Ivan Marquetti (Brasil, 1941)
óleo sobre tela, 70 x 95 cm
Ilustração Cecco Mariniello.
De livros encham-se as casas,
eis um conselho excelente,
pois o livro, aberto em asas,
põe asas na alma da gente.
(Orlando Brito)
Carolus Duran (França, 1837-1917)
óleo sobre tela
Museu de Belas Artes, Lille
Martins Fontes
Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,
ou permuta-se, mas naturalmente.
Em seu sabor seria diferente
se, em vez de ser trocado, se furtasse.
Todo beijo de amor, longo ou fugace,
deve ser um prazer que a ambos contente.
Quando, encantado, o coração consente,
beija-se a boca, não se beija a face.
Não toquemos na flor maravilhosa,
seja qual for a sedução do ensejo,
vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.
Como os árabes, loucos de desejo,
amemos a roseira, olhando a rosa,
roubemos a mulher e não o beijo.
(A Flauta Encantada)
Em: Nossos Clássicos: Martins Fontes,poesia, Rio de Janeiro, Agir: 1959, p. 53
Peras, cesto e copo sobre a mesa,1937
Manoel Constantino (Brasil, 1899-1976)
óleo sobre madeira, 29 x 36 cm
Ilustração Blanche Fisher Wright.
Eu volto um dia — juraste.
Não te espero — me zanguei.
— Mentiste: nunca voltaste…
Menti: eu sempre esperei…
(Cícero Acaiaba)
Chico Bento tem um pensamento desagradável, ilustração de Maurício de Sousa.
[de uma história contada por meus avós]
Walter Nieble de Freitas
“Nhô” Vicente, certo dia,
Montando o lindo alazão,
Foi fazer uma visita
Ao compadre Sebastião.
Cavalgou horas e horas,
Chegou ao entardecer:
Sua barriga roncava
De vontade de comer!
Ao vê-lo abrir a porteira,
“Nhô” Sebastião diz contente:
— Até que um dia compadre,
Você se lembrou da gente!
Apeie, vamos chegar.
Não repare na palhoça.
Como é que vai a comadre?
Vá entrando que a casa é nossa!
Tenho muito o que contar,
Sente-se aí no banquinho.
Você sabe que morreu
A mulher do Vadozinho?…
Também, a sogra do Zeca,
A jararaca mordeu:
A velha não sentiu nada
E a pobre cobra morreu!…
Sem perceber que a visita,
De fome quase morria,
“Nhô” Sebastião, na conversa,
Longas horas consumia…
“Nhô” Vicente paciencioso,
Tudo ouvia sem falar;
Porém, a sua barriga
Não parava de roncar!
Notando que seu amigo
Parecia nada ouvir,
Sentiu, o dono da casa,
Que o melhor era dormir.
Nesta altura, perguntou-lhe
Numa rural cortesia:
— O compadre lava os pés?
Vou mandar vir a bacia.
Respondeu-lhe “Nhô” Vicente,
— Isso não! de modo algum!
Acho muito perigoso
Lavar os pés em jejum.
Em: Barquinhos de papel, poesias infantis de Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Editora Difusora Cultural: 1961, pp: 75-78.