que pudesse ter interesse intelectual sobre os revolucionários russos, a mim, escapa a fascinação do autor por um membro tão desnorteado da cosmografia russa. Não posso deixar de pensar numa pequena revolta contra sua própria mãe, especialista em história russa. Será que Carrère, deveria ter dedicado tanto de seu tempo e indústria construindo um altar ao anti-herói? Talvez sua mãe, se assim quisesse, pudesse nos dar valor mais acertado do verdadeiro papel de Limonov na resistência, se relevante, contra a abertura do sistema soviético do final do século XX. E ainda, a fascinação com o “revolucionário” lembra-me defensores do comunismo severo, do stalinismo ou seguidores de Trotsky, que, aqui no ocidente, dormindo em camas macias com lençóis de seda, dirigindo carros do ano, comendo e bebendo á vontade, abrigando-se em belas e espaçosas casas, continuam achando que uma revolução ou um sistema semelhante ao que se estabeleceu na antiga URSS seria a solução para as desigualdades no mundo. É uma visão idealista, sem qualquer pé na realidade e primária. E, nós mesmos, leitores de Limonov testemunhamos a falácia do sistema através da própria narrativa de Carrère.
Emmanuel Carrère
Há duas grandes qualidades nesta obra. A primeira é a habilidade de Carrère de nos manter atentos ao texto, de tal modo que mesmo execrando as ações de Eduard Limonov, o que nos é contado, de maneira muitas vezes rude ou crua, nos faz continuar página após página a seguir o fanático e imbecil personagem que o autor nos impôs. A segunda qualidade é o retrato da Rússia sob o governo comunista e sob a abertura iniciada por Gorbachev e da Rússia que conhecemos hoje, a Rússia de Putin, que mais do que nunca aparece como cidadão bastante perigoso. Poucas vezes temos a oportunidade de ler uma obra que nos traz ações tão contemporâneas, referências a momentos históricos que vimos na televisão ou lemos nos jornais. Essa parte política, tenho certeza, foi de grande valia para que o livro se tornasse best seller na França. Para os franceses o que acontece em Moscou é de grande importância. Eles estão muito próximos, apesar dos diversos países que os separam: Bélgica, Alemanha, Polônia, Bielorrússia. A título de curiosidade procurei a distância entre Paris e Moscou. É um pouco mais de 2.800 km. Colocando em nossos termos é menor do que a distância entre Porto Alegre e Palmas, esta é superior a 2.900 km. Assim, tudo que acontece na Rússia é de muito maior interesse para os franceses do que para nós, aqui em outro continente separados por mar e terra imensos.
Não sei para quem devo recomendar este livro. Li. Não gostei. Mas apreciei as informações que me foram dadas. E apreciei a habilidade de Carrère. Mas de cinco estrelas, três estão de bom tamanho.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Ilustração de um pintor por Ernest Chiriaka, 1955.
Camus
Camus (1913-1960)
Cartão postal, 1920-30s, assinatura ilegível.
Simone de Beauvoir
Simone de Beauvoir (1908-1986)
A leitora
Charles François Prosper Guérin (França, 1875 – 1939)
óleo sobre tela
Musée La Piscine de Roubaix, França
Brincadeira de crianças
Paul Michel Dupuy (França, 1869-1949)
óleo sobre tela, 33 x 41 cm
Provérbio francês
Benoît-Constant Coquelin, como Cyrano de Bergerac na estreia da peça do mesmo nome, de Edmond Rostand, no dia 27 de dezembro de 1897, no teatro Porte-Saint-Martin. Como apareceu na Revista L’Illustration de 8 de janeiro de 1898.
Quem não se apaixonou pelo drama de Cyrano de Bergerac contado por Edmond de Rostand em sua peça teatral do final do século XIX? No entanto, poucos sabem que houve um verdadeiro Cyrano, escritor, francês, nascido em Paris em 6 de março de 1619 [data de batismo, data de nascimento incerta]. Chamava-se Savinien de Cyrano e adicionou Bergerac depois que seu pai herdou de sua mãe a propriedade em Bergerac, local próximo a Rambouillet na Dordonha, às margens do rio Yvette, em 1616.
Sabe-se pouco de sua vida, morreu aos 36 anos, ferimentos, razão incerta. Veio de família com conhecimento, com aprendizado e alguma posição social, já que seu pai tinha o título de Senhor de Mauvières e Bergerac. Mesmo pelos padrões da época, a biblioteca de seu pai, Abel de Cyrano, advogado no Parlamento em Paris, seria considerada pequena (126 livros) , mas a diversidade das obras listadas no inventário após a morte de Abel, sugere um pai curioso pelo estudo de línguas e literatura da antiguidade, com interesse em diversos assuntos, inclusive o protestantismo. Bom lembrar que no século XVII, ainda que já houvesse muitos livros publicados, eles eram caros e não estavam ao alcance de qualquer pessoa. A biblioteca de Abel tinha obras jurídicas, de língua e literaturas antigas; obras dos grandes humanistas da Renascença (Erasmo, Rabelais) e alguns livros que mostravam interesse pelas ciências. Há conhecidos trabalhos protestantes de François de la Noue, George Buchanan, Pierre de La Ramée, Pierre Hamon e Philippe Duplessis-Mornay. Essas obras sugerem que na sua juventude o pai de Savinien esteve rodeado por huguenotes. Mas também estão lá duas Bíblias, um Novo Testamento e um livro de orações a São Basílio em grego. Assim é possível assumir que Sevinien tenha tido uma boa e sólida instrução em casa.
Cyrano de Bergerac
Étienne-Jehandier Desrochers (1668 – 1741)
Gravura, de quadro a óleo
A família sai de Paris para Bergerac por volta de 1620, quando Savinien era bebê. Sua educação portanto foi dada pelo ensino paroquial. Não se sabe exatamente quando ele chega a Paris para prosseguir com os estudos. Permanece na casa de conhecidos de seus pais, talvez até na casa de seu tio Samuel de Cyrano, mas não se sabe ao certo que escola frequentou: se o Collège de Beauvais ou o Collège de Lisieux. Em 1636, quando Savinien está com quinze-dezesseis anos, seu pai vende a propriedade em Bergerac e retorna a Paris. Por volta de 1639, Savinien se enlista na Guarde, onde serve nas campanhas de 1639 e 1640. Membro da pequena nobreza, Savinien ficou conhecido por sua habilidade com a espada e por gabar-se disso. Acredita-se que deixou a carreira militar para voltar a Paris dedicar-se à produção literária.
Retrato de Cyrano, desenhado e gravado por artista anônimo, baseado em obra de Zacharie Heince, 1654.
As obras de Cyrano de Bergerac, L’Autre Monde: ou les États et Empires de la Lune (“História cômica dos Estados e Impérios da Lua”), publicada postumamente em 1657 e Les États et Empires du Soleil (“Os Estados e Impérios do Sol”) em 1662, são clássicos como primeiras obras de ficção científica. No primeiro livro, Cyrano viaja à lua, usando um foguete com uma cabine impulsionado por fogos de artifício (rojões) e lá se encontra com habitantes de 4 pernas, com armas que atiram na caça e as cozinham, assim como brincos que educam crianças. Mistura ciência e romance nessas obras e elas eventualmente servem de exemplo para obras de seus sucessores, Jonathan Swift, Edgar Allan Poe, Voltaire.
Contemporâneo do grande dramaturgo francês Molière, Cyrano não vive para ver seu compatriota pegar emprestado algumas de suas ideias da obra Le Pédant joué, que também serve de fonte de ideias para outra estrela literária francesa: Corneille.
Obra:
Le Ministre d’Estat flambé en vers burlesques [O ministro de Estadi assado em verso cômico], 1649.
La Mort d’Agrippine, tragédie, par Mr de Cyrano Bergerac, 1654 [A morte de Agrippina, tragédia]
Les Œuvres diverses de Mr de Cyrano Bergerac [Obras diversas do Senhor Cyrano Bergerac] 1654
Histoire comique par Monsieur de Cyrano Bergerac contenant les Estats & Empires de la Lune [História cômica incluindo os Estados e Imperios da Lua], 1657
Les Nouvelles œuvres de Monsieur de Cyrano Bergerac. Contenant l’Histoire comique des Estats et Empires du Soleil, plusieurs lettres et autres pièces divertissantes [As novas obras do Sr. Cyrano Bergerac. Incluindo A história cômica dos Estados e Impérios do Sol, diversas cartas e outras peças de divertimento], 1662.
Les œuvres diverses de M. Cyrano de Bergerac [ Obras diversas do Sr. Cyrano de Bergerac], 1709
Aqui algumas ilustrações em sua obra:





Jovem lendo
Amand Edmond François Jean, conhecido por Aman-Jean (França, 1858 – 1936)
Oleo sobre tela, 46 x 38 cm

Provérbio francês