Campo Criptana, trecho de “E a noite roda” de Alexandra Lucas Coelho

23 09 2012

Tipos de La Mancha, 1912

Joaquín Sorolla y Bastida (Espanha, 1863-1923)

óleo sobre tela, 513 x 513 cm

Museu Sorolla, Madri

Há horas em que a simples leitura de um trecho de romance, ou poesia, acorda alguma imagem na memória de quem trabalha com imagens o tempo todo.  Isso acontece comigo e tenho certeza com quase todos os que dedicam a vida às artes visuais.  Em geral, imagens acordam de um sono profundo porque a mente já entreabriu a porta, seduzida pelo texto, norteada pela beleza poética que um autor foi capaz de semear.  E as ocasiões poéticas no livro que ainda leio nesse fim de semana são muitas, consequência da esplendorosa delicadeza narrativa de Alexandra Lucas Coelho. Mas como o objetivo agora não é a resenha do romance, paro aqui a análise, sabendo que essa virá quando concluída a leitura.  Mas não posso deixar de registrar o trecho em que me lembrei da pintura de um dos grandes mestres espanhóis,  Joaquín Sorolla y Bastida.  Espero que gostem da justaposição.  Um bom domingo a todos.

Campo Criptana

Planícies de oliveiras num horizonte azulíssimo. Tamanho é o frio que não se formam nuvens, será isso. Estamos a ir para Campo Criptana, desde o século XVI terra de moinhos, daqueles redondos e brancos com velas negras.

Foi aqui que Quixote os combateu.  Eram 30 ou 40 contra um. Agora são dez, no cimo de uma colina, com a aldeia aos pés.

Deixamos o carro junto ao mais alto, e quando saímos é como se nos dessem um golpe na cabeça.  Já estava frio, mas agora está frio com pazadas de vento. Nem na Sibéria, em dezembro, me doeu tanto.

Avançamos com os cachecóis por cima da cara e as mangas puxadas até a ponta dos dedos, a segurar caderno e caneta.

— Está ali um homem – gritas tu.

— Vamos lá – grito eu.

O homem são dois, Anastasio e Crisanto, nomes que quem-nos-dera, mesmo Cervantes chamava-lhes um figo. Um tem 75, o outro 68 e sentam-se como na praia ao poente. De tanto para aqui virem, o vento já nem lhes toca. Este é o melhor moinho de todos, dizem eles, “nem demasiado largo, nem torto.” Chama-se Burleta.

Os velhos do mar têm barcos. Os velhos de Campo Criptana têm moinhos.

Em: E a noite roda, Alexandra Lucas Coelho, Rio de Janeiro, Tinta da China: 2012





Andorinhas, poesia de Stella Leonardos

23 09 2012

Andorinhas no galho, aquarela, Sherri Friesman.

Andorinhas

Stella Leonardos

Namoradas do sol, andorinhas inquietas,

Poesia dos beirais de asas leves e errantes!

Vocês vêm vocês vão como versos trissantes

De sílabas azuis, de rimas incompletas.

Andorinhas azuis de revoadas constantes!

Você me lembram sempre a saudade dos poetas

Incansáveis da altura e dos céus mais distantes.

Em: Pedra no Lago, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p. 27

Stella Leonardos da Silva Lima Cabassa (Rio de Janeiro RJ, 1923). Poeta, tradutora, romancista, com mais de 70 obras publicadas, em poesia, prosa, ensaios, teatro, romances e literatura infantil.  Considerada membro expoente da 3ª geração de poetas modernistas.  Um dos maiores nomes da poesia contemporânea no Brasil.





Palavras para lembrar — C.S. Lewis

19 09 2012

O cérebro da criança, 1914

Giorgio De Chirico (Itália, 1888 – 1978)

Óleo sobre tela, 81 x 75 cm

Coleção Breton, Paris

“Lemos para saber que não estamos sozinhos”.

C.S. Lewis





Divertimento, poesia de Henriqueta Lisboa

17 09 2012

Ilustração Elizabeth Webbe, 1963.

Divertimento

Henriqueta Lisboa

O esperto esquilo

ganha um coco.

Tem olhos intranquilos

de louco.

Os dentes finos

mostra. E em pouco

os dentes finca

na polpa.

Assim, com perfeito estilo,

sob estridentes

dentes,

o coco, em segundos, fica

oco.

Em: Nova Lírica: poemas selecionados, Henriqueta Lisboa, Belo Horizonte, Imprensa Oficial: 1971





Imagem de leitura — Ricardo Estecha

15 09 2012

Senhora com cachorro, loura e com pernas, 2010

Ricardo Estecha  (Espanha, contemporâneo)

Técnica mista, baseada em fotografia.

Parte do projeto coletivo do Espaço Belleartes, localizado em Cáceres na Espanha:

SEÑORA MAYOR CON PERRO SENTADA EN EL PARQUE,

como visto no blog do espaço, hoje fechado.

Belleartes





Palavras para lembrar — Thomas B. Macaulay

13 09 2012

Um autor esquecido, 1890

Joseph Skelton (Inglaterra, 1821-1901)

óleo sobre madeira, 20 x 31 cm

“Prefiro ser pobre em um casebre cheio de livros do que rei sem o desejo de ler”.


Thomas B. Macaulay





A minha sombra, poema de Pedroso Rodrigues

15 08 2012

Decalcomania, 1966

René Magritte (Bélgica, )

óleo sobre tela

Coleção Particular, Dr. Noémi Perelman Mattis e Dr. Daniel C. Mattis

A minha sombra

Pedroso Rodrigues

Que sombra vacilante e receosa,

De pedra em pedra, ao longo do caminho,

Vem seguindo os meus passos de mansinho,

E para, quando eu paro, cautelosa?

Vê-me partir da terra e corre, ansiosa,

Morre e renasce, à luz do luar de arminho;

Sobre as ondas do mar, como um golfinho,

Corta do meu navio a proa airosa.

Vai onde eu vou, onde eu existo existe;

Afasta-se sutil se a luz da esperança

Afaga o meu olhar; se me vê triste

Vem logo a mim guardar-me noite e dia…

Sombra fiel, quem és, que não te cansa

Ser a sombra da luz que me alumia?

Em: Poemas em sonetos, Pedroso Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora do autor: 1933.

Pedroso Rodrigues (Portugal? — Brasil?)

Obras:

Auto Pastoril, teatro, 1903

Bodas de Lia, teatro, 1906

A Cilada, teatro, 1912

Poemas em Sonetos, poesia, 1933





O Brasil do futuro, texto de Afrânio Peixoto

13 08 2012

Soldadinhos

Clóvis Graciano (Brasil, 1907-1988)

Gravura: serigrafia, 70 x 50 cm

O Brasil do futuro

Afrânio Peixoto

O que nos cumpre é preparar, hoje, o Brasil de amanhã. Educar o brasileiro de agora para lhe dar consciência de si e, portanto, dar a todos uma consciência nacional. Mostrar-lhe suas origens de espírito e civilização para que as preze e as saiba honrar; as suas origens mesológicas e etnográficas para que as saiba conhecer e aperfeiçoar. Contar-lhe a sua história, para que do passado algum bem possa colher e aplicar, com proveito, no presente e, por prevenção, no futuro. Moderar-lhes a ênfase, desiludir-lhes as utopias, corrigir-lhes o desdém das realidades práticas, para que não sejam discursadores vãos, poetas e escrevinhadores visionários, parasitas das classes improdutivas que vivem do orçamento e tornam difícil a vida dos que trabalham. Adquirir a soma de conhecimento próprio e conhecimento dos outros que nos permita preparar o nosso destino e não vivermos ao Deus dará, a cada dia o seu cuidado, como acontece até agora, à nossa incapacidade de prever: o Brasil é, por isso, uma imensa carta, sem endereço: chegará assim, se chegar, aonde não deve querer.

As democracias não se compreendem sem a educação do povo, que para exercer o seu direito, precisa conhecer-se e aos seus deveres. Só assim saberá escolher um governo idôneo, que lhe prepare o destino adequado e sobre o qual possa sempre exercer uma influência salutar. Os povos ignorantes e, por isso, imprevidentes, abdicam de si nos outros e votam-se à servidão e ao desaparecimento.

Um Brasil próspero e eterno, que honre a cultura greco-latina, as tradições lusitanas, as sua própria história, das quais deve ter legítimo orgulho, que propague e cultive a língua portuguesa, da qual é o depositário, e já hoje o maior responsável, deve ser, para começar um povo instruído e educado. Só há um caminho para a conquista da natureza, dos homens e de si mesmo: saber. Não há outro meio de o conseguir: querer.

Em: Criança Brasileira, admissão e 5ª série, Theobaldo Miranda Santos,  Rio de Janeiro, Editora Agir: 1949.

Impressionante como mais de sessenta anos depois da publicação desse texto ainda estamos a discutir a mesma coisa sem  que o avanço na educação pudesse ter sido sentido mais profundamente.  Em 60 anos poderíamos e deveríamos ter feito muito mais do que foi feito.





Bichos, poesia de Domingos Pellegrini

7 08 2012

A jaula do leão, 1883

Daniel Hernández Morillo (Peru, 1856-1932)

óleo sobre tela

Bichos

Domingos Pellegrini

No zoológico o mais esquisito

não é o bicho encolhido de medo

nem é o condor encarcerado em tédio

em vez de viajar ao infinito

Não é tigre triste e sem remédio

não é macaco com olhar aflito

não é o leão vizinho do cabrito

ou a girafa longe de arvoredo

Não é o rinoceronte sem campina

nem a onça sem caça a nos olhar

com a selvageria já mofina

Bicho mais esquisito é o que aprisiona

a bicharada para se apreciar

arrotando pipoca e Coca-Cola

Em: Gaiola aberta: 1964-2004, Domingos Pellegrini, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2005





O galo, poesia de José Paulo Moreira da Fonseca

26 07 2012

Galo cantando, ilustração de Walter Tomlin, capa da Revista House & Garden, de julho de 1927.

O galo

José Paulo Moreira da Fonseca


Antes do rubor da aurora

O teu vermelho canto se ergue em flamas

Ferindo a noturna paisagem, mas tão rude e sôfrego

Que dir-se-ia tudo perdido. E o repetes

E um novo cantar, ao longe, nos relembra a imensidão das sombras.

Em: Antologia Poética, José Paulo M. F., Rio de Janeiro, Leitura: 1968